Craque das Palavras

Foto: Patrícia Kappen/G1

Foto: Patrícia Kappen - G1

Hoje o velho 'Maraca' tem a última crônica de um craque das palavras. Morreu a poesia inserida no futebol, morreu um dos mestres que criam das tribunas jogadas geniais. Morreu o cronista Armando Nogueira.

Se quiser chorar, torcedor, chora. A perda é grande; mais que isto, o dano é irreparável. Lá se foi o nosso Armando procurar algum vôo mais alto, mas olhando para baixo em busca de um lance arguto ou de um artista da bola – de preferência que surja lá para os lados de General Severiano.

Pensando melhor, não, não foi a última crônica do craque. Talvez esta tenha sido apenas a melhor delas, a mais bonita, a que transforma a morte na melhora da vida. Ele sabia disto, cronistas sempre sabem... Possível que alcançasse alguma esperança de enterrar alguns velhos atores do Maracanã. Verdade que a escrita de Armando Nogueira seria formidável para consagrar os momentos que virão no futuro que aguardamos com ansiedade. A Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos, os Campeonatos Brasileiros, as partidas da Taça Guanabara, enfim, os eventos esportivos serão mais pobres daqui para frente.

Nevrálgicos por certo levantarão máculas próprias de suas ideologias ao poeta, acusarão homem de texto tão sublime por faltar-lhe coragem "denuncista" e ridícula quando esteve à frente do JN nos "anos de chumbo" – também eu não ajudaria intelectuais covardes a formarem "jovens terroristas". Além disto, esta é hora de reverência. Deixemos o velho craque das palavras ir-se, deixemo-lo ir falar ao mágico Garrincha e ao intempestivo Heleno de Freitas, ir tecer com os outros cronistas geniais que voam por tribunas do olimpo eterno. Creio que, antes de chegar a quietude do São João Batista, o último pedido seja: “Cuidem do meu Botafogo!”




Por Ricardo Novais