Tratado das Futilidades


"A Familia Imperial", por Alberto Henschel.

Este nosso século é menino ainda. E a meninice gosta da superficialidade, da curiosidade e dos defeitos alheios. Aí está a causa de as maiores audiências da TV no mundo serem de programas que bisbilhotam a vida dos outros, os denominados reality shows. Vejo por estes nossos salões e mesmo na internet os que querem tratar do conceito desta praga do “politicamente correto” por intermédio deste tipo de programa televisivo. Fosse apenas entretenimento... Mas não, teimam em desenvolver verdadeiros tratados de sociologia em cima de relações aparentes e estereótipos. Este século se distingue, sem dúvida, do século passado, e este também não se encontra com outro mais antigo, aquele em que viveu a família Real.

Não vamos tão longe, as linhas são poucas para tanto tempo já morto. Fiquemos apenas no Rio de Janeiro de Jorginho Guinle. A futilidade e o glamour eram atrelados às festas da alta casaca, à sofisticação tola e à balofa cultura geral. Jorginho jamais desenvolveu nenhum processo de criação, em nenhuma área sequer; contudo, era de dar inveja a qualquer cavaleiro culto e polido.

A feição não era má, nem boa. Tipo diminuto, não era Jorginho o encanto físico que atraía as damas daquele período refinado. Ah, mas ele era um Guinle. Mais que isto, era esperto. Na prática, menos rico que outros industriais; nos modos, Jorginho era tão milionário quanto qualquer de seus amigos filhos de industriais americanos ou franceses. Com olhar aludindo o próprio colorido das águas da Baía de Guanabara, ele conquistou as mais belas mulheres de seu tempo apenas com sua elegância e requinte. Às vezes, com extrema fineza, apenas dizia: “Quer passar alguns dias comigo na melhor suíte do Copacabana Palace, madame?”. Noutras dilapidava a fortuna da família unicamente para ter uma noite em agradáveis lençóis de uma bela dona da sociedade; não censuremos ato tão fidalgo, os presentes eram caríssimos... Além do mais, cada um tem lá suas paixões na vida; os primeiros Guinle, por exemplo, apreciavam construções de suntuosos palacetes. Tudo na vida têm suas compensações; no caso do glamour imobiliário, os cartolas da elite carioca sacrificaram o Fluminense Football Club. O que é a paixão, não é mesmo distinta senhora leitora e digníssimo senhor leitor?

Jorginho Guinle dilapidou a herança de sua família, perdeu até o Copacabana Palace. Ele foi de um século onde os “barões do café” comandavam as ações desta república. Todo café passava pelo porto de Santos; e a quem pertencia a Companhia Docas de Santos? Sim, naturalmente; aos Guinle. Não seria muito afirmar, portanto, que o mais notável ‘playboy brasileiro’ em todos os tempos foi um homem do século perecido.

“O século XX é o meu século!”, Jorginho gabava-se. Não se é possível imaginar uma vida ociosa daquele tempo dentro da sociedade celerada e instantânea destes tempos hodiernos, o nosso tempo, tempo dos reality shows; deste que é apenas o início, pois ainda há tantos séculos pela frente... Como há tantos já decorridos.

Todavia, ainda há uma coisa mais intrigante, como imagina o amigo leitor que datava suas cartas pelo prefixo “mil novecentos e bolinha”. Havia também naquele passado, nem tão longínquo, um homem diverso do nosso Jorginho. Zé do Galo não recebeu herança alguma, não seduziu as mulheres mais bonitas do arraial onde vivia e muito menos possuía fazendas de café. O pobre diabo saiu do interior fluminense porque, talvez como Drummond, não quisesse ver “as montanhas serem desmontadas” por causa do progresso que explorou a natureza. De modo que veio para a cidade grande trabalhar no recém criado 'parque industrial da república', labutou entre máquinas com gosto e afinco. Teve filhos na nova sociedade e alcançou o sucesso financeiro. Consta, entretanto, que o Zé fosse vencedor funcional. Não criou nenhum processo de aprimoramento profissional, nem foi líder do que achava correto. Talvez nem pensasse nisto. Foi um cordeiro encantado, feliz chefe de família.

Zé do Galo também é um homem de outro tempo, o século XX; mas ele não conheceu Jorginho Guinle. São duas vidas que não se reconhecem, porém, não obstante a isto, são iguais em quase tudo. No sonho esquematizado, na convicção de regras, na adestração dos costumes; naturalmente no choque de mundos. E se aquela época não cabe nesta é porque a imaginação é restrita.

Tudo é estranho aos modernos. Os antigos, por sua vez, podem procurar algum pensamento que lá trás deixaram... não encontrarão nenhum. A pergunta deveria ter sido feita no início do texto, mas como nenhum leitor a fez ou ela tenha chegado a este distraído autor muito anemicamente, agora o saldo é a resposta. O caso todo das futilidades, entre a aparência passada e a superficialidade atual, é que o século XX não conheceu nenhum reality show próprio do nosso tempo, e este também não olha para trás... Pensando bem, remanescente à monarquia, percebe-se que o futuro não gosta muito da finura que não tomou conhecimento.

Por Ricardo Novais

Craque das Palavras

Foto: Patrícia Kappen/G1

Foto: Patrícia Kappen - G1

Hoje o velho 'Maraca' tem a última crônica de um craque das palavras. Morreu a poesia inserida no futebol, morreu um dos mestres que criam das tribunas jogadas geniais. Morreu o cronista Armando Nogueira.

Se quiser chorar, torcedor, chora. A perda é grande; mais que isto, o dano é irreparável. Lá se foi o nosso Armando procurar algum vôo mais alto, mas olhando para baixo em busca de um lance arguto ou de um artista da bola – de preferência que surja lá para os lados de General Severiano.

Pensando melhor, não, não foi a última crônica do craque. Talvez esta tenha sido apenas a melhor delas, a mais bonita, a que transforma a morte na melhora da vida. Ele sabia disto, cronistas sempre sabem... Possível que alcançasse alguma esperança de enterrar alguns velhos atores do Maracanã. Verdade que a escrita de Armando Nogueira seria formidável para consagrar os momentos que virão no futuro que aguardamos com ansiedade. A Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos, os Campeonatos Brasileiros, as partidas da Taça Guanabara, enfim, os eventos esportivos serão mais pobres daqui para frente.

Nevrálgicos por certo levantarão máculas próprias de suas ideologias ao poeta, acusarão homem de texto tão sublime por faltar-lhe coragem "denuncista" e ridícula quando esteve à frente do JN nos "anos de chumbo" – também eu não ajudaria intelectuais covardes a formarem "jovens terroristas". Além disto, esta é hora de reverência. Deixemos o velho craque das palavras ir-se, deixemo-lo ir falar ao mágico Garrincha e ao intempestivo Heleno de Freitas, ir tecer com os outros cronistas geniais que voam por tribunas do olimpo eterno. Creio que, antes de chegar a quietude do São João Batista, o último pedido seja: “Cuidem do meu Botafogo!”




Por Ricardo Novais

Tribunal do Júri

Gravura de arquivo do TJ-SP.

Um amigo de ideias amplas, embora já bastante convicto, perguntou-me no Twitter: "Quem é que vem lá?". Respondi que achava ser um astro da MPB ou algum artista de novela.

- Vá! Seu pensamento assim parece desmerecer nossa promotoria de justiça, comparando-a com instrução jurídica de artes circenses...

- Oh, não! Não penses isto – respondi-lhe em 140 caracteres; não acredita, caro leitor, pois então conte os dígitos. – Fiei e admirei de tão valoroso espetáculo. É grande pesar o nexo causal ser por fundamento tão doloso... É pena! – Lamentei deste modo até pessimista ao tuiteiro otimista e contente.

É que toda a história deste julgamento feito por júri popular de crime contra a vida de inocente infante estava já por mim prevista, tanto que no domingo passado, antes mesmo das explanações e interrogatórios, dediquei-me à leitura das posturas que se agitavam nos dias de Platão e Aristóteles.

Conjecturei, seguindo as ideias pregadas na antiguidade clássica, resignar-me em meus próprios pecados. Entendi que a república inteira deveria acompanhar o meu exemplo. Finalmente, naquele domingo, acatei que o perdão é mesmo dom divino... Dormi. Acordei na segunda-feira e fui aos meus afazeres, estes que já tomam algum tempo de minha cidadania.

Pra semana, imerso numa curiosidade que compreende bem a situação e não alcança nem se embala com esperanças frívolas, observei um repórter de TV perguntar a um popular muito raivoso que encontrava-se na frente do tribunal e manifestava-se contrário aos réus daquele julgamento:

- O que o senhor anseia aqui?

- Vingança! – Ops, creio que ele tenha dito: justiça.

- E, na opinião do senhor, o que leva um pai a matar o próprio filho?

O pobre homem não estava esperando tal pergunta; ele estava ali para protestar, protestar era o seu oficio. De modo que ele pensou, pensou, sopesou e não achou reposta apropriada:

- Rapaz, verdade. Eu quero justiça, por isto estou aqui... Mas, rapaz, o que leva um pai de família a destruir esta mesma família? – Em meio àquelas reflexões, ele exclamou desolado por fim: "Rapaz do Céu!"

Pareceu-me que depois desta entrevista o manifestante tenha ido embora para casa; afinal de contas, todo mundo tem família e seus julgamentos particulares para cuidar; concordas comigo, amigo leitor?

Como resultado da reflexão, da leitura dos autores clássicos, a república vai caminhando para a plenitude da justiça e democracia... Ao menos foi isto que declarou aos quatro ventos o célebre promotor do Ministério Público, seus correligionários paladinos da virtude, a neutralidade do magistrado, a defesa arrasada e toda a pungente imprensa.

Contudo, facilmente no decorrer da leitura do aresto, constatou-se que o destino envolve o homem para onde soprar o vento; mas não culpemos o destino, desgraçadamente somente cumpre o seu ofício; também não culpemos o vento, este é apenas um subordinado daquele.

Todavia, se há um julgamento e uma decisão, deverá lá, da mesma maneira, haver um culpado. No entanto, a dona leitora ponderada bem sabe, não há nada absoluto no gênero humano, de modo que nada justifica amar nem odiar. Só nos resta a indiferença, o ceticismo e, às vezes, a lembrança do passado.

Ah, claro, resta-nos – além de tudo, e entre risos, lágrimas e fogos de artifício – a comemoração pela desgraça alheia ou a justiça de uma sociedade. Talvez, a Copa do Mundo... Talvez.

Por Ricardo Novais

Minas Gerais é Galo, Uai!


Foto: Site Oficial do Atlético.

Zé do Galo tem orgulho de sua influência e inteligência mineira. Casado com a terna Maria do Rosário, totalmente devotada a Deus e a família, ele aprecia os doces e os quitutes derivados do leite, o cozido da autêntica cozinha sertaneja, com fogão à lenha e panela de barro, com sabor inigualável ao feijão tropeiro temperado e “dedinho” de pinga. Ainda agora, que já vai tão longe, Zé do Galo tem desejo de cair na tentação da gula... E, no entardecer, também pensa no costumeiro bolo de fubá com saboroso cafezinho preto. Estas coisas que acalmam tanto o sistema nervoso, sentindo apenas aroma inebriante; o sabor remete tempos tão remotos que por certo nem mesmo a civilidade existia.

Aquela fazenda num recanto encantado, extraordinário! Passeio perfumado pelo espírito da natureza, onde se encontra o animalzinho marrom, que é o burrinho de carga que leva até à venda o queijo à maneira de Minas Gerais - aliás, o queijo geralista é um alimento de massa obtido da coagulação e fermentação do leite reconhecido como patrimônio culinário cultural deste país; alguém, por favor, avise aos franceses que vivem no Rio...

E como não vir no pensamento o modesto alambique, que destila a legítima cachaça nacional em imensos tonéis de bálsamo, fazendo a alegria e a festa do arraial. Bendito Hermes Carvalho do Lavradio, um dos pioneiros no processo de aguardente na região.

Quantas vezes, meu Deus, Zé do Galo, imerso, perde-se na curiosidade do paiol de gêneros da lavoura; aquela poesia jeca nos campos da rocinha toda arada pelo velho tratorzinho. E traz a ele a paz imensa o esverdeado pasto com todas as vaquinhas nas montanhas, como num quadro de presépio. Minas Gerais é um recanto encantado!

Agora até emocionei-me, prezado leitor. Desculpe, amiga dona leitora, peço-lhe licença à vossa educação de cidade grande e escravizo a este post uma velha canção da roça: "Meu Reino Encantado", composição de Valdemar Reis e Vicente Machado, aqui interpretada pelo cantor sertanejo Daniel, e com produção das imagens de Rachel Loureiro:

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Tornando ao personagem caipira que permeia as linhas deste bucólico texto, aludi-se ao banhar no rio, às aventuras dos primos caboclos, ou tudo que lava qualquer alma urbana de poluições que porventura se carregue no coração. Assim Zé do Galo suprime alguma arrogância, afetado pelo fascínio às primas prendadas, causando-lhe imensa distração o galopar a cavalo trilhas de mato-a-dentro; tudo devolvendo a serenidade, a fleuma de condição de reles menino do campo. A surpresa, alegrando-lhe, ouvindo as velhas lavadeiras entoando seus cânticos de saudade e de tradição pueril, lá na beira da ribeira: “Lava, lava lavadeira (...). Adeus ferro de engomar”.

Que saudade vem à memória de Zé do Galo o vilarejo de fazenda próximo à pequenina cidade de Santo Antônio do Pilar, da ruazinha central que perfaz seu caminho morro acima até a igreja matriz do santo que dá o seu nome à cidade e onde passa também o cortejo da Festa do Divino Espírito Santo. Ainda agorinha é possível que ele se lembre de sua querida Minas...

Minas Gerais é tão bucólica como aquele time de futebol que se confunde com a própria tradição mineira; austera e, ao mesmo tempo, fascinante. Zé do Galo tem já quase tanta história como o Galo Carijó e seus 102 anos... Afinal de contas, os homens do campo têm lá suas instituições geralistas, e o Clube Atlético Mineiro é sem dúvida uma das mais emocionantes.

Torcedor fanático, quantas vezes Zé do Galo jogou a camisa do Atlético no chão de terra batida depois de alguma derrota vexatória, jurando aos quatro ventos que abandonaria aquela paixão. Repentinamente, entretanto, ele enxugava as lágrimas que não tinha e ia apanhar o manto alvi-negro, revigorado pela esperança, e clamava exaltando as glórias do "Galo forte e vingador", como diz o hino, daquele time imortal, orgulho de Minas... CAM é assim mesmo, paixão à flor da pele! "CAM, uma vez até morrer!". Tradição autêntica que permeia parte dos costumes do povo deste país.

Tudo que gera paixão intensa, gera também tristeza... Mas sempre há esperança! E um dia de fato ela dá o ar de sua graça; graça divina, trazendo imensa alegria àqueles abençoados pelas glórias do "divino barroco". Houve um período na história de Minas Gerais em que os corações mais brancos e mais pretos contiveram apenas o luto, o vendaval, e uma terrível e assustadora tempestade. No entanto, como definiu certa vez o grande torcedor do Galo e genial escritor mineiro, Roberto Drummond, "enquanto houver uma camisa branco e preta pendurada em um varal durante uma tempestade, o atleticano torcerá contra o vento".

Coloque-se por um momento no lugar de Zé do Galo, quando ele se viu dentro da mais angustiante tempestade de sua vida, e perceba o sentimento, meu amigo leitor e também a minha amiga leitora, assistindo o documentário abaixo, "Coração Preto e Branco", criação da Rede Minas, de Belo Horizonte.

"Coração Preto e Branco" - Parte 1/4:

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"Coração Preto e Branco" - Parte 2/4:

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"Coração Preto e Branco" - Parte 3/4:

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"Coração Preto e Branco" - Parte 4/4:

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Por Ricardo Novais

Diabo Rubro de Andaraí


Montagem: "Luisinho, o Guerreiro". Por Elida Kronig. Site: América Football Club.

Quando pequeno, Luís Alberto da Silva Lemos, o Luisinho, era fascinado pelo América Football Club. Aos 9 anos, viu pela primeira vez seu time sagrar-se campeão do Carioca de 1960.

O garoto criou-se dentro de uma família de artilheiros, seus irmãos mais velhos são os antológicos goleadores César Maluco e Caio Cambalhota. Contudo, a sua paixão da meninice fez com que Luisinho, jovem goleador das praias, fosse mesmo tentar a sorte no gramado do "Estádio Giulite Coutinho" - ops! - "Estádio de Édson Passos"... Nada disso, o América nem mesmo tinha 'caminhado' para a Baixada Fluminense; o seu campo ficava entre barreiras lá para os lados da Tijuca, no bairro de Andaraí, onde ainda hoje mantém sede social.

Em pouco tempo, o sonho de Luisinho vestir aquela camisa vermelha tornou-se realidade. Em 1973, aos 21 anos de idade, o "endiabrado" jogador já era titular do ataque americano. Mas foi no ano seguinte que o talento do extrovertido centro-avante despontou. Autor de 20 gols, ele foi artilheiro do Campeonato Carioca e campeão da Taça Guanabara de 1974, única na história do clube, ficando à frente de gênios como Zico e Roberto Dinamite. Em ótima fase, o craque rubro começou a despertar o interesse dos outros grandes do Rio de Janeiro. Em 1977, Luisinho acabou indo para o Flamengo. Era de dar pena... Ele não queria deixar o "Ameriquinha". Torcedor declarado do "Diabo", como é conhecido o clube de Andaraí, ele compreendeu que a sua venda era de fato necessária para os cofres do próprio América, que já naquela época passava por dificuldades financeiras.

Na Gávea, apesar de tudo, o atacante confirmou sua fama de goleador. Em três anos com o manto rubro-negro marcou mais de 80 gols. Depois da passagem pelo Flamengo, ainda jogou no Internacional, de Porto Alegre, e no Botafogo. Mas ele queria voltar para Andaraí, era lá que ele sentia-se bem e feliz. Em 1980 ele retorna para o seu clube de coração, o "Diabo" estava de volta com toda força.

Luisinho passou a reeditar as suas melhores atuações e a marcar muitos gols. Em 1983, Flamengo e Santos fizeram a final do Brasileirão daquele ano com artilheiros históricos, de um lado o craque genial Zico e do outro o sempre oportunista e polêmico Serginho Chulapa; mesmo assim, Luisinho, jogando por time de menor torcida, entretanto, o sempre charmoso "Ameriquinha", foi um dos que mais estufaram as redes na competição. Naquele mesmo ano, o centro-avante de cabelos e barbas compridas anotou mais 22 tentos e sagrou-se outra vez goleador máximo do Campeonato Carioca. Por este tempo os cronistas eram unânimes em considerá-lo um dos mais competentes jogadores do país. Tanto que foi fortemente cotado para defender a Seleção Brasileira na Copa América de 1983.

Mas outra vez Luisinho vivia um drama, seu sucesso em Andaraí despertou a cobiça de outros grandes clubes brasileiros. Em meados de 1984, após ser novamente um dos artilheiros do Brasilerão, o "Diabo Encarnado" foi de novo obrigado a deixar o América. Contratado pelo Palmeiras, o jogador seguiu para São Paulo. Longe de seu clube querido, no entanto, ele não rendeu o esperado. Fez meia dúzia de gols e regressou ao time de coração.

Com 34 anos, poucos cronistas e torcedores acreditavam que ele ainda poderia surpreender pelo "Ameriquinha". Mas a maioria estava enganada. Em 1986, Luisinho marcou 13 gols e levou o América à semi-final do Campeonato Brasileiro. Em excelente fase, ele calou a boca de mais de 50 mil corintianos que foram ao Pacaembu nas quartas-de-final daquela competição, ao marcar o segundo gol de sua equipe na vitória de 2 a 0. Luisinho, 9º maior artilheiro em Brasileirões com 89 gols, só não conseguiu ajudar o seu clube a superar os 'Menudos do Morumbi', o São Paulo de Careca e companhia acabou se tornando o campeão do campeonato daquele ano.

Consagrado e realizado no América Football Club, Luisinho teve que abandonar o futebol em 1987, mas não por vontade própria. Após discutir severamente com o treinador Vanderlei Luxemburgo, este o acusou de estar ultrapassado para os novos padrões dos atletas futebolísticos. Não vendo mais chance de jogar pelo time de Andaraí, o "Diabo" então resolveu abandonar a carreira.

Atacante que sempre se identificou com a camisa e com a torcida americana, que sempre passou por cima dos insolúveis problemas financeiros do clube, terminava ali o romance de Luisinho com o seu querido "Ameriquinha". Embora o amor seja para sempre vermelho como o próprio sangue de suas veias e o manto sagrado que cobre sua pele...

Luís Alberto da Silva Lemos, o "Diabo Encarnado", ou simplesmente Luisinho, marcou 434 gols em toda sua carreira profissional de jogador de futebol. 311 destes tentos levaram imensa alegria lá para os lados rubros do bairro de Andaraí.

No vídeo abaixo vemos grandes heróis americanos, incluindo o formidável Luisinho, e traz o hino do América Football Club, uma das mais belas composições do genial Lamartine Babo, criador dos hinos de todos os grande clubes de futebol do Rio de Janeiro:

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Por Ricardo Novais

* Fonte: Edição Especial da Revista Placar, ano 2000; História do Futebol Carioca; GloboEsporte.Com; Wikipédia; e Canal Memória Socram.

Superior Scribbler Award



"What is a Superior Scribbler? One who employs mad skillz to communicate in this crazy, crazy world. Who pontificates, explains, memorializes & entertains. Who has a funny bone & is not afraid to use it. Whose cyber-crib we return to again & again, because it just feels right."

~ Melissa B. - The Scholastic Scribe ~


Fui angariado com o prêmio "Superior Scribbler", indicado pela magnífica blogueira Mia Palenza, do Blogue "Quando as Borboletas se Calam", coisa que muito alegrou-me e na qual fico extremamente agradecido. Contudo, devo repassá-lo seguindo as seguintes regras:



Cada Superior Scribbler (SS) deve passar o prêmio para 5 amigos que tenham merecimento;



Cada SS deve linkar o autor e nome do blogue de quem ele recebeu o prêmio;



Cada SS deve exibir o prêmio em seu blogue e disponibilizar o link para o Post Original que explica o prêmio;



Cada SS é convidado a visitar o post que explica a atribuição do prêmio e deixar um comentário, adicionando assim o seu nome à Mr. Linky List. Lá eles mantém uma lista atualizada de todos que receberam o prêmio. http://scholastic-scribe.blogspot.com/



Cada SS deve colocar essas regras no seu blogue.


Escolhi repassar este incrível prêmio "Superior Scribbler" às queridas amigas pela relevância de seus blogues:


1. Camila B Lopes do blogue: Caminhos de Camila;



2. Madame Cabaret do blogue: Madame Cabaret;



3. Beta Lotti do blogue: Beta Lotti;


4. Mônica Lima Falsarella do blogue: Crase sem Crise;

5. Vany Laubé do blogue: Mosaico Social.


Muito obrigado!


Por Ricardo Novais

Excelentíssimo Senhor Ibsen Pinheiro


Quadro do Atelier J.Victtor

O Rio de Janeiro foi às ruas. Era de ver a multidão protestando em favor do civilismo, bradavam do alto de um caminhão de trio-elétrico lá para os lados do Municipal: “Excelentíssimo Ibsen Pinheiro é contra nós, não quer ver os grandes cariocas progredirem e por isto quer nos tirar os royalties do petróleo... E depois de tanto que ajudamos esta amada pátria... Prospectamos este “outro preto” com todo afinco, com todo amor ao país inteiro; então eu pergunto: É justo que nossos homens e mulheres não sejam recompensados? É justo tirar-nos tal patente?”

Aviltado, o governador do Rio de Janeiro tem os olhos marejados; ele tem a expressão dos injustiçados, como homem que colocou todas suas economias num título e tem em troca uma maldita carta precatória da União – embora seja uma carta honradíssima!

Vieram os debates. O secretário de Fazenda informou aos cariocas que a “emenda Ibsen Pinheiro”, proposta pelo probo senhor Ibsen Pinheiro, contém artigos não muito bem explicados. Ele avisa: “Absurdo! Todo mundo focou-se no texto que trata dos royalties do petróleo, mas existem cláusulas dispondo do mesmo modo sobre a quebra do monopólio que o Rio de Janeiro tem sobre a obra de Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim e, principalmente, Vinicius de Morais. Fiquem mais atentos, amigos cariocas...”

Um repórter, talvez por gracejo ou por autêntica temeridade, perguntou ao nobre deputado federal pelo Estado do Rio Grande do Sul, este mesmo controverso Ibsen Pinheiro, se o sempre atual Machado de Assis também não teria sido preterido da totalidade do povo brasileiro, pois somente a sociedade carioca teve acesso a ele quando este nosso maior vulto literário era ainda vivo, mas o político gaúcho descartou o escritor nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro. Ele alegou que o soberbo Machado fazia muito uso de reflexões irônicas que em nada honrou a altivez do pacto federativo, e, além do mais, o amabilíssimo Ibsen Pinheiro admitiu, um pouco envergonhado em sua peculiar consternação, que teme os “bruxos”.

Por outro lado, ilustradíssimo Ibsen Pinheiro exige que o Rio de Janeiro distribua Vinicius de Morais à União e entre todos os Estados federativos. Constitucionalistas estudam a legalidade da proposta, porém se a “emenda Ibsen Pinheiro” for sancionada, os cariocas devem perder os bilhões dos frutos do petróleo e também todo o tempo em que o “poetinha” e seu companheiro maestro ficaram exaltando a ‘Cidade Maravilhosa’.

“Não faz nenhum sentido estes dois artistas passarem a imagem de cariocas” – exacerbou o formidável Ibsen Pinheiro –, “isto sempre foi uma injúria à Magna Carta. Por que as pessoas que vivem na Chapada Diamantina devem sentir-se excluídas das poesias do senhor Vinicius de Morais? E os meus correligionários da fronteira sul, por que não podem inserir-se como parte das composições do maestro Tom Jobim?”

Nem adianta dizer que estes notáveis cariocas – ops! brasileiros – já nem mesmo estão entre terras da União, o sabedor Ibsen quer que se arrolem os direitos da obra por todo país. “É o justo!”, ele afirma com veemência. Entretanto, não culpemos o homem; para ele, a coisa mais importante é o pacto federativo. Mas também não culpemos aos cariocas e muito menos os mortos, pois a estes a coisa mais importante é, ou era, os calçadões litorâneos do Rio. E, convenhamos, não há lá como ser diferente... O mal é que o petróleo é mais fértil para os lados costeiros, e, em especial, nas desgraçadas terras fluminenses. Eis todo o mal. Se petróleo tão úbere fosse achado mais para o sul, talvez excelentíssimo senhor Ibsen Pinheiro não se sublevasse tanto; ou se os maestros Villa-Lobos e Tom Jobim, e, obviamente, o poeta boêmio Vinicius de Morais, tivessem eles sido medíocres... Talvez, então, nenhum pasmo de injustiça fosse desagradar o espírito elevadíssimo e regaço do brioso Ibsen Pinheiro.

Pense comigo, leitor de qualquer cidade e mesmo a dona leitora que é estrangeira; por que acharam estas tão cobiçadas camadas de tesouro no pré-sal logo nesta nossa época? Neste nosso tempo em que vive também causídicos da virtude... Não poderia ter sido mais à frente, quando, por exemplo, o extraordinário defensor do federalismo já tivesse cobrando pessoalmente os notáveis cariocas da bossa-nova, o “poetinha” boêmio ou o genial maestro do movimento modernista? Toda época é apropriada para descobrir petróleo, assim como toda hora é boa para a morte; acha-se petróleo muito bem numa plataforma gaúcha qualquer e morre-se da mesma maneira muito bem num mês qualquer de 1935, de 1994 ou destes nossos dias.

Alerto tudo, vá... Nem sou carioca. A bela dona leitora, ‘carioca da gema’, que tome cuidado, não se exiba muito na orla de Copacabana ou nas praias de Ipanema e calçadões do Leblon; corre-se risco de ter de dividir os royalties de vosso charme e graça. Já o turista que visita a encantadora ‘Cidade Maravilhosa’, por precaução, faça chegar aos demais Estados da Federação as fotografias e filmagens que fizer de tão aprazível passeio. Não há de ser difícil, consegue-se sem tanto esforço atestados via internet ou outro ato público.




Por Ricardo Novais

A Muralha

Imagem de arquivo.
MURO DE PEDRAS: "'Conto dedicado ao repertório da sociedade brasileira". - RN -.

Meus dois filhos passam bem. Pedem-me, assim como minha refinada esposa, os préstimos de pai de família. Sou velho. Tenho formidável vida financeira e gozo de boa saúde. Penso que sou vencedor. Venci nesta estrada. Estrada de pedra pura. Esforcei-me bufando, empacando, cambaleando, fraquejando nos primeiros dias. Foi preciso cutucar e empurrar a mim mesmo, puxar-me e arrastar-me, amparar-me, lutando contra o vento e enfrentando tempestades, próximo a penhascos. Depois de tudo, atravessei a fronteira do sucesso e construí lá uma grande muralha que me protege do fracasso alheio.

Neste percurso de agruras, antes de todo sucesso conquistado, conheci também Angelina. Moça inquieta, perturbadora e fascinante. Amiga de minha juventude... Relembrar Angelina é relembrar sonhos de além fronteira, aqueles que eu deixei pelo caminho.

Numa praia ordinária, olhando a imensidão daquelas águas e desviando as mãos nas mãos de minha amiga, sentia-me o homem mais feliz de todos os mares. Todos os meus músculos disseram que eu era um bem-aventurado, os meus neurônios concordaram com a ideia. Vir-me-ei à Angelina, não a encarei totalmente, meus olhos não obedeciam ao coração. Ela percebia, mas também tinha lá seus problemas sob o peito. Ora, leitor experimentado, cada um dá a aparência que melhor lhe convier ao nervo cardíaco.

Angelina e eu mal controlávamos as mãos, quiçá o coração. Imagine, então, se haveria articulação para gestos que não fossem rudes ou grosseiros... De modo que encostamos a testa sobre o nariz, o vento trazia o gosto do mar, a areia encobria os pés até à altura dos tornozelos e...

Enfático foi o efeito do beijo. Nunca o esqueci, relembrando deste beijo em todos os momentos e fases de minha vida. Algumas vezes disse dele coisas feias e árduas, noutras apenas gostaria de revivê-lo. Nunca pude, nem poderei ter tantas coisas... Angelina casou-se algum tempo depois. Hoje ela tem também lá seus dois frutos e, creio, construiu, ou construíram para ela, uma excelente muralha; imaginas, a dona leitora que sabe do que falo, que esta muralha é bem diferente da minha, não é mesmo? Se imaginaste isto, querida, imaginaste errado. Angelina teve a mesma vida de sucesso, a mesma vida boa e de saúde. Um pouco de tudo e um tudo de nada, uma espécie de dia que vem à noite, numas linhas onde se escreve o que a memória reclama e o que a cabeça insiste em debochar do sentimento. Uma vida maravilhosa onde se pode ter todas as coisas que os homens criam e fabricam; tudo, menos aquele beijo vertiginosamente desajeitado e precoce.

A vida é mesmo inesperada, leva o pensamento passado como quem empregou toda esperança num só caminho e deu de cara com um maldito muro... Mas uma muralha tão bonita!

Por Ricardo Novais

Tratado das Cotas


STF - A justiça que nada vê, mas que tudo sabe; será?

Por estes dias, já passados, reuni-me a um grupo de amigos para uma agradável tarde regada à cerveja. Vi-me, entretanto, no meio de uma inócua batalha política. Seria de minha satisfação matéria mais deleitável, como o talento das artistas de TV, as brigas entre celebridades do futebol ou alguma votação esdrúxula inventada por algum diretor de cinema ou ex-jornalista, mas acirrou-se a discussão acerca dos candidatos de direita nestas próximas eleições. Já havia ficado surpreso com a opinião corrente na sala de que o PSDB, partido de dissimulados socialistas, tende ao pensamento conservador.

- Isto é uma temeridade! – declarou um amigo dando longo gole na garrafinha de cerveja.

- Veja – abriu uma articulação outro patusco –; o que ocorre é apenas uma embalagem política: enquanto Lula é um comunista com aparência de 'estadista' popular; Serra, ou outro tucano, talvez menos Aécio, é produto da centro-esquerda, em moldes da 'social-democracia européia'... Mas ele quer a mesma coisa que seus "adversários", ou seja, implantar uma ditadura de esquerda neste país.

Houve espanto e risos:

- Não se iluda! Extremistas de direita são fascistas repugnáveis, mas esquerdistas apelam para uma 'justiça social' que só atende a um projeto político há muito estabelecido. Graças que o maldito Prestes morreu! Ele adoraria ver o que se tornou este 'País do Futuro'...

A resposta para a cura desta sociedade hipócrita e positivista 'afrancesada' ninguém tinha naquele recinto, no entanto, discorria-se sobre a visão central de resgate de valores, há muito perdidos, com gosto. A arte, educação, cultura (não como conceito, mas como formação autêntica), religião (seja lá qual for e que pregue algo estabelecido e reconhecido pela humanidade), a sufragada família, estas coisas que muitos dirão fora de moda ou reacionárias, etc., foram assuntos recorrentes entre falatórios afetados e, à vezes, muito inconsistentes.

- Então, se for assim – disse um mais sofisticado –, sou reacionário, no sentido rodrigueniano mesmo, sou contra tudo que minha consciência, depois de muito sopesar as ideias, julga não prestar.

Deixemos isto, leitores. É que o assunto vagabundeou para outro tema, as malfadadas cotas raciais. Um velho colega de boa farra, segurando firme a garrafinha de cerveja, atacou as cotas com entusiasmo admirável:

- Também eu não seria contra, não fosse as consequências, meu amigo – declarou de pronto este mais conservador. – Perceba, corre-se o risco de haver no Brasil uma segregação racial; coisa inexiste neste país, ao menos até hoje. Há racismo, mas não declaração pública de ódio em moldes ocorridos entre sul-africanos, norte-americanos ‘sulistas’ ou mesmo da Alemanha dos anos 1930; óbvio que devemos descontar as insanidades de alguns imbecis que, às vezes, pipocam em algum rincão do centro-sul brasileiro, porém isto é a exceção.

- Exceção? Palavra bonita, pois quer dizer que não é a normalidade; correto? Mas, com as tais cotas em universidades e sei lá mais o que vai vir, a exceção pode virar regra e termos um país com vizinhos de portas fechadas sem distinção. Se o Brasil não é o país mais maravilhoso do mundo, é ao menos de boa índole. – Tais palavras foram as de um sujeito que defendia as ideias do primeiro 'anti-cotista', já este, sentindo-se seguro, continuou então na explanação que fora obrigado a interromper:

- O exemplo da UnB é o mais absurdo! – afirmou com convicção. – O ‘cotismo’ tem como critério exclusivo a cor da pele. Aí é pedir para termos guerras civis ou outras barbáries que só vemos em crimes passionais; não consta que por aí há crimes ideológicos sufragando direitos religiosos ou das etnias, sejam elas quais forem, neste nosso Brasil; meus caros. A não ser a exceção, mas desta eu já falei; não é mesmo?

Neste momento, os defensores das cotas inflaram-se, e, valendo-se dos relatos históricos gerados pelos desdobramentos jornalísticos, notavelmente as reportagens da Folha de S. Paulo que foi crítica à intervenção do senador Demóstenes Torres na audiência pública do Supremo Tribunal Federal, enumeraram as mazelas dos tempos da escravidão. Nem há muita necessidade de preencher linhas neste texto com tais pensamentos, pois, ora, não há muito mais originalidade do que vemos nos livros de história.

O verdadeiramente interessante foi a contestação do 'cotismo' feita, ao que tudo indicou naquele momento eloquente, sem a intenção de enganar a consciência. Primeiro, com repulsa:

- Aqueles moleques? Aqueles "delinquentes", como disse Edson Nery – bradou com raiva o 'anti-cotista' com lembrança na matéria da Folha.

De repente, este estimado colega, que até então permanecera afetado, falou calmamente:

- E ele tem razão. O doutor Edson tem toda razão. No entanto, o senador pisou feio na bola! Ele citou Gilberto Freyre e... Bem, Gilberto Freyre foi um defensor da miscigenação e não o contrário. Nos Estados Unidos, ele teve contato muito importante com seu mestre, Franz Boas. Com Boas, ele aprendeu a distinção entre raça e cultura. Condições culturais nos sentidos amplos, antropológicos. E foi Gilberto que mostrou pela primeira vez que os problemas de deficiência no trabalho não decorriam da miscigenação, e sim do problema da alimentação. No caso brasileiro, o negro foi submetido... – não há necessidade de dizer o resto, pois este argumento, na verdade, não passa de pensamento decorado das ideias do senhor Edson Nery.

O efeito das garrafinhas long neck, como o amigo leitor e a querida dona leitora podem imaginar, já fazia com que todos no lugar falassem ao mesmo tempo e em tom altíssimo.

Vizinhos da residência poderiam estar irritados com o barulho. De modo que não devo eu aqui incomodar outros que possam morar por perto; assim, em suma, e tentando organizar as ideias, foi isto que concluíram:

“Os candangos criaram verdadeira comissão 'racialista' para decidir se o estudante é negro ou não. Gobineau, aquele maldito 'pai do racismo científico’, se desgraçadamente ainda vivesse, teria inveja dos 'intelectuais de Brasília’... Que absurdo!”

Isto indica a polêmica causada na sociedade inteira na audiência pública do STF, onde de 40 convidados, 28 declaram-se favoráveis ao sistema de cotas e apenas 12 foram contrários. Lá, por exemplo, o senador pelo estado de Goiás, Demóstenes Torres, mal pode expor o que pensa. Foi taxado de reacionário, racista, 'lixo humano', estúpido e não foi ouvido. Que democracia, não? O que achas a dona leitora, que é sempre tão ponderada?

Este evento foi coisa que parece ter deixado a maioria de meus amigos patuscos profundamente tristes, pois deferiram mal dizeres aos 'pensadores ongistas'; disseram deles: “cafajestes". Não me esquecendo detalhes de técnica em oratória dita e que meus ouvidos envileceram, tais como: “estes pulhas, eles vivem a defender os homossexuais, a floresta, a baleia azul, o diabo, enfim, defendem a virtude com gosto, mas poucos são virtuosos”.

Agora que o desgosto torna, vem-me à mente trecho do discurso dos caríssimos questionadores pândegos, lembro que a palestra foi quase tão eloquente como às feitas lá para as bandas do Distrito Federal:

“A política de cotas se baseia numa ideia de reparação de culpa, assim não se respeita a sociedade que vive hodiernamente. Esmaga a própria lei criada por positivistas que agora defendem tal aberração. Sabemos que a culpa precisa de vilão. E os vilões são: os brancos descendentes daqueles brancos que se beneficiaram de um sistema injusto no passado, os malfeitores; e, como todo bom conto, precisa também de mocinhos: os negros descendentes dos negros subjugados, aqueles que foram impiedosamente maltratados como escravos naquele mesmo passado onde o vilão branco da mesma maneira existiu. De modo que os primeiros compensam os segundos.

Mas e os brancos pobres? Ah, meus caros, a UnB está se lixando para eles; são uns condenados eternamente pela sua ascendência criminosa... Ainda que eles sejam a esmagadora maioria dos pobres no Brasil, e não sejam, de nenhum modo, herdeiros do mandonismo dos senhores de engenho.

Isto se chama 'patrulhamento politicamente correto'; ou injustiça que se sobrepõe à injustiça anterior; tanto faz!

É uma pena que as pessoas conscientes, igual a tantos, talvez iguais a nós, ou a qualquer um que poderíamos conhecer nesta mesma sala, não sejam levadas em conta neste país. Parece que para esta nossa sociedade positivista e ‘cientificista afrancesada’ na qual estamos inseridos, mais vale protestar, esbravejar e falar algumas palavras bonitas e de ordem do que estudar profundamente o assunto, refletir sobre ele, sopesar, dar tempo para o cérebro assentar as ideias formuladas e, por fim, debater no intuito de verificar um consenso que vem diretamente da consciência.

Devemos sempre admitir que tanto o sucesso como o fracasso façam parte de nossas vidas, e, assim, tentarmos melhorar com sinceridade. Não vamos acertar o tempo todo, talvez nós acertemos pouco nesta vida, mas agir por comoção de grupos abomináveis e irresponsáveis que só querem tirar proveito de conveniências políticas é, desculpe o termo, coisa de canalha também. Remete ao velho jargão bíblico: "Diga com que andas que eu te direi quem és”.

Eis o que penso, colegas; 'hic'”.

Como vê, meu amigo e minha querida amiga que está aí a ler estas linhas antagônicas, o tema é polêmico e difícil, mas muito do que já tenha sido dito por jornalistas 'militantes' e críticos de fantasia esteve nesta tarde patusca; e, afinal de contas, o 'tratado das cotas' nada mais é que a reflexão desta nossa valorosa sociedade – e ainda mais afetado quando regado à cerveja ou outro etílico de boa cevada. Portanto, paremos por aqui este pensamento desagradável. As palavras vão terminando porque as ideias são emprestadas e a consciência pediu exame. Enfim, então vamos mesmo às curiosidades de artistas de TV.


Por Ricardo Novais