Crônica de Hospital

Numa noite de primavera dessas que têm feito por essas bandas do sudeste brasileiro, fui acompanhar um amigo ao hospital. Ele não se sentia bem e solicitou socorro a mim, e eu o atendi, prontamente. Prontamente não, tenho medo de hospital. Mas o que é a amizade senão uma superação dos próprios medos; não é verdade?
Graças ao bom Deus, meu amigo está bem. O médico o diagnosticou e deu a palavra que ele se recuperará facilmente; ele é jovem!
No entanto, enquanto servia de acompanhante para o convalescente, fiquei a observar o movimento dos outros doentes no hospital. Curioso como em uma cidade grande como São Paulo os hospitais têm agitada suas madrugadas de meio de semana.
Se durante o dia o trânsito de automóveis nas ruas é violento, à noite o congestionamento se faz nas casas de saúde entre as cadeiras de rodas e as muletas dos pacientes.
É um senhor idoso que arrasta sua cadeira de rodas na direção do consultório; é uma menina chorando abraçada no colo da mãe; é um filho servindo de muleta para o pai enfermo; é um peralta com gesso no tornozelo pulando de uma perna só; é uma namorada gemendo de dor ao lado do namorado; é um soldado da PM que entra com uma vítima de assalto esbarrando noutra cadeira de rodas, desta vez, de uma simpática velhinha moribunda; enfim, são muitos paulistanos necessitando de muitos cuidados salutares.
Nesta noite fiquei admirando mais aos médicos. Trabalham a noite inteira cuidando de pessoas doentes que sequer sabem de onde vieram, naquele ambiente entre o clínico e o fúnebre, sem se abalarem com os casos mais terríveis e a fazer tudo para o bem-estar do próximo. Eu jamais poderia ser médico, não consigo nem ver sangue... De fato, reconheço: não gosto de hospital!
Cecília Meireles, certa vez, disse: “Tenho horror a hospital, essas casas de tortura – passo mal só em avistá-los de longe: no mundo que minha imaginação figura elas seriam completamente abolidas – todas as pessoas teriam o direito de morrer em paz, em suas casas, de morte natural”.
Concordo plenamente com ela. Eu gostaria de morrer dormindo no aconchego de minha alcova, envolto aos meus próprios lençóis brancos, sob minha cama quente e íntima.
Quando já íamos embora do hospital, meu amigo doente e eu, ainda ouvi um paciente acenando para o consultório:
- Obrigado, doutor, obrigado!