Olha aí... O Sambista Elegante

Imagem de divulgação.

Bem ali na Nossa Senhora de Copacabana, mais precisamente entre a Siqueira Campos e a Figueiredo Magalhães, é onde fica o ateliê de Walter Alfaiate. Três máquinas Singer sibilaram mais de 50 anos ininterruptamente, diz a lenda corrente no bairro onde também era conhecido como 'Walter Sacode'. “Aos 13 anos, me ofereci para aprender o ofício. Desde pequerrucho, sempre gostei de bordar com as meninas. Futebol tinha muito homem.”, era o que se ouvia das inúmeras histórias que o folclórico sambista, que infelizmente nos deixou ontem, contava risonho e com jeito afetivo.

Nas paredes da alfaiataria, entre tantas fotos, duas são especiais: a da filha Maria Cláudia e a do Botafogo campeão de 1957 “após 6 a 2 no pó-de-arroz”, como dizia o malandro. Malandro dos bons tempos, herdeiro direto da boa tradição criativa e popular da zona portuária. Foi um filho autêntico e brilhante do Rio de Janeiro.


Sambista clássico, foi diretor de harmonia dos blocos Funil, Sem Rival, Repolho Roxo, Gaviões. Conviveu com os bambambãs: Bagulho, Mauro Duarte, Jair Cubano, Pica-Fumo, Zorba Devagar. Tempos idos e nunca esquecidos que proporcionaram a primeira parceria com Paulinho da Viola e Aldir Blanc: “Botafogo Chão de Estrelas”, um clássico.

Walter Alfaiate tinha um estilo de mudar o ritmo constantemente e um belo vozeirão característico. Produziu, sem dúvida, alguns dos mais belos sambas brasileiros e foi um dos mais folclóricos sambistas dos tantos que já floresceram no Rio de Janeiro. "Olha aí":

"Bateram em minha porta", cantou o velho malandro elegante. Quem bateu vestia um manto sagrado com as cores do Botafogo, ele abriu e o levaram...


Por Ricardo Novais

O Valor do Voto


Charge, "Seu próprio Sombra", do genial cartunista Ique.

Este é ano de Copa do Mundo; todos os corações se inflamam e se alegram. Mas este também é ano importante de eleições para presidente da república, senadores da república, deputados federais, e nos governos estaduais e suas câmaras legislativas; todos os cérebros se fundem à ética e à moral.

Mas qual é a virtude do voto? Se não foi o meu voto quem elegeu o atual presidente... E principalmente, eu não votei em José Roberto Arruda, o governador afastado, atualmente preso e com o mandato ameaçado de impugnação, do Distrito Federal sob acusação de formar um esquema (com muitas pessoas, inclusive aliados políticos dele) para arrecadar dinheiro de propina, conhecido como mensalão do DEM, partido visto como de visão centro-direita. É de ver a constrangedora cena de pastelão cabeluda propiciada por este cidadão careca...

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Este mesmo Arruda, quando era líder do senado no governo FHC, isto no já tão desmemoriado ano de 2001, juntamente com o jaz senador Antônio Carlos Magalhães, negou enquanto pôde envolvimento no escândalo da violação e fraude do painel do senado numa votação para cassação de mandato do ex-senador Luís Esteves, este último também produto candango.

“Não tenho bens pessoais, não tenho cultura, mas tenho honra. Meu filho carrega o meu nome.”, defendeu-se Arruda, com base nesta oratória veemente, no palanque do senado federal, naquela ocasião.

Uma velha doutora o desmascarou, dias depois ele retornou aquele mesmo palanque político, reconheceu o próprio indecoro e renunciou ao mandato para escapar de um processo de cassação dos direitos políticos que lhe deixaria inelegível por muito tempo. Mas como um homem infiel à honra do próprio filho que carrega o seu nome, dissimulado e pérfido publicamente pode ter sido eleito governador de Estado anos mais tarde? E ele ainda estava cotado para ser vice na chapa do candidato à presidência José Serra nas próximas eleições... Será que ele é? Corta o cabelo dele, corta o cabelo dele, corta o cabelo dele. Hum...

O voto de massa é inútil ou atende um grupo manipulador de opiniões. Por exemplo, não fosse a presteza da Princesa Isabel, ou a pressão sofrida pelos imperiais, a sociedade brasileira da época jamais teria declarado a abolição da escravatura, pois de nada interessava aos homens atuantes daquela sociedade e seus direitos de propriedade.

O valor do voto da maioria é tão somente conveniência. Apenas um homem que declara sua liberdade com relação aos direitos e às suas obrigações pode ter consciência do bem-estar da sociedade.

As eleições políticas surgem como um jogo inútil ao povo e perfazem, como dito, conveniência política, de classe ou de pensamento; e, como todo jogo, há também apostas. E o risco inerente numa aposta está intrinsecamente ligado ao cavalo que disputa o páreo. Qual a virtude dele? Correr e chegar à frente do outro.

Nesta nossa sociedade há muitos defensores da virtude, mas poucos virtuosos. Homem virtuoso é aquele que tem senso de consciência, é aquele que conhece a si mesmo e sabe do que é capaz. Quantos cidadãos têm consciência de quem realmente são neste país?

Por que, então, eu deveria me submeter à vontade da maioria sem consciência e que reduz seu direito de voto a escasso senso de justiça?

Do Distrito Federal e dos principais Estados da Federação vêm o burburinho que estão escolhendo o próximo candidato à presidência da república, barulho formado nomeadamente por jornalistas e marqueteiros políticos. Mas que importância tem isto para qualquer homem consciente e virtuoso?

A sociedade vive manifesta ausência de intelecto e alegre exuberância consumista.

O valor do voto recai sobre os escravos do governo, os demagogos aproveitadores, os hipócritas defensores da virtude e os cidadãos sem consciência; o voto destes homens tem o mesmo valor de um estrangeiro irresponsável ou de um empresário desonesto.

Não me parece dever de ninguém corrigir qualquer injustiça, por mais cruel e assombrosa que ela seja. Mas é dever do homem se abster de patrocinar tal injustiça ou de apoiá-la nos ombros de outro homem.

Aos brasileiros que, como diria Thoreau, “tem uma espinha nas costas que não se deixa dobrar” o voto nas próximas eleições de nada vale.

O próximo presidente pode ser um careca, ou serão dois?

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Por Ricardo Novais

Cachaça Corintiana

Imagem de divulgação.
Na mesa do bar, ao lado de amigos corintianos, eu me sentia um peixe fora d’água. Não pelo fato do Santos estar jogando na mesma noite de sua estreia na Copa do Brasil, mas sim porque não havia jeito de entrar em sintonia com o pensamento daqueles gaviões.

Estava lá por amizade, pelo chope gelado em noite quente e por certa curiosidade cômica do fracasso. Eu poderia estar em casa, vendo muitos jogos de uma só vez, mas não; aceitei o convite boêmio e vi o Corinthians estrear na Taça Libertadores da América 2010. Digo que não gostei do jogo, mas gostei da noite... Sorrisos, vibração, preocupação, empolgação e alívio. Pobres uruguaios, se ainda fosse o Nacional ou querido Penãrol vá lá, mas o modesto Racing não conseguiu segurar o ímpeto alvinegro.

À medida que eu ia emergindo no álcool, mais complicado ficava entender o esquema tático de Mano Menezes. Confuso, embora os jogadores estivessem bem posicionados, não havia movimentação de várias peças alvinegras em campo. DeFrederico jogou mal, Ronaldo foi muito marcado e Jorge Henrique ficou preso na disciplina do treinador gaúcho. Logo no primeiro ataque da partida o Racing fez 1 a 0, pequena satisfação de alguns no bar (confesso que empolguei-me um pouco, apesar de nunca ter ido à Montevidéu e não saber vibrar em espanhol), mas, repentinamente, instaurou-se grande frustração do lado preto e branco. Era de ver o rosto dos corintianos naquele boteco; não sou leitor de expressões faciais, mas era notório que passava um filme na cabeça do torcedor: uma mistura de esperança por ser apenas o primeiro jogo desta tradicional e cobiçada, porém tecnicamente fraca, competição sul-americana, em ano de centenário do 'time do povo', e leve preocupação pela reminiscência das campanhas do Corinthians na Libertadores do ano de 2006 e, principalmente, de 2003.

Quando Theco deu excelente passe, de letra – aliás, ao contrário do que se via quando o jogador atuava defendendo o clube da Vila Belmiro, lá ele trançava as pernas e caia –, Elias recebeu a bola e empatou. O burburinho do bar deu lugar à histeria. O Jogo prosseguiu; nada de alguma tática e técnica; diverso disto, a peleja era ruim de assistir. Passei a ingressar uma conversa impensável sobre política, depois sobre a geografia dos Estados do norte deste país – será que o Acre existe? Qual a distância de lá até o Amapá?

Quando do início do 2º tempo, eu já sabia que o Corinthians ganharia. Todos ali sabiam. Mas futebol é apreensão. No entanto, os mais conscientes perceberam e preocuparam-se, Mano Menezes mexeu errado no time, reposicionou Jorge Henrique ainda mais para trás, e sobrecarregou o ataque com outro jogador de pouca mobilidade, o centroavante Souza. Ronaldo, que passe o tempo que for continuará genial, saia mais da área para buscar a bola – ele parecia querer relembrar os seus tempos de ‘fenômeno’. Mas o jogo continuava ruim. Antagonicamente, no entanto, foi por este momento que saiu o gol da virada corintiana. Que categoria! Souza, sim, Souza passou bola primorosa e Elias, novamente, estufou as redes uruguaias. 2 a 1, e vamos parar esta escrita por aqui que o resto não vale a pena o sacrifício de memória.

Concluo que deveria ter ido para casa assistir o belo futebol do Santos – embora, diga-se, o Peixe não jogou bem, 1 a 0, em Campo Grande-MS, e não eliminou o jogo de volta pela Copa do brasil; o próximo duelo peixeiro é justamente o clássico contra o Corinthians, domingo, pelo Campeonato Paulista. Ah, minha nossa! Tive agora uma lembrança esparsa. É que por falar em Copa do Brasil, no jogo do Atlético, o atacante Obina, por coincidência que casou-se como luvas em mãos à conversa sobre geografia travada nesta mesma noite, provou que o Acre existe mesmo! Ele fez todos 5 gols da classificação atleticana de 7 a 0 contra o pobre do Juventus de Rio Branco, ou seja, além de agora sabermos que o Acre existe (de fato e não somente nos mapas), ainda há lá capital, habitantes e até estádio de futebol. Os 'políticos' do botequim exaltaram-no: "Obina sim, é o homem mais importante do mundo!" Mas, tornando à minha aventura boêmia entre os gaviões, penso, tentando compreender a causa e a razão deste meu desvio de comportamento, que eu poderia ter ido assistir o Flamengo, que também estreou na Taça Libertadores, ou, quiçá, como última alternativa, ir dormir mais cedo... O sono é bom conselheiro, apesar de ser péssimo patusco. Quem sabe eu devesse ter ligado para aquela garota de recepção que me deu o telefone, ou ido a internet twittar sobre a baleia assassina que matou sua treinadora ou, ainda, conjecturar os próximos passos do prisioneiro Arruda. Enfim, eu poderia ter feito muitas outras coisas, não fosse o fato do Corinthians ser a ‘cachaça do futebol'; não obstante eu não aprecie muito cachaça.

Por Ricardo Novais

Homem Positivo


Foto: CAIO AMY/FotoRepórter/Estadão.

Quando Augusto Botelho nasceu foi admitido como servidor da humanidade. Criança alegre, seus pais logo se voltaram à sua educação; “menino alienado”, veio-lhes a preocupação. No dia seguinte ao debute de seus 15 anos de homem, Augusto foi iniciado no sacerdócio de seu inevitável destino. Dedicou-se ao estudo de muitas ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral. Contudo, foi um jovem em contato com a vida de sua verdadeira vocação.

Por infortúnio, seu pai morreu de alcoolismo. Sua mãe, desgostosa, suicidou-se; ela julgou ter direito a isto. Seu tutor o violentara diariamente, apenas aos 21 anos livrou-se do martírio. Achou graça nas pesquisas de sua vida, algumas vezes correu atrás da sorte grande... Augusto era elegante, como era; era vaidoso, como era; era como o cão passeando pela calçada à procura de algum osso, ou o soldado de guerra à procura de algum pescoço para cravar-lhe uma facada ou de alguma cabeça para decepar-lhe o cérebro.

Embora ele ainda não soubesse bem qual seria, nem se deveria acreditar em Deus, nos homens, na ciência ou na ordem, aceitou o seu destino. Rapaz refinado, Augusto Botelho faria tudo pela sua raça e o progresso dela. Casou-se com Maria Floresta Augusta, como regra geral. Não foi feliz, mas a cônjuge foi; não pode se divorciar, e Maria não teve filhos.

Reconhecido sua viuvez eterna, ainda era jovem e foi tratar de sua missão sonhando com a sua própria incorporação à humanidade. Desgraçadamente achou-se o mais melancólico, amarelo, desvirtuado e falso de todos os homens sob à face da Terra. De todo modo que ele tinha medo de não ser incluído à humanidade.

Já velho, Augusto Botelho passa então de seu trabalho ativo, ou mesmo passivo, para viver como conselheiro, auxiliando a sociedade a qual pertence com sua experiência.

Apreciando o conjunto da existência objetiva que se acaba, passou ele a registrar suas impressões finais daquilo que poderia se transformar em uma parcela subjetiva do Grande-Ser. Iniciou, com consciência digna dos grandes cientistas, o culto de seu próprio enterro. Por um momento achou tudo perdido, sem jeito de melhora e duvidou do tal progresso no qual manteve as esperanças desde quando ainda era um menino. Porém, em seguida, recuperou a serenidade e fez o que tinha que fazer: preparar o próprio velório. Não pode fazer, no entanto, sem derramar uma única e longa lágrima; não se sabe ao certo se a lágrima era de tristeza ou mesmo de alegria, os rios de seus olhos foram-se com ele.

Finalmente Augusto foi incorporado à humanidade: 7 anos depois de sua morte, ou transformação, teve julgamento de sua memória de morto. Ainda não se sabe se será morto considerado digno de ser incorporado definitivamente à humanidade, mas, como esta sociedade é bastante antagônica, seus restos mortais foram conduzidos a bosque sagrado, em sepulturas conjuntas com seus entes queridos. Seus discípulos afirmam que este bosque sagrado circunda o templo da humanidade.

"O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". E do fim, creio que estão escrevendo algo por aí nestes salões de sociedade; já este meu texto que também está no fim de sua linhas, por ora, não vai mal. De modo que corrija ou elimine, caro senhor leitor e querida amiga dona leitora, tanto lá como cá, o que sentir vontade ou julgar ruim. Parece que a ciência não gosta muito da prosa com a religião, então, apostemos em nossas próprias convicções e que tenhamos opinião firme; rogando sempre que a nossa boa ciência conserve e aperfeiçoe a humanidade... Mas que o nosso bom Deus também nos perdoe!

Por Ricardo Novais







Futebol de Alma


Botafogo venceu o Vasco por 2 a 0 e levantou a Taça.

Dizem que numa colina da cidade do Rio de Janeiro existe uma alma vagando condenada a sempre regressar à Terra. Às vezes a morte desta alma é trágica... Por outro lado, há coisas que só acontecem com almas guerreiras.

Eu apostei no Vasco para vencer a final da Taça Guanabara, venceu o Botafogo por 2 a 0 no velho 'Maraca'. Mas o Vasco é imortal! O Botafogo é time de guerreiros! O craque vascaíno Carlos Alberto declarou antes da batalha: “Vencerá o jogo aquele que tiver aquilo ‘roxo’!”.

Este é 'Clássico da Amizade', observação de um cronista muito antigo vendo que as duas torcidas eram fraternas; outros tempos... Hoje em dia são rivais, o Botafogo agora soma 82 vitórias e fez 421 tentos no inimigo; mas, em contrapartida, o Vasco venceu mais: 138 vezes e marcou 501 gols; isto em 314 jogos até hoje. Ainda empataram em 90 disputas. A história do confronto data de 1923, é um dos clássicos mais antigos do Brasil.

Na batalha de ontem, em contraponto ao esquema tático confuso do treinador do Vasco, o 'professor' Wagner Mancini (sim, ele mesmo, como um santista poderá esquecer-se de tal fanfarrão?), fincaram uma cruz na história a garra do uruguaio ‘Loco’ Abreu, a magia de ‘Papai’ Joel e simplicidade de soldados botafoguenses gloriosos. Uma única estrela, genial, marcial... Uma maravilhosa ‘Estrela Solitária’ brilha no céu de milhares de cariocas nesta noite. Parabéns Botafogo Futebol & Regatas, ‘herói em cada jogo’! Bi-Campeão da Taça Guanabara com todos os méritos de quem não pode perder, perder pra ninguém. Agora que venha a Taça Rio para sabermos quem o alvinegro de General Severiano enfrentará em sua quinta final consecutiva de Campeonato Carioca...


Reabilitado com a torcida, o atacante Roger fez os dois gols do Clássico Choque-Rei.

Enquanto isto, no Palestra Itália, o Palmeiras também foi guerreiro e derrotou o São Paulo, 2 gols do atacante Roger, no ‘Clássico Choque-Rei’ (apelido dado pelo jornalista Tomaz Mazzoni, do saudoso jornal 'A Gazeta Esportiva'), o jogo de hoje foi válido pela 10ª rodada do Paulistão.

O São Paulo parecia estar com a cabeça no seu confronto da Taça Libertadores contra o Once Caldas, em Mane Salles, na Colômbia. Jogou mal e viu a vantagem histórica no clássico ameaçada, agora são 97 vitórias palestrinas e 101 tricolores; o Verdão está a apenas 10 gols de alcançar a marca dos 399 tentos que São Paulo marcou em cima do rival; ainda houveram 96 empates; isto tudo num total de 294 pelejas até a partida de hoje.

Hum... Antigamente havia uma lenda de que se jogadores de futebol quisessem se unir derrubariam qualquer comandante. Emblematicamente, logo no jogo seguinte em que o técnico Muricy Ramalho foi demitido, os atletas palmeirenses jogaram contra o São Paulo com a vontade das almas gloriosas. Embora eu não goste da ‘escola’ dos técnicos gaúchos (tido como futebol de garra e resultados em detrimento ao que é concebido como futebol arte), o treinador foi injustiçado por uma diretoria que lhe havia dado crédito incondicional. Muricy não é gaúcho, mas o esquema tático que ele utiliza é desta ‘escola’ – estilo simplório e de poucas opções ofensivas. Entretanto, a Sociedade Esportiva Palmeiras é tradicionalmente futebol de toque de bola cadenciado, mais ao estilo romântico do futebol carioca do que do jogo truncado do sul deste país.


"Operação Flanela".

Outro clássico que me chamou a atenção foi o de ontem no Mineirão. Galo e Raposa se enfrentaram, deu Cruzeiro 3 a 1. Muita reclamação atlética para com a arbitragem, como já havia ocorrido ano passado onde cartolas do Atlético acusaram a Federação Mineira de Futebol de formação de quadrilha.

A torcida azul foi muito espirituosa ao provocar os alvinegros. Aludindo ao Brasileirão do ano passado, onde o Atlético esteve na zona de classificação para a Libertadores da América 2010 durante quase todo o campeonato cedendo a vaga nos jogos finais exatamente para o arquirrival Cruzeiro, milhares de torcedores cruzeirenses foram ao Mineirão tremular flanelas amarelas nas arquibancadas. Esta partida já adentrou à história da crônica esportiva mineira com o sugestivo nome de ‘Operação Flanelinha’. Resta agora torcer para que o técnico do Galo, o polêmico Vanderlei Luxemburgo, flagrado dando uma banana para a torcida do Cruzeiro, suprima o rancor que carrega em seu peito da diretoria do Palmeiras, por causa da sua demissão do time verde em 2009, e dedicar-se com mais coração puro ao Galo.

O jogo Galo x Raposa, o Super-Clássico, marca 191 vitórias alvinegras e 155 glórias cruzeirenses; o Atlético ainda marcou 679 gols contra 573 do Cruzeiro. Estes números costumam oscilar conforme a fonte (esta que citei é da própria Federação Mineira de Futebol), entretanto, os dois maiores rivais do Estado de Minas Gerais (antigamente era Atlético x América ou Galo x Coelho) concordam que os alvinegros estão em franca vantagem; embora, nos últimos anos, o time celeste tenha alcançado mais sucesso nas batalhas.

A fantasia pertence à alma, e o futebol é a exaltação dos espíritos em campos de batalha. A essência escondida num baile de máscaras disputado num gramado de quatro linhas.


Por Ricardo Novais

Ataque das Formigas

Havia um criador de formigas no interior de São Paulo revoltado com o governo. Quanto mais ele investia no cultivo de formigas, mais lhe cobravam impostos.

Cidadão respeitador, sempre pagara suas obrigações em ordem. No entanto, vivia a pensar: “Este país não dá o devido valor ao bem medicinal que proponho com minhas formiguinhas!”.

Diziam-no tolo, quando não louco, mas ele via naquela ciência o arbítrio que arrola a razão humana. “São todos cegos, é a cegueira da falta de razão”, assim julgava ele a todos os seus críticos.

Viveu deste modo singular durante 20 anos, sempre cumprindo suas obrigações de cidadão brasileiro. "Ordem e Progresso", também este era o seu lema. A sua vida quase toda foi em honra a este lugar e a este povo; e às formigas, claro!

No entanto, como verdadeiro homem lúcido que prevê as desgraças de tempos em tempos, percebeu que o montante de suas dívidas vieram, devagarzinho, sobrepor-se às suas convicções. Pior: chegavam já a ameaçar a vida de suas formigas. Passou a condenar seus credores, via neles o comportamento que se erige em verdade absoluta e, em nome desta, cometiam distorções inaceitáveis.

O governo era seu maior credor, ele devia impostos altíssimos. Impotente diante de tal monstro, ele articulou um plano popular que vencesse um exército convencional. Contudo, universalmente os homens são ordeiros, mas têm julgamentos particulares e mudam de bando, portanto, difícil recrutar soldados para tamanha revolução. Foi, então, que decidiu ser o general de um exército de formigas.

Como comandante e também comandado do próprio batalhão, estrategicamente, viu-se num plano ousado. Não que ele quisesse desagradar os patriotas, coitados! Mas ele já não acreditava em ninguém e em mais nada; e cá entre nós, meu amigo leitor, se não são os crédulos os mais criativos? Portanto, este homem cético, porém sonhador, resolveu atacar a base do órgão de imposto de renda do Estado.

Este conspirador, de quem aqui conto a história, serviu à aeronáutica em tempos passados, os tempos nervosos do ‘Araguaia’. Piloto mediano, ele tinha lá seus contatos dentro da instituição das forças armadas.

A noite veio, dormiu. Antes de o sol ameaçar a lua, as formigas já estavam dentro de uma caminhonete verde muito antiga e grande rumo à São Paulo. Viajou quase 500 km exaustivamente. Chegou à capital paulista às 13h58min. Foi direto para o Campo de Marte onde cumprimentou um dos únicos homens sob à face da Terra que lhe devia alguma coisa nesta vida; ora, o suborno é uma coisa muito agradável! Adentrou à aeronave com todo o seu ‘material de guerra’. Fez reverência ao outro oficial que lhe ajudara no préstimo do avião e decolou. Sobrevoou por 40 minutos o centro da cidade, olhou o frontispício da Catedral, do Edifício Altino Arantes, mirou no prédio da Fazenda e colidiu à altura do 5° andar. Houve grande explosão!

Morreram em batalha as dívidas do comandante e junto com elas os seus sonhos; feneceu também um cartorário que acabara de declarar os bens; e, desgraçadamente, do exército das pobres formigas sobreviveu apenas uma. No socorro aos feridos, um oficial dos bombeiros ainda comentou ao colega: "As formigas são mesmo traiçoeiras e corruptas"... O outro ponderou: "E resistentes!".

FIM.

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O conto que acabei de narrar é pura ficção, mas, às vezes, as pessoas se revoltam tanto contra as autoridades e, de fato, ousam contra seus algozes. Assista abaixo a matéria de um evento trágico ocorrido ontem no Texas, Estado Unidos, com um cidadão desiludido com o próprio país e desgostoso com as regras da sociedade:



Por Ricardo Novais









Botafogo no Coração


Foto de Celso Pupo.

O 'Império do Amor' virou cinzas. Os atacantes foliões flamenguistas Adriano e Wágner Love passaram o Carnaval com 'Fogo' na cabeça. Ontem, no velho 'Maraca', o Botafogo fez cinzas rubro-negras numa virada histórica nas semi-finais da Taça Guanabara, válida pelo 1º turno do Campeonato Carioca.

O Flamengo parecia mesmo estar, literalmente, na ressaca de Quarta-Feira de Cinzas. Embora tecnicamente superior ao rival, faltou raça e vontade de vencer do Glorioso de General Severiano.


Desde os anos de 1960 este confronto é conhecido como 'O Clássico da Rivalidade', mas nos últimos anos o confronto ficou ainda mais acirrado visto que os dois fizeram jogos decisivos e importantes. O clube da Gávea tem 119 vitórias e marcou 515 gols contra o rival; já o Fogão tem 104 glórias em cima dos rubro-negros e vararam as redes do inimigo 482 vezes; há computado ainda 108 empates. Ao longo da história do duelo são registrados 330 jogos até a noite de ontem.

Justamente na batalha de ontem, primeiro marcou o Fla, um gol bem no início do jogo, mas o Botafogo empatou ainda no 1º tempo, tento do guerreiro Marcelo Cordeiro.

Quando a primeira etapa caminhava a passos largos para o seu final, o árbitro Luís Silva dos Santos se enrolou. Ele marcou uma falta inexistente de Fahel em Vinicius Pacheco e mostrou cartão vermelho ao botafoguense, que já havia levado amarelo. Porém, após reclamação dos alvinegros, principalmente por parte do experiente Lúcio Flávio (que recebeu vaias da torcida antes e durante o jogo), o 'juizão' voltou atrás, reconsiderou a expulsão de Fahel e, inacreditavelmente, deu cartão amarelo a Fábio Ferreira, que nada fizera no lance.

Foi aí que o conservador, porém competente, treinador Joel Santana provou que tem estrela. Olhou para a velha prancheta 'mágica' e viu a jovem estrela Caio, de 19 anos. "Ele é um filho iluiminado!", exclamaria Joel ao final da partida. E 'Papai Joel', como o técnico é conhecido entre os boleiros, explicou o seu esquema ao pupilo igual um pai orienta a um filho, sacou Lúcio Flávio e pôs o garoto em campo. Não deu outra: A 'Estrela Solitária' brilhou na noite quente do Maior do Mundo, Caio marcou o gol da classificação. Ouvia-se das arquibancadas: "Caio é o novo Nero, colocou fogo no 'império'..." O Maracanã, com pouco mais de 40 mil testemunhas, presenciou, na segunda semi-final da Taça Guanabara o Botafogo vencer o Flamengo, numa virada histórica, por 2 a 1. Agora o Glorioso fará a final, em dois jogos*, contra o Vasco da Gama.

Na outra semi-final disputada no sábado, neste mesmo 'Maraca', na agonia dos pênaltis, o Vasco já havia derrotado o Fluminense, no 'Clássico dos Gigantes'. Os números deste confronto: Vascão 129 vitórias, 503 gols; Flu 110 vitórias, 466 gols; 95 empates; em 334 jogos entre os dois rivais.


Primeira página do jornal esportivo Extra, do Rio de Janeiro.

Quem diria que o 'velho lobo do mar', Joel Santana, lançaria o herói da noite: Caio, meia-atacante que em 3 jogos fez 3 gols. Mágica que nem mesmo o carnavalesco Paulo Barros, vencedor do Carnaval do Rio pela escola de samba Unidos da Tijuca, ousaria em pensar.

No entanto, como há coisas que só acontecem mesmo ao Botafogo, no domingo, no jogo da finalíssima da Taça Guanabara, eu sou bem capaz de apostar que o Vasco será o campeão. De qualquer maneira, quem se sair melhor neste jogo já estará automaticamente na final do Campeonato Carioca; e se vencer a Taça Rio também, correspondente ao 2º turno da competição, nem precisará fazer os jogos da final derradeira, consagrar-se-a campeão direto.

Aos rubro-negros restam se recuperarem de algumas 'ressacas' para encararem, já na próxima quarta no Maracanã, o primeiro jogo na Libertadores da América 2010. Espero que sem 'fanfarronices imperiais'...


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Já que estou apostando no Vasco na final da Taça Guanabara, cá entre nós esqueçamos as contravenções, mas animei-me a fazer uma fézinha no jogo do bicho. Deixa ver, Unidos da Tijuca não vencia o Carnaval desde 1936, o Botafogo finalmente derrotou o Flamengo... Hum... É pavão na cabeça!


Por Ricardo Novais

* (A final da Taça Guanabara é disputada em jogo único, como corrigido pelo caro amigo Zatonio Lahud).

Carnaval, exuberância de corpos

As Musas do Carnaval, pintura de Marcos Anthony.

O leitor superficial conclui que o Carnaval é um evento fútil, não é. Ora, se esta também é festa religiosa que transfigura-se em tradição pagã, como dizer que não há ao menos certa proficuidade histórica?

Talvez, festa tão excêntrica, faça parte dos mecanismos que comandam as ações humanas, sejam eles de natureza espiritual ou decorrentes da ação que o meio social exerce sobre cada indivíduo.

Por outro lado, a dona leitora bem sabe, a exuberância de corpos atléticos e o culto à silhueta modelada estão extraordinariamente representados nesta grande festa popular. O Carnaval é a alegria do povo, mas do povo que exibe seus corpos magros e malhados ou daqueles que assistem encantados o desfile destes. Veja se não te parece, leitor, que estão ali representados todos os planos e sonhos do que a sociedade gostaria de ser? Se não em essência, ao menos em aparência - pois que o corpo é a porta de entrada de todos os outros aspectos das relações inter-pessoais. A 'Ordem e o Progresso' perfazem-se, hodiernamente, numa ilusão da mente no qual se situam fenômenos psíquicos latentes de um indivíduo; almeja-se um modelo estético que se encaixe nos moldes uniformes do que se convencionou a olhar como belo e saudável - caso contrário, por mais sucesso que se faça nas outras áreas da vida, a pessoa se sentirá 'anormal' e fora dos padrões sociais, e isto implicará, necessariamente, na sua infeliz existência desgraçada. Por isso os psiquiatras, terapeutas, cirurgiões estéticos (principalmente os que tem habilidade para cortes no corpo humano, em cirurgia plástica ou de lipoaspiração e outras similares que interferem sensivelmente na auto-estima), vendedores de anabolizantes (legalizados ou não) e donos de academia de ginástica devem ser os cidadãos que mais enriquecem no Brasil. Haja atividade ocupacional, abdicação do prazer gastronômico, dietas alimentares rígidas, exercícios à exaustão, suplementos para aquisição de massa muscular, medicamento para absorção do excesso de gordura, anti-depressivos...

Este nosso 'templo vaidoso' julgou que Platão estava errado quando ele conjecturava que o belo era o bem e a verdade existente em si mesmo, apartada do mundo sensível, residindo, portanto, no mundo das ideias. Vemos que o que agrada tantos hoje em dia é um conceito, que pode mudar de tempos em tempos, de ode ao corpóreo (no sentido dado por Descartes). Ou então por que ficaríamos horas a fio atrás de um trio elétrico ou de um tambor ensurdecedor, tão alegres e contentes, aguardando a felicidade que ainda não veio? Ora, pela cerveja? Mas se esta não é efeito colateral daquele... Creia, queremos ver os corpos desnudados e perfeitos a desfilar diante de nossas retinas fascinadas.

O mundo inteiro cultiva o corpo. Já no século passado iniciou-se tal processo... Penso naquela questão machadiana: O que vemos são os pés do outro século ou a cabeça deste que vivemos? Sou pela cabeça, como sabe.

Mas isto pouco importa, se este mundo é tão pelo cultivo ao corpo, este nosso povo brasileiro também vive diante de um espelho enorme...

Mas povo este que guarda tesouros exuberantes, diga-se. Nem mesmo Rousseau, pai do civismo moderno, poderia entender o estilo de vida brasileiro. Deste modo, como jamais me interessei por entender trâmites de sociedade alguma, basta a mim, portanto, descobrir as riquezas escondidas nos cantos da alma. Sigo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta digressão o porque de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, que eu gosto mesmo é do Carnaval. Sou típico produto deste; sou bem hipócrita, como sabe.

Não se espantes, pois se Carnaval é o maior espetáculo da terra... Sou mísero ator. Não eu quem digo, incrédulo amigo, mas para tantos outros “caras-de-cão” que habitam nossas avenidas... Esta minha tradição, que de geração em geração, impede que haja cordão de isolamento entre foliões embalados por velhas marchinhas carnavalescas ou qualquer outra boa farra, faz-me integrante do enredo. Não existem ricos nem pobres, nem nobre, burguês ou operário. É festa de todos! O caboclo desfila como rei, o cortesão como astronauta, o médico como louco, pois se os sãos estão doentes e estes sadios. É um grande bailado de fantasias, pode-se definir o Carnaval como um baile alegórico da própria vida; vida vivida e depois morrida, não encantadoramente sonhada.

Deixem-me submergir na alegria demente e contente... Grande Carnaval! Prometo que depois volto à minha honradez e disciplina de homem de respeito! Daí, juro-lhe, censurarei com firmeza o Carnaval. Carnaval? Ah, mau gosto, eu não gosto de Carnaval! Festa da lascívia! Exclamarei aos quatro ventos. Ainda direi que lembra-me loucura, como em 1917... naquele movimento revolucionário que eclodiu na Rússia derrubando a monarquia. Aquilo foi Carnaval que iludiu toda uma corte! Assim como foi a regeneração do regime Nazista, que tão enganoso cultivou o holocausto e uma guerra estúpida; ou o 'Terror' de cabeças cortadas pela oposição entre os girondinos desejosos da república e os Montanheses aspirantes à unitária democrática, isto na França; ou mesmo, por aqui, a 'Guerra em Canudos' do sagrado Antonio Conselheiro. Juro-lhe, amigo leitor de moral e sua digníssima senhora, direi que tudo é uma grande fantasia; dorme-se um rei e acorda-se um pedinte. Por essas e outras, senhor leitor, que eu não gosto de Carnaval; tais palavras reconfortadoras sairão de minha boca amarga, ainda que meus desejos digam outra coisa.

Faças como eu, caro amigo folião: Não me preocupo em como recuperar o respeito, pois se a Quarta-Feira de Cinzas é o enterro desta prazerosa promiscuidade... Enterro da alma ou do corpo? Não sei. Em qualquer dos casos enterra-se o cérebro, visto que este órgão está nas duas entidades e não corre-se o risco que se salve.

Mas vamos com calma! Só me pronunciarei contra o culto ao corpo depois da folia de minha alma; afinal, também eu sou brasileiro filho de Deus... E na terra de Deus só podemos pensar, sopesar e agir depois do Carnaval.

Por Ricardo Novais

A Letra do San-São


Meninos da Vila

Robinho começou o clássico contra o São Paulo no banco de reservas. Mas a garotada do Santos já estava jogando o fino da bola. o zagueiro tricolor Miranda cometeu falta tola, pênalti. Neymar cobrou com paradinha, um lance plásticamente maravilhoso, e o goleirão Rogério Ceni foi para um lado e a bola para o outro indo parar nos fundos da rede.

O lance lembrou o garoto Chaves brincando com o fanfarrão Kiko, num dos inúmeros e repetitivos episódios exibidos do seriado da televisão mexicana. Compare os lances geniais:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.


Alguns deram muitas gargalhadas da cobrança ousada do pênalti, outros disseram que foi humilhação a um goleiro tão consagrado. Mas os torcedores ficaram radiantes naquelas acanhadas, porém confortáveis, arquibancadas do estádio da cidade de Barueri (sim, este maravilhoso duelo foi disputado lá, uma afronta à história de um dos clássicos mais tradicionais do futebol paulista, o 'San-São', apelido dado pelo sublime cronista Thomaz Mazzoni, do saudoso jornal 'A Gazeta Esportiva' - os números agora marcam 86 glórias para os Peixeiros e 123 vitórias Tricolores, 66 empates, num total de 274 confrontos entre os dois gigantes.


Neymar foi um dos personagens principais em mais um capítulo do Clássico San-São

O jogo de ontem à tarde, que ajudou um pouco a povoar as lendas deste clássico, foi muito disputado. O Tricolor empatou e jogava melhor o 2º tempo, quando Robinho, o 'rei das pedaladas', entrou aos 12 minutos. Entrosamento perfeito com os 'Meninos da Vila'. Ele mesmo sempre será um dos 'Meninos', voltou para sua velha casa e deu mais uma letra da história que quer continuar a contar no clube da Vila Belmiro.

Se Robinho marcou um golaço, Neymar, Ganso, Wesley e cia., jogam o melhor futebol do Brasil hoje, por outro lado, o Tricolor tem problemas visíveis em alguns setores, principalmente no ataque. Embora seja um time fortíssimo, parece um pouco perdido e não me parece culpa do treinador Ricardo Gomes; a meu ver, falta peças ao São Paulo. Talvez na Libertadores, com alguns reforços, o time se encaixe; a estréia é nesta próxima quarta contra o Monterrey, do México, no Morumbi. Veremos...



Ele Voltou pra casa! Robinho marcou golaço de letra no San-São.

Se o Santos FC vai ser campeão absoluto deste ano, eu não sei. Mas que está dando gosto assistir aos seus jogos, ah, isto está. Depois de ver os Meninos da Vila desfilando futebol arte nos gramados, os outros jogos ficam tão sem graça...


Por Ricardo Novais

Minha adorável namorada extraterrestre!

Foto: Rui Lemes.
"Bárbara, eu achava graça nas maluquices desta garota; ela dizia acreditar em seres de outros planetas. Irritava-se, verdadeiramente, quando eu contestava a veracidade dos casos; e ela repetia com tanta insistência, que, por vezes, acreditei serem reais:

- Mas, querida, “ets” não existem!

- Como não? No Apocalipse, o apóstolo João descreve que, num certo momento, Jesus está com ele e, de repente, é levado às alturas. João, num lance quase de excitação, começa a ver imagens que nunca tinha visto antes em sua vida. Era uma espécie de aves metálicas aparentando pesar uns quinhentos bois, mas consegue, como mágica, se sustentar no ar. Ora; este pode ser um dos primeiros registros em que um homem viu uma nave espacial...

- Ah, Bárbara! “Meu”; seres extraterrestres não conseguem se transportar para outras galáxias; que eu saiba, ser nenhum consegue. É impossível! Não é? – eu a achava espirituosa, mas permanecia incrédulo.

- Veja só! Como você explica, então, o caso daquela senhora, aqui de São Paulo, que morreu sem o rosto?

- O quê?

- Uma senhora, já idosa, foi encontrada sem rosto dentro de casa. O delegado que presidiu o inquérito policial disse que a face dela estava sem a pele e a carne. Apenas o crânio reluzente e branco. E o mais esquisito: totalmente limpa. Não havia vestígio nenhum, de sangue, de nada. Nem na cama ou no travesseiro. Além disso, a blusa branca que usava não aparentava marcas, nada. É muito estranho...

- Pode ser um assassino macabro...

- O delegado declarou: “Descarto a hipótese de assassinato, mas não do sobrenatural” – ela sorria sinistramente.

- Mas o rosto foi recortado sem derramar gota de sangue?

- Sim; e com precisão cirúrgica. Retiraram toda a carne ao redor...

- E por que um ser alienígena faria isto?

Bárbara fazia breves instantes de silêncio, porém, quando falava atemorizava até os mais incisivos incrédulos, como eu.

- A senhora morta estava muito velha e necessitava de cuidados especiais. Ela passava seus dias na cama. No dia do estranho acontecimento, à noite, perceberam que ela estava imóvel na cama. Chamaram, não houve resposta. Desesperados, saíram para chamar ajuda. Alguns policiais deram mesmo um grito de pavor...

Eu achei engraçado, quis dizer algo, mas ela não deixou:

- No exame necroscópico, os legistas responsáveis do Instituto Médico Legal, afirmaram que uma pneumonia bilateral e um choque séptico foram as causas da morte da pobre senhora, e que sua face teria sido comida por roedores...

- Está vendo; então foram os ratos ou, ainda, pode ter sido algum ácido – eu constatei para o desprazer de minha amada.

- A versão médica foi questionada pela polícia e pela família. Disseram os filhos da vítima não haverem ratos por lá. O delegado disse, também, ser a versão da perícia muito cômoda, pois que ratos deixam marcas, e o rosto dela parecia ter sido cortado com a ajuda de um bisturi. E depois de horas da morte, o corpo ainda permaneceu quente. Médicos americanos, chamados a dar opinião, igualmente discordaram do laudo que atestava os roedores como causadores do recorte do rosto.

- Então foram alienígenas?

Bárbara deu de ombros, em seguida, com muita espiritualidade, filosofou:

- Mais uma vez, as perguntas ficam no ar... Quem teria cometido tamanha monstruosidade? Vingança? Experiência alienígena? Algum ritual macabro? Nunca poderei saber. A verdade sobre este caso foi coberta por terra vermelha batida, e está numa quadra qualquer, de um conjunto ordinário, de um cemitério simples; local onde, agora, descansa a senhora sem rosto.

Na realidade, não era possível verificar se Bárbara acreditava mesmo nestas coisas. Mas que ela se divertia contando, ah, isto sim, como se divertia.

Neste momento, inclusive, recordo-me dela narrando, com extrema teatralidade, o caso de um cadáver que foi encontrado nas areias da zona praieira da região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro.

Dizia ela que foi passar férias por lá, num verão que já vai longe, e ouviu os “populachos” relatando a morte de um homem cujo corpo não tinha gota de sangue, e na altura do pescoço havia estranhas perfurações.

Sobre este caso, algumas testemunhas, contundentes, acusaram a uma loura, usando meias de lycra pretas, que rondara o local nefasto. Outras pessoas afirmavam ter visto a tal loura correndo semi-nua pela praia e desaparecendo nas águas.

Por mais incríveis que possam parecer os depoimentos, e apesar do descrédito geral, as mortes se seguiram. Primeiro uma menina, em seguida turistas tiveram pescoços dilacerados e seus corpos dessangrados.

Sendo assim, Bárbara jurava que as autoridades locais enviaram homens para patrulhar as praias e capturar a sereia assassina. No entanto, alguns patrulheiros foram brutalmente mortos e o restante da turma tiveram as pernas e os braços esquartejados. Corpos e partes de corpos espalhados ao longo da enseada. Os sobreviventes não tinham nem idéia do que havia os atacado. Disseram, apenas, ser uma mulher grande, pálida, olhos felinos, vermelhos, longos cabelos louros e dentes arreganhados. Os relatos indicavam que o monstro parecesse com uma criatura feminina, andava semi-nua e tinha apenas um seio.

Nas mãos de um dos mortos foi encontrado um amuleto, uma espécie de machado, manchado de sangue. Este amuleto é semelhante aos das lendárias amazonas, índias guerreiras que habitavam – ou ainda habitam, sabe-se lá – a região do rio de mesmo nome e assim batizado em homenagem às mitológicas mulheres guerreiras da antiga Grécia. A-ma-zo-nas!

Quando contestada sobre como e por que índias guerreiras da floresta amazônica deslocar-se-iam para a região dos lagos do Estado do Rio de Janeiro, Bárbara desconversava. Mudava logo para outro assunto macabro; como o do sacristão abduzido em plena Praça Mauá, na capital carioca, ou sugeria o quão terrível os exames que alienígenas impõem aos seus capturados em suas naves espaciais metálicas. A vergonha, o descrédito e mesmo a falta de conhecimento fazem com que as pessoas se calem; ela afiançava a mim estas coisas, sorrindo e beijando-me.

Bárbara se comportava comigo sempre assim, surpreendente. Nunca se sabia o que ela diria, o que faria, o que acreditava (se é que ela acreditava em algo nesta vida), e, sobretudo, qual seria seu humor. Ela mostrava-se uma mulher instável; mas devo confessar que isto era apaixonante. Não a via mais como um “casinho” de amor, ou apenas com olhos lascivos; já era mais do que isto. Aquela bela garota carioca, apimentada, olhos misteriosos, sedutora, também inteligente, convincente, temperamental, voluntariosa e indisciplinada, provocava-me com uma espécie inidentifícavel de 'ethos' de natureza emocionante.

- Por que você nunca fala aquela frase... de três palavras que perfazem toda a oração?

- Qual?

- Aquela frase mágica que os casais dizem entre si...

- Mas qual é?

Eu sabia qual era; não a dizia por graça, ou talvez por certa prudência demente. Mas, por fim, fascinado pelos encantos arrebatadores daquela garota, acabava capitulando:

- Eu te amo!"

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Caro leitor risonho e leitora adoravelmente incrédula, este texto não teve a pretensão de descobrir alguma verdade metafísica ou de além-humanidade, nem mesmo refletir sobre ela. É apenas um pensamento, quase uma sátira infantil, ingênua. Acredite!

Mas é notório que a tecnologia humana já é maior que sua responsabilidade, caso esta exista.

A ideia conjecturada da existência de vida de seres extraterrestres não me parece interferir nos desígnios das diversas dimensões espaciais. Já o homem, por outro lado, conhecendo sua natureza, tenderá por certo a uma grande dominação, manipulação, guerra, agressão e ao materialismo das dimensões a qual ele nem mesmo pertence. Pobres seres de outros planetas...

Quem sabe se houver, um dia, um crescimento espiritual antes do domínio tecnológico o homem poderá integrar-se de fato à vida em outras dimensões - mas repito, somente se houver responsabilidade.

Penso, contudo, que nesta sociedade humana atual isto parece impossível; como sabe.

Por Ricardo Novais