Final feliz ao contrário


Fazenda Antiga por Batazar Guimarães Silva, o Zarico.


A velha casa de minha avó está morrendo. Ela não mora mais lá, nem os filhos e nem os netos. Vovó sempre se apegou aos detalhes, senhora meticulosa. Da tradicional família que programou a hora de amar, calculando em qual momento se dá ao companheiro. É um hábito que se transformou em costume. Tradição de família, entende, leitor? Como contando as horas em oração, louvando a Cristo. Se lhe perguntassem: “Que horas são?”. A minha senhora avó de fazenda certamente responderia: “Faltam quatro 'Rosários' e três 'Ave-Marias' para a hora do almoço”. Ou: “São quinze ‘Creio em Deus Pai’ para a hora de irmos dormir, meus queridos”. Costume de velha carola. Mas quantos por aí também têm por convicção programar o coração? Convicção célere, e que não passa despercebida entre a geração da roça: Ao despir as roupas novas, os velhos costumes ainda persistem... Povo promissor o brasileiro.

Quando meu avô planejou aquela velha casa de fazenda, por certo, tinha a esperança de abrigar amor aos filhos e sonhos aos netos – quem sabe projetou felicidade até para os bisnetos. Mas a casa morre. Um morador de Itabira fez, certa vez, uns versos dolorosos: “Ai, como morrem as casas! / Como se deixam morrer! / E descascadas e secas / Ei-las sumindo-se no ar.”

Não sei se há lá ainda um final feliz para a história desta casa de minha avó. Talvez o final feliz esteja em seu início, nos primeiros tempos de residência e também de construção. Sendo assim, a história dela começa no fim; pelo primeiro desocupado que arrancou as madeiras das portas e janelas para aquecer-se numa noite fria, com os morcegos, escorpiões, barbeiros e outros peçonhentos dando aspecto de casa mal-assombrada àquela outrora tão feliz habitação, e indo para trás, ano após ano, vendo aquele doce lar dissipar-se com o pó recostado pelos cantos e dobras das paredes, a pintura desbotando e virando caminho de insetos; até que se vê a festa de inauguração, o primeiro dia em que meus avós dormiram no casarão recém construído, as portas e janelas sendo instaladas com a ajuda de um mulato e de sua mula russa, o verde reflorescendo, e do alto da colina vovô fazendo seus estudos seguido das palavras:

- Vou construir aqui a casa que meus netos e bisnetos amarão!

Quando eu tinha uns dez anos, lembro-me que eram férias de escola onde se trocava o ambiente violento da cidade pelo bucólico da fazenda, plantei uma árvore em frente desta casa de vovó. Noutro dia passei por lá. Fiquei surpreso ao ver que a árvore ainda continua lá, firme, imponente, de pé.

Por Ricardo Novais