Quanta Excentricidade!

Escrever, ofício criativo ou maneira portentosa de elevação em apoteose?

Lendo por aí umas crônicas e ouvindo alguns depoimentos de escritores consagrados, outros apenas de pouca reputação, e, ainda, outros que nem isto veio a eles, eu fiquei sabendo, desgraçadamente, a “metodologia de trabalho” daqueles que escrevem – profissionalmente ou não. Por exemplo, descobri que existe um literato que não consegue escrever se não estiver diante de uma enorme parede completamente branca e sem nenhuma manchazinha sequer que venha a interferir em sua inspiração; tem outro, ainda mais velho e conservador, que só escreve os originais de suas obras à pena, tinteiro e papel, com tinta verde em papel branco ou papel verde com tinta branca a fim de colher frutos de esperança, senão até as ideias desviam do seu texto. E tu, hein, amigo leitor que meramente lê, não valoriza os esforços incríveis do processo criativo de um homem letrado? Oh, não! A dona leitora, que não tem mesmo um gênio fácil, já vem exclamando: “Quanta excentricidade!”

Mas, de fato, a minha querida amiga que não tem pevides à língua está coberta de razão; um dia desses, eu soube por fonte segura que um escritor muito famoso declarou que ao abrir a página em branco de seu computador sempre escreve a palavra “nada” – do contrário, não consegue começar... nada. Tem um poeta modernoso – ops! – um poeta moderno de literatura maldita que calça luvas na hora de destilar seus versos; já uma grande romancista da escola neo-parnasiana ou concretista-sustentável muda o tipo e o tamanho da fonte na hora de reler o texto a fim que as letras bonitas compensem a suas formas estéticas pouco privilegiadas. O que de mais curioso li nestas manias que a literatura brasileira  produz foi saber que um imortal da ABL confessou escrever nu, isto mesmo leitor, nu em um cômodo com ar-condicionado ligado à baixíssima temperatura para obter ideias frescas – diz ele que quanto mais gelado o ambiente, tanto mais fresquinha será a sua obra. Diverso disto e crítico daquele é um outro escritor que se comporta com modos mais tradicionais em seu ofício – embora, igualmente ao colega de hábitos nudistas, não dispense um bom chazinho de vaidade às cinco da tarde e acomode-se em qualquer uma das 40 Cadeiras sem largar a espada de decano; homem de princípios fortes, não consegue escrever sem estar devidamente vestido com o fardão de crepe francês verde-escuro com folhas de louro bordados em fios de ouro da Academia  e um chapéu de veludo preto com plumas brancas – é de se ver a cena da grande figura sentado à frente da escrivaninha todo fardado à espera de sua obra-prima que demora por vir, teimosa ou muito humilde que ela é... Mas bem faz o literato em vestir-se com trajes altivos, afinal, nunca se sabe quando o talento será laureado e, portanto, deve-se estar sempre pronto para a ilustre e elevada pose que vai à orelha do livro.

Ora! E eu que pensei que bastaria ao escritor, simplesmente, anotar a ideia que primeiro lhe surgisse à cabeça em algum lugar para que esta não lhe fugisse, pois assim o desenvolvimento de sua escrita sempre manteria a originalidade e, ao mesmo tempo, ele poderia trabalhar com o refinamento de seu estilo. Quanta ingenuidade a minha; mas é que só conheço os livros, não os autores. Ah, mas também eu nunca tive pretensão de literato mesmo, então estou livre para permanecer a escrever somente com a necessidade vital de transpor para um texto os pensamentos que me consomem. Continuarei prendendo a ideia, boa ou ruim, que passar pela mente! Continuarei, continuarei! Para mim, vale tudo nisto; inclusive escrever palavras nas paredes laterais do quarto branco no meio da noite escura com uma frase que relembre o sonho que acabara de acontecer, ou borrar alguma imaginação às mãos, riscar mesas de escritório, rabiscar um nome insurgente num livro qualquer ou marcar num papel ordinário as iniciais de um título que se encontre mais à frente; enfim, tudo pela primeira ideia que nasceu no cérebro. O resto não é nada nem tudo, o resto é apenas o resto ou o que resta de criatividade.

Por Ricardo Novais