Finada VARIG

Tarefa difícil viajar de avião no Brasil. A poltrona incomoda as articulações, os joelhos pontiagudos de um passageiro sentado logo atrás espetam as costelas de uma distinta senhora acomodada à frente, que lia desconfortavelmente a um livro de auto-ajuda. Um homem gordo tenta levantar-se, ele precisa ir ao banheiro. Mas é impedido pelo reduzido espaço, está literalmente entalado. A comissária de bordo solicita que ele se acalme e coloque o cinto de segurança. Como colocar o cinto? O cara quer ir ao gabinete das necessidades fisiológicas, ora! Lá pelas tantas da viagem, a mesma aeromoça – no meu tempo chamavam as comissárias de aeromoça mesmo – vem pelo corredor da aeronave trazendo numa bandeija a comida:
- O senhor aceita?
- Não, obrigado! – Não gosto de barras de cereal...
Não gosto desta comida de avião. Representa primorosamente o pensamento das companhias de aviação: “Economize e lucre!", é o lema delas. Aprenderam direitinho o “processo de gestão” ensinado nos cursos de MBA em São Paulo. Basicamente, o que ensinam nos MBA’s é o seguinte: economize. Pronto. Concluído o curso.
Não sou grande culto em gestão administrativa, muito menos em engenharia aeronáutica. Mas sou passageiro.
Meu avô dizia que o passageiro é que tem autoridade para analisar as companhias aéreas brasileiras: “Como passageiro, sou um viúvo da velha VARIG." – dizia vovô – "A velha VARIG era conhecida por ter um dos melhores serviços de manutenção do mundo. Os pilotos da velha VARIG ganhavam bem; eram os melhores pilotos. Tanto que estão espalhados pelo mundo, na China, na Coréia, nos Emirados, na Europa. Se você tinha um problema com a bagagem, por exemplo, o funcionário da VARIG resolvia a questão; ou se esforçava até o último flap para fazê-lo. Jamais perdi uma mala sequer viajando pela velha VARIG. As modernas companhias aéreas são todas umas ‘mão-de-vaca’!” – deferia ele já meio revotado.
Gostaria de ter viajado na velha VARIG... Nunca se ouviu falar de nenhum passageiro caindo lá de cima. Cair lá de cima entra na nova “gestão administrativa” das companhias aéreas? E os atrasos nos aeroportos? E os dois maiores acidentes da história da aviação brasileira, com 10 meses entre um e outro? É de se pensar...
No entanto, a falência da VARIG foi comemorada pelos gestores modernos. Uma companhia que pagava tão bem aos seus funcionários, que tratava tão bem ao passageiro e que servia refeições com talheres de aço inox tinha de fechar.
Os antigos gestores da VARIG decerto não fizeram MBA em São Paulo.