Só um minutinho...

Expediente republicano e do bom gerúndio...

- Gabinete do prefeito, boa tarde!

- Alô, boa tarde! Eu poderia marcar uma reunião com o prefeito ou com alguém da secretaria social; é assunto importante...

- O prefeito está com a agenda lotada, ele foi a compromisso administrativo na zona norte da cidade, senhor. Sou secretária dele, em que posso estar o ajudando?

- Sim, sim, claro; pode me ajudar. Sabe o que é; meu nome é Policarpo, sou representante de uma grande empresa, na área de desenvolvimento sustentável... Bom, gostaríamos de marcar um horário com o...

- Só um minuto, por gentileza. ♪♫♪♫... "Hoje é festa lá no meu apê..." ♪♫♪♫...

- Secretaria do tempo e clima, boa tarde!

- Meu senhor, eu preciso falar é com o prefeito.

- Só um minuto.

- Gabinete do prefeito, boa tarde!

- Eu acabei de ligar e a senhora me passou para o ramal de meteorologia...

- Só um minutinho, vou estar transferindo. ♪♫♪♫... "Hoje é festa lá no meu apê..." ♪♫♪♫...

- Secretaria de metrologia, boa tarde!

- Impressionante!

- O que o senhor deseja?

- Quero falar com o prefeito, é importante!

- Ah, sim; só um minuto. Só mais um momento, por gentileza.

- Gabinete do prefeito, boa tarde!

- Vocês são incompetentes! Desculpe, mas a senhora é burra? Eu não quero conversar com o homem do clima nem com o de pesos e medidas, preciso falar com alguém do social!

- O senhor de novo? O que quer? Tem que estar sabendo o que se quer, tem que estar sendo mais específico; é secretaria de meteorologia, metrologia ou social?

- Para trabalhar em repartição pública não é necessário passar em concurso? Como pode ter alguém tão ignorante como a senhora trabalhando na prefeitura?

- O prefeito não está, e o senhor está me ofendendo.

- Não estou ofendendo nada! A senhora que fica me jogando de um lado ao outro como se eu fosse uma peteca...

- Está bem! Está bem, senhor cidadão. Só um minuto.

- Secretaria dos esportes, boa tarde!

- Eu quero falar com o prefeito, porra!

- Não, meu senhor; aqui é de esportes. Só um minuto que lhe passo para a secretaria da saúde, lá o senhor pede pra falar com uma sexóloga.

- Espere... Alô...

- Secretaria da saúde, boa tarde!

- Não tem nenhum gabinete que resolva meu problema?

- Tem sim, o senhor deve falar é no gabinete do prefeito. Vou passar lá, só um minuto.

- Gabinete do prefeito, boa tarde!

- Isto parece o inferno! Haja paciência! A senhora sempre maltrata deste jeito o cidadão? Vocês estão me jogando no buraco...

- Ah, por que não disse antes? Só um minutinho, vou estar transferindo no ramal. ♪♫♪♫... "Hoje é festa lá no meu apê..." ♪♫♪♫...

- Secretaria de obras, boa tarde!

- Desisto! Eu, meu senhor, só queria falar com o prefeito. O prefeito! O prefeito! Entendeu?

- Calma, calma, que não é aqui, não. Tem de marcar com a secretária dele, é uma mocinha bem simpática que irá resolver o problema do senhor; espera aí que vou passar para o ramal correto. Só um minuto.

- Não, aquela mulher não... Ela é maluca!

- Só um minutinho.

- Gabinete do prefeito, boa tarde!

- Ai, meu Deus!

- Só um minuto, senhor.

- Secretaria ecumênica, boa tarde!

- Por favor, o senhor pode me passar para a secretaria social?

- Claro. Só um minuto, por gentileza. Mais um minutinho. ♪♫♪♫... "Hoje é festa lá no meu apê..." ♪♫♪♫...

- Secretaria do desenvolvimento social, boa noite!

- Noite? São seis da tarde, meu senhor. É assim que tratam o povo? O contribuinte desta cidade é um desgraçado, só pode ser... Pois o senhor sabia que eu passei a tarde inteira sendo jogado de um ramal para o outro, ouvindo uma musiquinha insuportável que já até decorei a letra, indo de lado a outro, de gerúndio a gerúndio, de secretaria à secretaria, de secretária imbecil a secretário incompetente, apenas, meu amigo, para tentar apresentar a vocês um projeto que é...

- Só um minuto! Calma, senhor; fale com calma que eu não estou entendendo nada... Espere, que horas são? Mas, nossa! O senhor disse seis horas? O expediente do secretário terminou... O senhor poderia ligar amanhã?

- Mas é importante! O senhor não pode resolver nada?

- Não posso resolver nada; eu sou apenas o secretário do secretário, e ele já foi embora. E, se é coisa tão importante, o senhor deveria estar ligando antes, né?!

Irritadíssimo, doutor Policarpo bateu o telefone. Pobre homem, quase chorou de desespero. Atônito, ele colocou as mãos encobrindo o rosto e baixando a cabeça; ficou em estado de choque, incrédulo. Alguns minutos depois, ele resolveu que deveria ligar para a diretora geral de sua empresa:

- Dona Agatha, fracassei. Eu liguei na prefeitura, falei com muitos secretários... Parece que o prefeito não está muito interessado em receber nenhuma doação de recursos para a educação escolar do município e nem para os leitos de hospitais públicos...

Ricardo Novais

Viagem Extraordinária!

São Paulo teve o primeiro sistema de trólebus da América Latina, implementado, em 1949, pela CMTC, já extinta. Foto: Alexandre Gabriely.

Em 1949, São Paulo era bem diferente do que conhecemos hoje. A cidade crescia em ritmo acelerado, mas estava longe do caos hodierno. Naquele tempo, era possível marcar e checar aos compromissos, reverenciar o vizinho, jogar futebol em campinhos nas várzeas de rios e namorar no portão de casa.

Foi nesta urbe íntima que viveu Borba de Andrade, rapaz de 21 anos, simples operário das fábricas automobilísticas do ABC e enamorado de Olívia Guedes. Ele morava com um irmão mais velho na Vila Mariana de então, um entroncamento longínquo que ficava entre o progresso das fábricas e a sofisticada cidade; a querida Olívia, porém, vivia em agradável palacete geminado em área paulistana central e valorizada – era moça polida em francês e tediosa ao piano clássico, por boa orientação de sua família quatrocentona.

Num domingo de primavera, Borba comprou flores e subiu em um dos modernos trólebus que circulavam na paulicéia da época – uma novidade para os paulistanos, especialmente ao perímetro da Vila Mariana e Santo Amaro. Mostrando-se contente por passeio tão agradável  que o levaria à tão proeminente e desenvolvida cidade, e também sonhando com Olívia contraída no cinema da Avenida Ipiranga a assistirem juntinhos uma das maravilhosas películas vindas diretamente dos Estados Unidos da América, Borba cochilou nos confortáveis bancos do coletivo. Num solavanco que deu o veículo, ele acordou. Olhou pela janela e não reconheceu nada. Invés do progresso só via mato, nenhum prédio, apenas bosques e árvores. Seria possível que pegara o ônibus errado? Seria possível que o motorista estivesse à contra-mão e retornando à Vila Mariana e seu ambiente rural? De súbito, espantou-se: Qual ônibus? Não viajava mais no modernoso trólebus, mas sim num antigo bonde da linha da fazenda de Sant'Ana e outros campos da Companhia de Jesus. Deixou as flores ao velho banco de madeira e saltou do bonde, ainda o vendo subir, vagaroso, pela serra...

- Mas será possível?

Sim, era. O simples operário reconheceu o lugar, era a Serra da Cantareira. Subiu uma colina e exclamou:

- Sumiu a cidade, meu Deus!

Neste momento, um homem maltrapilho, carregando arcabuz, arco e flecha, barba cerrada e pele morena, gritou ao léu:

- Borba!

O eco saiu à toa.

- O senhor me conhece? – bradou Borba da colina e pensou: - Deve ser alguém da cidade.

Borba desceu em direção ao velho e aproximou-se inquirindo a figura:

- Que quer?

- Nada!

- Mas me chamou...

- Venha! – ordenou o barbudo.

- Oh, não posso; tenho que voltar...

- Venha logo!

Os dois caminharam serra acima. Num descampado, quase no Pico do Jaraguá, Borba percebeu dezenas de homens do mesmo aspecto do velho a quem seguira.

- Quem são vocês?

Todos gargalharam sem responder a pergunta e criando nova questão.

- Quem quer saber? Quem é ele, Borba?

- Borba, chama-se Borba, senhor? – admirou-se o viajante oriundo da Vila Mariana.

- Sim, Borba Gato; por quê?

- Meu nome também é Borba, só que... Ei, espere, disse Borba Gato?

- Sim, qual o espanto?

- A estátua... A estátua gigantesca na entrada de Santo Amaro... Borba Gato foi bandeirante...

- Sou eu, meu rapaz. Um bravo servente do povo paulista pela graça do Senhor! Estes são meus amigos; também bandeirantes do mais alto valor! Todos aqui são expedicionários lutando na selva, contra todos os males do diabo e protegidos pela intersecção do próprio Deus... E eu sou o comandante destes homens divinos... Esteja certo, jovem; se hoje a Coroa nos ignora reles pobres-diabos, mais tarde, em futuro grato, seremos os condutores da nação que há de vingar; pela graça do Senhor! – num gesto mecânico, o velho Borba fez o sinal da cruz cristão e passou a mão na bainha do facão.

- Puxa, que loucura! – espantou-se o jovem Borba.

- Vamos beber! – ordenou o velho.

- Obrigado, mas tenho que voltar...

- Sente-se, beba, depois vá.

Borba de Andrade bebeu com aqueles homens de tanto valor para a cultura da cidade onde nasceu, inicialmente assustado, mas logo, com o entorpecer da cachaça, viu-se rindo e contando piadas paulistas entre bandeirantes genuínos.

- Meu rapaz, de quando em quando passamos por aqui, neste bosque. Sempre retornamos! Aqui foi o palco de uma das batalhas mais sangrentas, entre nós, bravos homens cristãos. Perdi todos meus comandados em luta; e... são estes que vê aqui bebendo convosco. Onde escutais trovões e avistais longínquos raios cruzando o tolo céu, somos nós lutando nesta serra.

- Estão mortos?

- Morremos por honra... Honra aos paulistas! – bradou e os outros repetiram esta homilia.

O viajante de outro tempo, perdido e bêbado clamando por glória que julgou balofa, chegou a contestar os bandeirantes dizendo que não continham honra alguma, pois o interesse sempre fora por riquezas escravistas ou ouro e esmeraldas; e, pensando na reverência que os homens da sociedade de seu tempo – também os de outras passadas e, por certo, de outras futuras  deram àqueles homens guerreiros, usando-os como exemplo de valentia para conduzir todo o país já republicano, Borba de Andrade teve a audácia de conjecturar, naquela tarde extraordinária, no alto daquela colina tão sintomática para o cotidiano paulistano, que muita vez nos transformamos nos próprios monstros que criamos. No entanto, como suas palavras fossem ininteligíveis e todos naquela reunião de épocas sortidas já estivessem com umas e outras na cabeça, foram adormecendo e a noite caiu.

Quando Borba de Andrade despertou da bebedeira tinha uma terrível dor de cabeça. Os bandeirantes tinham desaparecido como por encanto. Procurou-os, gritou-os, nada; só a ressaca etilista de pouca purificada respondia-lhe. Percebeu que o ar era quase irrespirável, e a fumaça chegava com força à montanha. Caminhou à beira do pico e conseguiu ver a cidade ao longe; os prédios, as avenidas, tudo estava lá, ele constatou alegremente e muito surpreso com tantas novidades. Foi descendo a serra, devagar, meio cambaleante e ainda um pouco ébrio, sem perceber que suas barbas agora eram grandes e brancas, assim como os cabelos.

Chegando ao asfalto, Borba avistou naturalmente um trólebus como aquele que havia pegado na Vila Mariana antes de adormecer – tão seu experimentado. Entrou nele e reconheceu-lhe todo, mas percebeu que o veículo tinha aspecto envelhecido. O coletivo andou por avenida larga e linda, fazendo com que o aventureiro passageiro estranhasse o panorama, mas julgou este caso ao cansaço. Finalmente, chegando ao centro da cidade, Borba saltou de pé direito e intrigou-se completamente  o que via naquele lugar o deixou abismado. Marchas do exército, passeatas sufocadas, terroristas à esquerda e moralistas à direita. De repente, da cabina em frente à parada de transporte público, alguns militares começaram a se movimentar observando aquela figura de longas barbas brancas que descera do ônibus recém-chegado. Um soldado aproximou-se:

- Mostre a carteira de trabalho, senhor!

- Quê?

- Documentos, senhor!

- Puxa...

Borba não tinha carteira com ele. Explicou a aventura ao seu inquisidor, paramentado pela pátria e de arma em punho, tudo o que lhe acontecera, o quanto havia bebido, as piadas contadas entre bravos guerreiros de outros tempos, a amizade recente com Borba Gato e outros bandeirantes e que, provavelmente, estes mesmos homens haviam lhe roubado os pertences. A confusão instalou-se. A multidão juntou para acompanhar o espetáculo excêntrico.

- Que este velho diz?

- Que velho? Sou Borba de Andrade da fábrica de carros, em São Bernardo do Campo. Sou honrado trabalhador, aviltantes!

- Os documentos, senhor! – insistia o soldado.

- É subversivo! – exclamou um sargento de longos bigodes que acabara de chegar.

- Ô, 'milico', não está vendo que é mendigo? É vagabundo, porra!... – protestou relinchando o povo enfatiotado.

- Sou honrado! Sou eleitor de Jucelino...

- Prendam-no! Está vendo? É subversivo mesmo! – prontificou-se o sargento com este julgamento precipitado.

- Esperem! Que acontece aqui? – Borba de Andrade, sem entender nada, pediu desesperado tais explicações antes de o arrastarem ao xadrez sombrio e enigmático.

O soldado, gentilmente, talvez por piedade à fantástica história contada por um pobre velho a quem acusavam de louco, explicou-lhe que estavam em 1968, que houvera um golpe das forças armadas e que quem estava no comando do país eram os militares. "Não falemos mais,  não é prudente, senhor!", acrescentou o jovem e honrado soldado do exército. De repente, o viajante Borba entendeu tudo. Cochilou num trólebus em 1949, bebeu com bravos bandeirantes paulistas do século XVIII e, numa viagem tão mágica como maluca, acordou num porão ordinário de delegado ditatorial.

Deste então não se ouviu mais falar de Borba de Andrade. É desaparecido; consta em arquivo de pasta escura e empoeirada com o ficheiro 31.12.1968/DOPS.


Por Ricardo Novais

Impulso (Des)Humano

Desdemona and Othello, Tales from Shakespeare.Copyright: http://etc.usf.edu/clipart

I -

A dúvida me consumia. Andei pela rua. Jantei fora. Minha mulher me traía, de repente eu tive certeza. Não resposta absoluta, mas tive todos os indícios que vieram da primeira dúvida – se esta confusão mentia um pouco, e é possível que mentisse, não era por mal. Além de que a dor e a vergonha são maiores que o sentimento de ciúme. Madalena enganava-me com o primo. Isto, irrefutavelmente, torna tudo mais obtuso. Ao jantar, eu tomei a decisão. Daria cabo de minha vida. Sim, senhor que lê este triste conto, é caso de honrar-me com meu próprio sangue; não há descrédito maior a um homem que a desonra familiar perante aos vizinhos.


A figura do sangue escorrendo de meus miolos abertos por arma de fogo devolver-me-ia a honra perdida; entretanto, como esta imagem sanguinária trouxe muito asco às minhas mãos, fui à casa farmacêutica. O balconista olhou-me, desconfiei dele. Voltei para minha casa. Entrei ao site da mesma farmácia e solicitei uma droga que me levasse para o além-túmulo. Não pense que foi necessária prescrição médica; oh, não. E, afinal de contas, quem precisa de opinião de um doutor para dormir em sono eterno sem sonhos? Além de que por certo que qualquer doutorzinho com ares positivistas dir-me-ia diagnóstico de cientista arauto: "Não é patológico, meu rapaz, estais a sofrer da síndrome de Otelo". Ora! Eu não precisava de tanta ciência, apenas desejava facilitar o caminho do anjo da capa preta. De modo que na tarde seguinte, chegaram a mim os comprimidos devidamente lacrados e exclusivos; ação tranquila e sem empecilhos de nenhuma autoridade do governo ou de casa de saúde, qual, inclusive, eu indico àqueles leitores que, por ingerência afetiva ou outra grave afetação, estejam ajuizando encontro mais discreto com a morte.

Peguei do envelope contendo a droga e coloquei-o no bolso direito do paletó. Fui à cozinha. Servi-me de caneca de café pela metade, e não muito quente para não queimar a língua. Encaminhei-me, vagarosamente, à saleta que servia de pequenina biblioteca. Descansei a caneca à escrivaninha. Fiquei a olhar para os livros velhos, espantei-me. A ironia apresentou-se diante de coleções de títulos de leis, de decorações, de jardinagens etc. que pareceram uma chamada de volta à vida. Ignorei a repreensão. Levei a mão ao bolso, peguei do pacote e retirei os comprimidos. Amassei-os raivosamente com uma colher pequena até virarem pó branco. Empurrei a substância mortífera todinha para dentro da caneca de café; à mesa não sobrou visível nenhum vestígio do conteúdo esmagado. O café já apresentava aspecto gélido; mas a dose era boa.

Quando encostei a borda da caneca à boca para beber o coquetel letal, desisti. Tive outro medo. O que existe no além-túmulo? Ter medo de ter medo nos dá ainda mais medo... Eu estava nesta consideração metafísica quando Madalena entrou, repentinamente, ao gabinete avisando que o jantar estava pronto.

- Que há?

- Nada.

- Você anda muito estranho estes dias, Pedro... – ela trazia um olhar triste e jogava-o fingidamente, assim o julguei. – Diga tudo, Pedro; diga, diga, diga...

A insistência em dissimular daquela mulher comoveu-me...

II -

Ai, dona leitora, eu tenho certeza que irá julgar-me sórdido e cruel agora; e é possível que o senhor leitor arrepie-se e diga-me coisas feias. Chamar-me-ão: assassino monstruoso! De modo que quase me arrependo de contar-lhes o que fiz, mas digo tudo, vá, que isto é confissão. Tive ideia boa de oferecer à minha querida esposa a caneca de café. Isto mesmo; eu apontei gentilmente um brinde mortal à minha Madalena, a adúltera.

- Quer café?

- Não, já tomei.

- Beba.

- Obrigado!

- Beba, querida, está bom; beba e acalme-se antes de conversarmos.

- Não quero; está frio!

Não julgue, leitor; já disse! Eu era o homem, ela a mulher, e havia ciúmes. Maldito impulso que também é infiel à condição humana! Levantei a cabeça, dei com a figura de Madalena me fitando assustadoramente.

- Que está acontecendo, meu amor?

Eu nada dizia. Meu silêncio era constrangedor até para mim. Ela continuava perguntando, eu continuava mudo. Ela disse-me: tolo, louco, insano; falou que eu fantasiei algo doente que saiu do meu cérebro afetado. Mas não, amiga leitora. Quem dera fosse... Havia algo lá entre meu amor e meu comborço.

O desgraçado do primo dela já estava morto. Morrera três meses antes de desastre automobilístico. Mas a infelicidade era saber que Madalena pensava nele, não como parenta de finado fresco, ela lembrava como quem lamenta a perda do amante. Que vá encontrar-lhe então! Pro diabo com isto!

- Insinua que o traio?

- Não disse nada.

- Tem coisas que não precisam dizer...

- Foi ao cemitério hoje?

- Que tem isto?

- Nada.

- Os mortos não traem, Pedro.

- Mas os vivos, sim!

- Sórdido!... Louco! Está louco, Pedro, louco!

Os olhos dela eram incrédulos. Por fim, com olhar tão triste fingido, de súbito, ela saiu da sala, subiu correndo as escadas e trancou-se em nosso quarto de casal venturoso. Não jantamos. Eu ainda fiquei naquele recinto melancólico por algum tempo, envenenando-me. Ficaria lá toda a noite e o resto da eternidade, mas não. Olhei os livros velhos, escrevi um bilhete sorumbático, peguei da caneca de café e desliguei as luzes. Fui à cozinha e... derramei o café funesto no ralo da pia – sempre haverá sites de farmácias para qualquer eventualidade. Dei às costas, eu tinha a raiva, subi as escadas, pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé, bati à porta do quarto, Madalena abriu e eu entrei. Fizemos sexo por quarenta minutos e fomos dormir.

Por Ricardo Novais

* Este conto é a tampa do caixão do livro 'Trem Noturno', Ricardo Novais, Bookess, Brasil, 2010.

Casa de Doce Feliz

Eu vi um velho, à esquerda, com as mãos às costas e vindo, ao centro, uma bela mocinha...


Era um dia frio e de reconhecida garoa. A tarde estava ainda mais feia. Mas este é o clima ideal da cidade, agradável para passeio em velho bairro onde nasci, cresci. Assim foi. Logo que apontei na avenida principal do perímetro, senti saudade de alguma boa história. Um Novo Horizonte de ideias antigas... Fui à banca de pastel, no mesmo local há anos. Não comi nada, cumprimentei o pasteleiro, que não é mais o mesmo de outrora, e fui à outra banca, a de jornal. Lá está o Alcides, há tempos não o via, a mesma cara de bom maluco, barba rala sempre por fazer, sorridente e convidativo. Alcides é uma destas pessoas que ultrapassam a própria época, é quase uma instituição do bairro. Depois de tomar um cafezinho quente na antiga padaria, julguei que deveria ir ao cabeleireiro aparar os bigodes que não tenho, e fui. Sim, a querida dona leitora dirá que não há muito que eu possa fazer quanto à aparência; se tu achas isto, minha senhora, eu lhe afirmo que estais redondamente enganada. Mamãe e Maristela dizem que sou rapaz bem apessoado; embora se deva descontar os laços afetivos da primeira e os econômicos da segunda... Mas, vá lá, que isto nada tem que ver com a crônica; menos interessante também é o corte do cabelo em si, já que homem tem valor diverso de mulher em salão de embelezamento – ou restauração. Fila-te no que estou dizendo, leitor; talvez  seja o único lugar do mundo onde a vaidade feminina seja maior que a masculina. De modo que minha atenção está mesmo é na hora de espera do cabeleireiro, naquele momento onde forçosamente se aguarda numa fila de doze revistas velhas e quinze pessoas impacientes – cinco senhores conservadores ainda querem corte feito pelo mesmo profissional das tesouras; creia que o barbeiro é bom. O recinto interno é comum, luzes débeis que insinuam ambiente limpo, cartazes de modelos belíssimas às paredes, catálogo de escovas e propagandas de produtos de estética capilar. No ambiente de espera, entre uma prosa boa e outra ruim, aquietei-me. Fiquei a fitar através da grande vidraça fechada protegendo da friagem a avenida principal do bairro, os carros céleres cruzando em ambos os sentidos e levando por certo histórias passadas e outras novas, os transeuntes pensativos e que carregam a mesma cara minha conhecida, assim como os cães e gatos; de súbito fixei os olhos no prédio quase em frente, Casa de Doce Feliz.

Não me pergunte, senhor leitor com propensão à diabete, do por quê. Não sei o motivo pelo qual eu admirei tanto este edifício, este nome, as pessoas que de lá entravam e saíam – não há em nada correlação disto com o fato do senhor e da senhora donos do estabelecimento serem conhecidos meu e de minha família. Ocorre, simplesmente, que ali eu insistia em atar duas pontas de minha própria vida, a infância tão doce e a adulta tão feliz. Falo isto em julgamento crítico de razão prática, já que sempre apreciei os salgados da meninice e não creio que exista felicidade absoluta. Eu saí do salão, atravessei a pé a grande avenida, desvencilhando-me dos automóveis, e fui à casa de doces. Cumprimentei meus amigos, comprei bom algodão-doce e boa maria-mole e lancei-me à calçada sorridente com os brinquedos de comer à mão. Aquilatei-me tolo. Andei sem que alma viva alguma elogiasse meu novo corte de cabelo; deixe, querida leitora, não há de ser nada; e andando vagarosamente à direita da calçada, eu vi, à esquerda, um velho com as mãos às costas, e vindo, ao centro, uma bela mocinha... Sorri a ela, e ela devolveu-me o sorriso. Reparei também que as senhoritas simpáticas de outrora agora vivem a vender seus dotes aos moços prósperos do bairro encostando-se sem pudores às esquinas em pleno vespertino. Não julguei mal, não julgaria nada ruim nem bom hoje; mas, para não vexar em demasia a dona leitora com imagens muito lascivas, digo apenas que a garoinha que vinha às minhas ventas conseguiu trazer-me sensação tão afetuosa, suave, meiga; naquele momento eu fui feliz. Mas nem tudo é tão meloso que perdure a eternidade, devo também dizer-lhes que fracassei na minha tentativa de atar as duas pontas da vida. Nem sempre se pode ser tão venturoso como se foi um dia.

Por Ricardo Novais

Quanta Excentricidade!

Escrever, ofício criativo ou maneira portentosa de elevação em apoteose?

Lendo por aí umas crônicas e ouvindo alguns depoimentos de escritores consagrados, outros apenas de pouca reputação, e, ainda, outros que nem isto veio a eles, eu fiquei sabendo, desgraçadamente, a “metodologia de trabalho” daqueles que escrevem – profissionalmente ou não. Por exemplo, descobri que existe um literato que não consegue escrever se não estiver diante de uma enorme parede completamente branca e sem nenhuma manchazinha sequer que venha a interferir em sua inspiração; tem outro, ainda mais velho e conservador, que só escreve os originais de suas obras à pena, tinteiro e papel, com tinta verde em papel branco ou papel verde com tinta branca a fim de colher frutos de esperança, senão até as ideias desviam do seu texto. E tu, hein, amigo leitor que meramente lê, não valoriza os esforços incríveis do processo criativo de um homem letrado? Oh, não! A dona leitora, que não tem mesmo um gênio fácil, já vem exclamando: “Quanta excentricidade!”

Mas, de fato, a minha querida amiga que não tem pevides à língua está coberta de razão; um dia desses, eu soube por fonte segura que um escritor muito famoso declarou que ao abrir a página em branco de seu computador sempre escreve a palavra “nada” – do contrário, não consegue começar... nada. Tem um poeta modernoso – ops! – um poeta moderno de literatura maldita que calça luvas na hora de destilar seus versos; já uma grande romancista da escola neo-parnasiana ou concretista-sustentável muda o tipo e o tamanho da fonte na hora de reler o texto a fim que as letras bonitas compensem a suas formas estéticas pouco privilegiadas. O que de mais curioso li nestas manias que a literatura brasileira  produz foi saber que um imortal da ABL confessou escrever nu, isto mesmo leitor, nu em um cômodo com ar-condicionado ligado à baixíssima temperatura para obter ideias frescas – diz ele que quanto mais gelado o ambiente, tanto mais fresquinha será a sua obra. Diverso disto e crítico daquele é um outro escritor que se comporta com modos mais tradicionais em seu ofício – embora, igualmente ao colega de hábitos nudistas, não dispense um bom chazinho de vaidade às cinco da tarde e acomode-se em qualquer uma das 40 Cadeiras sem largar a espada de decano; homem de princípios fortes, não consegue escrever sem estar devidamente vestido com o fardão de crepe francês verde-escuro com folhas de louro bordados em fios de ouro da Academia  e um chapéu de veludo preto com plumas brancas – é de se ver a cena da grande figura sentado à frente da escrivaninha todo fardado à espera de sua obra-prima que demora por vir, teimosa ou muito humilde que ela é... Mas bem faz o literato em vestir-se com trajes altivos, afinal, nunca se sabe quando o talento será laureado e, portanto, deve-se estar sempre pronto para a ilustre e elevada pose que vai à orelha do livro.

Ora! E eu que pensei que bastaria ao escritor, simplesmente, anotar a ideia que primeiro lhe surgisse à cabeça em algum lugar para que esta não lhe fugisse, pois assim o desenvolvimento de sua escrita sempre manteria a originalidade e, ao mesmo tempo, ele poderia trabalhar com o refinamento de seu estilo. Quanta ingenuidade a minha; mas é que só conheço os livros, não os autores. Ah, mas também eu nunca tive pretensão de literato mesmo, então estou livre para permanecer a escrever somente com a necessidade vital de transpor para um texto os pensamentos que me consomem. Continuarei prendendo a ideia, boa ou ruim, que passar pela mente! Continuarei, continuarei! Para mim, vale tudo nisto; inclusive escrever palavras nas paredes laterais do quarto branco no meio da noite escura com uma frase que relembre o sonho que acabara de acontecer, ou borrar alguma imaginação às mãos, riscar mesas de escritório, rabiscar um nome insurgente num livro qualquer ou marcar num papel ordinário as iniciais de um título que se encontre mais à frente; enfim, tudo pela primeira ideia que nasceu no cérebro. O resto não é nada nem tudo, o resto é apenas o resto ou o que resta de criatividade.

Por Ricardo Novais

Jardim das Aflições

Flores de incenso em jardim de inverno...

A chuva fina, o frio, o tempo nublado, tudo contrasta com aquele outro dia em que teu sorriso, querida Cecília, fazia-se iluminado como dia bonito de sol. Vida doce! Sinto falta daquela nossa última conversa de pé-de-ouvido, minha última esperança em mim mesmo, tão aparvalhada. Coitada! Tão singela. Coitada!

- Que tem? – perguntava ela.

- Nada, mocinha. Estou a contemplar-te... – eu dizia um tanto hesitante entre a confusão que assola certos sentimentos pacóvios.

Ver Cecília deitada na cama, seminua, quase coberta com um lençol de seda bege, aquilo foi a coisa mais fantástica que senti na vida. Não faça chacota de um homem desvairado, leitor zombeteiro. Nunca vistes uma bela garota em sono tranquilo sem dar palavra queixosa? Eu ia assim, assim; feliz e boboca. Vê-la ali, naquele último dia, foi tudo; o mundo poderia ter acabado completamente naquele momento ouvindo as canções de Sammy Hagar. Instantaneamente, entretanto, veio-me o medo, medo de perdê-la, medo de viver – espécie de desesperança que alcança também a alegria.

Sim, dona leitora romântica, eu tinha um amor consumindo minhas ideias. Imagine qual não foi a tragédia que me acometeu quando Cecília atravessou o farol vermelho na Avenida Perseverante com a Rua Nossa Senhora dos Aflitos. A minha amiga deixou-me, para sempre. Deste dia em diante larguei meu sorriso à sombra, impedindo que a lembrança de Cecília iluminasse meus dias. Engulo as palavras e digo que no mesmo lugar, no último alento de vida de minha querida, construí um jardim de flores de incenso – não sei bem do porquê, mas eram  as flores prediletas dela. Aquele maldito cruzamento agora se chama Jardim das Aflições.


Por Ricardo Novais

Memória da Luz


Rabiscos, pintura virtual sobre base de Jackson Pollock. Clique aqui e faça o seu próprio “Pollock”.

Era uma noite escura em que só apareciam de relance centelhas luminosas. Simão Almeida colocava o rosto para fora da janela de casa e imaginava o que estava acontecendo no mundo, ou ao menos tentava idealizar o movimento do bairro onde morava.

Na escola ele seguia o grito, a fala, a respiração das outras crianças para achar a professora e fazer a lição. No almoço ele cheirava a comida para reconhecer sua essência. Todos achavam Simão um rapaz estranho.

Ele foi alfabetizado pelo próprio instinto, escrevia pelo próprio instinto. Já mais velho, estudava com afinco. Passava as ideias ao computador seguindo os sons estridentes dos dedos batendo nas teclas e as vozes da própria memória. Tornou-se escritor de prestígio, com leitores que admiravam a sua excentricidade de autor.

Não cabe aqui julgar o mérito da literatura feita por Simão Almeida, mas sim reverenciá-lo pela tamanha ousadia em viver num mundo ainda mais escuro que este que já é tão escuro, e, ainda, pela sua vontade irresistível de dominar as letras. Por este tempo de trevas, ele conseguiu escrever “A Memória da Luz”, e esta foi sua maior obra, a qual obteve o maior renome entre literatos. Mas, mesmo assim, diziam-no bizarro nos modos e na intelectualidade. No âmbito social era um solitário. Na vida sentimental, nada há a dizer.

O ofício caminhava deste jeito, brilhante e extravagante. Entretanto qual não foi a surpresa dos leitores deste misterioso escritor quando foi revelado aos quatro ventos o terrível enigma de Simão Almeida, ele era cego - ou quase; vivia de representar a realidade tangível e interpretar a imaginária. Pobre homem de ideias firmes... Simão enxergava rabiscos, mas desenhava letras. Durante décadas a fio guardou  com êxito extraordinário, e até admirável, tal segredo de todos; inclusive dos mais queridos, isto é, dos mais chegados. Simão só revelou sua enfermidade depois de julgar e sopesar sua incapacidade de continuar se escondendo de si mesmo o resto da vida em uma sociedade dissimulada. A idade traz com ela as sentenças  mais cruas e lúcidas... Desvendando-se, desvendou também o mundo; em parte. Mas resolveu ele mesmo o enigma de sua peculiar personalidade.

- Sou cego sim, leitor meu amigo; e daí? Isto nada interfere na grande obra que venho criando por anos e anos... Mas poderia ser pior; caro amigo, imagine se além de cego eu fosse também baixinho e gordo? - o escritor tinha desenvolvido o senso de deboche.

Passado algum tempo, empolgado pelas reverências de herói e os tapinhas às costas, o literato resolveu por submeter-se à cirurgia arriscada de correção da catarata congênita que o cegava desde a infância. E num risco - que não foi risco de vida, já que só os espermatozóides correm risco de vida -, o caso dele, com todo o perigo e... A operação obteve êxito. 

- Puxa vida! Mentiram a mim todavia; sou baixo e feio... E... Por favor, dona leitora, conheces alguma dieta eficiente que me faça perder muito peso?

Assim foi. Tudo apresentou-se ao novo iluminado. Pois, ora, de repente, o mundo de Simão criou cores, nuances, contrastes, tez mais reais e menos imaginárias, enfim, tudo havia se transformado de morto em vivo a ele. E o homem foi outro dali por diante. Alegre, expansivo, sorridente. Casou-se, teve filhos. O escritor Simão Almeida conheceu, pela primeira vez, a felicidade dada aos homens, seres virtuosos e místicos; porém, como a dona leitora bem percebe, este escritor encontrou sua luz; sim! Mas o mundo, ora, este permanece escuro. De modo que Simão jamais repetiu seus brilhantes escritos, jamais conseguir escrever algo tão magnífico como “A Memória da Luz”. Custa-me dizer, mas digo, ele recebeu má crítica em seus escritos depois que começou a enxergar com os olhos. Mas se digo é por que é verdade, e a bem-aventurança concordou com tal condenação.

Por Ricardo Novais

Crônica da Despedida

Livros velhos sob à velha mesa...

São três livros. Três livros de Jorge Amado sob à escrivaninha do sítio da família. Isso é tudo. Tudo o que coube do legado de meu avô Nicolau. Será que de todo sofrimento, de toda alegria, uma vida, só isto que resta? Será que além de fotografias penduradas com prego enferrujado à parede, de objetos pessoais do morto guardados no fundo de um velho baú  marrom e de uma espingarda entupida de matar capivara na curva pendurada numa alça do batente superior da porta da sala, tem algo mais a permanecer? Onde, onde foi parar tudo aquilo que por tanto tempo prezamos e que era para nós tão precioso, familiar, próximo, forte? Que aconteceu com o que só como fosca lembrança se esvaiu ao entardecer alaranjado de um final de dia quente de primavera qualquer?

Lembro dos três livros sobre à escrivaninha com curta lágrima no olho direito. Meu avô estava morrendo, consumido por câncer. Toda vez que retorna a lembrança daqueles livros, confronto-me diante do enigma que é a morte. A morte é a morte!...

Cecília Meireles escreveu, certa vez, no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, em mesmo ano de sua morte, talvez já a pressentindo, umas linhas que corroboram meus sentimentos:

“Tenho horror a hospital, essas casas de tortura – passo mal só em avistá-los, de longe: no mundo que minha imaginação figura eles seriam completamente abolidos – todas as pessoas teriam o direito de morrer em paz, em suas casas, de morte natural”.

De meu avô Nicolau sobraram apenas os três livros velhos sob à velha escrivaninha. São três livros clássicos, austeros, pesados, como era de seu feitio. O primeiro é um conto magnífico e também sintomático: "A Morte e a Morte de Quincas Berro D´Água"; o outro, um belo romance, é "Terras do Sem-Fim"; mas curioso mesmo é o que eu nunca li, "Capitães de Areia". Ele fica lá, sob à mesa de madeira empoeirada e carcomida pelo tempo; às vezes, o livro parece fitar-me, tal o modo que fixa-se em minhas retinas. Porém, poderia ser qualquer livro, pois há tantos livros no mundo... e ainda tanto mais deste escritor baiano. Mas era uma época de riqueza, para vovô; e sobraram apenas as três obras, que não se estranharia tivesse sido um jogo de dominó, de vespa, do Santo Rosário ou outro objeto peculiar.

Noutras vezes penso que a vida é para ser vivida hoje, agora. A fugaz lembrança de meu avô, sentado, lendo e pitando uma cigarrilha de fumo bruto, remete-me a isto. Ainda que sonhemos, lutemos pelo sonho, que tenhamos esperanças e corramos ascendendo numa grande escadaria. Uma hora cessa, para, acaba. E aí, o que acontece?

Não sei. Só consigo me lembrar dos malditos três livros, já de folhas encardidas e corroídas pelas traças e outras pragas, lá em cima da escrivaninha de vovô Nicolau. Amado vovô! Saudade, vovô.


Por Ricardo Novais

Convite

Senhor leitor e dona leitora, sempre generosos amigos, convido-os a ler uma crônica deste modesto blogueiro n'O Bule, maravilhoso espaço das letras. É texto da mesma lavra dos que aqui geralmente publico, mas lá julgaram este divertido... Pouco? Oh, não! Para mim é tudo; se escrever é coisa fantástica, a troca de ideias me parece o elixir da escrita.

Passem lá, leiam o texto, comentem; e, caso não seja de vosso agrado, ao menos passeiem n'O Bule - dou-lhes minha palavra, sob alguma barganha à frente negociável, que vale a pena. O Bule é um espaço extraordinário àqueles que apreciam bons textos e os editores são criativos e da nova literatura virtual que apresenta muita qualidade.

Link da crônica: Reflexão do camundongo.


Um abraço,

Ricardo.