Ame os Livros e Será Imortal!

José Mindlin, para sempre amante da leitura.



Morreu ontem o bibliófilo José Mindlin. Ele tinha 95 anos completos e estava internado há cerca de um mês no hospital Albert Einstein, na capital paulista.

José Ephim Mindlin nasceu em São Paulo em 8 de setembro de 1914. Formou-se em Direito em 1936, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Participou ativamente de momentos históricos e políticos do país, como a Era Vargas e foi Secretário de Cultura do governo de São Paulo na época da Ditadura Militar, embora fosse contra o regime. Ele se referia com muito desalento aqueles tempos tortuosos e em especial a morte de Vladimir Herzog, a quem ele convidara para trabalhar na área jornalística da Tv Cultura, pertencente ao Estado. No documentário abaixo, roterizado e finalizado por Roberto Stefanelli, José Mindlin comenta, entre fatos marcantes à história do Brasil e a paixão pelos livros, a morte de Herzog.


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Mindlin advogou até 1950, quando foi um dos fundadores e presidente da empresa Metal Leve S/A, empresa pioneira em pesquisa e desenvolvimento tecnológico próprio no seu campo de atuação. Em sua atividade empresarial desenvolveu grande esforço em prol do avanço tecnológico brasileiro e no processo de exportação de produtos manufaturados nacionais.



Frequentador assíduo de livrarias, sebos e afins, este homem culto, intelectual por vocação e que tratava os livros como amigos muito queridos, formou uma das mais importantes bibliotecas privadas do país, iniciado quando ele ainda tinha 13 anos. Cerca de 45 mil volumes, entre coleções e folhetos, foram doadas por ele à Biblioteca Brasiliana da USP. A Brasiliana é ideia e criação dele e de sua querida esposa, Guita Mindlin, que morreu 4 anos atrás. Foi ela quem catalogou e organizou o acervo. Conforme ele mesmo dizia: "Sempre fomos mais depositários da biblioteca do que proprietários dela, porque nós passamos e os livros ficam".

É extremamente triste a perda de Mindlin. Num país que não prima pela leitura, ele era um guardião extraordinário dos livros. É pena!



Em 2006, José Mindlin entrou para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira número 29, antes pertencente ao historiador e escritor Josué Montello. Na oportunidade ele declarou com sua habitual tranquilidade: “Estou feliz por estar agora entre os imortais desta tão magnífica e tradicional Academia, mas trocaria esta minha imortalidade por uns 10 anos a mais de vida para que eu pudesse assim ler ainda mais livros.”



A morada de seu corpo é agora numa sepultura ordinária do Cemitério Israelita. Mas como ele tem, sem dúvida, uma extraordinária alma amante dos livros, alcançou a imortalidade. Mais que muitos que andam por aí nestes salões de sociedade, José Mindlin é sim legítimo imortal; e ele é parte integrante da história deste país e tinha consciência da verdadeira cultura deste povo. Neste momento, faço o silêncio que tanto o luto como a leitura pedem.





Por Ricardo Novais

A Folha Online serviu de fonte de informações para este texto.
Vídeo que aparece neste texto é um documentário de Roberto Stefanelli.