Dédié: Ao Meu Amigo Positivista, Com Carinho


Arquivo BN.


Se este post for lido por algum francês, peço, por favor, monsieur, que não o interprete mal. Ah, verdade leitor! Parece mais uma anedota. Se mesmo entre nós brasileiros é árdua a tarefa de encontrar leitores para este medíocre blog, imagine só se haveria de interessar alguém lá pros lados da França ou qualquer outra terra estrangeira. Mas, então, refiro-me ao francês que vive no Brasil... Tens razão, outra vez! Se nem meus compatriotas apreciam muito esta minha criação; como haveria de lê-lo um cidadão de outra nacionalidade, ainda que viva por estes lados do hemisfério sul?

Nesse caso, volto-me apenas para o simpatizante do galicismo: não penses o amigo que há algo de pessoal contra vossa Gália; muito pelo contrario, é de admirar tão vasta cultura! Saúdo deveras a todas as arrondissements! Do mesmo modo que cumprimento a um dos maiores craques de futebol que eu já vi jogar, o que melhor dominou a bola nos gramados, o genial Zinédine Zidane - embora, alguns julgarão esta citação uma ofensa devido a origem argelina do jogador. De qualquer modo, a questão aqui não são os bulevares, os modismos, a tradição européia, africana, chinesa, japonesa, enfim; não! Quanto a isto é até bom que haja alguma heterogeneidade... Consolida nossa valorosa coragem! Sabemos que esta nossa sociedade é prudente: fiscaliza erros e detecta defeitos... Mas o que eu lhe pergunto, elegante senhor francês; é se vale progredir em novos ou velhos hábitos estripando nossa mais legítima, fidedigna e delicada tradição?

Pensando nas idéias de em um formidável romancista, que por sinal é francês, Júlio Verne, percebemos que as mais fantásticas aventuras de um herói extraordinário, muitas vezes, acabam na vala comum, por calçadas imundas, de uma cidade grande qualquer como o Rio, São Paulo ou Paris.

O que custa realmente é a percepção desta nossa dependência psicológica, a qual nós sofremos, aos costumes de outros povos, no que nos impede, gradualmente, de descobrirmos nossas virtudes e constituirmos uma identidade autêntica. Afinal de contas, doutora leitora antropológica, entre as pecúnias e os deflúvios já temos um pequeno e tênue saldo; não?

Mas, por falar em nossos amigos além-mar, um outro francês, que com muito humor, castigou reis, nobres, religiões, teorias científicas e filosóficas, acredito que este lendário francês tenha sido o grande Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, falando sobre como a sociedade qualifica a virtude, cuida que: “(...) dizeis-me, um solitário glutão, bêbedo, entregue à devassidão secreta consigo mesmo, é um vicioso: será, portanto, virtuoso se tiver qualidades contrárias. É no que não posso convir: será um homem muito vil se tiver de fato os defeitos que dizeis; mas não pode ser um vicioso, mau, susceptível de punição, no que diz respeito à sua relação com a sociedade, a quem suas infâmias não fazem mal algum. É de presumir que se entrar na sociedade praticará o mal, será um grande criminoso; é até muito mais provável que venha a ser um homem mau do que incerto é que outro solitário, casto, temperante, venha a ser um homem de bem: pois na sociedade os defeitos aumentam e as boas qualidades diminuem. (...)”.

Querer tanto se regenerar na virtude pode apenas ser a abdicação da vida. Como Rubor, O Conquistador, personagem de ficção, criado pelo magistral Verne, que sem perceber o próprio fim deixa a megalomania o cegar e assim morre por uma descarga elétrica que poderia ter evitado. O mesmo se aplica ao ditador Hitler, que se deixa capturar por suas próprias idéias nazistas. Além do mais, inconstantemente, nesta nossa associação dos homens de boa vontade, escorrega-nos o sucesso.

Ademais, este texto, é um exame um pouco menos detalhado do irrealizado. Aquilo que quase acertou o alvo, que, irrefutavelmente, escapou por entre os dedos. A mesma angústia do que ficou por fazer, do que poderia ter sido feito, da felicidade que ainda não veio; assim, do que está em potencial.

Ei-lo o Brasil, meu amigo francês, daqueles e destes dias!


Por RICARDO NOVAIS
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* Crônica inspirada em passagem do livro: O Boêmio, Bookess, São Paulo, 2009. ** A fotografia mostra um panorama galicista e positivista dos boulevares da Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, no ínicio do século XX; a obra foto-artística foi tirada pelo magistral fotógrafo-artista Malta.