A Fé ou a Ética?

Abraão, o pai da fé.

Numa sociedade onde se tem a sensação de que a corrupção ronda seus salões, onde eleitores não confiam em seus eleitos, onde a mídia 'mascara' a essência dos fatos e das ações, ou onde a fé é vista como retrocesso e, por isto mesmo, o 'cientificismo positivista' é enaltecido, onde, aliás, comemora-se até um evento fútil e imbecil denominado #lingerieday, surge a pergunta: o que é ética?

Søren Aabye Kierkegaard, no livro Temor e Tremor, descartando qualquer pretensão de ser um filósofo, pelo menos no sentido hegeliano, tende à visão de cristão - quer dizer, analisa a ética do ponto vista da crença religiosa.

Mesmo assim, o que ele diz evidentemente tem importância tanto filosófica como religiosa. Mas ele se fixa essencialmente no campo do ético, demonstrando-se plenamente consciente das visíveis limitações da esfera à qual pertence. Mais especificamente, ele está preocupado com a inabilidade dela em abranger os fenômenos da fé.

A sua insistência nesse ponto pode, é claro, ser tomada como indicação da divergência de sua abordagem com Kant e Hegel. Esses dois autores procuraram, ainda que de maneiras diferentes, assimilar ou subordinar a noção de fé religiosa a outras categorias do pensamento - Kant classificava suas asserções como postulados da razão prática ou moral, Hegel a via como prefiguração, num nível pictórico ou imaginativo, de ideias da consciência que conseguiam articulação racional dentro da estrutura de sua própria teoria filosófica, que a tudo abrangia.

Em Temor e Tremor, por outro lado, a fé é representada como possuindo uma condição inteiramente diferente: está além dos domínios do pensamento ético e resiste à elucidação, seja em termos universais ou racionais. Isso não significa, contudo, que a fé deva ser vista como algo essencialmente primitivo ou não merecedor de respeito; não é "uma doença infantil de que alguém deseje se livrar o quanto antes". Ao contrário, o livro conclui com a observação de que a fé é "a mais elevada paixão de uma pessoa". Além do mais, é sugerido, em toda a obra, que somente um indivíduo moralmente sensível e maduro tem condições de reconhecer as dimensões de suas misteriosas e severas exigências.

Ainda que a aceitação dogmática de Kierkegaard, que por mais que se esforçasse não conseguia libertar a própria alma em sua coerente teoria existencialista - posto, quiçá por seu pai ter amaldiçoado Deus pelos infortúnios de sua vida sendo, por ventura, agraciado pelos Céus e castigado logo depois pelo pecado, de tal modo que a maldição recaiu sobre toda a família, ascendentes e descendentes, e o temor podava a metafísica do filósofo - a mim parece que os preceitos de moral da fé religiosa levantadas por Kierkegaard são mais eficazes que a moral da ética 'científica'. Posto que esta ética, essencialmente em moldes positivistas e galicistas, forma uma sociedade assassina e burra.

Acatando-se ao pensamento de Søren Kierkegaard: “É com a subjetividade que o cristianismo esta ligado, e é somente na subjetividade que a verdade existe, se é que existe; objetivamente, o cristianismo não existe em absoluto!

Mesmo que as ideias aqui relembradas e levantadas não contenham a verdade essencial de todas as coisas, a fé religiosa não tem que provar a superioridade de sua moral. Neste caso, o ônus da prova é de quem contesta e não de quem afirma, pois a fé existe e está estabelecida desde o início da humanidade. Portanto, incorre em erro aquele que não crê por não haver provas materiais do supremo, aqueles 'cientistas' e ateus inveterados que, ao invés de discutir e desenvolver o tema com argumentos, insistem pateticamente em desqualificar a fé religiosa ou a crença de uma pessoa contestando sua existência ou renegando-a no campo psicológico.

Não te parece que a fé religiosa é moralmente superior a ética?


Por Ricardo Novais
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* Sǿren Aabye Kierkegaard, filósofo dinamarquês, nascido em Copenhague, em 1813, e morto na mesma cidade, em 1855. Concluding Unscientific Postscript, tradução de D.F. Swenson e W. Lowrie, Princeton, Princeton Univercity Press, 1941.

Eu sou a cidade

Imagem de divulgação.

Eu nasci em São Paulo, sou produto desta cidade. Como a pedra inicial que constrói a edificação, uma personalidade que se preze deve também começar pelo ambiente mais trivial. O ambiente é tudo nos caminhos e descaminhos de nossas vidas. A família, os amigos, a escola, a religião, o trabalho...; a sim: as paixões. Neste ínterim, a própria região do nascedouro e da morada será sempre a paixão; seja como objeto em si mesmo, seja como sustentação do objetivo desejado. A cidade é fundamental na formação não apenas do cidadão, mas da própria essência do ser humano; assim, tanto aqui como ali, serão sempre as reminiscências das memórias de nossas vidas que nos formarão como homens. Eu sou a cidade de São Paulo.

Considerando que a cultura é o resultado do desenvolvimento intelectual de um povo, devo lembrar a nossa dependência cultural em relação a Portugal, pois, por muito tempo, somente recebíamos influência externa através desta Metrópole. Os paulistas não foram diferentes. Todos os costumes, ensinamentos e tradição oriunda dos nossos portugueses perfizeram esta nossa civilização bandeirante; ainda que mais tarde, tanto no planalto paulista como no maciço carioca, a cultura afrancesada tenha se sobressaído em nossa pungente sociedade. Em todo o caso, não tínhamos mesmo por aqui, naquele tempo, nem a peste negra, nem um heróico príncipe de coração negro, muito menos um rei usurpador que casasse com alguma princesa francesa; aliás, nem corte havia por essas bandas... Éramos apenas uns selvagens que viviam na acomodação da natureza, nas crenças e numa arquitetura primitiva.

Por outro lado, tendo em vista que nossos primeiros educadores foram os padres jesuítas, nós nos tornamos pessoas impregnadas pela preocupação em elevar a alma a Deus, procurando a servi-Lo. São Paulo nasce à sombra do infinito poder de Nosso Senhor, sob a qual se adequaram, respeitosamente, as formas institucionais do poder dos homens e suas sedes – primeiro com humildes construções de taipa, depois palácios de alvenaria e mármore. Portanto, bendito seja Padre Manuel da Nóbrega, que trouxe do Arquipélago das Canárias o nosso José de Anchieta; pois, posteriormente, designou-o da Capitania da Bahia para a Capitania de São Vicente.

Ainda que desde 1502 tenhamos expedições por terras paulistas, apenas em 25 de janeiro de 1554 que tivemos instalado no Planalto de Piratininga (peixe seco, em linguagem nativa), pela graça Divina, um colégio para catequese dos indígenas. Os índios eram uns bestiais selvagens que não conheciam a Palavra de Deus!

Anchieta descreveu os primeiros anos do colégio: “Nesta aldeia, cento e trinta de ambos os sexos foram chamados para o catecismo e trinta e seis para o batismo, os quais todos os dias são instruídos na doutrina e operações em português e na sua própria língua”.

Desenho de Debret, sob visão da cidade de São Paulo em 1827.

Esta humilde palhoça, erguida pelos jesuítas, foi a pequena semente que deu origem à megalópole mundial. O dia escolhido pelos bons missionários, para a fundação do colégio, foi o dia da conversão do santo apóstolo São Paulo; este também ficou sendo o padroeiro que deu nome ao recém-inaugurado povoado. Melhor dizendo, o verdadeiro padroeiro para o povo paulista é Frei Galvão; porém, não fosse à perspicácia de José de Anchieta, onde estariam todos os patronos bandeirantes? Portanto, roguemos juntos: não vos esqueceis de nossa devoção, principalmente nas enchentes...

Ensinamentos dentro de uma celeuma de idiomas, dentre os que compartilhavam o castelhano, o português e a língua tupi, dentro de pouco tempo pode se traduzir o catecismo para os selvagens no seu próprio dialeto. Isto facilitou a empreitada dos novos aventureiros, já que os antigos, os índios, eram exímios conhecedores da colina circundada pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Naquela época, não se contavam mais que 30.000 mil pessoas, numa vasta região de planalto com, aproximadamente, 800 metros do nível do mar.

São Paulo, como é da percepção do leitor, vivenciou grandes acontecimentos da vida nacional: a independência, os movimentos abolicionista e republicano, políticas de Estado, greve de operários das indústrias em 1917, revoluções contra as agruras da opressão, para citar apenas alguns eventos. Entretanto, o orgulho paulista é, sem dúvida alguma, serem os maiores responsáveis por alargar as fronteiras brasileiras, perfazendo um território enorme e construindo uma grande nação ou, pelo menos, uma nação grande... Isto só foi possível com o advento das Entradas e Bandeiras.

Um herói. A pose altiva, o olhar penetrante, as armas novas e a roupa impecável; assim são reverenciados os nossos distintos e audazes bandeirantes paulistas. Pouco importa se o desbravador não era branco e sim mameluco, manuseava com presteza tanto o arcabuz quanto o arco e flecha e falava mais tupi do que português; aliás, como a maioria dos paulistas.

A paisagem fantástica na realidade era dramática. Aguerridos homens saiam de São Paulo para floresta atlântica. Um mar de árvores que eram abertos a golpes de facão, e, além disso, os audazes expedicionários eram sujeitados a todas as dificuldades e aos perigos de uma vida selvagem ao extremo.

Diz a velha fábula carioca que tudo não passou de um mito paulista criado no período da proclamação da República, em 1889, e em suas primeiras décadas; pois os cafeicultores se tornaram, a um só tempo, a elite econômica e política do País, sendo assim, o sertanejo bandeirante servia como sugestão histórica de que o poder deveria emanar de São Paulo, já que seu povo era descendente de bravos comandantes natos. Porém, isto pode soar injusto aos ouvidos de quem vive entre a Serra do Mar e o restante do planalto oeste, posto que seja da natureza paulista conduzir o Brasil da ordem e do progresso. De qualquer forma, no século XX, o que era apenas sugestão histórica virou política pública.

Entretanto, tudo seria impossível se estes desbravadores do sertão não tivessem a ajuda dos índios; por sinal, creia meu incrédulo amigo e minha melindrada amiga, por aqui os selvagens colaboraram na captura de membros de sua própria tribo. Bendito sejais os ensinamentos jesuíticos!

Em longas andanças, nossos bravos exploradores aumentaram o território da colônia vencendo os domínios do subjugado Tratado de Tordesilhas. Isto mesmo! Os sertanistas contribuíram para o estabelecimento das dimensões territoriais desta nossa amada pátria; ainda que movidos pelo desejo de sobrevivência. A ocupação dá o direito a terra! Portanto, os bandeirantes são heróis sem terem tido este intuito.

Não obstante, existiu algum tipo de brutalidade e ataques-surpresa onde morriam alguns selvagens. A causa era que o terror evitasse que os remanescentes resistissem. Onde havia missionários, entre as tribos, os índios se refugiavam em suas igrejas. Tentativa desesperada de escapar do pavor bandeirante. Saliento o relato do reverendíssimo jesuíta Antônio Ruiz de Montoya: “Entravam ao som de caixa e em ordem militar (...), destroçando índios à machadadas; os matavam como no matadouro se matam vacas, tomaram por alfaias litúrgicas e chegaram mesmo derramar os santos óleos pelo chão”.

Mas, ora! Indígenas sequer eram cristãos! Deste modo, não me interprete mal, mas decapitações e esquartejamentos perfazem estratégias prosaicas. Inadmissível, porém, apenas a concupiscência carnal dos paulistas deflorando as mulheres dos indígenas. Afinal, o que é a vida perto da honra?

Em todo o caso, não creio ser de intenção dos jesuítas demonizar os sertanistas, posto que muitos religiosos também participassem das bandeiras. De modo que grandes paulistas delinearam a história, e, por que não, o caráter de um país. E é nesta cidade que nasci...

Desenho de Diva Benevides Pinho, sob panorama da Era Cosmopolita.

Tudo que eu já vivi nesta minha breve história pode ser apenas o prelúdio de minha vida... A vida que virá... Sou e sempre serei uma herança dos bandeirantes à cidade provinciana, da cidade à região desenvolvida, da região à metrópole nacional, e, por fim, da metrópole à megalópole mundial. CRESCER, CRESCER, CRESCER...

Por Ricardo Novais

São Sebastião do Rio de Janeiro


Neste dia de São Sebastião, daqui onde moro, vêm algumas reminiscências do ontem. Aquelas lembranças que teimam em visitar as retinas nos dias santos. Hoje é feriado, sempre será, não importa onde eu esteja; é um dia que perfaz o amor que tenho por esta terra de brasileiros.

Do local onde nasci, em São Paulo, uma cidade cinza, eu apreciava todas aquelas pessoas, meus conterrâneos correligionários, que querem a todo custo subir o elevador social numa escalada do sucesso. As consequências são impresumíveis para os que só podem ascender na vida pela escada de serviço; mas, contudo, todos passam um por cima do outro ou, ainda, de quem tiver a infelicidade de estacionar pelos degraus.



Por outro lado, no entanto, havia aprendido também a amar um povo risonho, de braços abertos, no que implica a orla marinha atracando-se com o morro e a colina, pelas insígnias e os títulos de nobreza e as comendas de respeito. Mas todos se banhando no mesmo mar...

Naquela época, comportava-me como um garoto. Pouco para pensar e, ainda por cima, muito jovem para ser feliz. Dos ensinamentos de São Paulo, levei em mim o gosto pelas pílulas de chocolate com café preto sem açúcar; de resto, a escola só me serviu para classificar minha confusão de pensamento na qual se apresentaria pelos caminhos que segui nesta pobre vida.


Deste modo, São Sebastião do Rio de Janeiro, dos “zé-pereiras” e do morro Cara de Cão rondando o aterro do Flamengo, influiu em minha alma adentrando meu coração pela Baía de Guanabara. O lado que ia do Cristo Redentor à Marina da Glória e de lá ao Engenho era minha área; aquela era a minha cidade maravilhosa! Se eu tinha meus limites tamoios na minha terra da garoa, no sentido linear, entre o mar e o maciço Carioca, eu era um autêntico Goitacá em um campo dos goitacás.



Corria atrás das moças da Urca, da Praia Vermelha, do Leme e de Copacabana. Eu bebia no centro, em Santa Teresa, indo descobrir a tradição do Bambo dos Tangarás em Vila Isabel. Percorria a zona da boemia onde Alfredo da Rocha Viana, o Pixinguinha, Afonso Henriques de Lima Barreto e, mais tarde, um certo Vinicius sonharam os amores mais impossíveis; numa esquizofrenia subjetiva pelos bares da Lapa, o teatro e o cinema. Da mesma maneira, andando a esmo pela Rua do Lavradinho, ébrio com outros amigos patuscos, admirando o monumental colonial do Aqueduto Carioca, enfim, sempre à procura de novas peripécias, passando pelo prédio de leitura por causa das estudantes de jornalismo. Admirava as ideias de Roberto Burle Marx rompendo com aquela suntuosidade dos jardins franceses, muitas vezes ambientes particulares e fúteis, e semeando, no Aterro do Flamengo, um paisagismo autêntico, típico de nossas florestas, com áreas e plantas contornadas pela identidade da própria América. Além disso, sem conseguir desviar meu instinto, eu tentava me recuperar na Presidente Vargas - às vezes, num desalento alcoólico, desmaiava em alguma calçada na Rua da Alfândega. Aí aceitava todos os convites atraentes para aventurar-me a subir, na contramão, a Baixada afora, desde as refinarias de Caxias às contentes ruas de Nova Iguaçu e Belford Roxo; aliás, a Baixada Fluminense, talvez aliada ao subúrbio carioca, é forma sintomática do cotidiano operacional, e também social, do Estado Federativo do Rio de Janeiro.


E o cotidiano da cidade perfaz sua sociedade. O Municipal do Rio, tradicional casa da alta casaca, certa vez, viu-se em dificuldade no período da Segunda Grande Guerra; não conseguiam trazer artistas da França, Alemanha ou outro País ordinário da Europa. Sendo assim, não vendo outra saída para conceber seus grandiosos espetáculos, os regentes se renderam as insistentes investidas do jovem compositor carioca Heitor Vila-Lobos, que já sonhava, havia muito tempo, em se apresentar no palco daquele importante teatro, mas não lhe davam chance. Apenas numa sociedade tão controversa poder-se-ia ver surgir, por causa de uma guerra, um maestro tão genial como Vila-Lobos, e mesmo assim teimaram os elegantes nevrálgicos do Rio sofisticado em tecerem primeiras críticas negativas e maledicentes à obra, e a pessoa, do criador do movimento nacionalista musical brasileiro.

O caráter de comédia ridícula desta cidade impregnou-se em mim; ou antes, era minha conduta de traços típicos que casou como luvas em mãos aos hábitos cariocas. Não sei o que houve primeiro... Contudo, minha alma, em essência, é paulista, e nunca tive muito jeito para a contemplação verdadeira da identidade fósmea deste País, o samba. Mas, em compensação, sempre tive disposição para hipocrisia, cerveja, mulher e alegria!

Eu fui bem integrado no folclore e na tradição do Rio. Minha alma fundiu-se com os costumes, as lendas e os mitos da cultura carioca.



Ei-lo o Rio de Janeiro! Que bom que me acompanhou nesta aventura na cidade maravilhosa, meu amigo leitor excursionista e grande companheiro de viagem. Já a dona leitora, “carioca da gema”, que mora em tão deslumbrante pedaço deste grandioso (e grande) País, agradeço pela orientação nesta peripécia. Não me deixou percorrer caminhos muito tortuosos, navegar por mares infestados de piratas ou caminhar por praias onde fosse alvo muito fácil... Tão logo voltarei a esta cidade que tanto amo, que tanto admiro e que é a minha própria identidade. Por favor, amiga querida, quando meu amigo leitor e eu voltarmos solicitarei novamente seus préstimos; não nos deixe a esmo nesta terra de bons malandros. Guie os olhos deste distraído autor, e também os do viajante que me acompanhará, em mais uma fascinante viagem. Grato!


Por Ricardo Novais
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* A arte de pintura que emoldura o texto é do Atelier J.Victtor, artista do tradicionalíssimo bairro de Santa Teresa, cidade do Rio de Janeiro. ** Texto aludido à passagem do livro O Boêmio, Bookess, São Paulo, 2010.

Sonhos que se Realizam...

*João Almeida tinha 12 anos em 1995. Fanático pelo Santos Futebol Clube, acompanhou a campanha de seu time no vice-campeonato brasileiro daquele ano. Ele morava em Brasil Novo, pequenino município do Pará localizado às margens da rodovia Transamazônica. Lá a energia elétrica era gerada através de motores a diesel, insuficiente para atender toda a população.

Durante os jogos do Peixe, João ouvia as narrações de futebol pelo rádio à pilha - provavelmente numa emissora paulista de ondas potentes. Foi assim que sonhou pela primeira vez com um 'Messias', o craque Giovanni.


Giovanni saiu do Pará e foi realizar seus sonhos na cidade grande. Conquistou o mundo!

João Almeida nunca esqueceu de uma noite em que Santos e Fluminense jogaram no estádio do Pacaembu, em São Paulo. A partida, válida pela semi-final do Brasileirão de 1995, foi antológica. O Flu não se entregou fácil, mas os santistas tinham Giovanni, o genial 'G-10'. Ele acabou com o jogo, fez jogadas de talento e saiu de campo exaltado pelo povo. Logo depois o Santos perderia o título na grande final do campeonato para outro carioca, o Botafogo - a 'estrela solitária' desta finalíssima foi o juiz, maldito Márcio Resende de Freitas! Mas, em Brasil Novo, o pequeno João já havia sido encantado pela própria imaginação que tinha de seu ídolo. Passou a ter um único sonho: ao invés de apenas ouvir pelo rádio, ele queria assistir as jogadas fantásticas de Giovanni na televisão; o aparelho ficava inutilmente no meio da sala de sua casa, sempre desligado por causa da falta de energia no município.

O garoto cresceu, casou-se, teve filhos, separou-se e mudou-se para Brasília. Na capital deste país, pela primeira vez em sua vida, ele conseguiu assistir na televisão o seu ídolo jogar, mas com a camisa do Barcelona, da Espanha. Então o seu sonho mudou, começou a imaginar como seria bom se, um dia, ao ligar a televisão, visse o 'Messias' envolto novamente no manto sagrado alvinegro.


Torcida santista no Pacaembu.

Ontem João Almeida estava no Pacaembu. Viu o show do Santos FC contra o Rio Branco, da cidade de Americana, 4 a 0 para o Peixe e destaque para a dupla Paulo Henrique (Ganso) e Neymar. O jogo marcou a estreia do time no Campeonato Paulista - finalmente a bola voltou a rolar neste eterno "País do Futebol"; graças!

Contudo, João chorou. Mais uma 'testemunha de Giovanni'... Quando o treinador Dorival Júnior chamou o 'G-10' para colocá-lo em campo a noite brilhou como que por encanto, uma vez mais no mesmo palco de quase 15 anos atrás. O craque caminhou com sua habitual elegância, cumprimentou o companheiro e adentrou ao gramado. Olhou de relance para as arquibancadas, fitou por um instante a multidão o ovacionando, quis derrubar uma curta lágrima, mas não pode. Sua consciência cerebral não permitiria; em vez disso, tratou a bola com carinho, viu seu pupilo Ganso e tocou magistralmente para ele, que por sua vez não decepcionou entrando na pequena área e estufando as redes num golaço fantástico.

A torcida vibrou emocionada; depois foi indo embora devagarinho, alegre e festiva num Pacaembu maravilhosamente cheio. Todos desejaram que a noite durasse para sempre. João Almeida não foi embora com os outros, ficou alguns bons minutos fitando tudo que os seus olhos pudessem alcançar, agarrado ao filho de 5 anos, naquelas arquibancadas de tanta história. Por certo, ele estava tendo mais um sonho...

Muitas vezes, nos lugares mais longínquos, mais pobres, onde falta saneamento, saúde, educação e energia elétrica, como na cidadezinha de João Almeida, os sonhos mais simples e sinceros se realizam. Um dia, quem sabe, Brasil Novo não fique no escuro e conheça um novo Brasil.

Gols da estreia do Peixe no Campeonato Paulista de 2010:





Por Ricardo Novais
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* Esta crônica tem relação com o Estado do Pará - local que um dia eu gostaria de conhecer, pois, além de ser onde nasceu o genial craque Giovanni, é também o verdadeiro coração da floresta -, do mesmo modo tem pequena inspiração em minhas lembranças do Campeonato de 1995, mas é principalmente uma homenagem ao garoto João Pedro (foto de cabeçalho deste texto), fanático torcedor do Santos FC que faleceu aos 12 anos de idade, no dia 22 de setembro do ano passado. Conhecido por toda a sociedade santista, o menino sofria de epidermólise bolhosa (doença rara de pele) desde o seu nascimento. Ele foi enterrado no Cemitério do Paquetá, em Santos.



À Memória de Uma Humanista

"Todos são filhos do bom Deus e foram criados para as coisas... Mas nunca se detenha". Esta frase é de Madre Teresa de Calcutá, mas recai muito bem sobre a memória do que foi em vida a doutora Zilda Arns, que infelizmente nos deixou vitimada no terrível terremoto ocorrido esta semana no Haiti - este evento da natureza é uma lástima, pois o Haiti já era antes disto um país muito pobre, situado na região do Mar das Antilhas, na América Central.

Zilda Arns foi uma caridosa médica pediatra e sanitarista, fundou e coordenou a Pastoral da Criança, organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ela nasceu no dia 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha, Estado de Santa Catarina, sul do Brasil. Filha de Gabriel Arns e Helena Steiner Arns (a mãe dela era transplantada, talvez este fato, aliado a sua generosidade natural, seja a origem da ferrenha convicção de Zilda na campanha de doação de órgãos), ela era irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo emérito de São Paulo. Viúva, era mãe de cinco filhos. Para chegar até a indicação ao Prêmio Nobel, Zilda Arns percorreu um longo e dedicado caminho. Sua formação começa em Forquilhinha, Santa Catarina, e em 1959 termina o curso de Medicina, em Curitiba. Parte então para suas especializações que envolvem desde a Educação Física a cursos de Pediatria Social, encaminhado-se então a outros cursos de aperfeiçoamento. Sua vida profissional como médica pediatra inicia-se no Hospital de Crianças Cezar Pernetta, em Curitiba, 1955 a 1964, e em 1983 ela funda a Nacional Pastoral da Criança, da CNBB, e estava lá até o incidente catastrófico desta semana no Haiti, onde estava justamente como agente humanitária e foi onde pereceu. Suas participações em eventos internacionais foram diversas, da Angola a Indonésia, Estados Unidos e Europa, Zilda Arns representou o lado bom deste País em viagens, palestras, mensagens, gestos, tudo que tivesse ao seu alcance, ela acompanhou ainda Comitivas Brasileiras a muitos países e levou a Pastoral da Criança para o mundo todo.


Os gestos simples e belos de Zilda Arns mandaram uma mensagem de amor à crianças carentes das comunidades mais pobres do Brasil. Ela fundou e coordenou a Pastoral da Criança, órgão da CNBB.

É notório principalmente o trabalho fraternal e a vida dedicada ao próximo de Zilda Arns, difundindo a felicidade (como conquista, e não como bobo conceito) em todos os Estados brasileiros e nos lugares mais pobres da América. Mulher de fibra e extremamente consciente na política pública social, via o futuro no presente; certa vez disse: "Devemos deixar as miudezas de lado e nos dedicarmos a fazermos, mesmo que por um instante, as crianças alegres, pois, como o amor é a mola mestra da vida, então, consequentemente, formaremos jovens, adultos e idoso saudáveis, em todos os sentidos". Ela era um ser humano tão superior em sua essência que ajudou até os pobres da Argentina. Isto sim é ter senso de caridade, bondade e humanidade. Largando de mão a graça que o momento não é para isto, estaremos sempre juntos, unidos por atitudes sensíveis... Sempre seremos 'hermanos'!

Participou ainda de outros tantos eventos latino-americanos, principalmente apresentando e divulgando o trabalho da Pastoral da Criança. Sua participação em eventos nacionais é praticamente incontável, desde 1994 são dezenas de eventos ligados à Pastoral e ainda inúmeros outros pela pediatria. Tanta dedicação tem seu reconhecimento. Desde 1978, são diversas menções especiais e títulos de cidadã honorária. E da mesma forma, a Pastoral da Criança já recebeu diversos prêmios pelo trabalho que vem sendo feito desde a sua fundação.

Se a preocupação básica do positivismo é a manutenção desta sociedade consumista, superficial e hipócrita, é o pensamento verdadeiramente humano, ou 'revolucionário humanista', que procura uma crítica radical a este histórico de sistema social capitalista cruel e frouxo que evidencia todos os antagonismos e contradições entre irmãos do mesmo gênero. As ações humanitárias e práticas da doutora Zilda Arns coloca em xeque, no campo da perspectiva teórica, o nosso modelo de sociedade como um acontecimento transitório e insuficiente. O desenvolvimento e o conhecimento de si próprio só pode ser conquistado verificando quem se é, em essência - pois não somos a roupa que vestimos, a casa que temos, o restaurante que comemos, o uísque que bebemos, ou o bem de consumo que podemos comprar, a isto talvez possa se aplicar apenas a necessidade, mas jamais a ostentação fútil e desumana. O fato é que somos o que pensamos, o modo como nos comportamos, o quanto trabalhamos em pró de nossos irmãos e, obviamente, a maneira com que manifestamos nossos talentos natos ou expressamos nossos sentimentos mais íntimos.

Mais que prêmio Nobel da Paz pelos serviços prestados à humanidade, a doutora Zilda Arns merece toda a reverência pelo ser humano solidário e sublime que ela foi; escrevo isto - desmascarado que estou neste momento tão introspectivo - com uma curta lágrima testemunhando possíveis caminhos do amor sincero e, quiçá um dia, de também poder ser um bom pastor nesta vida.

Pela morte da boníssima Zilda, por todos os mortos neste terrível terremoto que ocorreu num lugar onde mora um povo já tão machucado e exaurido pelas inúmeras guerras e pela arrasadora pobreza - o devastado (em todos os sentidos) país do Haiti - estamos todos dando-nos as mãos, brasileiros pobres e ricos, num luto oficial (e incontido)!



Charge do Fausto.


Por Ricardo Novais
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* Pesquisa: Biografia de Zilda Arns

Fantasmas da Cidade de São Paulo

Das inúmeras lendas da cidade, dentre as muitas que constam no ideário popular, descreverei uma que minha tia-avó, dona Maria, realmente, não cansava de contar. Era uma velha fábula, que tantos antigos já contaram, mas que farei chegar a algum leitor da Romênia ou da Mongólia; acaso haja algum leitor deste blog por lá... A história é a do terrível assassino da assombrosa Praça da Bandeira, em São Paulo.

O caso mais célebre que se inclui naquele lugar é, por certo, o famigerado Edifício Joelma. Eis que em fevereiro de 1974, vitimado por um catastrófico incêndio, o prédio se consumiu em chamas que mataram muitas pessoas. Há muitos relatos de vultos apavorantes, vozes gemendo e clamando por socorro, dentre as quais as treze almas que jamais foram identificadas. Mas esta história eu deixo para que minha amiga leitora conte, é que ela conhece fatos marcantes à humanidade muito melhor que este desabonado autor. O que deitarei nas linhas abaixo é o relato de um crime ocorrido neste exato local amaldiçoado, nascedouro do rio Itororó, que percorre as encostas de São Paulo e também ronda pela imaginação de muitas pessoas produzindo grande espanto.

Incêndio catastrófico do Edifício Joelma (atual Edifício Praça da Bandeira), século XX, Praça Da Bandeira, São Paulo-SP.

Segundo dona Maria, os indígenas já achavam que toda aquela região era habitada por maus espíritos, o 'Vale do Mal'. E ainda na primeira metade do século XX, no mesmo terreno onde se deu a tragédia do Joelma de décadas posteriores, havia uma casa de bela fachada branca e bem ampla lembrando um palacete francês. Moravam naquele paço um jovem químico, sua mãe e as duas irmãs, que herdaram do pai morto os direitos fiduciários de algumas “apanhadeiras de café” e uma criação mirrada de animais em Sorocaba.

Desfizeram-se de quase tudo no interior e mantiveram, basicamente, o Palacete do Rio Itororó. Este patrimônio era bem de família, portanto, árdua a tarefa de dilapidar entre os pares.

Constava dos autos, no entanto, apenas a partir do momento em que a família desaprovou um namoro encolerizando o jovem químico. Porém, assim que desceu do bonde que o levara ao Paço da República, este rapaz resolveu vingar-se de sua própria família.


Bonde que circulava na região central da cidade no século XX.

Deliberou então, mesmo titubeante, a assassinar toda sua estirpe. Apaixonado e demente, o crime monstruoso suprimia seu problema de vez e galardoava o desagravo. Naquele tempo, as conveniências eram diferentes, a injúria e ofensa feriam a honra. Todos sabem que, um dia, a honra já valeu algo... Bem, em todo o caso, depois que ele cometeu a grave delinquência penal, com todas as agravantes dolosas, decidiu-se por bem, ou pelo mal, que deveria se livrar dos vestígios incriminatórios.

Assim sendo, o jovem deliberou jogar os corpos desfalecidos e trucidados num poço artesiano nos fundos da casa que ele mantinha para suas pesquisas de homem das ciências. Sacrificou neste ato um pobre cavalo, retalhando-o as partes, atirando grande quantidade de cal virgem e outros produtos dentro do poço, por cima da chacina. Isto foi um momento de lucidez, pois a intenção dele era disfarçar o odor e as consequências do crime, contudo, um “abelhudo” vizinho de chácara desconfiou. O “abelhudo” denunciou-lhe ao delegado. Alguns dias depois, nesta época as autoridades demoravam a chegar ao ambiente que se deu o crime, mas o criminoso também demorava por fugir e, às vezes, nem fugia, no entanto, a polícia compareceu ao local e descobriu tudo, os corpos ou o que havia sobrado deles - consta, inclusive, que no resgate aos corpos retalhados um bombeiro morrera vitimado por infecção cadavérica -, os produtos químicos, correspondências que incriminavam o morador e, assim, deu voz de prisão ao suspeito. Ele, por sua vez, não ofereceu nenhuma resistência; abalado e paralisado, apenas chorava muito. Bendita tradição da personalidade dualista dos paulistas!

A chefatura policial bandeirante amarrou o ardiloso químico, por precaução já que estava imóvel, colocando-o no tílbure dos pracinhas. Conduziram-no até a única delegacia pública de toda a região, a escolta contava de todas as treze patrulhas do esquadrão e mais alguns de cavalaria. Por aqui a cavalaria não era a segunda ordem social como foi, na Idade Média, na Inglaterra, mas, em São Paulo, detinham de algum prestígio como bravos, fiéis, generosos e defensores dos oprimidos.

O delegado instaurou inquérito, e, quando o concluiu, entregou-lhe ao Ministério Público que fez a acusação formal, a tutela jurisdicional acolheu a denúncia, o processo teve andamento extraordinário dado a publicidade do fato para todos os paulistas, que ainda não eram tantos milhões. O caso foi a júri popular. Naquela época o processo crime não era tão moroso, fosse pela envergadura ilibada dos cidadãos ou ainda pela população não transpor além-Pinheiros e riacho de Santo Amaro.

Posto que no dia do julgamento, os doutos desembargadores, providentes, dispensaram seus belos animais da arte da equitação. Todavia, eles tiveram a inteira disposição outros meios de locomoção fornecidos pelo Estado para ampará-los.


Tribunal de Justiça de São Paulo (atual Secretaria de Justiça), que localizava-se no Pátio do Colégio. Este lugar é também a célula originária da cidade de São Paulo.

O réu foi sentenciado e condenado à pena capital do cadafalso, por homicídio de três criaturas que receberam o sacramento do batismo da Santa Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho do Bom Deus; ainda qualificado pela crueldade, pelo matricídio, emprego de meios artificiosos e cruéis, posse irregular de produtos químicos, motivo torpe e fútil, que ameaça aos cidadãos cristãos batizados e tementes a Deus.

Foi designado como local da execução o estrado do Largo da Misericórdia. Consta também que foi um dos últimos enforcamentos ocorridos naquela arena. Este evento foi testemunhado por todos os bons e honrados munícipes presentes, o ato e o efeito alcançado se cumpriu: punir crimes contra a fé do Santo Senhor.


Largo da Misericórdia (atual Praça da Liberdade), este era o cadafalso onde se executava condenados à morte.

Porém, ilustríssimo leitor, talvez, numa conjectura, possamos dizer que o julgamento pode ser considerado brando. Depende do ponto de vista. Quando o crime ocorreu estava em vigor o Código Penal da República de 1890. Mas somente a partir de 1940 as leis penais ficaram mais rígidas, então, seria possível que o embasamento jurídico para a condenação fosse ainda mais rigoroso; não obstante que é árdua a tarefa de conceber uma pena mais severa que a morte.

Por obra do tempo, não se tem ciência de nenhum documento registrado e autenticado por escrito nem dos Atos Públicos e nem das Solenidades. No entanto, incluí-se num dos primeiros casos de repercussão noticiosa da tradicional, atenta e pungente imprensa paulistana; que, desde o tempo do francês que dava as notícias a cavalo e soando uma corneta, sem muita ocorrência incorpórea já naquela época, esbaldava-se vendendo jornais para as casas nobres e burguesas.

Pois que de fato sensível, temos uma cidade habitada por muitos fantasmas e muitos locais mal assombrados. Que o Senhor nos livre da Praça da Liberdade e do Vale do Mal!


Por Ricardo Novais
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* Este 'conto-crônica' é uma ficção, com personagens e datas inexistentes e/ou inventadas pelo autor, levemente inspirado num fato real, conhecido como Crime do Poço, acontecido no ano de 1948 e que consta em uma passagem do livro O Boêmio, de Ricardo Novais, Bookess, 2010.

Olá, Querido Bogue!



Suspeitam que entre meu blogue e eu há um romance. Nego! Somos apenas bons amigos, trocamos somente palavras.

Muitos dos senhores blogueiros e das donas blogueiras fazem de seus blogues verdadeiros casos de doentia paixão, ou de amor sincero e irrestrito - às vezes, também, escrevem com ódio, como se postassem querendo assassinar as palavras ou o idioma.

Um blogue que se preze é o grande antagonista de seu autor - pois a própria palavra que o define já indica a sua função: blogue, do originário marítimo-britânico weblog, quer dizer web + log; ou seja, registradas como um diário de bordo, só que de forma virtual e cronologicamente inversa. É o encontro com os fantasmas interiores de quem escreve, frente a frente, vindos surgindo linha após linha.

Claro que os leitores e seus comentários são importantes, mas estes valem mais como a valorização da reflexão e do sentimento atrelado a vaidade do blogueiro. Mas o ato indescritível de escrever, de colocar em um texto todas as ideias que consomem os pensamentos, é confessionário da própria intelectualidade, a desmistificação da própria cultura (como conceito de povo), é, do mesmo modo, o saber que ainda não veio, a vida que ainda não se realizou, é o que ainda está por fazer, em potencial, irrealizado.

Ó, blogue tão querido; a janela para o mundo e também a porta que fecha-se sozinha dentro do próprio quarto verve e escuro.

Neste caso específico, meu blogue e eu temos mesmo apenas uma relação de amizade; destas que não se afetam por paixão alguma. É que amigos sabem que serão sempre amigos. Pois compartilhamos momentos presentes e também os eventos passados que ficam na memória e conjecturamos a vida futura que sobrevoa os sonhos. Palavras que me dão força, que sempre está disponível ao lado para um consolo, nas conquistas, nas derrotas, nas horas boas e nas horas difíceis.

Verdade que amigo que é amigo nem sempre pensa do mesmo jeito, por isto, às vezes, eu abro mão de uma ou outra palavra ou vírgula, retiro uma ou outra linha que não se encaixa no modo conciso e efêmero que se dão as relações na internet - pois, afinal de contas, o meu blogue também tem a sua casa no mundo virtual da internet.

Mas é neste blogue, em nenhum outro lugar, que posso deixar todos os meus segredos, todas as minhas emoções, e alguma compreensão... Ele é diversão! Conto com ele sempre que preciso. Temos algo em comum! Ainda que de vez em quando pareça que nem mesmo nos conheçamos, aí ficamos algum tempo sem nos falar... Mas logo passa. Sinto saudade, mesmo quando quero dar um tempo, então engulo minha arrogância e dou a preferência. Fico com ciúmes dele, mas nossa amizade não se acaba mesmo que conheçamos outros amigos - o twitter, o caps, o fotoblog (que não é blogue!), os livros, etc. Enfim, é o meu blogue que me faz blogueiro!

E por que? Isto não sei explicar, simplesmente escrevo.


Por Ricardo Novais

Réveillon: Esperança e Tragédia

Poucas vezes se viu na história deste País o senso de identidade humana alcançar o seu ideal, ou ao menos chegar próximo dele, como na tragédia ocorrida em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, neste réveillon. Temos nossas mãos sujas de lama e barro erguidas para os Céus numa esperança quase cética de esperança.

Talvez, querendo dissimular a própria hipocrisia, seja pelo fato, irretratável, de que apenas pessoas desprovidas de recursos sociais (e financeiros) - ou seja: pobres - morram soterradas na lama neste País; ou também porque muitos dos nossos queridos "moralistas" 'midiáticos' passem seus 'réveillons' em Angra, o mesmo local de uma catastrófica peça de comédia da vida real que une dores essencialmente humanas mais que qualquer outra, seja ela sociológica, filosófica, sentimentalista ou para os 'sensíveis' programas de Tv.

Este acidente terrível da natureza terá um culpado? Perguntas deste tipo 'pipocam' a todo instante em todos os meios de convivência. As pessoas tem direito ao livre acesso às praias, como podem existir praias privativas então? Um esbraveja que o desastre do réveillon foi uma resposta a uma agressão à natureza. Outro chama a atenção para o crime contra o meio-ambiente e que a Constituição Federal, nossa maior Carta de direitos e deveres, define as praias como bens públicos e de uso comum.  

No entanto, este trágico episódio, tão sintomático para o cotidiano brasileiro, são aqueles casos em que quem detém muito dinheiro, e a influência que este acarreta sobre as outras pessoas, fazem comprar tudo, ou quase tudo, como morros de 'boas vistas', encostas estratégicas, praias paradisíacas, etc. Além de fazer construir decks à beira-mar, pousadas luxuosas em locais estrategicamente construídas para ricos fúteis e uma verdadeira indústria de divertimento e entretenimento ordinário que não visa nada mais que o lucro com glamour abundante.

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, lamentou o episódio de Angra dos Reis e alertou que a tragédia estava anunciada. Ex-secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, o ambientalista afirmou que a ocupação das encostas na região é antiga e que a resistência em mudar o quadro urbanístico ajuda a piorar o problema. "Nossa briga sempre incluiu uma política que modificasse essa ocupação desordenada. A gente derrubava tanto casas populares como mansões clandestinas que ocupavam encostas, mas ainda é difícil mudar a realidade", disse ele numa entrevista no início da tarde de sábado, um dia após o deslizamento da encosta. "As pessoas desrespeitam a natureza, mas um dia ela se vinga", afirmou.

De férias em Iratu, no litoral da Bahia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou ao vice-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, e lamentou o ocorrido. Durante cerca de 15 minutos de conversa, Lula ofereceu apoio irrestrito no resgate e busca de vítimas do deslizamento no litoral fluminense. A ajuda do governo federal partirá do Ministério da Integração Nacional e da Marinha. Ontem, o presidente telefonou ao ministro da Integração, Geddel Vieira, para fazer o pedido. Geddel suspendeu as férias para prestar ajuda e aguarda levantamento para repassar os recursos às áreas atingidas.

Nenhuma autoridade sequer prestou atenção aos personagens da tragédia. As cenas marcadas pela ousadia, seja na exposição da humanidade comum que define a fragilidade de sua condição não importando a classe na qual esteja inserida, na análise dos erros que cometem a arrogância prepotente, colocando um papel dramático frente a frente com os analistas de conceito burguês e desfasado, símbolo de uma época. O povo também serve de mote para diversas reflexões que faz a respeito de seu modo desenfreado e consumista de se viver, do que é o poder, a felicidade enquanto conceito, e também o azar.

Haviam pessoas de várias partes do Brasil em Angra dos Reis naquela fatídica sexta-feira. As mortes também sensibilizaram 'artistas' que escolhem a região para passar a festa de fim de ano. Pela internet, muitos deles relataram que o clima de forte chuva predominava no dia 31. O casal Luciano Huck e Angélica, 'analistas midiáticos siameses' postou frases no twitter antes da virada do ano: "Hoje vamos colocar nossa melhor roupa de mergulho branca". Um dia após a tragédia, escreveram suas mensagens imbecis de solidariedade à população da região onde ocorreu o deslizamento.  

2010 já inicia como o ano que já é morto e todos os outros vários anos que nos antecederam, sempre com a hipocrisia rondando nossa falta de identidade autêntica. Resta-nos lamentar a morte de nossos irmãos que foram varridos pela lama deste País num momento de tanta esperança interior tão comum a espécie humana. Até quando as mãos enlameadas erguidas aos Céus tentarão segurar sem sucesso as mãos frágeis dos mais desesperados?




Por Ricardo Novais