Dia do Professor

No livro O Boêmio, que, aliás, está publicado neste blog, o personagem Heitor do Lavradio relembra, com muita saudade e alegria, de sua antiga professora, a Dona Paula.

Como hoje é dia dos professores, gostaria de citar a passagem com que o Boêmio Heitor faz certa homenagem a orientadora de seus tempos da meninice; por extensão, homenagem a todos os mestres. Ele diz:

“(...) Ressaltando ainda, que tive uma professora que acabou por corroborar o antagonismo de minha existência. A senhorita D. Paula aparentava ter aproximadamente cinqüenta anos, era uma solteirona convicta e que não teve filhos biológicos. Na realidade, seus filhos ficavam catalogados nas instantes da biblioteca da escola onde eu estudava, perto do Morro do Senado, mas era, principalmente, no tradicional externato afrancesado que ela adquiriu prestígio social como orientadora; também na pequena, porém virtuosa, coleção de livros com mais de cem obras sobre literatura brasileira e de pensadores iluministas que ela mantinha na própria residência, lá para os lados do Peixoto.

Ela vivia nos repetindo:

- Ler faz bem; leiam meus filhos; ler nos leva longe na vida...

“Mulher mais maluca! Ler faz bem, ler nos leva longe; capaz; só se formos ler mapas de estradas. Esta velha é maluca!”. Pensava essas coisas das intenções da pobre senhora, e descontando a pouca idade e a provável afinidade das idéias com meus colegas, a imaginação era fértil; para tanto, não precisa mais que um canto na sala escolar, assistindo as aulas da D. Paula.

Às vezes, nos levava à Praça Carioca, na Tijuca, ela dizia que ali era o coração do Rio de Janeiro. Em outras ocasiões, nos desviava à Gamboa para ressaltar nossa condição social à frente da primeira escola do País a pensar as condições de espaço e planejamento pedagógico. Esta escola rivalizava, à época, com aquele colégio do Imperador e aquele outro descrito por Raul Pompéia em seu romance, O Ateneu; ou melhor, concorria apenas no
status
das famílias que matriculavam os filhos em seus bancos escolares, pois o ensino seguia a mesma cartilha de ensino: o francesismo.

(...)

Muito tempo depois, já era adulto, fui tomar um café na
Livraria Cultural Guanabara
e pensei ter visto minha velha professora, mas foi engano.

De qualquer modo, segundo dona Paula, os filósofos
capitularam suas idéias para os economistas... Mas enfim, ela diferenciava os intelectuais e os economistas, no sentido que o primeiro desata os nós da sociedade, e o segundo corta esta corda que a sustenta, estando, porém, estas duas entidades, subjugadas pela crença.

Tenho saudades dela, minha querida professora. Quantos ensinamentos aprendi com ela; no entanto, o tempo passou e a corda, que ela sempre descrevia e jamais saiu de minhas retinas, ababou por me enforcar”.


Deixo uma saudação especial a minha primeira professora, Odília. Do mesmo modo ao meu amigo professor Isaías (incentivador de literatura) e ao ilustre doutor Wagner, professor da faculdade de direito penal (incentivador do vício de chocolate com café sem açúcar). E, claro!, não poderia deixar de fora o jovem professor Cláudio, meu querido irmão. Dedico o texto aos mestres, com carinho!


Por Ricardo Novais

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*A charge acima foi retirada do Blog: http://filosofialucas2804.blogspot.com/