Meramente Amor

Depois daquele baile começamos a namorar. Ela era jovial, alegre, generosa; mas com o passar do tempo ficou expansiva, geniosa e nosso amor foi se esvaindo. Também eu não era fácil, não ajudava com minha paixão doentia e meu jeito difuso de tratar sentimentos tão delicados. Fui me distanciando do amor e de mim mesmo, e, assim, refugiei-me na boa e reta filosofia do botequim e das paixões aventureiras.

Eu queria ter feito tudo diferente. Houve um tempo em que nos amávamos muito e deixamos isto escapar por entre os dedos endurecidos das mãos.
Mas, até hoje, sinto falta deste grande amor. Será que existe apenas um grande amor na vida ou passamos por vários amores nos caminhos infaustos que vivemos? Ou, ainda, vivemos apenas paixões, nada mais que isto, paixões fulminantes e avassaladoras que simplesmente passam com o tempo?

Vinícius de Moraes – carioca, poeta, músico, embaixador do Itamaraty, grande boêmio – que ontem faria 96 anos se estivesse vivo, ajudou-me a entender:

Soneto da Separação
“De repente do riso fez-se o pranto / Silencioso e branco como a bruma / E das bocas unidas fez-se a espuma / E das mãos espalmadas fez-se o espanto. / De repente da calma fez-se o vento / Que dos olhos desfez a última chama / E da paixão fez-se o pressentimento / E do momento imóvel fez o drama. / De repente, não mais que de repente / Fez-se de triste o que se fez amante / E de sozinho o que se fez contente / Fez-se do amigo próximo o distante / Fez-se da vida uma aventura errante / De repente, não mais que de repente.”
(Antologia Poética) – Vinicius de Moraes –

Quem sabe, num encontro casual, em algum outro baile trivial, num vagão de trem ou em uma mesa de bar vulgar, eu torne a ver a minha jovial e alegre paixão; quem sabe, quem sabe... “de repente, não mais que de repente”.


Por Ricardo Novais
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*O desenho do boêmio Vinicius de Moraes, que aparece neste texto, foi feito por Akehne.