Copa do Mundo, Aposta Sem Torrão da Pátria

Charge do sensacional Clóvis Cabalau. Site: Crente Pensante.

Eu bebo cerveja. Como qualquer outro bom apreciador de bebidas alcoólicas, sei de seu poder espiritual e também da grande ressaca que causa no sistema humano, todo ele – físico-psíquico e moral. Do mesmo modo gosto de futebol e sou brasileiro. Já percebeu que temos um contra-senso aqui, não é senhor leitor-torcedor?

Ora, se os cientistas dizem que a bebida alcoólica não combina com a prática de esportes – a não ser depois da ‘pelada’ de sábado –, como anunciar que Copa do Mundo é guerra e a cerveja é a munição do herói que derrota o parvo inimigo?

Penso, com base nesta reflexão panfletária, que somos um país patriota de bêbados; ou os publicitários são patriotas depois de ébrios – sabe-se lá.

Mas, como disse, adoro futebol. Paulo Mendes Campos escreveu, certa vez, que “a bola é o brinquedo mais perfeito que já inventaram”; ou jamais inventaram, apenas surgiu, do nada – por isto os jogadores reclamam tanto da Jabulani, a bola da Copa que tanto rebela interesse estranho pelos bem cuidados gramados mundo a fora, mas exerce tamanho fascínio em garotos dos campos de várzea de Soweto, em Joanesburgo... Celebremos! Dunga, os publicitários, alguns bêbados, com seus rompantes de patriotismo ridículo, por certo, não possuem espírito de jogo, esporte e brinquedo; eles são guerreiros de uma guerra glorificada por nossa pátria amada; idolatremos, portanto, brasileiros e brasileiras, do sul e do norte, fidalgos e bobos-da-corte, estes jogadores que são gente como a gente, da mesma cara marota e a mesma cor de terra batida, embora o suor deles tenham mais valor, resignados e também alegres, saudemos!, amigos, saudemos este nosso magnífico e autêntico futebol tupiniquim! – embora, às vezes, aparentemente somos tão somente a réplica de uma bola murcha. Se a batalha te parecer muito enfática, desgraçado torcedor, é porque és muito romântico de outras Copas ou não tens o necessário 'comprometimento' com a república.

Dunga, Dunga, cópia fiel de si próprio; estais em evento mais fascinante da Terra, senhor herói de chuteiras, e falo o mesmo ao seu fiel escudeiro auxiliar-técnico; que oportunidade de povos diferentes se confraternizarem, de estenderem a mão ao adversário – de jogo! Hoje teremos a abertura oficial (a que vale) do Mundial da África do Sul 2010. A seleção da casa  se apresenta, os demais desfilam, dia após dia, jogo depois de jogo, luta violentíssima seguida de outra luta ainda mais incisiva, vitórias, derrotas, emoção, alegria, tristeza, briga, intriga, negócios, cartolas, empréstimo, roubo, reflexões, críticas, dedos em riste; ufa! Esporte é vida! Esporte é cultura, já houveram 18 Copas do Mundo na história. O Brasil ganhou 5; a Itália, 4; a Alemanha, 3; a Argentina e o Uruguai venceram duas vezes e a França e a Inglaterra ganharam uma vez. Sou brasileiro, então vou torcer pelo Brasil; gosto de futebol, então aposto na Holanda, que já foi duas vezes vice e nenhuma vezinha sequer campeã. Joguei os búzios de Ogum na minha mesa de 'mestre-guru'... Vi coisas incríveis referente a tu, leitor; vi tudo também do nosso escrete tupiniquim em terra de arco-íris, do mago Mandela – homem este de fato importante à liberdade de homens subjugados nesta época contemporânea. As coisas que vi são boas, em parte.

Não se zangue, dona leitora patriota de Copa, trata-se mais de um desejo profético do que avaliação técnica. A capacidade defensiva dos holandeses é pouca, verdade; entretanto, é um time mágico, qualidade que costuma ser fatal. O técnico Bert Van Marwijk vai a campo com um time semelhante àquele que conseguiu 100% de aproveitamento nas eliminatórias: esquematizado em clássico 4-3-3 e na articulação do talentoso Snejder. Se, por acaso, a dona senhora Pitonisa de Almeida for falar a Capello, Mourinho, Felipão, Muricy, Mano Menezes – todos eles da escola universal de treinadores gaúchos; sim, este ateneu data ainda dos primórdios da vida humana e é muito anterior à criação do Estado do Rio Grande do Sul – todos estes retranqueiros censurariam como de mau gosto este texto. O time-base da Holanda, anota aí que este será o time vencedor da Copa de África do Sul, é Stekelenburg; Heitinga, Ooijer, Mathijsen e Van Bronckhorst; De Jong, Van Bommel e Sneijder; Kuyt, Van Persie e Robben, ainda com lugar para o excelente Van der Vaart; jogadores em ótima fase (isto conta muito), talentosíssimos, atuam nos maiores clubes da Europa e estão entrosados um com outro. Para reforçar minha aposta, basta lembrar a extraordinária campanha holandesa nas eliminatórias européias para esta Copa; ao lado da Espanha, fizeram os jogos mais arrasadores, entre todos os grupos de seleções, desta que é a classificatória de Mundial mais difícil que existe no planeta bola.

A Argentina é... a Argentina, isto já basta para estragar um texto, um post, um blogue, um campeonato, um torneio, uma pessoa, um continente...

Pelos meus cálculos sobrenaturais, a excelente Seleção Espanhola decidirá o terceiro lugar da Copa contra o Uruguai em comovente prorrogação e em sensacionais pênaltis, já a finalísima na África do Sul terá o seguinte placar:

Holanda 3 x 0 Argentina.

A Seleção de Dunga – sim, senhor torcedor, a Seleção Canarinho agora é dele –, desgraçadamente, tomará um 3 a 1 da própria Holanda na fase de quartas-de-final. Pouco? Pode ser, principalmente para um time que conta com Robinho, o Príncipe da Vila. Além de que este é o castigo para quem deixa de fora de um Mundial um craque tão genial como Ronaldinho Gaúcho. Minha adivinhação é boa; vejo, em bola de cristal, que o Brasil, vencendo ou perdendo, jamais deixará de ser o 'maior gigante' do futebol mundial. Assim será; tenha paciência, meu amigo verde-amarelo e minha amiga que está aí vestida com a camisa amarelinha de Kaká ou Felipe Melo (filho de Dunga); como diz o preceito bíblico no Eclesiástico: “tudo tem seu tempo, sua hora, seus estádios...”. Será isto que nos levará ao título em 2014, em nosso torrão de terra, nossa pátria, nosso autêntico futebol. Não haverá lá em futuro certo nada desta iracunda guerra de publicitários bêbados ou bêbados publicitários; haverá apenas um povo, sóbrio, que já enfrenta muitas batalhas, todos os dias, e ainda assim abre um sorriso honrado, incrível e sincero.

Por fim, sendo também eu um herói alegre, porém menos honrado e sincero, nada disso dito neste post tem lá muita importância. Pode vencer o Mundial tanto a tradicional seleção da Alemanha, com seu futebol pragmático, a sempre perigosa Itália, que foi campeã rastejando no último Mundial, a França com as elegantes luvas de seus jogadores de basquete; ou, surpreendendo a todos, pode levar o caneco o talentoso e duvidoso escrete português, que conta com a vaidade de Cristiano Ronaldo, ou, ainda, o fantástico e perturbado time do Chile, de Marcelo “El Loco” Bielsa, e, quiçá, o anfitrião conjunto sul-africano, do insistente Carlos Alberto Parreira (Bafana! Bafana!); e, claro, eu de fato posso ganhar a aposta que fiz na Holanda e tu ficaste a me dever reverência de oráculo como 'mestre adivinhão' e 'guru espiritual-esportivo’... Não te assustes, leitor impressionado; com auxílio precioso da dona 'cabocla-leitora', vi somente coisas boas em teu futuro; não me perguntes mais nada, em futuro saberás... Bem, tornando aqui às ciências naturais de reles mortal ‘corneteiro’ e já assoprando minha vuvuzela, qualquer um poderá ganhar esta primeira Copa disputa em África; qualquer um menos os argentinos, claro! De modo que se a Seleção Brasileira não vencer isto nada mudará o amor à cerveja, ao futebol e à nossa gente; genuinamente do Brasil.


Por Ricardo Novais