Morro das Lágrimas

Pai em lágrimas no resgate de corpo do filho de 8 anos, Morro dos Prazeres, Santa Tereza, Rio.
Foto: André Teixeira / Agência O Globo.

O Rio de Janeiro é uma das cidades que mais mostram a identidade brasileira. Aquela personalidade nacional que fica esquecida na maior parte do tempo porque alguns intelectuais criaram estigmas balofos e regras de cordeirinhos, mas, mesmo assim, a autenticidade deste nosso povo aflora de fato é entre os cariocas. É muito com pouco, é entusiasmo no pessimismo. O português e o mulato bebem num boteco, o polaco e o gaúcho que trabalham na mesma fábrica, o mineiro e o francês que brigam por um refinamento difuso, sendo estes subjugados por um paulista usurpador; enfim, no Rio estão brasileiros genuínos que se encontram sob a benção do Cristo que é sempre redentor.


Mas não estou eu aqui para ficar discorrendo sobre a história da cidade, já que não sou professor, portanto não tenho capacidade para o feito. Também não devo ficar aqui acusando e apontando motivos para o Rio ser assim ou assado, ter morros que desabam ou falta de planejamento político em chuvas fortes e tempestades que parecem meticulosamente "copiadas" do planalto paulista; da mesma maneira não tenho autoridade para a proeza. Nem especialista em geografia, geologia ou meteorologia este desgraçado autor é para que assim melhor se apresentasse o texto aos imperativos leitores. De modo que devo apenas ater-me ao meu próprio sentimento de cidadão que perdeu seus irmãos, meus irmãos cariocas. Espero que o intuito, de formar alicerce para calçar os personagens que não mais têm voz, alcance algum efeito... Porém isto só será possível saber no final da missa de 7º dia. No entanto, culpo-me e lamento vossa má sorte, amigo leitor, mas tenho necessidade de deixar uma impressão pessoal desta tragédia que aportou na zona metropolitana da ex-capital do Brasil – é mais forte que minha prudência e desafia minha consciência. Aliás, a querida dona leitora bem sabe, eu por vezes recorro a este artifício subjetivo, tendo feito o mesmo em diversos posts do passado recente; assim como eu sempre apelo ao bom senso desta mesma amiga, a dona leitora, que frequentemente insurge por linhas e linhas deste blogue na minha tentativa desesperada de salvá-lo. Sempre que houver a necessidade que eu levante do sofá ou pause o café para julgar algo em conluio com a revolta popular, ela será evocada por mim neste ambiente virtual. Moça ponderada, brilhante! Quiçá um dia pessoalmente este pobre autor encontre sua amiga que tão fortemente admira... Quiçá.


Bom, mas vamos logo a minha tal impressão pessoal e economizar o tempo do leitor. O que me impressiona nesta cidade são os retirantes nordestinos. Não crê? Vá então às imediações do paço imperial em São Cristóvão. A querida e ponderada leitora foi quem chamou-me a atenção: estes pobres homens vêm para o sudeste muitas vezes com toda a família antiga ou fazendo ainda outra novinha, e formam a maior região de nordestinos nesta república situada fora do próprio nordeste, vindos à procura de melhores condições de vida, em uma espécie de busca da ‘Terra Prometida’, desenvolvendo bairros de excluídos e de marginalizados, sendo, por fim, submetidos e adaptados ao cadafalso de uma vida de resultados miseráveis. Muitas ocasiões, rezando sozinho, penso serem eles as próprias lágrimas de Deus. Por esses homens e mulheres retirantes o Criador chora lá do Céu ou do inferno. As lágrimas Dele se misturando às lágrimas daqueles que sofrem e as destes às águas das enchentes arrasadoras que devastam todo este mesmo sudeste; molestando, justamente, os excluídos e marginalizados. Dilúvio no clima injusto: retira toda água do sertão e da caatinga deixando lá apenas a “terra seca e ossuda”, como definiu certa vez João Cabral.


Agência: Reuters

Bombeiros heróicos em resgate de nossos irmãos desaparecidos, em Niterói-RJ.


Cidade! Cidade, esse emaranhado corrupto da vida; que iludi e que engana e que maltrata...



Por Ricardo Novais