Há Coisas Que Só Acontecem Ao Botafogo

Pois é! Há coisas que só acontecem mesmo ao Botafogo, já dizia o velho jargão da crônica esportiva. Esta semana o atacante Jóbson foi surpreendido novamente pelo antidoping, desta vez pelo jogo entre Botafogo e Palmeiras válido pela última rodada do Campeonato Brasileiro que livrou o clube de General Severiano do rebaixamento. A suspeita é que o jovem atacante utilizou cocaína, substância veementemente proibida pelo comitê disciplinar da FIFA. Ele já havia sofrido a mesma acusação numa partida contra o Coritiba; de modo que ele pode ter a pena agravada por reincidência. Neste caso corre sério risco, inclusive, de ser banido do futebol – se observarmos as orientações dos ‘moralistas’ desportivos.



Jóbson se destacou no Fogão pela habilidade e velocidade. O ótimo jogador perdeu excelente negociação financeiramente para o Cruzeiro, que já era dada como certa. Agora pode ser impedido de exercer suas atividades profissionais em qualquer clube filiado a federações desportivas.




Não cabe aqui discorrer sobre o problema das drogas. Além do espaço ser limitado, ainda falta interesse, por parte do autor, para o assunto. Digo apenas que hoje de manhã o IBGE divulgou estudo apontando que crianças de 7 a 11 anos já estão viciadas em drogas. Crianças de 7 anos fumando maconha... É...


Fatos como este podem ocorrer em qualquer cidade, em qualquer clube, em qualquer esporte, há vários registros semelhantes. No entanto, aconteceu como Botafogo Futebol e Regatas. Sintomático! O Glorioso é parte integrante das lendas futebolísticas; pois uma Estrela Solitária não pode parar de brilhar! Meu velho tio avô carioca, torcedor do Alvinegro, adorava contar as histórias do clube botafoguense, nas tardes de sábado, com o cigarro à boca e a cerveja esquentando na mesa. Entre tantos craques geniais como Garrincha (o maior ídolo do clube em todos os tempos), Quarentinha (o maior artilheiro que o Botafogo já teve), Nilton Santos (a enciclopédia do futebol), Carlos Alberto Torres (capitão do Tri) – vou parar de citar nomes para não cometer alguma injustiça esquecendo-me de mencionar algum jogador; afinal, o Glorioso teve tantos atletas espetaculares que seria impossível lembrar-me de todos; que o diga Didi, Manga, Jairzinho, Marinho Chagas, Paulo César Caju, Valdeir, Chicão, Túlio... Até porque, especialmente fascinante para mim, e para todos os amantes do esporte bretão, era a história da saga do infernal atacante Heleno de Freitas.

A Seleção Alvinegra! (Não escalei o Quarentinha, mas ele cabe neste time - pois é o maior artilheiro do Botafogo em todos os tempos).
Em pé: Didi, Manga, Nilton Santos, Sebastião, Marinho Chagas e Carlos Alberto Torres. Agachados: Garrincha, Gérson, Heleno de Freitas, Jairzinho e Paulo César Caju.


Dizia vovô-tio que este Heleno de Freitas era sedutor, fazia o tipo galã de cinema; talvez isto aliado ao seu temperamento difícil, rendeu-lhe comparações, de cronistas da época, com Rita Hayworth, a estonteante atriz americana do filme: Gilda, uma Mulher Inesquecível. Porém, Gilda era uma mulher temperamental, voluntariosa e indisciplinada; assim como Heleno dentro do campo de futebol, que afetava árbitro, brigava com Deus e o mundo, ofendia, sem distinção, rivais e colegas de equipe.




Quando o jogador enfurecia-se no gramado lá vinha o coro: "Gilda! Gilda! Gilda!" Ele ficava ainda mais irascível, e se o Botafogo estivesse vencendo tanto melhor porque ele iria fazer um gol de categoria e raiva. Mas se a Estrela Solitária estivesse perdendo acabaria sem Heleno, pois ele seria expulso por agressão física ou moral indiscriminada.



Em 1948, o gênio se desentende com o presidente do clube – clube este que Heleno tanto amou... Numa excursão pelo Rio, o Boca Juniors, de Buenos Aires, time da moda na América do Sul à época, interessa-se pelo jogador. Heleno é vendido. Antes de partir, porém, vai assistir ao jogo de abertura do campeonato da cidade: São Cristóvão 4 x 0 Botafogo. Era de ver a cena no campinho do Botafogo, o craque genioso embriagado, de cabeça baixa, chorando, agarrado a um poste nas arquibancadas, sem acreditar na humilhação imposta pelo modesto São Cristóvão ao seu clube de coração.





Amor? Desamor? Abandono? Heleno morreu de tristeza, num hospício na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. O cronista Armando Nogueira diria que Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais nos estádios de futebol, teve afetada sua vida de glórias e desgraças.




Por Ricardo Novais