Tratado das Futilidades


"A Familia Imperial", por Alberto Henschel.

Este nosso século é menino ainda. E a meninice gosta da superficialidade, da curiosidade e dos defeitos alheios. Aí está a causa de as maiores audiências da TV no mundo serem de programas que bisbilhotam a vida dos outros, os denominados reality shows. Vejo por estes nossos salões e mesmo na internet os que querem tratar do conceito desta praga do “politicamente correto” por intermédio deste tipo de programa televisivo. Fosse apenas entretenimento... Mas não, teimam em desenvolver verdadeiros tratados de sociologia em cima de relações aparentes e estereótipos. Este século se distingue, sem dúvida, do século passado, e este também não se encontra com outro mais antigo, aquele em que viveu a família Real.

Não vamos tão longe, as linhas são poucas para tanto tempo já morto. Fiquemos apenas no Rio de Janeiro de Jorginho Guinle. A futilidade e o glamour eram atrelados às festas da alta casaca, à sofisticação tola e à balofa cultura geral. Jorginho jamais desenvolveu nenhum processo de criação, em nenhuma área sequer; contudo, era de dar inveja a qualquer cavaleiro culto e polido.

A feição não era má, nem boa. Tipo diminuto, não era Jorginho o encanto físico que atraía as damas daquele período refinado. Ah, mas ele era um Guinle. Mais que isto, era esperto. Na prática, menos rico que outros industriais; nos modos, Jorginho era tão milionário quanto qualquer de seus amigos filhos de industriais americanos ou franceses. Com olhar aludindo o próprio colorido das águas da Baía de Guanabara, ele conquistou as mais belas mulheres de seu tempo apenas com sua elegância e requinte. Às vezes, com extrema fineza, apenas dizia: “Quer passar alguns dias comigo na melhor suíte do Copacabana Palace, madame?”. Noutras dilapidava a fortuna da família unicamente para ter uma noite em agradáveis lençóis de uma bela dona da sociedade; não censuremos ato tão fidalgo, os presentes eram caríssimos... Além do mais, cada um tem lá suas paixões na vida; os primeiros Guinle, por exemplo, apreciavam construções de suntuosos palacetes. Tudo na vida têm suas compensações; no caso do glamour imobiliário, os cartolas da elite carioca sacrificaram o Fluminense Football Club. O que é a paixão, não é mesmo distinta senhora leitora e digníssimo senhor leitor?

Jorginho Guinle dilapidou a herança de sua família, perdeu até o Copacabana Palace. Ele foi de um século onde os “barões do café” comandavam as ações desta república. Todo café passava pelo porto de Santos; e a quem pertencia a Companhia Docas de Santos? Sim, naturalmente; aos Guinle. Não seria muito afirmar, portanto, que o mais notável ‘playboy brasileiro’ em todos os tempos foi um homem do século perecido.

“O século XX é o meu século!”, Jorginho gabava-se. Não se é possível imaginar uma vida ociosa daquele tempo dentro da sociedade celerada e instantânea destes tempos hodiernos, o nosso tempo, tempo dos reality shows; deste que é apenas o início, pois ainda há tantos séculos pela frente... Como há tantos já decorridos.

Todavia, ainda há uma coisa mais intrigante, como imagina o amigo leitor que datava suas cartas pelo prefixo “mil novecentos e bolinha”. Havia também naquele passado, nem tão longínquo, um homem diverso do nosso Jorginho. Zé do Galo não recebeu herança alguma, não seduziu as mulheres mais bonitas do arraial onde vivia e muito menos possuía fazendas de café. O pobre diabo saiu do interior fluminense porque, talvez como Drummond, não quisesse ver “as montanhas serem desmontadas” por causa do progresso que explorou a natureza. De modo que veio para a cidade grande trabalhar no recém criado 'parque industrial da república', labutou entre máquinas com gosto e afinco. Teve filhos na nova sociedade e alcançou o sucesso financeiro. Consta, entretanto, que o Zé fosse vencedor funcional. Não criou nenhum processo de aprimoramento profissional, nem foi líder do que achava correto. Talvez nem pensasse nisto. Foi um cordeiro encantado, feliz chefe de família.

Zé do Galo também é um homem de outro tempo, o século XX; mas ele não conheceu Jorginho Guinle. São duas vidas que não se reconhecem, porém, não obstante a isto, são iguais em quase tudo. No sonho esquematizado, na convicção de regras, na adestração dos costumes; naturalmente no choque de mundos. E se aquela época não cabe nesta é porque a imaginação é restrita.

Tudo é estranho aos modernos. Os antigos, por sua vez, podem procurar algum pensamento que lá trás deixaram... não encontrarão nenhum. A pergunta deveria ter sido feita no início do texto, mas como nenhum leitor a fez ou ela tenha chegado a este distraído autor muito anemicamente, agora o saldo é a resposta. O caso todo das futilidades, entre a aparência passada e a superficialidade atual, é que o século XX não conheceu nenhum reality show próprio do nosso tempo, e este também não olha para trás... Pensando bem, remanescente à monarquia, percebe-se que o futuro não gosta muito da finura que não tomou conhecimento.

Por Ricardo Novais