Tribunal do Júri

Gravura de arquivo do TJ-SP.

Um amigo de ideias amplas, embora já bastante convicto, perguntou-me no Twitter: "Quem é que vem lá?". Respondi que achava ser um astro da MPB ou algum artista de novela.

- Vá! Seu pensamento assim parece desmerecer nossa promotoria de justiça, comparando-a com instrução jurídica de artes circenses...

- Oh, não! Não penses isto – respondi-lhe em 140 caracteres; não acredita, caro leitor, pois então conte os dígitos. – Fiei e admirei de tão valoroso espetáculo. É grande pesar o nexo causal ser por fundamento tão doloso... É pena! – Lamentei deste modo até pessimista ao tuiteiro otimista e contente.

É que toda a história deste julgamento feito por júri popular de crime contra a vida de inocente infante estava já por mim prevista, tanto que no domingo passado, antes mesmo das explanações e interrogatórios, dediquei-me à leitura das posturas que se agitavam nos dias de Platão e Aristóteles.

Conjecturei, seguindo as ideias pregadas na antiguidade clássica, resignar-me em meus próprios pecados. Entendi que a república inteira deveria acompanhar o meu exemplo. Finalmente, naquele domingo, acatei que o perdão é mesmo dom divino... Dormi. Acordei na segunda-feira e fui aos meus afazeres, estes que já tomam algum tempo de minha cidadania.

Pra semana, imerso numa curiosidade que compreende bem a situação e não alcança nem se embala com esperanças frívolas, observei um repórter de TV perguntar a um popular muito raivoso que encontrava-se na frente do tribunal e manifestava-se contrário aos réus daquele julgamento:

- O que o senhor anseia aqui?

- Vingança! – Ops, creio que ele tenha dito: justiça.

- E, na opinião do senhor, o que leva um pai a matar o próprio filho?

O pobre homem não estava esperando tal pergunta; ele estava ali para protestar, protestar era o seu oficio. De modo que ele pensou, pensou, sopesou e não achou reposta apropriada:

- Rapaz, verdade. Eu quero justiça, por isto estou aqui... Mas, rapaz, o que leva um pai de família a destruir esta mesma família? – Em meio àquelas reflexões, ele exclamou desolado por fim: "Rapaz do Céu!"

Pareceu-me que depois desta entrevista o manifestante tenha ido embora para casa; afinal de contas, todo mundo tem família e seus julgamentos particulares para cuidar; concordas comigo, amigo leitor?

Como resultado da reflexão, da leitura dos autores clássicos, a república vai caminhando para a plenitude da justiça e democracia... Ao menos foi isto que declarou aos quatro ventos o célebre promotor do Ministério Público, seus correligionários paladinos da virtude, a neutralidade do magistrado, a defesa arrasada e toda a pungente imprensa.

Contudo, facilmente no decorrer da leitura do aresto, constatou-se que o destino envolve o homem para onde soprar o vento; mas não culpemos o destino, desgraçadamente somente cumpre o seu ofício; também não culpemos o vento, este é apenas um subordinado daquele.

Todavia, se há um julgamento e uma decisão, deverá lá, da mesma maneira, haver um culpado. No entanto, a dona leitora ponderada bem sabe, não há nada absoluto no gênero humano, de modo que nada justifica amar nem odiar. Só nos resta a indiferença, o ceticismo e, às vezes, a lembrança do passado.

Ah, claro, resta-nos – além de tudo, e entre risos, lágrimas e fogos de artifício – a comemoração pela desgraça alheia ou a justiça de uma sociedade. Talvez, a Copa do Mundo... Talvez.

Por Ricardo Novais