Maldição do Centenário: 'Clássico do Povo', Amor e Libertadores só no Apocalipse

100 anos de Corinthians. Foto: Ricardo Matsukawa/Terra.

O Corinthians viveu uma de suas mais tristes noites dos seus 100 anos de história. Por outro lado, o Flamengo brilhou com raça e extraordinária glória. Ontem, no velho Pacaembu repleto de alvinegros, foi realizado o ‘Clássico do Povo’, jogo válido pelas oitavas-de-final da Taça Libertadores da América 2010.

Taça Libertadores, sonho corintiano. Zé Índio estava ontem no Pacaembu e viu 100 anos de tradição e esperança escapar-lhe por entre os dedos. “Maldito Love”, pensou ele. O seu  amor  foi derrotado. Ironicamente o placar positivo de 2 a 1 sobre os rubro-negros não foi suficiente para alimentar a fantasia de ser um Campeão do Mundo com Libertadores. Faltou um gol, um 'golzinho' apenas que não veio.

Vágner Love, autor do gol da classificação rubro-negra, tenta consolar o volante Elias, arrasado. Foto: Ricardo Matsukawa/Terra.

Zé Índio ao final da partida não tinha mais voz, mas teimava em gritar. “O mal é a falta de prática”, justificou-se assim a eliminação corintiana. Quem sabe nos próximos anos não se ganha mais experiência com a competição a ponto de finalmente vencê-la, um dia. Quem sabe... O fim do mundo um dia chega.

Deus é corintiano. Sim, é verdade. Mas o satanás deve ser flamenguista, é rival, é ardiloso, é antigo, tem prática nestes duelos cruéis. “Um dos maiores clubes do mundo”, definiu o treinador Mano Menezes ao comentar o fracasso diante do 'satanás' e assim também atenuar-se o pífio desenvolvimento tático, de estilo retranqueiro da típica ‘escola gaúcha de técnicos’, à frente do time do Parque São Jorge, 777.

Povo que sofre povo que vibra, é do futebol. O torcedor corintiano que esteja muito chateado e querendo abandonar estas linhas, peço-lhe, por favor, que não faça isto. Mudo de prosa. Digo que fica aí como consolo a eliminação do Palmeiras da Copa do Brasil – tudo na mesma noite de angústia. Corintianos e palmeirenses dolorosos podem se abraçar... Ah, tem razão; isto já é demais! Tento novamente, prezado amigo, ir por outro caminho; mas compreenda, sôfrego alvinegro, neste momento é árdua a tarefa consolar-te...

Mais certo dizer apenas que isto é obra da ‘maldição do centenário’. Não é desgraça corintiana, é apenas privilégio dos grandes clubes brasileiros que já completaram 100 anos de tradição. Já fora assim com o próprio Flamengo, em 1995; também com Grêmio em 2003, Botafogo em 2004 (ou 1994, depende da regata), Atlético em 2008, – a exceção o Vasco da Gama, que no ano de seu centenário (de fundação das atividades de regatas, não de futebol), em 1998, venceu a Libertadores. Antes que insurgistes com vozes contrárias à teoria, admito que o Fluminense, em 2002, e o Internacional, em 2009, conquistaram títulos, porém estes feitos foram de caráter regional e não marcaram nem de longe áurea dourada que tais datas mereceriam. E ainda reze, senhor gavião, para não ter o mesmo destino infausto do Coritiba, rebaixado em pleno ano de seu centenário à 2ª divisão.

Haverão, constatou Zé Índio, muitas derrotas corintianas, mas também muitas outras vitórias. O certo é saber que Deus e o satanás existem, e no futebol eles nem sempre são bons ou sempre maus. Às vezes um trama contra o outro, prega peças maliciosas e cruéis. A decepção é latente. Melhor é reverenciar a vida de um clube do povo, que sofre, que chora, que sorri vez em quando. As bocas mais desdentadas e as roupas mais perfumadas se encontram todas, juntas e perseverantes, naquelas cores alvinegras aplaudindo o time em mais uma noite extraordinária no Pacaembu.

O senão do ‘Clássico do Povo’ de ontem foi saber da morte de doutor Tonhão, advogado de Zé Índio. Também ele torcedor do Corinthians. O coração deu os primeiros sinais de falha quando do gol de cabeça de Ronaldo, depois veio a cobrança de falta de Chicão que o goleiro da Gávea defendeu magistralmente. Doutor Tonhão teve um colapso, infarto fulminante do miocárdio. É emoção por demais. Tombou gritando gol, o pobre coitado. Nem sequer soube que o 'satanás' rubro-negro despachou o Timão da Libertadores. Ao menos imaginou que dessa vez ia acabar toda a agonia centenária, mas não acabou – também não seria Deus corintiano se acabasse.

Ronaldo, o fenômeno, foi a decepção do torcedor neste primeiro semestre do centenário.
Foto: Ricardo Matsukawa/Terra.

Tenho a sensação, em suma, que isto tudo é um preceito bíblico: o dia que o Sport Club Corinthians Paulista vencer a Taça Libertadores da América, será o Apocalipse.


Lances do 'Clássico do Povo' que acabou com o sonho corintiano:






Por Ricardo Novais