A Arte no Futebol


Tinha-me lembrado noutro dia da definição de velho cronista falando da derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Espanha, em 1982: “Este escrete ‘canarinho’ magnífico não ganhou... Pena! Ah! Como me encantastes, time de Telê... Não ganhou? Azar da Copa!”

Foi mais ou menos este sentido que deu tal cronista daquela derrota, talvez nem tão literalmente nem de maneira tão simplória, mas a acepção é a mesma, e, de tal modo, a competência do autor de pouco vale, ou nada! – Exclamo que não tinha olhar neste mundo, quanto mais lá em terra de Espanha.

O fato é que pensamento de grau sincero e dolorido dura pouco, logo vem outro sufragar o ponto de origem. De modo que vi-me triste esta semana, jogaram pela UEFA Champions League: Barcelona vs. Internazionale.

Os catalães encantam com seu toque de bola refinado; eles têm Lionel Messi, o melhor jogador do mundo. Meio-de-campo firme, técnico, habilidoso e flutuante. Esquadrão fantástico regido por inspirado maestro, Josep Guardiola, este profundo amante da arte que leva torcedores de todo o planeta ao delírio com sua equipe azul-grená se apresentando em espetáculos tocantes por palcos de grama.

De outro lado do campo, com seu futebol pragmático (salvo o meia Sneijder), apresenta-se a Inter de Milão orientada pelo treinador gaúcho – ops! – treinador português José Mourinho, eficiente, burocrática e chatíssima! Mas que, no entanto, venceu o primal time que joga bonito.

Velhas múmias levantam das catacumbas, as vozes ressurgem... Insurgem, vá! Se isto lhe parecer cruel, desgraçado torcedor, é porque não amastes o esporte bretão como este pobre autor que escreve texto tão lamurioso de perdedor.

Por que perde o Santos, de Feitiço e Araken Patusca, o ‘Ataque dos 100 gols’, nos anos de 1920? Por que perde a Hungria de 1954, do genial Puskas? Explicais, “deuses do futebol”, o que tiveres contra a Holanda, magnífica 'Laranja Mecânica', em 1974? E tantos que perderam parecendo que venciam; como aquele esquadrão do Galo, do ‘rei do Mineirão’, e aquele time do Fluminense que coloriu de sentimento tricolor o velho ‘Maraca’ em fatídica final de Libertadores...

Sim, dona torcedora, verdade que outras tantas equipes excelentes e encantadoras consagraram-se premiadas recebendo títulos: o “Expresso da Vitória” vascaíno, a “Máquina Tricolor” do Fluminense, a “1ª Academia” palmeirense, o Santos de Pelé e companhia “fantasmagórica”, o glorioso Botafogo de Garrincha, o São Paulo de Telê, o Cruzeiro de Tostão, as maravilhosas tardes no velho 'Maraca' do Flamengo de Zico, o Galo e sua “Era do Gelo”, a “Democracia Corintiana”, o incrível Inter de Falcão e sensacional Grêmio de 1983, o Milan de Baresi (extraordinária linha ofensiva formada por Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Van Basten), o Manchester de Cantona... Enfim, eu poderia ficar aqui com este velho pensamento prazeroso, puxando pela memória de enciclopédia muitos times sensacionais do nosso futebol e não terminar este post nunca. Apreciei deveras esta ideia, mas não! Devo ater-me à derrota do 'futebol arte'. Ah, Barça! Por que perdeste justamente agora que tanto maravilhara as retinas de tão desgraçado torcedor?

Barcelona do genial Ronaldinho Gaúcho (Ô, #Dunga, leva o Gaúcho e o Neymar!), venceu. Barcelona de Messi, também venceu. Não falo das vitórias de ofício, nem de títulos ou comendas. Falo do encantamento da vida, daquilo que em tal grau me faz feliz. Sorrir com sinceridade não são para times eficientes, burocráticos e chatíssimos. A dona leitora, que nem muito apreciou este futebol catalão, sabe do que lamento; ela sim reconhece a beleza e a maravilha que é a disputa de jogo.

Certo que em final de temporada resta aos torcedores catalães os torneios de “Hespanhas”; mas e quanto a nós, o que resta?

Pensou o leitor torcedor: “Ora, autor burro, e o Santos? Os “Meninos da Vila” encantam as platéias...” Tem razão, amigo corneteiro; tem razão, não fosse o fato de que os cronistas falam, escrevem, destilam suas sabedorias futebolísticas com quilômetros de língua. As múmias amaldiçoarão o futebol bem jogado e dirão: “Futebol bonito não vence nada, o que levanta o ‘caneco’ é o comprometimento do grupo”. Dirão isto e não nos resta nada.

Duro perceber, às vésperas da Copa da África, que o resultado é mais importante que o caminho que se percorre e as flores que se plantam nas margens do campo. Futebol feio e chato, supervalorizado. Futebol que encanta a vida, jugulado. Que azar do futebol!


Por Ricardo Novais

Final feliz ao contrário


Fazenda Antiga por Batazar Guimarães Silva, o Zarico.


A velha casa de minha avó está morrendo. Ela não mora mais lá, nem os filhos e nem os netos. Vovó sempre se apegou aos detalhes, senhora meticulosa. Da tradicional família que programou a hora de amar, calculando em qual momento se dá ao companheiro. É um hábito que se transformou em costume. Tradição de família, entende, leitor? Como contando as horas em oração, louvando a Cristo. Se lhe perguntassem: “Que horas são?”. A minha senhora avó de fazenda certamente responderia: “Faltam quatro 'Rosários' e três 'Ave-Marias' para a hora do almoço”. Ou: “São quinze ‘Creio em Deus Pai’ para a hora de irmos dormir, meus queridos”. Costume de velha carola. Mas quantos por aí também têm por convicção programar o coração? Convicção célere, e que não passa despercebida entre a geração da roça: Ao despir as roupas novas, os velhos costumes ainda persistem... Povo promissor o brasileiro.

Quando meu avô planejou aquela velha casa de fazenda, por certo, tinha a esperança de abrigar amor aos filhos e sonhos aos netos – quem sabe projetou felicidade até para os bisnetos. Mas a casa morre. Um morador de Itabira fez, certa vez, uns versos dolorosos: “Ai, como morrem as casas! / Como se deixam morrer! / E descascadas e secas / Ei-las sumindo-se no ar.”

Não sei se há lá ainda um final feliz para a história desta casa de minha avó. Talvez o final feliz esteja em seu início, nos primeiros tempos de residência e também de construção. Sendo assim, a história dela começa no fim; pelo primeiro desocupado que arrancou as madeiras das portas e janelas para aquecer-se numa noite fria, com os morcegos, escorpiões, barbeiros e outros peçonhentos dando aspecto de casa mal-assombrada àquela outrora tão feliz habitação, e indo para trás, ano após ano, vendo aquele doce lar dissipar-se com o pó recostado pelos cantos e dobras das paredes, a pintura desbotando e virando caminho de insetos; até que se vê a festa de inauguração, o primeiro dia em que meus avós dormiram no casarão recém construído, as portas e janelas sendo instaladas com a ajuda de um mulato e de sua mula russa, o verde reflorescendo, e do alto da colina vovô fazendo seus estudos seguido das palavras:

- Vou construir aqui a casa que meus netos e bisnetos amarão!

Quando eu tinha uns dez anos, lembro-me que eram férias de escola onde se trocava o ambiente violento da cidade pelo bucólico da fazenda, plantei uma árvore em frente desta casa de vovó. Noutro dia passei por lá. Fiquei surpreso ao ver que a árvore ainda continua lá, firme, imponente, de pé.

Por Ricardo Novais

Salve, Jorge da Capadócia!


Quadro antigo de São Jorge pendurado por prego enferrujado no solar da velha casa de fazenda da senhora minha avó, carola de Santa Maria do Rio Abaixo.

Salve o jovem Jorge da Capadócia que, montado em seu cavalo branco, vai à caça dos dragões por todos nós. Dia 23 de abril, vê-se todo o Rio de Janeiro, toda São Paulo, toda Belo Horizonte e cercanias das mais longínquas nas igrejas, orando, agradecendo ou implorando à graça; tradição herdada dos nossos antepassados lusitanos. Não deve ser diferente também na arquidiocese de Boston, Munique, Dublin, Canal da Inglaterra, da velha Itália, Áustria, Suíça, polacos, eventuais russos e até a gente turca, grega, viking e dos países baixos. Enfim, aquela consagrada esperança misteriosa do mundo ocidental que nos forma como povo.

Neste pedaço gigantesco de terra onde vive tu, amigo leitor, vive também este desgraçado autor, aprendemos quem somos nos bancos redentores de cravo preto. Como todo brasileiro, mesmo que postiço, São Jorge toma-se e confunde-se nesta civilização. Povo bonito, sincero, cândido que guarda tesouros exuberantes. De igual modo povo esperto na fé, cruel nas lágrimas, ambíguo nos cochichos. Nem mesmo o cavaleiro da promiscuidade, Rousseau, também pai do civismo moderno, poderia entender estilo de vida menos verde que amarelo. Deste modo, eu, que jamais me interessei por entender trâmite de sociedade alguma, atrevo-me a adivinhar as riquezas escondidas nos cantos da alma seguindo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta sucinta e despretensiosa digressão o porquê de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, como arquiteta secretamente o leitor, que eu pendo à boa farra. Mas deixe isto de lado que é outra história...

Oh, o que é isto? Que revolta! Ouço vozes... Sinto-me pressionado; digo, repito, grifo que escrevo este post sobre história santa, mas a dona leitora insiste em querer romance, eventuais traições e aventuras com perdoes e lágrimas de paixões arrebatadoras. Não gosto de gente que insiste em dar opinião em enredo que ainda está sendo escrito. “Vamos, narrador de uma figa, vamos logo à vida do mocinho. Faça logo sofrer a mocinha, senhor autor. Onde estão os garotos que sofrem? E o vilão, cadê?” – É isto que quer a amiga que deveria apenas ler as linhas e não se meter a dar palpite nelas. Se quiseres tu escrever o texto, levanto-me da cadeira e ponho-me a ler tuas ideias; serei eu seu mais fiel leitor, querida leitora. Mas a história que me propus a descrever é a de fé em santo respeitado, vitorioso, santo católico; São Jorge, o mais guerreiro e corajoso dos guardiões do santo ofício que tanto clama por salvação nestes últimos tempos. Coisa séria, coisa de minha responsabilidade, e minha consciência não garante invencionices, eufemismos ou coisa que deforme por demais instituição milenar, como apreciam alguns da imprensa, das igrejas protestantes e lá para os lados do outro mundo, o mundo mulçumano. Além de que, senhora amiga, não quero eu ser desmascarado por falso testemunho.

Tenha paciência, tenha paciência.

Flagelo-me também por não fazer da leitura uma agradável aventura, mas é que São Jorge perfaz o viés de uma vida de redenção, de modo que sem fé não haverá o leitor como compreender nenhum ator que figura saga promíscua... Talvez, mais para o futuro, em outra história, outro post, quiçá até outro blogue e autor mais amarelo, haja algum prazer ou algum apreço por estas linhas... Talvez haja...

Em nenhuma hipótese aceitarei que a senhora mude o curso da narrativa com vossa amabilidade e doçura; embora eu admita que goste de visita, não significa belo tormento. Aceito vossa sutileza e charme, senhora amiga que lê, entretanto, contenha-se! O caso aqui é mais de fidúcia monástica; caso de base, alicerce, fundamento que tanto faz pedir como agradecer; contrastes dos reles humanos sem vocação de santidade.

Por fim, acatando ao pensamento, valendo São Jorge, quero aqui ser apenas humilde fâmulo de Deus. Apenas um criado, servidor, clérigo leigo a serviço da residência episcopal no qual se perturba com as aflições dos homens.

Faça-se presente, São Jorge da Capadócia...

“Ó glorioso São Jorge! Tribuno militar e cavaleiro romano, vós tínheis pela frente brilhante carreira; mas a fé vos disse que devíeis lutar por Cristo. E vós protestando contra o edito de perseguição do imperador Diocleciano, trocastes a espada de soldado pela espada da cruz, e declarastes guerra ao paganismo.

Tombastes mártir de Cristo, mas vosso martírio foi o golpe que transpassou as fauces do dragão.

Glorioso São Jorge! O dragão que vós pisastes tenta reerguer-se. O dragão do paganismo moderno arremete com furor contra a humanidade. Imploramos vossa defesa e proteção! Conservai nossa fé. Corrige aqueles que usam o vosso nome para enganar seu próximo com práticas hipócritas de um sistema social e econômico contrário a fé que vós defendestes.

Milagroso São Jorge! Ajudai-nos em todas as nossas dificuldades. Defendei-nos do dragão infernal e livrai-nos de todo o mal.”

Amém!


Por Ricardo Novais,
Servo de fé.

A Capital do Brasil








Moeda comemorativa em celebração ao cinquentenário de Brasília, em 2010. Ora, amigo candango, vale mesmo R$ 5,00?! (Foto: Divulgação).


Doutor Lacerda, político de nacionalidade e carioca de ofício, vive na cidade de Brasília, capital do Brasil. Não há gente em Brasília. Lá não é bonito, nem feio; o lugar todo é sem rosto. Aqueles 2 arquitetos consagrados quiseram dar devaneio próprio à cidade, não humanidade, não beleza notória; há lá o senso incomum, misterioso, precisamente subjetivo a quem é gênio da modernosa arquitetura contemporânea.

Lá não é lugar de colocar lixo, nenhuma sujeira. Tudo que o homem quer livrar-se não foi e nem vai para Brasília; ao contrário disto, frequentemente os resíduos limpos fundem-se numa única opção daquela terra demasiada cauta e alastra-se para as outras entidades federativas onde, de fato, vive o povo encardido e clementíssimo. Dizem que tudo que é ruim não estaciona na cidade; mesmo o diabo só vai lá apressado e tão somente de passagem. Os jornais enaltecem a cidade, mas acusam os homens. Ora, não há homem morando, construindo vida ou simplesmente passeando na capital. Ela não foi projetada para isto.

Brasília é parte do Gêneses, primeiro criou-se a rua, a casa, a luz elétrica, a água encanada, em seguida as relações e por último o homem. Depois houve descanso. Pasme, leitor, ou confie neste autor: naquele conjunto urbano a condição humana é mínima e, em certo sentido, desnecessária ao progresso desta nossa pungente sociedade. Não! Querida amiga, não tome isto por bravata ou pouca fé de minha parte; deito aqui umas linhas que, se por um lado são frouxas, também são as atitudes de alguns personagens que já são fantasmas – ou quase.

As figuras e personalidades que, de vez em quando, surgem na paisagem brasiliense é porque não tiveram, e nem têm, outra alternativa; seus notabilíssimos arquitetos bem que tentaram evitar que o cidadão comum exale fragrância de sua vida pelo planalto adentro ou respire o ar diplomático, porém alguém há sempre de por lá passar em vontade forçada. Mas só de relâmpago e por conveniência política ou inter-pessoal...

Há muitos anos, Doutor Lacerda foi a uma festa no entorno do Distrito Federal. Encontrou lá coisa diferente da urbe planejada e concebida para ser a “rainha do Planalto Central”. No distrito de Tabatinga, no entanto, entre casas sem o mesmo projeto e perspectiva da famosa vizinha, também alguma violência, achou povo alegre e pouco refinado. Em churrasco de Zé Índio, naquela periferia da unidade da federação, doutor Lacerda esbarrou com moça de pele morena, olhos arredios, semblante desconfiado e que carrega o mesmo nome do pueril local onde nasceu: Paranoá.

Paranoá foi moça bela, exuberante nas formas e pitoresca nos gestos. Foi, porque já é morta. Doutor Lacerda sofreu crise de consciência. Tivera ele um caso com a bela indígena filha de construtores paraibanos que nada conheciam de arquitetura. Contudo, mesmo Lacerda em nada tinha desígnios da FUNAI ou outra entidade defensora daqueles subjugados pela história. De modo que o Distrito Federal também não é lugar para admoestações das angústias humanas – afinal de contas, como já compreendido pelo amigo leitor, não há lá espaço para humanos.

Embora tivesse cadeira na câmara dos deputados, Doutor Lacerda suprimiu a habilidade política e naturalizou o fruto de Paranoá. Nunca soube se a filha que nascera tinha mesmo seu sangue, mesmo assim ele pousou com gosto para os retratos sorridentes e lustrosos de ONG's dirigidas por paladinos da virtude e da justiça republicana.

A criança ainda é bebê; engatinha, chora, depende do pai. Porém dá mostras claras da fascinante herança recebida. Do lado materno, puxou a beleza e a graça selvagem; do deputado Lacerda veio a destreza nos gestos pouco imbecil e nas palavras firmes de caráter balofo que, entretanto, ainda soam confusas por causa da pouca idade. Unânime é a opinião que ela será moça de grande talento, a maior estrela numa constelação brilhante de muitas outras estrelas.

Quem cuida da pequenina Michelle é dona Iasmim. Sim; a menina chama-se Michelle La Bruiderot Lacerda, homenagem a avó galiscista do doutor deputado. Madame Michely criou Lacerda, seu único neto, em um palacete do bairro Peixoto, no rio, depois que os pais do infante morreram num desastre de navio em cruzeiro. A velha permitiu o lado imaturo do órfão, assim como a fragilidade de personalidade, o seu imobilismo e, principalmente, o seu medo da autoridade dela, mas, ao mesmo tempo, incentivou-o à ingenuidade dissimulada e à tirania necessária. Quando, porém, morreu a "vovó mãezinha" francesa, Lacerda já era doutor e, por circunstância dos novos caminhos democráticos da república, foi morar no Distrito Federal.

Casado com a política, ele deixou a filha a cargo de dona Iasmim. Esta senhora não era babá de ofício, mas de vocação. A menina sorria-lhe mais que para o próprio pai. Algumas vezes quis mesmo chamar a mulher de mãe, mas não pode; as crianças reconhecem bem seu destino.

Neste último final de semana doutor Lacerda resolveu visitar o seu Botafogo no velho ‘Maraca’. Saiu de lá tão feliz com o título de "campeão" que resolveu que a filha deveria ser criada no calor humano do Rio de Janeiro e não na impessoalidade de Brasília.

Justamente no dia de hoje ele informou, pagou e agradeceu dona Iasmim pelos préstimos afetivos à Michelle; esta ficou deveras sentida pela separação, contudo, não consta que tenha derramado lágrima. Já a menina, em 3 ou 4 horas, emagreceu, não sorri mais, chama por dona Iasmim, e  incrível! – sente falta dos ares candangos imparciais.

Do “Plano Piloto” não há registro de tese para o sentimento humano – ali deve ser apenas a capital do país, a universidade, a Igreja, toda a gente que construiu a região sabia, e ainda sabe, disto. Realmente são 50 anos em 5... Não obstante, o que não se poderia imaginar é que seja em $5 reais – ou $5 cruzeiros, dependendo da imortalidade do personagem e do tempo.

Já doutor Lacerda, o velho político, tem muitos planos profícuos para sua filha. Sucesso e prestígio; visita-a, sem maiores afagos, de vez em quando... O fruto candango que não vive próximo a árvore que o gerou, e que ainda é muito jovem, cresce a cada dia com frieza de origem e calor artificial... Mas, enfim, seja como for já há até aniversário, porém a menina Michele não sabe se irá comemorá-lo.

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Breve história da cidade de Brasília-DF:


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Em homenagem ao doutor Lacerda, o tradicional e superticioso torcedor botafoguense que queima a camisa, joga-a ao chão, mas nunca abandona seu clube - A 'Estrela Solitária' brilha ainda mais no "Clássico da Rivalidade":


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Embora seja outra história, os vizinhos do doutor Lacerda, em Brasília desde o dia 7 de dezembro de 1987, reclamaram do autor deste blogue atenção ao título do Coritiba Football Club. Entretanto, este texto é sobre assunto diverso deste; a sorte é que aprecio futebol. Além de que não há de fato muitos paranaenses por aquele planalto federal (considerando que todos estão de passagem), de modo que em simpatia aos 'Coxas Brancas', eventuais leitores desta página, e também por serem uns poucos segundos de emoção, apresento-vos o sensacional "Atletiba":


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O leitor candango deve estar decepcionado com este texto em dia tão glorioso à história do Distrito Federal. Também eu estou. Poderia enaltecer mais a ordem e a civilidade da cidade sem povo, ou a coragem, inteligência e genialidade de seus construtores. Oh, quiçá se tivesse ficado apenas naquelas sábias considerações drummondianas; teria apenas ater-me-ido ao desejo prudente de escrever algo belo sobre nossa capital. Mas é que também eu nunca estive lá... Digo tudo, vá! Jamais viveria em uma cidade onde não há esquinas; pois se não  existem esquinas, não existem lá botecos. Eis todo o mal.

Por Ricardo Novais

Viajando por Caminhos e Sonhos


Trecho antigo da Rodovia Fernão Dias. Foto da cabine de um Flecha Azul, chassi Scania, carroceria CMA; década de 1980. Arquivo de família da "roça grande".

“Vais à busca de tua vida! Siga em frente, confie em Deus e mantenha a honra! Deus te abençoe”. Foi isto que meu velho pai disse-me à porta do Flecha Azul na rodoviária de Belo Horizonte.

Quando desembarquei na rodoviária do Tiete, em São Paulo, lembrei das palavras ditas na minha cidade natal. Pensei no que me fazia deixar aquela família querida, meus amigos, o Atlético, o doce de leite da dona Rosário, a cerveja do Colégio Santo Antônio, o sossego do meu bairro rodeado de montanhas calmas e verdes, a linda Ritinha, enfim, por que eu larguei uma vida para trás e fui caçar outra numa megalópole desconhecida?

Eu nunca consegui uma resposta para esta pergunta. Eu tinha 20 incompletos de idade quando cheguei àquela saladeira enorme e variável. A cidade acolheu-me com frieza, senti-me triste e sozinho. Muitas vezes quis pegar o Flecha Azul de volta. Mas lá vinham no inconsciente as palavras de papai: "Vá buscar tua vida, meu filho!” Eu continuava entre galhos e espinhos num minúsculo apartamento quarto e sala do Jardim *** que ainda era dividido, por móveis e cortinas, em outros cômodos – eu residia com outros 3 amigos mineiros que trabalhavam comigo na metalúrgica Tecno-Tec-Press.

18 anos trabalhando nesta firma absorveram meus sonhos de regressar à minha terra; junte-se a isto uma moça loura, de nome Isadora, que me deu dois filhos varões. Um morreu há dois anos; bateu a cabeça na quina do painel de seu carro no qual dirigia embriagado, numa rua ordinária de Guarulhos, e teve hemorragia cerebral.

Muitas vezes, quando meus filhos ainda eram crianças, viajávamos à Minas Gerais para os meninos visitarem os avós, minha esposa descansar da desdourada cidade grande e, de fato, também para que eu pudesse reviver meus caminhos. Não íamos de avião, a passagem era notavelmente rápida, mas estreita, devido ao oneroso preço do carne de embarque de viajem – percorrer grande distância via área só em caso espetacular, como a morte de ente querido ou arrolamento de bens em herança.

De modo que nas férias embarcávamos na aventura do transporte terrestre, feita realmente pelo saudoso Flecha Azul, com incrível chassi e motores Scania, e carrocerias CMA com rebites de alumínio ao estilo californiano. Flutuando como verdadeiro cometa na Fernão Dias... Dois pontos, duas casas, um abraço... Ainda depois de ver meus filhos adultos, mesmo em Congonhas ou na Pampulha, vendo a feição desconhecida do homem que mora no aeroporto, que aguarda um ídolo, um parente ou qualquer viajante que desembarque, mesmo assim às portas da tecnologia aeronáutica que barateou o custo da viagem, eu sinto vontade incrível de percorrer a velha estrada, a rodovia antiga, terrestre, morosa, vendo o mudar de cenário à janela, com mato no acostamento, pasto da vaquinha malhada, o cheiro forte do couro das poltronas do ônibus se misturando ao aroma nefasto dos restos de salgadinhos industrializados... Ê lembrança, ê lembrança que puxa outra. Quanta saudade eu tenho até daquelas paradas de descanso que o motorista da composição fazia para gastarmos dinheiro com suvenires caipiras ou com café preto de alguma fazenda da região. Eu levava tudo, as crianças queriam tudo, minha mulher comprava tudo; levei muitas vezes ali meus sonhos e angústias... Depois eu os trazia de volta.

Por vezes aquelas viagens carregaram minhas expectativas, alegrias e frustrações. Percorrendo a estrada com minha querida Isadora, com meu pequeno Raul e Renato, apenas com um velho amigo ou mesmo sozinho. Visitar meu velho pai e dizer-lhe: “Encontrei, pai, encontrei minha vida”. Era mentira! Mas eu dizia; antes não era mentira, já que minha vida ficara 18 anos para trás.

Sim, senhor que lê este relato de velho – não pense que é lamuria ou tristeza; oh, não! É mais uma constatação de uma felicidade que busquei. Mas sim, eu quis morar de volta onde nasci; contudo, as crianças tinham mais raízes urbanas e minha mulher era refinada demais para viver fora de São Paulo. Fui ficando, ficando, ficando... E ficando velho mais velho a cada dia. Também doente.

Apenas viajando alegre ou, às vezes, triste, a admirar a paisagem monótona pela janela do Flecha Azul, a sinfonia robusta do motor sibilando e escondendo sua potência violenta, o zumbido opaco dos veículos que sobrevém na rodovia, a curta parada de lanche que em muitas ocasiões incomodam, por certo, ao impaciente motorista. E, por fim, o desembarque na rodoviária, com aquelas partidas e chegadas dos que esperam e anseiam perseverantes. Aquela foi a estrada da minha vida!

Provável que eu morra daqui a poucos dias. Não me dão muito tempo. Minha mulher desconversa, mas eu sinto o câncer acometer-me. Da mesma maneira que eu sinto tanto não ter voltado à minha terra... No entanto, tendo ao meu lado a presença de vulto com brilho bastante fusco que emite certa consciência, sei que se fosse possível retornar à vida em Belo Horizonte, eu não poderia ir e também não quereria mais. A cidade lá já não é minha, é de outro. Creio que São Paulo passou para lá alguns de seus milhares de prédios e fugacidades, de modo que a viagem para o passado tranquilo é quase impossível; e, certamente, o saudoso Flecha Azul não pode mais percorrer este caminho.



Por Ricardo Novais

Andanças nos Bancos de Praça

Velho banco de praça vazio que só não é mais antigo que o bairro onde fica.
Foto: querida Tereza Duarte.

Em minhas andanças nas nuvens, surge uma lembrança imperativa. A infância. Já vai tempo... Tempo do PC 486, do sistema operacional com aplicativos bem definidos, de quando o mundo era dividido apenas em real e virtual; não como agora onde tudo se integra, ficando difícil distinguir sonhos de devaneios.

Lembro do Juninho, um amigo que morava 5 ou 6 casas à esquerda da minha. A mesma rua, rua dos adolescentes; embora eu fosse criança, o bairro já era juvenil. Juninho tinha 10 anos, eu quase. Éramos como irmãos, sempre juntos. Estudávamos na mesma escola, 2 ou 3 quarteirões da nossa rua.

Uma vez, fora da sala de aula, Juninho pediu-me ajuda na lição de matemática. Eu não sabia também nada de números, mas tinha que evitar que meu melhor amigo repetisse o ano e fosse para uma turma diferente da minha. Ajudei-o por egoísmo. A tarefa foi árdua. Ele não conseguia se concentrar, o futebol o distraía, o sorvete o fascinava, as bolinhas de gude sibilavam encantadoras em algum canto, o vídeo-game conversava com charme... Cheguei mesmo ao ponto de amarrá-lo num poste de energia elétrica e passar-lhe a lição do livro de exercícios matemáticos, no entanto, Juninho adormecia no meio da tabuada...

Apenas no último dia antes do exame final, por milagre ou consciência à amizade, Juninho percebeu que nos separaríamos no recreio e nas travessuras em sala de aula; então, sendo mais homem que menino, passou toda a noite e madrugada aprendendo a aritmética, geometria, frações, variáveis, dízimas, raiz quadrada, equações simples, fatoração, álgebras, ângulos, enfim, decorou de sobra os fundamentos e problemas da ciência matemática. Contudo, desgraçadamente, estudou tanto que esqueceu-se de dormir. Na manhã seguinte, a mãe dele perdera a hora, ele não acordara e não fizera a prova. Foi reprovado na escola. Naquele tempo havia repetência de ano letivo como sentença aos alunos que fossem julgados incompetentes à próxima fase escolar, hodiernamente os educadores não sentem necessidade disto. “Isto é retrógrado!”, afirmam os mestres modernos do alto de suas secretarias. É pena não haverem pessoas tão bondosas naquela minha época de estudante, é pena!

Mas mesmo em classes diferentes, Juninho e eu continuamos nossa amizade fraterna. Naturalmente que os meses passavam e, separados por turmas, surgiram em nossas vidas recentes amigos, outras distrações, os sorrisos de meninas, as broncas das professoras, a nova gente, etc.

No entanto, dois anos depois deste nefasto episódio envolvendo a repetência de Juninho, precisei dele. Eu tinha uma dúvida que não se aquietava dentro de mim: “Convidar Maria Hercília para fazer par comigo na festa junina da escola ou não?” E se ela não quisesse ir comigo; se achasse que eu era um bobo por pretender que a garota mais bonita do colégio inteiro aceitasse convite tão tolo e sem propósito. Talvez ela até fosse à festa, mas com algum moleque intrometido. Porém, como eu saberia todas estas coisas se não perguntasse a ela? Aham; Juninho era muito inteligente, se repetira de ano letivo outrora fora pela sua astúcia malandra e esperteza social. Ele haveria de me ajudar em momento tão confuso.

- Ora, ligue para ela e pergunte logo! – aconselhou-me.

- Não posso simplesmente ligar para ela, não tenho o número.

Mentira, eu tinha sim o número do telefone dela e Juninho sabia disto. Então, sem melhor alternativa que salvasse-me de viver, estando imerso na mais pura bisonha, eu tive de ligar para Maria Hercília. Gaguejei, como imagina a querida dona leitora, errei meu próprio nome, errei também o dela, chamei-a de “Maria Ervilha”, havia barulho, meu cachorro Teco-Teco latia dentro do quarto, Juninho ria de minha latente inabilidade romântica; foi um desastre. “Tonto!” Não zombes da meninice frouxa deste pobre autor, leitor álacre. Nunca gostou de uma garota bonita em seus tempos pueris?

Curiosamente, Maria Hercília aceitou o convite atrapalhado. Não menos atrapalhado foi Juninho ajudando-me com as vestimentas rasgadas e remendadas apresentando minha imagem na dança jeca, e na barba pintada com canetinha preta (não era à base de água e sim alguma química ordinária daquela época) que riscava de meu nariz à testa. Seja como for, eu estava pronto; graças a Juninho. Da festa pouco digo, ou nada. Esta é história muito particular e que em nada acrescentaria ao texto; talvez só fizesse com que o espirituoso leitor desse mais e mais gargalhadas às minhas custas. Isto não! Além de que festas juninas são todas iguais: “Olha o padre, é mentira! Olha a cobra, é mentira! Olha o caipira de cócoras, é verdade!” Para não saírem por aí dizendo que sou parcial e nevrálgico, admito apenas que fiquei uma semana sem lavar a mão que Maria Hercília havia apertado no "arrasta pé". Só a lavei porque o desgraçado do Teco-Teco a lambeu na tentativa de abocanhar a “maria mole”, um tipo de doce infantil que existia antigamente, e que eu segurava entre os dedos – mesmo assim relutei e ponderei bastante antes de verificar que seria de fato impossível ficar sem lavar aquela mão que tão bela menina havia tocado.

Desta história só conheci a verdade depois de adulto. Num encontro casual em trivial lanchonete, a boca da própria Maria Hercília confessou-me que fora convencida por Juninho, em conversa no finado ICQ, a aceitar parceria comigo naquela festa junina do nosso colégio. Juninho pagou a ela por isto com 1 ursinho de pelúcia, roubado da irmã, e 1 tamagotvhi.

Que amigo! Devo muitas coisas a Juninho. O pior é que nem posso pagá-lo; oh, grande parceiro infantil! Um dia à tarde, há muitos anos, não havia muito sol e sim uma garoinha triste, eu estava sentado no banco da praça do bairro e encostou ao meu lado um garoto. Era o meu melhor amigo:

- Vou mudar...

- Quê?!

- Vou mudar! Você está surdo?

Eu nada disse; não que estivesse mesmo surdo, apenas não queria ouvir. Mas Juninho queria e precisava falar:

- Minha mãe avisou ontem. Meu pai foi promovido a cargo superior em outro ofício. Vamos ter de ir com ele... Vou embora da cidade, do bairro, da escola...

- Não há outro jeito?

Havia. Juninho mudou-se para o meu quarto. Ele morou durante 6 horas e 20 minutos escondido debaixo de um sofá carcomido pelo tempo, como Gregor Samsa só que tendo companhia e levando lambidas amigas do Teco-Teco, até que o pai dele apareceu em casa e o levou. Mudaram-se. Nas tais andanças das nuvens jamais reencontrei meu velho amigo de infância, nem mesmo sei se ele ainda está vivo; às vezes tenho saudade... Quem sabe, em alguma hora desocupada, eu vá encontrá-lo no twitter; sabe-se lá.

Da torre da igreja do largo do mosteiro italiano soam 6 badaladas de sino, importunando os pombos que saltam para vôo a esmo assustados pela expulsão repentina. Eu continuo sentado no meu antigo banco de praça e sentindo a mesma garôa a mover-se no céu nublado.

Por Ricardo Novais

Senhoras e Senhores, Aplausos!


O presidente do Santos FC, Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, apaga as velinhas do bolo comemorativo aos 98 anos de fundação do clube, que é um dos maiores do mundo. (Lance!net - Foto: Ari Ferreira).


Semana Especial Santos FC: É, meu amigo, se vossa senhoria é leitor deste blogue e não torce pelo Santos Futebol Clube está mal arranjado; ou bem, dependendo se aprecia o futebol e se acha que este esporte é manifesta arte em forma de jogo - jogo bem jogado.

E em matéria artística o clube da Vila tem renome de boa crítica do público há tempos, em platéias das mais diversificadas, nos maiores palcos da Terra... Sempre brilhando, uns artistas foram maiores que outros, de outras temporadas, mas a companhia que promove o espetáculo sempre se apresenta envolto em manto alvinegro, sublime, impecável na áurea iluminada que encanta... Encanta deveras!

Ontem, jogo válido pela Copa do Brasil entre Santos x Guarani, na Vila Belmiro, na festa de aniversário de 98 anos do clube, o Peixe goleou o pobre Bugre de Campinas por impiedosos 8 a 1 (Neymar marcou 5, Robinho 2 e o outro gol do glorioso foi de Marcel; Moreno descontou para os bugrinos, que tem time incompatível com a tradição do Guarani FC). PH Ganso foi quem deu o ritmo da festa e o único marcador do meio-campo, Arouca (obrigado São Paulo!, obrigado Fluminense!), preparou o salão para o festim artístico. Foi um show incrível! Isto mesmo, mais uma apresentação digna de reverência entre os maiores espetáculos deste mundo.

Robinho (fez 2) e Neymar (fez 5) saúdam a torcida. Senhoras e senhores, aplausos! (Lance!net - Foto: Ari Ferreira).

Teve bolo, meninos alegres, Robinho vestindo a camisa nº 200 (comemoração das 203 partidas dele pelo alvinegro praiano), o 'eterno' lateral-esquerdo Léo também vestiu o fardamento de nº 98 (alusão ao aniversariante da noite), torcida entoando um clássico "Parabéns pra Você" em meio a um olé aqui outro acolá, e especulação vinda do Real Madri. O presidente Luís Alvaro de Oliveira foi categórico num espanhol simpático: "No!".

Robinho comemorou a marca de mais de 200 partidas defendendo as cores santistas. (Lance!net - Foto: Ari Ferreira).

Não há como deixar de reconhecer o esquema tático montado pelo técnico Dorival Junior. Mais que isto: reverenciá-lo. O Santos tem um time encaixado, treinado com precisão cirúrgica para atacar o adversário. O leitor perdoe-me por ser propositalmente repetitivo, é mesmo para ecoar com gosto na mente, mas devo dizer que "depois de assistir o Santos jogar, os outros times ficam tão sem graça"...

Veja aí, querido torcedor, se meu deslumbramento é descomedido:


Ah, claro, ainda teve a 'cereja do bolo' de aniversário. Os espectadores mal puderam acreditar no lance belíssimo proporcionado pelo jovem e talentoso meia santista Paulo Henrique, o Ganso:


Quantos títulos o Santos FC conquistará, se é que vai conquistar, pouco importa; é um prazer vê-lo jogar. Obrigado 'Meninos da Vila'! O torcedor anda mais feliz, sorri ao "corintiano da padaria" com imensa alegria e satisfação, e deixa-lhe uma formidável gorjeta.

Parafraseando o cronista antigo na Copa de 1982: se Santos não vencer campeonato algum este ano, azar do campeonato!

Já podem aplaudir; desçam as cortinas, até o próximo espetáculo.


Por Ricardo Novais

Avestruz, na Cabeça!


Zé da Zebra é meu tio. Há alguns meses já passados fui visitá-lo na Gâmboa, bairro do município do Rio de Janeiro e Estado de mesmo nome, mais precisamente entre a Praça Mauá, a zona portuária e os ‘malandros da velha guarda’.

Meu velho tio, bonachão, sempre sorridente, gosta de um chopinho, não vai à praia, torce pelo Botafogo e tem o vício da “fezinha” no jogo do bicho. Nunca conseguiu quebrar a banca e elevar-se ao patamar sobre-humano. Ele sempre foi mesmo um ser humano.

Os seres humanos, como sabe o leitor – aqui aceitando os ensinamentos de Jorge Furtado –, são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros animais, denominados bichos, justamente pela sua capacidade de raciocínio altamente desenvolvida.

Os bichos, por sua vez, geralmente se caracterizam por serem animais ovíparos ou mamíferos, como os seres humanos, no entanto, segundo a ciência, não possuem capacidade altamente desenvolvida de raciocínio. Contudo, os bichos também dão nome a este entretenimento tão apreciado por alguns seres humanos, incluindo o meu lúdico tio carioca: o jogo do bicho.

Por tal costume, os homens de bem denominam meu tio de contraventor. Mas ele é tão boa gente que fiquei pensando nos motivos que deram origem ao seu mau vício e, desde modo, naturalmente fiquei curioso sobre a origem deste jogo tão enraizado na cultura do povo brasileiro – ops!, digo, nos hábitos do "seu" Zé da Zebra.

Dizem as línguas mais antigas da Baía de Guanabara que o polêmico jogo do bicho surgiu no Brasil no início da República pelas mãos do velho Barão de Drummond. O aristocrata decidiu fazer uma campanha para conseguir reerguer o jardim zoológico de sua propriedade, em Vila Isabel, em pleno Rio de Janeiro de fins do Império. Eram tempos efervescentes aqueles... e difíceis. O Barão também passava por dificuldades.

Assim, o velho fidalgo listou os 25 animais existentes no espaço e lançou o jogo, estipulando quatro números para cada bicho, que formam as dezenas de 00 a 99; como ilustrado na cartela acima, que, por sinal, não é minha!, fique-se claro: apenas a tomei emprestada dos objetos de fé do meu querido tio. De toda forma, o critério é usado até hoje.

Inaugurado em 4 de julho de 1892, a imprensa e a alta sociedade carioca festejaram a novidade que o barão criou para atrair mais gente ao seu jardim zoológico, que tinha também restaurante, hotel e outros passeios. Mas os vigilantes da lei logo apontaram a ilegalidade do jogo. Ih, deu zebra!... Notavelmente, como percebeu o leitor pouco malandro, este animal inexiste relacionado na cartela daqueles que tentam a sorte grande; o ofício da zebra tem como objetivo apenas o sobre-nome alheio – como o de meu amável tio – as regras da loteria esportiva e a graça que vem mesmo do puro azar.

De tal modo, entre idas e vindas, o jogo do bicho começou a funcionar no Brasil. E essa ambiguidade entre legalidade e ilegalidade manteve-se pelas décadas que o jogo foi se popularizando. Finalmente, a lei de contravenções penais, decreto 3.688, de 3 de outubro de 1941, considerou efetivamente a proibição dos jogos de azar no Brasil, prevendo prisão (de 4 meses a um ano), multa e fechamento do estabelecimento quando descoberta a prática do jogo do bicho.

A sua proibição, no entanto, não inibiu a prática. Por tal motivo é comum vermos os pobres bichinhos pulando de galho em galho levando a sorte aos seres humanos e também fugindo daqueles que, ou por pouca fortuna ou por obrigação, vivem a persegui-los. Os chefes do jogo, os chamados bicheiros, começaram a tornar-se cada vez mais poderosos com braços em agremiações populares como as escolas de samba e na política – também em alguns clubes tradicionais de futebol da zona norte –, com o apoio indireto a políticos.

Meu tio, que nasceu na Gâmboa, mas frequentemente é encontrado no pitoresco bairro de Vila Isabel, orgulha-se de ser taxado de contraventor encantado dos jogos de azar – ou sorte. Diz o "Compadre" Zé da Zebra: "É avestruz, na cabeça!", e brinca galhofeiro, fanfarrão que ele é; mas, da última vez que o visitei, também constatou aborrecido e abanando a cabeça para os lados demonstrando certo desalento: “já vai longe o tempo em que o distinto chefe de polícia sorria ao bom malandro vestido de terno, cartola e bengala”.

Ontem chegou a notícia que ele morreu. Oh, não! Não foi de explosão à bomba ou de embate com federais; foi ataque fulminante do miocárdio. Maldito avestruz! Deu galo na cabeça... Ou era pato*?

Que descanse em paz o "Compadre" Zé da Zebra! Embora tanto os bichos, que hão de roer-lhe as carnes no túmulo, como os seres humanos, que podem querer medir-lhe a idade dos ossos nas coisas futuras da arqueologia, possam importuná-lo no campo santo da eternidade. De modo que nem a morte é garantia de sossego e sorte.

Assim como meu finado tio Zé da Zebra, que tinha fé no avestruz, ou de outro que fora afortunado pelo macaco, pelo leão, pela cobra ou por uma fauna inteira que quebre a banca, muitos seres humanos ainda hoje também apreciam a "fezinha" no jogo... Coisas obscuras da sorte, mas, neste caso, perceba: "foi pura zebra*!":



Por Ricardo Novais

* Esclarecimento para dar sorte e despistar o senhor policial: Não há zebra nem pato no jogo do bicho. Perceba o flagrante de discriminação no mundo animal; onde estão as ONG's que defendem a natureza nestas horas? A zebra, mais malandra, apenas cumpre seu ofício. Mas o pato já se manifestou em petição: "Obstante, azar do jogo do bicho!".