Minha adorável namorada extraterrestre!

Foto: Rui Lemes.
"Bárbara, eu achava graça nas maluquices desta garota; ela dizia acreditar em seres de outros planetas. Irritava-se, verdadeiramente, quando eu contestava a veracidade dos casos; e ela repetia com tanta insistência, que, por vezes, acreditei serem reais:

- Mas, querida, “ets” não existem!

- Como não? No Apocalipse, o apóstolo João descreve que, num certo momento, Jesus está com ele e, de repente, é levado às alturas. João, num lance quase de excitação, começa a ver imagens que nunca tinha visto antes em sua vida. Era uma espécie de aves metálicas aparentando pesar uns quinhentos bois, mas consegue, como mágica, se sustentar no ar. Ora; este pode ser um dos primeiros registros em que um homem viu uma nave espacial...

- Ah, Bárbara! “Meu”; seres extraterrestres não conseguem se transportar para outras galáxias; que eu saiba, ser nenhum consegue. É impossível! Não é? – eu a achava espirituosa, mas permanecia incrédulo.

- Veja só! Como você explica, então, o caso daquela senhora, aqui de São Paulo, que morreu sem o rosto?

- O quê?

- Uma senhora, já idosa, foi encontrada sem rosto dentro de casa. O delegado que presidiu o inquérito policial disse que a face dela estava sem a pele e a carne. Apenas o crânio reluzente e branco. E o mais esquisito: totalmente limpa. Não havia vestígio nenhum, de sangue, de nada. Nem na cama ou no travesseiro. Além disso, a blusa branca que usava não aparentava marcas, nada. É muito estranho...

- Pode ser um assassino macabro...

- O delegado declarou: “Descarto a hipótese de assassinato, mas não do sobrenatural” – ela sorria sinistramente.

- Mas o rosto foi recortado sem derramar gota de sangue?

- Sim; e com precisão cirúrgica. Retiraram toda a carne ao redor...

- E por que um ser alienígena faria isto?

Bárbara fazia breves instantes de silêncio, porém, quando falava atemorizava até os mais incisivos incrédulos, como eu.

- A senhora morta estava muito velha e necessitava de cuidados especiais. Ela passava seus dias na cama. No dia do estranho acontecimento, à noite, perceberam que ela estava imóvel na cama. Chamaram, não houve resposta. Desesperados, saíram para chamar ajuda. Alguns policiais deram mesmo um grito de pavor...

Eu achei engraçado, quis dizer algo, mas ela não deixou:

- No exame necroscópico, os legistas responsáveis do Instituto Médico Legal, afirmaram que uma pneumonia bilateral e um choque séptico foram as causas da morte da pobre senhora, e que sua face teria sido comida por roedores...

- Está vendo; então foram os ratos ou, ainda, pode ter sido algum ácido – eu constatei para o desprazer de minha amada.

- A versão médica foi questionada pela polícia e pela família. Disseram os filhos da vítima não haverem ratos por lá. O delegado disse, também, ser a versão da perícia muito cômoda, pois que ratos deixam marcas, e o rosto dela parecia ter sido cortado com a ajuda de um bisturi. E depois de horas da morte, o corpo ainda permaneceu quente. Médicos americanos, chamados a dar opinião, igualmente discordaram do laudo que atestava os roedores como causadores do recorte do rosto.

- Então foram alienígenas?

Bárbara deu de ombros, em seguida, com muita espiritualidade, filosofou:

- Mais uma vez, as perguntas ficam no ar... Quem teria cometido tamanha monstruosidade? Vingança? Experiência alienígena? Algum ritual macabro? Nunca poderei saber. A verdade sobre este caso foi coberta por terra vermelha batida, e está numa quadra qualquer, de um conjunto ordinário, de um cemitério simples; local onde, agora, descansa a senhora sem rosto.

Na realidade, não era possível verificar se Bárbara acreditava mesmo nestas coisas. Mas que ela se divertia contando, ah, isto sim, como se divertia.

Neste momento, inclusive, recordo-me dela narrando, com extrema teatralidade, o caso de um cadáver que foi encontrado nas areias da zona praieira da região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro.

Dizia ela que foi passar férias por lá, num verão que já vai longe, e ouviu os “populachos” relatando a morte de um homem cujo corpo não tinha gota de sangue, e na altura do pescoço havia estranhas perfurações.

Sobre este caso, algumas testemunhas, contundentes, acusaram a uma loura, usando meias de lycra pretas, que rondara o local nefasto. Outras pessoas afirmavam ter visto a tal loura correndo semi-nua pela praia e desaparecendo nas águas.

Por mais incríveis que possam parecer os depoimentos, e apesar do descrédito geral, as mortes se seguiram. Primeiro uma menina, em seguida turistas tiveram pescoços dilacerados e seus corpos dessangrados.

Sendo assim, Bárbara jurava que as autoridades locais enviaram homens para patrulhar as praias e capturar a sereia assassina. No entanto, alguns patrulheiros foram brutalmente mortos e o restante da turma tiveram as pernas e os braços esquartejados. Corpos e partes de corpos espalhados ao longo da enseada. Os sobreviventes não tinham nem idéia do que havia os atacado. Disseram, apenas, ser uma mulher grande, pálida, olhos felinos, vermelhos, longos cabelos louros e dentes arreganhados. Os relatos indicavam que o monstro parecesse com uma criatura feminina, andava semi-nua e tinha apenas um seio.

Nas mãos de um dos mortos foi encontrado um amuleto, uma espécie de machado, manchado de sangue. Este amuleto é semelhante aos das lendárias amazonas, índias guerreiras que habitavam – ou ainda habitam, sabe-se lá – a região do rio de mesmo nome e assim batizado em homenagem às mitológicas mulheres guerreiras da antiga Grécia. A-ma-zo-nas!

Quando contestada sobre como e por que índias guerreiras da floresta amazônica deslocar-se-iam para a região dos lagos do Estado do Rio de Janeiro, Bárbara desconversava. Mudava logo para outro assunto macabro; como o do sacristão abduzido em plena Praça Mauá, na capital carioca, ou sugeria o quão terrível os exames que alienígenas impõem aos seus capturados em suas naves espaciais metálicas. A vergonha, o descrédito e mesmo a falta de conhecimento fazem com que as pessoas se calem; ela afiançava a mim estas coisas, sorrindo e beijando-me.

Bárbara se comportava comigo sempre assim, surpreendente. Nunca se sabia o que ela diria, o que faria, o que acreditava (se é que ela acreditava em algo nesta vida), e, sobretudo, qual seria seu humor. Ela mostrava-se uma mulher instável; mas devo confessar que isto era apaixonante. Não a via mais como um “casinho” de amor, ou apenas com olhos lascivos; já era mais do que isto. Aquela bela garota carioca, apimentada, olhos misteriosos, sedutora, também inteligente, convincente, temperamental, voluntariosa e indisciplinada, provocava-me com uma espécie inidentifícavel de 'ethos' de natureza emocionante.

- Por que você nunca fala aquela frase... de três palavras que perfazem toda a oração?

- Qual?

- Aquela frase mágica que os casais dizem entre si...

- Mas qual é?

Eu sabia qual era; não a dizia por graça, ou talvez por certa prudência demente. Mas, por fim, fascinado pelos encantos arrebatadores daquela garota, acabava capitulando:

- Eu te amo!"

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Caro leitor risonho e leitora adoravelmente incrédula, este texto não teve a pretensão de descobrir alguma verdade metafísica ou de além-humanidade, nem mesmo refletir sobre ela. É apenas um pensamento, quase uma sátira infantil, ingênua. Acredite!

Mas é notório que a tecnologia humana já é maior que sua responsabilidade, caso esta exista.

A ideia conjecturada da existência de vida de seres extraterrestres não me parece interferir nos desígnios das diversas dimensões espaciais. Já o homem, por outro lado, conhecendo sua natureza, tenderá por certo a uma grande dominação, manipulação, guerra, agressão e ao materialismo das dimensões a qual ele nem mesmo pertence. Pobres seres de outros planetas...

Quem sabe se houver, um dia, um crescimento espiritual antes do domínio tecnológico o homem poderá integrar-se de fato à vida em outras dimensões - mas repito, somente se houver responsabilidade.

Penso, contudo, que nesta sociedade humana atual isto parece impossível; como sabe.

Por Ricardo Novais