Cadeira Republicana

Brasão da República.

Acusam disto e daquilo este ou aquele candidato à cadeira republicana. Paira no ar da Nação um pombo cinza... Temo meu próprio olhar crítico e ferino, muitas vezes até preconceituoso, contra o pensamento de esquerda – principalmente o de linha positivista-marxista. Só porque é de esquerda? Não, porque tendem à revolução e/ou ao golpe. Entretanto, lendo, um dia desses, o artigo de um professor, revejo certos impulsos alojados no inconsciente. É que muitas vezes a prudência excessiva é covardia, assim como ter atitude ofensiva o tempo inteiro é egocentrismo fútil e imaturo. Notório que os dois candidatos à presidência que sobraram no segundo turno desta eleição republicana não se diferenciarem em nada um do outro no cunho ideológico, sendo eles, de alguma maneira hodierna, discípulos da fenomenologia e do pragmatismo decorrentes da filosofia hegeliana. Há apenas nesta escolha presidenciável a mera concorrência de cargos, disputa inerente à própria disputa, coisa tão comum entre seres humanos. Pensei nisto por semanas. Percebi que entre os grupos envolvidos no pleito, de fato, tanto o PT, Partido dos Trabalhadores, quanto o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira, têm suas origens na mesma esquerda social-democrata da França e da Alemanha – talvez um mais alinhado ao ofício de classe e o outro à defesa de grêmio.

Ocorre que fiquei muito impressionado com o tom desta campanha política eleitoral, a hipocrisia tomou conta dela. Temas religiosos, que não são da alçada de quem irá sentar na cadeira republicana, vêm à tona como apelo ridículo. Falam em nome da tradição, da família e da propriedade como se isto fosse a base de um governo, quando tais coisas no máximo dão as linhas para alguma construção daquilo que fundamentalmente deveriam discutir: projetos. Não podemos nos enganar. E se nos enganam, não temos culpa. Mas a nossa única obrigação de cidadão é analisar, de acordo com a própria consciência, os dois projetos – que, aliás, quando expostos e discutidos publicamente, ficam muito aquém dos anseios do povo; desgraçadamente.

Colocando-me no papel de agente comunitário, embora de poucas ideias, tenho lá minhas críticas ao positivismo-marxista das esquerdas; como disse. Mas isto pouco importa. Reconheço no Governo Lula uma luta digna e um esforço monumental para melhorar a vida das pessoas necessitadas. Entretanto, não quero saber de ideologias, nem de religião ou convenções balofas e superficiais de dogmatismos. São muitos os que deixam à mostra os dentes esbravejando o ideial cristão, mas se esquecem de pregá-lo. A coisa é simples: dane-se a ideologia, de direita ou de esquerda; dane-se até o personalismo do candidato, se é populista, acadêmico, preparado ou o diabo. Embora eu não seja um dos cristãos mais praticantes desta república, tenho consciência que o importante é o projeto, a meta. Dois grupos foram testados em igual período, oito anos cada, de administração. Nos dois existiu a corrupção, em um mais em outro menos. Sim! Contudo, qual foi o que mais olhou para o que importa: a desigualdade, o social, os mais pobres? Creio que ser cristão é ser caridoso, justo, querer ver o irmão bem; e não a avareza, o favor pessoal, a vaidade que se infla acima do bem-estar comum. Se Cristo foi mesmo crucificado em nome de todos, Ele ficou desgostoso de ver como usaram Seu santo nome em vão para defenderem ideias de injustiça, de miséria social e apregoarem uma tradição de requinte da espoliação e da exploração ao semelhante. Jesus Cristo não é isto! Jesus Cristo, acredite-se Nele ou não, simboliza o sangue da fraternidade.

Neste sentido, eu não sei se a dona Dilma Rousseff tem plena condição de governar de maneira tão grandiosa, socialmente, veja bem, socialmente, como Lula fez em seu governo – este senhor rústico, sempre barbudo, que desperta tanta ojeriza nos salões lustrosos e vazios, que tem lá muitos defeitos e que poderia sim ter feito as grandes reformas, ter agido com mais transparência em seus atos governamentais. Sim, tudo que as bocas escovadas dizem é verdade; mas também é verdade que Lula foi um dos poucos homens deste país a conhecer a alma deste povo. Noutro dia, por hábito, estudava o contestado período autoritário do Governo Vargas, o Estado Novo, e percebi o quando Lacerda, com tanta eloquência em plenário e em crônicas bem escritas, quis o mal dos pobres. Tive de reconhecer que Getúlio Vargas, muitas vezes de maneira até torta e pouco democrática, agiu como alguém que sabia muito bem quem era o povo que governava e o respeitou acima de tudo – e até deu pelo povo a própria vida, sem vaidade alguma, como insistem alguns ainda hoje. Cabe a lembrança. E se Lula não foi o mandatário dos sonhos de muitos, eu, sinceramente, reconheço nele a postura de quem, igualmente a Getúlio, soube ler a alma do brasileiro. Fernando Henrique, o presidente FHC, custou sabê-la. Consta nos livros de história que ele tenha brilhado em seu período sentado na cadeira republicana. Não desacredito de tal ensinamento. Mas, não sei o porquê, FHC não quis saber de transformar este maravilhoso pedaço da Terra em terra justa. Não me parece bom ir à Europa, com dinheiro, e ouvir: "Você é do Brasil, aquele país de miseráveis?" Se o sujeito tiver o mínimo de consciência social ele perceberá, facilmente, que não se trata apenas de se ter boas condições de subsistência própria e de seus entes, e sim que deveríamos exigir a melhora da vida de todo o povo; ou pelo menos o de sua maioria. Nisto está consistido o valor republicano, e, do mesmo modo, o tal valor cristão. Mas é claro que ninguém tem a obrigação de agir diretamente empenhado para diminuir a desigualdade e a fome. Contudo, penso que temos tão-somente a obrigação de não agir para evitar que alguém o faça. 

A senhora Dilma me parece, para dizer o mínimo, enigmática; não temos a mínima garantia, de nada, elegendo ela. Entretanto, penso que eleger presidente da república o senhor José Serra é agir para impedir a tal melhora de vida do cidadão, dando novo poder à espoliação deste povo, por intermédio da cúpula do PSDB paulista – o paulista, porque creio que o PSDB mineiro, por exemplo, tenha mantido certo senso de dignidade humana herdada do PMDB do doutor Tancredo Neves. Enfim, eleger Serra é eleger a não-cidadania. Elegê-lo é eleger a volta da política do mercado livre de nichos, que dá a certos detentores do grande capital e, ao mesmo tempo, retira a esperança e a oportunidade do cidadão que produz com o esforço do trabalho a riqueza desta Nação – seja o do sul, seja o do norte e o de toda a parte. Tenham por certo, (e)leitores e (e)leitoras, eles virarão as costas à multidão de brasileiros, criativos e podados desta criatividade, se vencerem este pleito republicano. No dia em que o Brasil for um país equilibrado socialmente, aí sim, poderemos conjecturar a tal liberdade de mercado ou o "vire-se como puder". Agora, não podemos compactuar com a fome, a pobreza de muitos, e a má educação das crianças; poxa, justo quando o país começa a andar nos trilhos para se encontrar com o que realmente é. Justo agora que muitos parecem verdadeiramente comprometidos com a descoberta da identidade autêntica deste povo; esta identidade que D. João VI, D. Pedro II, Vargas, JK, mesmo Mário de Andrade, Villa-Lobos e outros tantos se empenharam em buscar. Temos mais uma chance de seguir com a toada da soberania do Estado e do desenvolvimento humano, honrando assim todos aqueles que, de alguma maneira, derramaram um pouco de sangue em glorioso passado. Presente é continuar construindo futuro. E se é neste tempo que podemos cobrar e receber respostas, interferir no rumo nacional e, principalmente, contribuir para que os brasileiros galguem com boas oportunidades os caminhos da esperança, da justiça social, do convívio criativo e de direito – que seja! Esta é uma terra tão bonita, profícua, onde tudo é possível e só nos falta ainda esta tão almejada identidade genuína.

Não! Não a não-cidadania! Sim para o povo brasileiro!

Serra é mal? Creio que não seja; mas o PSDB, partido oriundo de São Paulo, fruto do pensamento de quem desejava um Brasil moderno e justo, caiu no vício da alienação bandeirante. Outrora pungentes homens, hodiernamente ultrapassados. É de se abismar. Franco Montoro, Mário Covas e o próprio FHC não mereciam isto. O que houve com o PSDB? Antes um partido comprometido com o ideal republicano, agora reduzido a um braço, direito, do DEM. Não creio que tenhamos o dever de sermos alinhados à direita nem à esquerda, temos apenas o dever de desejarmos o bem para todos.  

Realmente acredito, mesmo que tão-somente assistindo, que o povo brasileiro está melhorando em suas condições fundamentais de existência. Talvez por causa do Governo Lula, talvez não, talvez por causa do imponderável; às vezes não sei bem do porquê. Mas é que esta terra que tanto me diverte é o mesmo lugar onde repouso meu sono quieto e esperançoso. Amo esta pátria, embora eu não seja patriota. "Acode, acode, acode a bandeira nacional".

Por Ricardo Novais

Homem Subjugado

Google Imagens.

Presumível que doutor Martinez convenceu todos os diretores da grande corporação, que ficava num escuro complexo empresarial, da absoluta irresponsabilidade, falta de empenho profissional e moral, ou seja, da culpa exclusiva de seu subordinado no abalo do projeto de seu setor. Por outro lado, ele queria que José Carlos continuasse na equipe. Gostava do rapaz e sabia de seu adestrado potencial operacional. O que tem a calhar em uma empresa interfere diretamente em processos de produtividade, portanto, não há espaço para afeições de amizade; apenas homens de negócios presos por uma intrincada teia burocrática.

Os demais executivos, advogados e sócios não demonstravam ter mais confiança naquele empregado. Postergado ainda por algum tempo, no fim de duas semanas, o chefe afavelmente convida a  José Carlos para um descompromissado almoço:

- O pessoal do financeiro quer coisas impossíveis... – principiou a falar José Carlos, no meio da refeição, por um assunto sem importância.

- É?! – Martinez rosnou.

- Ah, lembrei; entrego-lhe o relatório do contencioso nesta tarde ainda...

- Não se preocupe, o doutor Machado estará encarregado desta conta..., de agora em diante...

José Carlos baixou o garfo, sentiu-se enjoado daquela comida, ficou paralisado por uma fração de segundos, em seguida olhou para o seu chefe:

- Como assim?

Martinez era portenho, sendo assim permaneceu calado.

- Como assim? Como assim? Está me demitindo, doutor?

- Não! Veja bem, estou muito preocupado e... já faz algum tempo. Houve uma reunião hoje pela manhã...

- A que eu não participei, né?

- Veja, ‘chico’; não consigo segurar... Quer dizer, você é muito instável... É ótimo, excelente advogado, mas é instável!...

- Então está me demitindo?

- Já disse que não!

- Então?

- O pessoal de cima está me pressionando, querem que o Doutor Machado Silva assuma as suas atribuições, os seus contratos, enfim... Ele é experiente e funcionário de carreira na empresa... Acreditam nele... Acreditam que ele dará conta das duas funções...

- Mas ele já tem um cargo mais graduado que o meu; ele não é sócio?

- ‘No’! Mas acredito que seja esta a idéia para remanejá-lo; irão testá-lo.

- Sim; mas... Desculpe, o que tem isto com o departamento? O Machado é gestor de direitos de publicidade e imprensa...

- José Carlos! Doutor José Carlos! Não entendeu ainda que o nosso departamento esta atrelado aos novos setores estratégicos da firma? Confiaram em você. Você falhou! O departamento testará outro agora... Compreende?

- O senhor testará?

- Não foi minha culpa! Eu gosto de você, rapaz; mas você sabe que existem outros acima de mim... Sou o responsável por todo o setor, podem me demitir; compreende?

- O doutor Machado sabia de tudo e não me disse nada?!

- Ele soube apenas hoje... Na verdade fui eu quem propôs isto; queriam lhe demitir logo depois que você regressou à empresa, eu não deixei... Sua sorte é que você é bom...

- Muito obrigado, muito obrigado! Estou percebendo como todos me acham bom...

- É sério! Disse aos diretores que ao invés de contratar outra pessoa, crua, sem treinamento, remanejassem o doutor Machado para o departamento; sei que ele é seu amigo, assim você continua conosco, fazendo a mesma coisa, porém, sem tanta responsabilidade...

- Sem poder de decisão pra nada, você quer dizer?!

- Ele tem mais experiência na função; você sabe disso.

- Sim; sei! E o que vou fazer lá agora? Servir cafezinho, tirar xérox, o quê?

- “Cabeçinha!” Você vai se esforçar lá dentro, reconquistar a confiança de todos e progredir na empresa, na carreira...

Heitor asseou a boca no guardanapo, fitou o outro e perguntou:

- Não pode fazer nada?

- Sinto muito! Somos amigos, gosto mesmo de você, mas não posso fazer mais nada... Entenda! Sinto muito! – doutor Martinez pareceu sincero, posto que gesticulasse, negativamente, com desgosto e desalento. – ‘ i Lo siento! i Perdone usted! i Perdón’!

- Com licença! – O jovem rapaz pediu a licença, mas não foi embora. Ele permaneceu alguns bons segundos batendo o dedo indicador na borda do prato, olhando para a toalha branca da mesa, as manchas de comida sobre o guardanapo, o azeite que parecia já ter sido utilizado à exaustão, em seguida ergueu um pouco os olhos, saudou o chefe num lance de cabeça, ao mesmo tempo, resmungando: "É impressionante! Impressionante!"; ao fazer este comentário mastigado, finalmente, levantou-se e foi embora, deixando Martinez Hasbusier sozinho no restaurante ainda por querer dizer algo que, no entanto, não disse.

Num trabalho burocrático e produtivo, mais hora menos hora, a corda arrebentaria; a teia cederia. Sendo assim, na medida que perdeu espaço na empresa, José Carlos se sentiu ainda mais desmotivado e ainda mais desacreditado. Não encontrando melhor alternativa, ele quis deixar o emprego; os doutores Martinez e Machado ainda ponderaram, mas ele insistiu na desistência. Um acordo foi possível para que ele deixasse o conglomerado empresarial e tomasse rumos mais modestos numa pequena firma de advocacia lá para os lados da grande avenida.

Vieram novas empreitadas em sua vida profissional, e ele ganhou vaga logo na entrevista. Moço astuto! Quando interpelado sobre sua última ocupação o rapaz não hesitou, sorrindo ao entrevistador devolveu a questão:

- O senhor quer a história bonita ou a história real?

Surpreso e experimentado em lealdade, conforme a lei, assim também como gostasse de pessoas persuasivas – dizem que ele, certa vez, arrolou um cachorro como testemunha de processo criminal e, ainda, sob juramento –, o dono da pequenina firma de assuntos jurídicos concedeu o cargo ao candidato. Tecendo outros rumos, José Carlos sentiu-se imensamente livre.

Por Ricardo Novais

Viva o Rei!

Longa vida ao Rei! Fotografia: Arquivo revista Placar.

Na música, na literatura, em todas as artes têm lá seus gênios incontestes. No futebol, uma das artes humanas mais sublimes, este gênio é um ser enigmático, um nobre esportista –  Rei do Futebol. Ele é gênio mais gênio, assim como Deus é mais Deus. Coisas dadas aos mitos divinos.

Faça agora uma contente reverência, torcedor. Se quiser rir, ria; se quiser chorar, chore. O futebol é a paixão mais ingenuamente manifesta que existe. E neste esporte mágico não há nada mais belo e fascinante que a figura de um ídolo. Sagrado. Esta divindade é um homem, negro, impecavelmente fardado de branco, complexão atlética perfeita, olhos aguçados, saltando em gestual enigmático de socar o ar, símbolo do ápice da arte glorificada.

O jogo era contra o Juventus, na Rua Javari. Partida dura, o Santos não conseguia romper a muralha que os adversários ergueram perto da área. A torcida do “Moleque Travesso”, apelido do Juventus, aproveitara os percalços enfrentados em jogo para tripudiar do Rei. Vaiavam-no toda vez que ele pegava na bola. Foi quando Pelé fez, segundo a sua própria avaliação, o gol mais lindo de sua brilhante carreira. O maior jogador de futebol de todos os tempos conseguiu uma sequência de dribles extraordinários dando quatro chapéus em seus marcadores sem deixar a bola cair ao gramado. O goleiro foi o último a ser chapelado. Formidável! Poderia-se até imaginar que esta inesquecível jogada foi tão-somente uma magnífica criação oriunda de seu talento nato aliado a certa raiva que ele deveria estar sentindo das provocações de seus oponentes, pois assim que fez este golaço o magistral craque foi até a torcida inimiga a xingando e socando o ar. Mas não foi só talento e raiva, foi arte. Pura. Arte legítima. Mitológica.

Viva o Rei! Rei! Que seja sempre! Pelé!

70 anos da divindade do esporte; 70 anos de vinda a este mundo de Edison Arantes do Nascimento, o Pelé, Rei do Futebol. Longa vida ao Rei!

Homenagem a Pelé: Greatest Pele Soccer Moments.


Por Ricardo Novais

A briga da praça

Arte de Liz Bittar.


Mal dona Gorete fez soar o estridente sinal da escola, ouviam-se os berros pelos corredores:

- Ô, mano, tem briga! Na saída eu te pego! Eu te pego lá fora!

A correria tomou conta de tudo. Eram livros e cadernos sendo ajeitados e amassados às pressas dentro das mochilas; réguas de acrílico sendo esquecidas em cima das carteiras e chicletes mascados sendo guardados de improviso embaixo das cadeiras; lápis, canetas e borrachas ficando jogadas pelo chão da sala; e uma sintonia violenta de garotos indo para o mesmo lugar. As meninas também se ajeitavam mais céleres que o habitual.

Quando me aproximei, um pouco assustado, do portão de saída do colégio, escutei meu nome:

- Pedro! Pedro! Espere...

Era o Edu, meu colega de classe. Estudávamos na quarta série, embora ele fosse repetente e mais velho. Era difícil compreender como Edu conseguiu perder um ano letivo numa escola em que as ideias disciplinares de ensino alcançam a progressão continuada...

- O que foi?

- Acho que dois moleques estão brigando na praçinha lá na rua de trás; ande, vamos lá ver!

- Não posso, minha mãe está me esperando...

- Ora, não seja mariquinha. Vamos, vamos logo!

Saíamos instigados pelo inesperado e pela imaginação da briga, sob os olhos desconfiados de dona Gorete. Possível que a megera inspetora de alunos tivesse percebido algo estranho, já que garotos e mais garotos insistissem em sair primeiro que outros como se todos estivessem ao mesmo tempo atrasados para algum compromisso importante; mas dona Gorete apenas pediu que andassem em fila e mais devagar. Ninguém a obedeceu. Meu coração já saltava à boca, Edu falava e eu não o ouvia; eu não prestava atenção a mais nada, só às pernas andando frenéticas e com destino já decidido; era como se coisa extraordinária fosse acontecer naquele início de tarde. E aconteceu...

Uma pena! Não cheguei a tempo de ver um moleque branco, sardento e ruivo, com cara de retardado, ser esmurrado por outro; este que batia com gosto era mais alto, provavelmente mais velho, forte, ou gordo, rosto amarelo e cabelo preto e crespo. Todos em volta gritavam palavras de ordem – eram resoluções próprias da molecagem. Algumas meninas estavam presentes e riam, com algum requinte de crueldade, a um canto pouco mais afastado do centro da praça onde se dava o embate.

- Orra, meu! Porrada nele! Levanta, viado! Bundão!

Edu engrossava o coro de insultos contra o garoto que estava ao chão sendo pisado pelo gordo. Eu não ajudava nos xingamentos, apenas ria. Ri muito, gargalhei até, achei engraçado e interessante deveras a desgraça daquele moleque que eu nem sabia o nome. Passado uns quinze minutos, talvez mais – os eventos divertidos passam tão rápido... –, o valentão, que pisava no sardento ensaguentado em pleno gramado da praçinha colegial, olhou percebendo que a diminuta plateia estava em êxtase e inflou-se vangloriado pela vaidade demente. Os uivos deram lugar a certo silêncio repentino. Durante uns dez segundos foi possível ouvir a respiração forte do sardento no chão, ele não chorava e, na medida do possível, encarava bem ao seu algoz. Eram dois moleques feios como o diabo. Um, sem a menor sombra de escrúpulo, deixava toda a má personalidade à mostra; o outro só mostrava o nariz escorrendo sangue e as mãos sujas de terra. Em meio ao longínquo burburinho da cidade grande que a tudo consome e uma ou outra freada de automóvel mais próxima e um ou outro latido de vira-lata presente que insistia por não respeitar a palavra do valentão gordo, eu me preparei para sair à francesa. Mamãe certamente ralharia comigo assim que desse por minha falta. Quis evitar meu castigo indo embora, mas alguém atingiu que eu fugiria do espetáculo e me empurrou para o centro da batalha. Neste movimento, involuntário de minha parte, a ira no valentão deu lugar à troça.

- Quem é você, moleque? Fala, porra! Perdeu a língua?

Como eu nada disse, ele me socou e me mandou sair dali. Mas foram dois ou três murros na boca de meu estômago, fui ao chão igual o sardento desgraçado. Edu e um outro, que não me lembro mais quem era, riram contentes; mas ao mesmo tempo me puxaram a um canto como proteção depois do aviltamento. Naquele instante todos os olhos aguçados da plateia se voltaram para mim. Observei que o garoto sardento, do mesmo chão gramado, também me olhava sem dizer palavra. Infelizmente a tristeza dele era a minha salvação. Meu coração apertou. Neste momento eu já não achava tanta graça naquilo tudo. Comecei a rezar para que dona Gorete tivesse dado atenção à própria percepção e aparecesse na pracinha acabando com a agonia do menino que apanhava como gente grande. Não apareceu inspetora, professora, diretora, nada, ninguém para apartar a briga; também não houve choro, só risos e cochichos desdenhosos. Súbito, recomeçaram gritos coordenados:

- Bicha! Bicha! Bicha!

Os insultos eram dirigidos ao ruivo esmurrado caído no chão. Mas o valentão gordo e vaidoso queria falar, e falou:

- O pai dele é uma bichinha! A mãe dele é puta! E ele é um viadinho!

Muito curioso. O gordo disse estes impropérios ao sardento, deixou de pisoteá-lo e foi embora, vitorioso, nos braços da jovem multidão. Eu quis ir até ele, mas não fui. Nunca mais fui eu mesmo. Fiquei olhando de longe o humilhado se levantar, não olhou para ninguém, a cabeça não era nem erguida nem baixa; ele demonstrava coragem, mas também era covarde; e devagarzinho foi desaparecendo por trás do muro bege da escola subindo à Santo Antônio.

Muito tempo se passou. Dias antes já de minha formatura, eu o vi. Reconheci-o. Era ele. A mesma cabeça que não se erguia muito, mas que não deixava os olhos a ver só o chão. Fui até ele.

- Opa! Meu nome é Pedro. Eu conheço você...

- Eu sei. Você me conhece do dia da briga, né?

- Sim... Caramba! Você se lembra então?

Ele sorriu naturalmente.

- Meu ligeiro colega de agonia... – disse alegremente pousando a mão direita em meu ombro esquerdo. – Prazer, cara. Sou o Leonardo, mas pode me chamar de Léo.

Achamos graça. Ele não tinha mágoa nem ódio algum, de nada. Explicou-me que nem se pudesse reagiria naquele dia.

- Por quê?

- Aquele moleque da briga... Que me bateu, é o Mário. Gordo maldito! Ele é meu primo.

- Nossa! Primo?... Mas só por isto ele podia te bater na frente de todo mundo daquele jeito?

- É complicado, e isto faz tanto tempo... É que naquele dia os pais dele estavam se separando. Traição, endente? O pai dele estava se mudando, para Porto Alegre...

- Que surpreendente! Quer dizer, eu não estou te gozando; viu, rapaz. Mas... Pô! O teu primo bateu em você só porque o pai dele abandonou a família para ir morar com uma gaúcha?

- Não, não. Ele me bateu porque zombei dele... Na verdade o pai dele não foi morar com uma gaúcha, foi morar com um gaúcho.

Por Ricardo Novais

A cintilante borboleta que não podia mais voar

Parque da cidade com a garça asseada e sem a cintilante borboleta azul... Arte do blog.


Três ou quatro borboletas batiam as asas frenéticas e contentes a alçar voo pelo céu resplandecente do parque da cidade, numa harmonia descompromissada e deleitosa. Súbito, arrebenta horrendo efeito imponderável. Uma das borboletas, a de tom mais azul e cintilante, pousou por instante gentil num parapeito de prédio comum encantando a dona da varanda. Mas tamanho encanto virou hostilidade. Surpreendida, a borboleta ferida e assustada voou o mais célere que pode de volta ao parque. Lá se reconfortou numa grande e florida árvore, muito esverdeada, e, com o apoio das amigas lepidópteras, sorriu à própria sombra. Entretanto, a borboleta machucada não podia mais voar.

Não sabe como é triste, leitor, a vida de uma borboleta que voar não pode mais. O cancro lhe consumia até tão menor do que os pensamentos férreos, como tenazes ao arcabouço, e do que a imaginação, verve e repentina, de um elegante sobrevoo à esquina da Rua XV de Novembro, flutuando, sorrateira e saborosamente, na ala sul da Praça da República e norte da Praça da Bandeira. Mas fantasiando o abstruso, encarcerava ao mesmo tempo a alma; e cantando solitária e melancólica a poesia do que se perdeu, desejava voltar à perspectiva de pequenina larva. Centenas de sonhos insistiram por pisotear sua vida... E, como o tédio enraizado a tudo ensina, desistiu de tentar debater as asinhas; e foi este também o último solilóquio da cintilante borboleta poeta – tudo revelado pela prosa testemunhal oblíqua de uma asseada garça que ainda vive naquele parque.

- Libertou-se. Pobrezinha! – constatou a garça.

- Toda borboleta tem direito a voar... – concordaram as amigas lepidópteras, surpreendentemente conformadas, num agrupado suspiro de lamento tão resignado como acolhedor.

Por Ricardo Novais

Sagui de porcelana

Desenho de Flávio Augusto Bazani Cruz.

Ganhei um sagui de porcelana em tamanho natural, uma réplica do animal. Agradeci o presente e sorri como pude. Pareceu-me um macaquinho absurdo, mas a pessoa que me presenteou estava tão entusiasmada que fingi imensa alegria com o mimo.

Agi com pura sociabilização. Menti, portanto. Não me recrimines, dona leitora. Ninguém poderia mesmo viver com alguém que dissesse a verdade habitualmente... Confesso, eu minto entre duas e três vezes em uma primeira conversa de dez minutos com um novo conhecido e triplica se for amigo ou rifa de longa data. Minto porque há público. Minto porque os outros existem. Minhas mentiras crescem atingindo o extremo da falsidade, a impostura. Para isso é preciso cálculo, vontade de enganar, muita energia, engenhosidade, memória e provavelmente muito tempo. É assim que consigo ocultar minha própria identidade e cimentar uma nova sobre uma grande farsa.

Às vezes, pergunto-me o que há por trás de um impostor? Por que arrisco tudo por uma invenção aparentemente desnecessária?

Sempre concluo disto que, desde o dia 15 de Novembro de 1889, sou tão-somente um ordinário exemplar, bem sintomático, desta República a qual pertenço; pedantemente galicista e ideologicamente positivista. Por todos os lados, procuro poder, sexo e dinheiro. Sou grande mentiroso! Aí está toda a causa de minha virtude... hipócrita.

Quanto ao sagui de porcelana, assim que o ganhei maquinei, secretamente, jogá-lo no lixo e o mais prático foi quebrá-lo à marteladas.

Por Ricardo Novais

Carta-Testamento

Brasileiros,

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954.
Getúlio D. Vargas

***
Leitores,

Logo depois de escrever as linhas acima, Getúlio Vargas, Presidente da República, retirou-se desta vida dando um tiro de revólver contra o próprio coração.

No dia em que nós entendermos, um pouco que seja, os motivos, não os motivos políticos, mas as causas ideológicas, as consequências sociais e morais,  a vaidade pessoal e o altruísmo, a glória e a desonra, enfim, no dia em que lermos cada palavra, cada linha desta Carta deixada por Getúlio com algum entendimento, seremos, certamente, uma república federativa um pouco melhor, teremos um processo eleitoral mais transparente e mais justo, e um eleitorado mais reflexivo e mais consciente.

Quando estivermos preparados para a dissertação desta Carta-Testamento, certamente, a autêntica personalidade deste povo estará finalmente formada – e, mesmo com toda a nossa incorrigível preguiça da vida, alcançaremos a paz sublime sob toda a Nação e em nossos peitos também reinará uma silenciosa alegria.

Por Ricardo Novais