Reino do Vizinho

O Bobo. Imagem de arquivo.
Pelo meio da Idade Média, mesmo o reino mais ordinário tinha lá seus castelos, cortes com príncipes e princesas, duques, condes, viscondes, arquiduques,  serviçais como criados e pajens, amas e babás, também cachorros, aves, cavalos e assim por diante, a tratar do pragmatismo real. Cavaleiros, arqueiros e lanceiros protegiam todo o reino, serviam a estes cozinheiros, padeiros, confeiteiros. Alguns davam lições de bons modos e raros de espírito; havia alimento divino. Os castelos eram cercados por magros pastores cuidando de gordas ovelhas.

Os artistas tentavam trazer um pouco de luz às trevas daqueles tempos. Os nobres mandavam vir músicos, pintores, dançarinos, poetas, atores para alegrar banquetes hipócritas onde elogiavam a feiúra das marquesas, apalpando também o ego de reis e barões, encenando o que os fidalgos quisessem ouvir ou ver.

Dentre todos os artistas, que nem sempre tinham dons artísticos já que isto era supérfluo, o mais requisitado subserviente que fazia cócegas ao espírito dos nobres era o bobo da corte – preferido e muito requisitado ao lustre.

Houve um, dentre muitos bobos, de muitas cortes, que se notabilizou pela versatilidade com que se deslumbrava pelo reino alheio. Os nobres o contratavam num dia, no outro lá ia ele às festas e banquetes dados por outras realezas. Fez isso continuamente e por quase toda a vida. Quando algum fidalgo se zangava, o bobo deslumbrado apenas mudava de endereço, e sem nada dar notícia; e não tinha cavaleiro ou lanceiro que o alcançasse, muito menos o capturasse de volta. Porém, o bobo já não era mais tão jovem; assim, num dia de feio chuvisco, ele se encantou por um reino muito bonito e distante, e que lhe agradou como nenhum outro. O sol retornou à vida pedante. O rei daquela corte não o tratava como reles animador cômico, mas sim como genuíno artista; a rainha lhe deixava os lençóis nas noites frias e escuras; a princesa lhe dava as maças mais frescas; e os cavaleiros e lanceiros não o perseguiam, muito. O reino inteiro o respeitava como se ele fosse da própria família do principado.

Mas o bobo tinha seus traços típicos... Num maldito dia, um padre franciscano lhe convidou  às artes no convento. Ele angustiou-se. Acabou por ceder ao temperamento infiel de artista.  Não culpemos um bobo! Há reinos tão belos menos atraentes que a modesta ambição. Deu-se cabo das atividades naquela corte encantada e distante, e declarou-se os motivos da deserção. O rei era bom, compreendeu tudo; não se opôs. A rainha, porém, desejou-lhe sombras de sombras. Assim, partiu. Muito tempo depois, um arquiduque o encontrou por acaso numa celebração monja:

- Como vai o amigo religioso? – perguntou-lhe o fidalgo.

O bobo hesitou, tartamudeou e, por fim, resmungou:

- Agora me chamam de Dom Avejão...

- Mas, então, ora... Desejou tanto as coisas alheias... Enfim, és agora um homem nobre!

- Sim! – exclamou com a beca estufada. - Mas confesso que houve outro tempo em que fui mais feliz...


Por Ricardo Novais