Auto de Natal

Imagem de arquivo do autor.

Uma mulher indigente caminhava ansiosa pela rua, ela se chamava Maria. Um homem esfarrapado a acompanhava, ele se chamava José. De repente, no meio de toda a gente, surgiu um menino correndo afobado sob os gritos raivosos de guardas e senhores de barba em seu encalço: “Pega! Pega! Ladrão! Moleque, trombadinha! Bateu minha carteira!". Nisto, um ônibus em alta velocidade descendo a grande avenida não conseguiu frear e atropelou o menino que caiu esmagado no asfalto quente como churrasco-grego em hostil praça pública. Desgraçadamente, a morte foi instantânea. O menino se chamava Jesus. A mãe se aproximou então do pequenino corpo esmagado de seu filho e chorou, copiosamente. O pai clamou aos Céus. Mas não veio voz divina alguma, e nem anjo redentor. Não vieram os reis magos; apenas os guardas da polícia metropolitana ajudaram a velar aquele altar. Os animaizinhos sagrados de presépio também não compareceram envoltos na manjedoura; mas por todos os lados se viam generosos ratos, baratas e outros bichos da mesma laia. A única oração que se cantou e rezou ali foi uma ode desordenada pela chegada do rabecão. Entre tantos olhares estilhaçados, era noite de Natal.

Por Ricardo Novais
* Conto publicado originalmente no coletivo literário O Bule.

O balé

Foto do designer Geraldo de Barros.

- Quero falar com o doutor Pestana... – chegou afobado e repentinamente ao departamento um homem, de gestos familiares, a exigir, veementemente, tratar de negócios com meu chefe. Depois, corrigindo-se, desculpou-se. – Por favor, é importante.

- Doutor Pestana não está  disse a ele. E não estava mesmo. Mas o homem insistia. Eu repetia a ele que o chefe não estava, que voltasse mais tarde; e o velho repetia que era importante, que era caso de vida ou morte. O cara era um chato. Um quarto de hora neste combate tedioso, tive então de ir ao departamento financeiro.

- Doutor Pestana, há um homem na antessala insistindo em falar com o senhor...

- Porra, Adilson, já não disse que não quero que me incomodem? Você é... Oh! Hein, rapaz?!  Oh, cabecinha. Vá lá e despache o homem, ande! – ordenou-me de dedo em riste.

- Mas ele disse que é importante, que é questão de vida ou morte...

- Ah! Já disse. Vá! Não quero ser incomodado por veado nenhum, porra!

Fechei a porta. Era uma porta de um branco opaco. Eu me via refletido nela. Porta fechada. Porta espelhada, quase transponível. Poderia muito bem tê-la atravessado novamente, desta vez sem bater, pegar aquele desgraçado pelo colarinho puído e amarelado, puxar a gravata de boiola dele até esganá-lo e bater-lhe a cabeça no pau do gerente financeiro. As secretárias dizem que o pau do gerente financeiro é grande. Negão filho da puta, está comendo todo mundo do escritório enquanto o doutor Pestana me fode. Doutor Pestana...

Certa vez eu vi o doutor Pestana fazendo sexo oral com o coordenador de vendas. Esses caras de marketing são todos veados. E o meu chefe é um velho bicha. Ele diz que para foder os funcionários tem que saber dançar “balé”.

Eu não me atrevi a atravessar a porta opaca do departamento financeiro, como imagina a dona leitora. Porta espelhada, quase transponível. Pouco a pouco vi minha imagem afastando-se dela. Em seguida, olhei, ao lado esquerdo do andar, as baias repletas de consultores de headfone nas orelhas mal lavadas, suando feito porcos no matadouro, a falarem todo um alfabeto particular aos enfáticos clientes da grande corporação. Bestas em manada. Por um momento, dei graças a Deus por ter o trabalho que eu tinha. Sim, caro leitor assalariado, é necessário muito curso de graduação, quiçá de pós-graduação, para deixar que alguém lhe pise o pescoço; e a dona leitora, sempre ponderada, sabe que aquele que é muito enfático está a julgar a si próprio. Ora! E está certa, minha amiga. Se a carreira de sucesso é muita vez tão superficial como balões inflados com gás hélio, que sobem meteoricamente, mas que ficam presos aos fios de alta tensão da rede elétrica. Ou, então, são balões que aprenderam a dançar "balé".

Caminhei tão devagar, pensando na quão maravilhosamente ridícula que é a vida, que ao chegar ao meu departamento o homem, de gestos familiares, qual insistia com veemência em falar com o doutor Pestana, tinha sumido  feito balão quando queima e estoura.

Por Ricardo Novais

A noiva Ester e a asma maldita

A noiva, 1886, do pintor paulistano José Ferraz de Almeida Júnior.

I - O encontro

Lineu estava num café de esquina do escritório, em pé no balcão, quando viu do outro lado da calçada uma garota elegante desfilar em direção à rua XV de Novembro. Observou quase paralisado a graça daquela moça, entortou o pescoço até perder aquela deleitosa visão por causa de outra dobra de esquinas. Ficou ainda ali, parado, rememorando consigo mesmo os momentos recentes e desconhecidos. Largou a xícara, largou dos pensamentos e tornou ao ofício rotineiro que lhe carimbava a vida.

O relógio apontou 18 horas. Saiu apressado em direção à Sé com ideia de pegar um vagão não muito cheio, coisa dificílima naquela estação àquele horário. No apertado cubículo, avistou a visão graciosa daquela moça da hora do café da tarde. Era ela, a poucos metros e ao mesmo tempo tão longe. Ela saltou na estação Paraíso, não era a sua, mas ele queria descer ali. Não conseguiu, entretanto. Desvencilhando-se do aperto, chegou à porta automática para saltar na estação seguinte. Saltou na Ana Rosa e pegou a composição no sentido oposto, precipitou no pátio da Paraíso, calculou, desceu as escadas rolantes correndo, em meio à multidão, viu a garota, atirou-se no seu encalço, quase como um maluco. Tropeçou num passageiro, esbarrou numa velha, mas alcançou a menina pouco adiante. Venceu uma pequena crise de asma nesta aventura. Ficou atrás dela, na fila em desordem para adentrar em outro vagão com destino à Paulista, provavelmente.

II - A conversa

Eram três talvez quatro estações, apenas. Calculando isto, Lineu puxou conversa:

- Que loucura a cidade, não?

- Por que está me seguindo? Não nos conhecemos, né?

Ele não sabia o que dizer, ficou pasmado. A moça percebeu o constrangimento de seu companheiro de transporte público:

- Não se preocupe, não vou chamar a polícia – disse ela sorrindo; um sorriso lindo, julgou ele. – Não estou zangada, é que sou prevenida contra assaltos ou pessoas inconvenientes...

- Perdoe-me o incômodo... Com licença... – ele ia se afastando para outro canto do vagão lotado, quando ela bradou:

- Fique! – ordenou amavelmente, e se apresentou:

- Meu nome é Ester...

- Muito prazer, o meu é Lineu.

- Certo Lineu, apenas me explique se já nos conhecemos...

Lineu não viu outra opção além esclarecer tudo, desde o início no café, contando sobre a esquina, o eventual reencontro no metrô e a inadequada perseguição àquela moça que tanto o havia impressionado desde o meio da tarde.

III - O namoro

Passaram-se os dias. Ester é convidada ao cinema: "Não quero que você confunda as coisas, Lineu. Tenho namorado!”. No entanto, dois meses depois os convites eram aceitos e o namorado mudou.

De mãos dadas ao noivo, Ester frequentava o café onde tudo começou. Feliz, avaliava Lineu como o melhor homem do mundo. Via nele o pai de seus filhos, uma casa grande e arejada na zona sul que contrastasse com qualquer apartamento minúsculo da região central da cidade. O sentimento alegre era do mesmo modo sombrio, pois constantes eram os ataques de saúde de seu nubente. Ela tremia imaginado a viuvez precoce e seus filhos órfãos de pai.

IV - O casamento

Tudo foi planejado como evento extraordinário. Enfim, o dia do matrimônio chegou para concretizar sonhos intensos.

A decoração do lugar escolhido aproveitava área arborizada de vasto terreno colina acima marcando a data. Exuberância, com todas aquelas mesinhas e pessoas que nunca tinham visto, todos comendo e bebendo, falando e andando com taças e copos nas mãos, felicitando a união e se escondendo, presumivelmente, do corte da gravata e do alvo sapato de salto alto.

Luxo desnecessário, só valia pela felicidade estampada na formosa face, da então noiva, agora legítima esposa. Tudo conforme o figurino, carro antigo de motor beberrão para trazer a nubente à porta da igreja e outro automóvel enfeitado arrastando latas vazias. Convidados saudando aos noivos, arremessando-lhes arroz cru e acenando-lhes em bons votos. Mau-gosto, dona leitora? Pois saiba que este evento foi a celebração do arremate de sonho de amor dos dois pombinhos. O contra-saldo foi a falta de novidade nas núpcias.

V - Os casados

O primeiro dia de casados amanheceu. O ar do chalé de bodas era fresco, agradável, mas Lineu sente algo estranho. Levanta-se da cama, procura a mulher, derruba uma cadeira, vai à varanda, não encontra sua esposa. Torna dentro do quarto, olha em volta, sem compreender, imagina que algo grave acontecia. Fulminante foi o ataque, faltou-lhe ar, como um louco, ele corre à janela, porém tomba ali mesmo. Ainda vê a mulher chegar com a cesta de frutas e flores nas mãos, desesperada tentando devolver-lhe à vida... Tarde demais. Lá dentro do quarto a recém-viúva olha o cadáver do marido, histérica, em cima da cama rasga o vestido de noiva.

Por Ricardo Novais
Conto publicado no livro Trem Noturno, S. Paulo, 2010, Bookees.

A visão de Ezequiel

A visão de Ezequiel, 1518, Rafael.

Conheci-a num cinema decadente da São João. Eu ia pela minha procura perene do novo coração, ela só queria algum espírito disposto ao amor fugaz pago a crédito. Mas nos apaixonamos, perdidamente. Fomos morar numa esquina bem ordinária da São João; aluguel barato, de cômodo pequeno que perfazia toda a casa. Todas as manhãs eu sorria debilmente ao ver Mirella deitada na cama. Não imaginas, leitor, qual deleite se apoderava de minha tola alma ao vê-la seminua e quase coberta pelo velho lençol creme que se encaixava impecavelmente ao seu corpo formoso, insinuante e aventureiro. Nenhuma luz a deixava mais bonita que aquela hemorrágica iluminação vinda do abajur vermelho do nosso quarto impudico. Quarto da lascívia. E nenhuma vida poderia ser mais feliz que a dúvida universal advinda da luxúria...

- Ai, Ezequiel, você é muito ciumento, queridinho... Não! Não quero nada! Não me cobre nada! Traz uma vodca pra mim; pura, dupla!...

Quando Mirella arranjou o primeiro amante, tratei logo de quitar toda a locação. Percebi a doença crônica, incurável. Libidinosa. Mudamos para sobradinho modesto na zona sul. Vida não menos libidinosa. A Vila da Paz trouxe-me esperança, mas não tinha esgoto nem água encanada. Três meses, já estava eu arrendando qualquer imóvel do outro lado de qualquer avenida por causa das recaídas de minha querida. Enfim, não a larguei ao bel-prazer dos amantes... Grande era meu sofrimento, mas não desesperei nem desanimei. Fui reconstruir o amor por todos os cantos deste mundo. Sim, a solução era a mudança eterna; e mudar é viver! Moramos na Avenida Nove de Julho, Rua Santo Antônio, Rua Formosa, Praça Central, Praça dos Correios, Carlos Gomes, Mário de Andrade, Dona Veridiana, Consolação, Avenida São Luiz, Rio Branco, Duque de Caxias, Ipiranga, novamente São João, outra vez mais zona sul, Santo Amaro, Largo Treze, Pinheiros, de lá à zona leste, norte, Santana, Tietê, Jaraguá, novo regresso à íntima São João; em cada casa, novo fracasso. Pouco tempo, ainda habitamos cortiços no Bexiga, Baixo Paraíso, Conselheiro Furtado, Glicério, Brás, Rua do Desterro.

Minha vida estava ungida à dedicação daquela mulher extensa, larga. Rainha da cidade, madrinha do Continente. Entretanto, ao avistá-la de longe saindo da Igreja N. S. da Conceição agarrada ao homem de preto às últimas badaladas da noite, aceitei à visão do Juízo Final. Disparei seis tiros de revólver na puta. O amor jorrou diante do altar. Olhei para o rosto tépido do sacerdote; ele deu-me a benção dos enfermos. Às vezes o próprio corpo clama por alguma alma... Fiz o sinal da cruz e saí por aí, em busca do novo coração, aliviado, a assoviar o bálsamo do regojizo, a rasgar as últimas e primeiras lembranças, entre as quadras sujas e indelicadas da São Carlos do Pinhal em direção à Rua Augusta.


Por Ricardo Novais
Conto publicado originalmente na revista literária O Bule

O jantar

Cena do filme Festim diabólico. Título original: Rope, 1948, Hitchcock.

Que fato extraordinário, leitor! Procuraram-me duas figuras ligadas ao governo e outra dezena ligada à patrulha de certo colégio de ética. Não eram eles fiscais do imposto de renda, tão pouco agentes da polícia federal. Vieram ter comigo para convite a jantar ilibado e de muita moral. Fiz proteger a integridade alheia ouvindo a retidão das línguas. Desgraçadamente, no entanto, havia troféu à glória da virtude dos homens civilizados a verem certo homem e certa dona mortos e expostos em alguma pasta do governo. O melhor esporte humano é a inveja jogada com cobiça; a saber, para jogar com categoria sob a face da Terra basta ser acusador de crime sem prova.

- À nossa valorosa sociedade! – deram início as cerimônias diplomáticas.


Foi então que um jornalista abelhudo, intruso na festa, bradou da entrada principal:

- E o ministério, doutor?

Nem lhe deram ouvidos. Foi expulso do polido salão a golpes de algum esporte radical, pobre diabo! Eu mesmo tive que intervir salvando-lhe de outro destino – barganhando, é claro, alguma nota em n'alguma página de jornalão. É que a vida nesta Nação compõe-se de jantares vultosos, eventos de caridade, futebol cinematográfico, shows de música de origem duvidosa, sessões de julgamentos alheios em Brasília e marchas enfáticas em Copacabana; é uma permanente sincronia universal. Coisas maiores, leitor! Coisas maiores!

Eis que no jantar extraordinário, em meio a distintos e ilustres convidados, levantei taça do melhor champanhe, manifestando-me – sempre acompanhando, claro, as ideias de Nosso Senhor Jesus Cristo – que a amizade entre o povo depende da conta própria, e não da falta de apetite dos homens. Ainda disse, em alto e bom som, que todos os Estados da Federação deveriam ter as mesmas ideias e seguir o mesmo modelo de conduta honorífica. Por fim, declarei, à digna mesa, que a ordem e a moral são dádivas de Deus, e aquele que contraria a lei, a boa conduta e os bons costumes, deve pagar com a própria vida pelo ato. Sim! Nenhum cadáver é mal posto, todos são oportunos; porque nenhum cidadão de bem é obrigado a conviver com o mundo e sua violência psíquica e pervertida.

- E viva à pátria!

- A Copa é nossa!

- Os Jogos Olímpicos também!

- O povo brasileiro é...

- Não há necessidade, Excelência. Estamos entre iguais. Deixe as palavras elogiosas para as explicações ao público, à grande massa etc.

-  Certamente.

Pode imaginar como me senti ali, não é, caro leitor? Não! Não dei a mínima para palavras políticas. Julguei sim bom que o troféu não fosse eu, e que homens vestidos de preto e óculos de grife, todos armados até as cartolas de veludo e carregando as secretas maletas codificadas com todas as equações, tivessem interesses iguais aos meus. E o povo que vá para o diabo que o carregue! Fechei lá meus olhos, leitor. Então todos aqueles convidados brindaram a mim e às minhas palavras cônscias, todos impelidos de admiração – inclusive os chefes da patrulha e os homens do governo, quais dividiam a mesma coxinha de galinha, à mesa, 
uns mais à direita e outros pendendo mais à esquerda. Em meio de tapinhas às costas e mensagens de força e esperança em defesa desta grande nação, comentaram o meu desprendimento, a minha filantropia em salvamento à pátria – inclusive a chefe da Nação. “Grande humanista!”, escutei quase adormecido por causa do vinho.

- O álcool é um veneno que não tem tanto poder a ponto de matar os bichinhos ruins dentro da gente, meu caro... – disse-me ainda um velho de departamento do governo; creio que da pasta do troféu.

Mas não, leitora minha, não carrego em mim rompante ou empáfia balofa. Sou eu tão-somente um homem de bem que quer ver a paz na sociedade e o mal reduzido à carcaça. Sou pela defesa da segurança nacional, e da justiça, como sabe; antes mais da justiça própria... Creio que sou muito bem quisto por isto, pelas minhas boas ações filantrópicas. À salvação da alta casaca! Também salvo cristãos e gente de moral libada. E nisto digo-lhe, modestamente, que parece até que sairá matéria – jornalista, é bom que se diga – sobre a minha personalidade caridosa e corajosa nos grandes jornais, nas revistas conceituadas e nos emocionantes canais de televisão, e traçarão ainda o meu perfil humanista em sofisticadas colunas sociais, em documentários de cidadania internacional e em redes sociais da internet; todos sedentos por letras impressionadas. E suponho que serei manchete por toda a cidade, todo o Planalto, quiçá por todo o Brasil: nação mansa, lírica e abecada.

Por Ricardo Novais

Mosca morta

Ilustração de Marco Polli. 
Quinze para as seis da manhã, o relógio-despertador azucrina-me as ideias espantando o sonho sensual com atriz pornográfica da internet. Acordo de pau duro. A minha mulher quase morta ao lado na cama não pode me acudir, vaca desgraçada! Olho meu rosto ao espelho; ordinário, não tenho vontade de fazer a barba. Rapidamente, velo o sono de uma criança que dorme no quarto ao lado. Deus que conserve! Na cozinha, pego da xícara de café requentado, bebo de um gole. Dou o último nó na gravata e me arrasto até a garagem onde meu carro prata, ou cinza, aguarda paciente e debochado a minha chegada – o primeiro ronco do motor me cumprimenta: “Bom dia, trouxa!”.

Nas ruas, estou entre sombras sob a mesma luz dos primeiros raios de sol. O congestionamento matutino irrita-me, irrita-me impiedosamente. Para não enlouquecer, estaciono na esquina da Bom Pastor com a esperança que aquele maldito automóvel aborrecível seja roubado por algum marginal ousado e de pouca inteligência. Corro a passos largos até a estação central. O metrô às sete horas da manhã está abarrotado de rostos de todas as cores e de todas as idades, um velho pisa-me o pé:

- Opa, desculpe o mau jeito...

- Não foi nada.

Um funk é ouvido em alto e mau som dentro do vagão. Olhares cabisbaixos nada dizem, embora ouvidos incomodados se manifestem tacitamente através das orelhas mal lavadas. Enlatado igual à comida em conserva que damos a cachorro, procuro e alcanço o office-boy, fruto primeiro da classe C, que ouve aquela maldita música: “Abaixe essa porra, filho da puta!”, penso, nada digo. Pois é, caro leitor, o emaranhado da vida nos torna civilizados. Decorei parte do refrão sinistro do funk que me perseguirá o dia todo, talvez a semana, o mês inteiro – a vida toda. Desgraça! Muito infeliz, chego ao escritório; vinte e três minutos atrasado, acusa-me o relógio de ponto da empresa. Caretas de reprovação, outras de contentamento, observam-me oblíquas vindas de todos os departamentos.

- Dr. Azevedo, o trânsito está terrível hoje... – explico-me.

- Tudo bem, Bonifácio; ande, vamos, há muito trabalho a fazer!

Pilhas de papel à mesa, dezenas de e-mails a serem respondidos, milhares de pensamentos parados. Meu desânimo é tanto menor que a vontade de ser mandado embora. Em vez disso, mandam-me. Obedeço. Minha única iniciativa é ir almoçar antes da hora. No restaurante, fila. Muita fila, fila de dobrar portas. Todos, filhos da puta! Mas se sou também eu um filho da puta de classe média, deixei-me ficar...

Parado em pé por mais de vinte minutos aguardando para ser atendido, tudo para poder comer, penso em Deus e em sua infinita bondade. Infinita fila! Jesus Cristo não faria melhor na Santa Ceia...


No arroz, uma mosca. Mosca preta, grande, varejeira, impudica. Mosca morta.


Não reclamo. Não como.


Fiquei com fome. Tornei ao ofício.

Novas pilhas e pilhas de papel aguardam-me, pacientes e debochadas. E-mails retornam em réplicas de mais cobranças. Respondo alguns, mas me disperso logo. Minha diversão é cabecear o ar (condicionado) lutando contra o sono. Enfadonha tarde. Vejo meus chefes indo embora; eles sorriem entre si, embora mentalmente maquinem o cargo um do outro. Filhos da puta!

Quinze para as seis da tarde. Vou ao banheiro, jogo água ao rosto, diante do espelho acusador reparo na barba mal feita. Foda-se! Desço pelo elevador cheio. Dentro da cabina, nenhum conhecido. No entanto, pelas paredes espelhadas do cubículo, avalio uma moça vestida de preto e olhar perdido; ela me é íntima, à distância. O elevador para no térreo; a moça desce para o subsolo indo ao estacionamento junto do namorado, eu fujo para a estação do metrô. A mesma composição abarrotada de rostos de todas as cores e de todas as idades; ao ser cuspido do vagão, avisto o mesmo carro cinza sorrindo à minha espera: “Boa noite, trouxa!”. Entro nele, atravesso todo o pontilhão. O burburinho de bares e boates causa-me inveja, mas sou pai de família. Àquela altura, as ruas estão mais livres das sombras, pois as sombras humanas se fundem com o crepúsculo que cai pesado sobre a cidade, lugar-comum onde tudo poderia ter sido, mas não foi; pode ser, mas não é; poderá ser, mas não será – onde tudo fica parado nos primeiros estágios com a vontade infinita de fazer nada.

Ora, caro leitor, acalme-se! Não pense que estou mal; ao contrário, vou bem à vida. Vejo-te todos os dias em espelhos de banheiro.

Ao jantar, sopa. Minha esposa refinada bufa entre os intervalos da maldita novela das nove e abraça a filha como retrato fiel do futuro. Sim, dona leitora, sempre perspicaz, pensou exato: não haverá sexo à noite. Uma mosca zombeteira pousa na sopa. Mosca viva. Lúbrica.

Não reclamo. Não como.

Fiquei com fome. Matei a mosca de um murro só.

Mosca morta. Dormi bem.

Por Ricardo Novais

O coletivo

Escrava sendo leiloada, em quadro do pintor francês Jean-Léon Gérôme.

Peguei um coletivo para não andar dez ou onze quarteirões. Poucos passageiros dentro do veículo tinham a mesma indecisão: aguardar quinze, vinte minutos estressantes de engarrafamento ou saltar do ônibus e gastar algum momento passeando pela vida. Sentei no banco do corredor e resolvi me entregar à preguiça. Mas a lassidão é coisa que surpreende até o tédio, entrou no coletivo uma moça. Gestos elegantes, belíssima e igualmente praticante do sedentarismo.

Embora o ônibus estive vazio, a moça elegante com cabelos alourados e trajes escuros pediu-me licença:

- Você me deixaria sentar aí do lado da janela?

- Claro! Por favor... respondi-a prontamente.

Foram estas as únicas palavras que demos entre si. O trânsito de insuportável passou a alívio deleitoso. Percebi alguns olhares oblíquos dela quais eram os mesmos que eu também jogava sob suas pernas ditosas, braços elegantes e mãos inquietas. Apanhei um aparelho dentro da pasta, respondi uma ou outra mensagem, mas não havia indagação naquele maldito dispositivo que me servisse de acólito para ocasião tão esdrúxula. A moça loira olhava cidade a fora, depois abria a vidraça do coletivo para em seguida fechá-la. Não havia do mesmo modo motivação favorável em sua respiração. Sinais de constrangimento surgiram sobranceiros como sobrevém entre integrantes da vida urbana.

De repente, o ônibus chegou ao ponto final. O amigo leitor varão que lê história tão prosaica há de saber que nem sempre se pode subjugar o destino. Atribua ao imponderável, caro amigo. E que seja! Levantei do banco, ainda a deixei descer primeiro daquele veículo que transporta muitas opiniões. Ela saltou e sumiu na multidão da rua direita. Eu corri ao edifício central onde o relógio MarcoPolo d’ Schiavo  já me aguardava ansioso e estéril.

Por Ricardo Novais

A prostituta coxa

Madalena Penitente, El Greco.

Atrevido, recebi história de escritora morta. A escritora morta era uma que tinha medo de morrer. Assim como um bruxo, que não tinha tanto medo de morrer, a escritora morta que tinha medo de morrer não sabia o que fazer com uma história de antes da Ponte Rio-Niterói; então a deu a qualquer leitor. Sou leitor ocioso, como sabe, também não sei o que fazer para narrar o conto de Jandira...

Ih, leitor! Estou me perdendo no conto antes mesmo de começá-lo. Culpa da escritora morta, maldita! Sabe a qual escritora morta me refiro, leitor? Então não direi. Também me proponho agora, por questão de compromisso com teus olhos que lêem, veja que consideração eu lhe guardo, a contar a história de depois da Ponte Rio-Niterói. E nem digo que tudo se passa para lá ou para cá, passa-se sim por baixo de alguma ponte.

Jandira é filha de Simão, o leproso. Quando tinha oito anos incompletos de sabedoria, foi atropelada no sinal de trânsito da esquina da cidade onde as ruas correm libertinas para abrigo debaixo da ponte. Ponte suja. Farol de trânsito. Sinal de vida.

Do atropelamento, Jandira sobreviveu com sequelas na perna direita. Pobre coitada! Hoje, aos dezesseis anos completos de indecisão e irremediavelmente coxa, vê a vida passar refletida nas janelas escuras de automóveis que cruzam o mesmo sinal de trânsito da esquina do imponderável acidente. A correnteza das águas enigmáticas ainda é suja, e ainda mais libertina. Fluíste caudalosa, pula a coxa a vender balas e a dignidade no palco de asfalto.

- Ê, Jandira, se não fosse tão distraída... ralha com ela o pai leproso  Podia dar melhor fruto, ser alguém na vida... Mas você não viu o carro... Ô, Jandira! Oh, Jandira! Mas quem sabe, né? Vai saber...

A menina nada diz, é quase muda. Só pula, pula, pula. Só não pula da ponte, mas dá seus pulos embaixo dela. Ela não é feia, é manca. Um desperdício de alegria, talvez sirva de alvo a alguma pedra prepotente ou a algum crime afrontoso. Uma pequenina sombra saltitando alquebrada por violentas máquinas de toda a cidade. Cidade, cidade, cidade, emaranhado corrupto da vida, que maltrata e que ilude e que engana, tanto.

Enquanto isto, do outro lado da rua, religiosamente ao badalar do sino da igreja das Irmãs Carmelitas Descalças, a vitrine da grande loja de departamentos deixa à mostra, através da tela plana da televisão com função interativa, a cara de bolacha do apresentador do noticiário sensacionalista das seis da tarde: “Barbaridade! Duas crianças assassinadas na periferia da cidade, duas meninas...”.

Jandira, tão logo ouve a asquerosa manchete, torna ao ofício no sinal de trânsito da esquina da cidade onde as ruas correm libertinas para abrigo debaixo da ponte; ela fica feliz por estar viva. Nem toda prostituta vinga, pensa.

Quando a alma não encontra onde pousar, creio, há dúvida e até desespero. Tudo é cíclico desde antes, e será depois. A vida persistirá em nossas primeiras e últimas ideias, como força letárgica. Que assim seja! Então, em tempo: caso tenha o infortúnio da vontade, caro leitor irmão de Marta e Lázaro, lance algum adendo além da matéria da escritora morta que tinha medo de morrer. Escritora morta... Maldita!

Por Ricardo Novais 

O mendigo

"O Leito de Morte", de Edvard Munch.

A coisa mais extraordinária eu assisti na calçada da praça do centro. Um mendigo estrebuchava, tossia e ria; de um riso débil e constrangedor. Toda a gente estava ali, em plateia burlesca e sorridente, mas as pessoas paravam rapidamente, apressadas que são pelas tarefas cotidianas da indiferença humana. O sol, já alto entre arranha-céus, espantou a garoa e fervia incolor a lama que servia de esquife ao moribundo. A cidade, tão grande e até generosa, deu-lhe de esmola esplêndido leito de morte.

Rudes bocas maledicentes que circundavam o pobre projeto de cadáver iniciaram um burburinho, a saber:

- Que tem ele?

- É cachaça! gritou uma calça risca-de-giz.

- É droga! retrucou um par de ancas de vestido curto.

O mendigo morria sem fazer ruído na frente da multidão alegre e desorganizada. A morte, a um canto, aguardava-o calma e absoluta. Eu, ao mesmo tempo testemunha e personagem, assistia a todo o espetáculo numa mistura de incredulidade e satisfação. Não julgue à toa, leitor! Há um segredo pungente. De certo que sabe o grande prazer que dá estar livre do perigo exposto a outrem; ai de mim, de ti, de nós; desgraça, só a alheia.

Por Ricardo Novais

O importante é ser feliz

O pecado original e a explusão do paraíso, de Miguelangelo.

Estacionou a velha Parati cinza dos anos noventa na esquina da Rua Sarandi. O prédio era grande, a portaria excêntrica. De modo que Félix foi orientado pelo porteiro a entrar pela ala de empregados, carregava com esforço todas as tralhas do ofício. Subiu pelo elevador de serviço até o quinto andar, a porta abriu, ele entrou. Madalena apareceu logo, inexplicavelmente colada dentro de um vestido vermelho e num salto Luiz XV, dando ordem a torto e a direito:

- Ah, é você o montador? Venha, vou te mostrar a cozinha. Meu marido e eu ainda estamos montando o apartamento, mas quero uma boa cozinha...

Enquanto Félix martelava pregos, parafusava portas de armários, furava suportes de prateleiras, a empregada passava a roupa no contíguo adjacente à varanda que dava para a lateral da cozinha. Ela não era feia, nem bonita; era o que se costuma dizer por aí simpática, pessoa simpática; tinha um olhar perene para a roupa grudada na passadeira; alisava uma camisa, tirava da passadeira, aplainava uma calça, tirava da passadeira, tornava à outra camisa, tirava do fulcro, e iam assim os eternos minutos domésticos. O barulho do carpinteiro em seu ofício não a abalava. Se o mundo fosse explicado por cena tão vulgar e tola, dir-se-ia aqui que a vida não é nem boa nem ruim, apenas o espírito ora é feliz ora é medíocre. Tudo é contínuo, complacente e inesperadamente malicioso.

O carpinteiro começou a olhar as pernas bem torneadas da empregada, a empregada ao dorso musculoso do carpinteiro; já lhe disse, leitora, tudo é contínuo, complacente e inesperadamente malicioso. Tudo é o fruto do pecado original que nos acompanha... Entre um olhar oblíquo e outro sorrisinho mais direto, Madalena apareceu novamente.

- Como estamos?

- Bem, madame. Falta pouco, acabo já. Falta uma ou duas prateleiras e furar dois ou três buracos...

- Não me vá estragar a parede, hein, rapaz!

- Não, madame.

Madalena virou demoradamente nos saltos finos, por instante carnal, observou com afinco os bíceps do carpinteiro. Pensou ali a solução para a vingança que vinha planejando há tempos para o marido mulherengo e traidor, depois teve de fugir dos próprios pensamentos. Mas as ideias são linhas que se entrelaçam dando nós irônicas; durante os últimos tempos de casada calculou para o esposo infiel a mutilação dos órgãos da masculinidade durante a noite, o assassinato dele também durante a noite, um golpe durante o dia, um roubo antes do almoço, torturá-lo após o jantar, aviltá-lo com o incesto do primogênito, ofendê-lo com uma difamação sexual e cruel no clube de tênis; quando tudo surgia naquele momento tão simples, e tão mais discreto: apenas traí-lo com o carpinteiro viril e desgraçado que montava a mesa onde fariam em futuro as sagradas refeições. Se os vizinhos descobrissem, tanto melhor ninguém a julgaria n’alguma festa por ela estar em justa batalha à moda galicista.

A empregada riu, riu do moço e da patroa. Percebeu do moço a ingenuidade própria de iguais; e sabia da patroa o nojo dela pelos pobres. Acostumara já à impiedade, ao desprezo pelos sentimentos alheios acima de qualquer amor. Isto a fez calejar na cidade grande, de homens e mulheres cheios de vazio, de sopro de alma que nunca enche completamente é triste mesmo a felicidade de quem se acostuma com vida. Dentro dos afazeres domésticos, ela sentia-se um animal do lar alheio. Apologia de todos os crimes e censura a toda e qualquer virtude, tida como vulgar. E tudo é vulgar mesmo; exceto o latrocínio, a extorsão, o egoísmo, o ódio à religião, e a insignificância de Deus; refletia deste modo, isto e aquilo, a empregada passando a roupa de outrem – não tão assim coordenado como pode parecer agora, mas uso o recurso que tenho para não por tudo a perder com divagações de uma mente pouco pragmática.

Não há muita coisa certa nesta vida; uma sabe-se ser a morte, talvez outra seja a felicidade. Existem outras, verdade, mas não cabem neste texto... E é necessário terminar o texto. Então... Madalena deixou-se jogar no imenso sofá a refletir-se em si mesma bebericando um drinque de coloração lilás e desembrulhando algumas trufas de chocolate com licor que não chegou a comer; um ponto de vista apedrejado pela boa fortuna, certamente quase feliz. A empregada, também com toda a felicidade que Deus lhe deu, continuou em seu permanente ofício de passar uma camisa e dobrá-la, passar um vestido e esticá-lo, passar uma calça e enfiá-la num cabide; às vezes deixando escorregar à passadeira um ou outro pensamento quase filosófico que logo perdia espaço para o ferro de passar roupa que queria somente passar. Por fim; Félix, um homem de fato feliz, tinha as ideias formadas nos bíceps e tríceps que martelaram e furaram portas e as prateleiras durante toda aquela tarde; depois que acabou o serviço, recebeu ainda ali o justo e necessário ordenado da labuta e desceu pelo mesmo elevador de serviço do começo do conto com o que restou das tralhas da carpintaria, guardando-as na caçamba da velha Parati cinza e acelerando Rua Sarandi a fora. Viver é uma felicidade só, e por vezes  misteriosamente efêmera.

Por Ricardo Novais

'Estação jugular', de Allan Pitz


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Shopping center

Medusa, Caravaggio, 1597.

Era uma música violenta e obscura com imagens em câmara lenta. Foi um balé de Tchaikovsky. A praça de alimentação de um shopping center às nove da noite foi o cenário. Um boné camuflado me dava a condição de investigador de meu próprio crime, os pensamentos passavam pelo córtex cerebral deixando-me todas as pistas. 

De repente, surge ela. Acenou a um, a outro e dirigiu-se ao restaurante da praça de alimentação. Eu, boquiaberto. Observei-a chegar e fazer os primeiros movimentos, a intimidade me assustou.

Fiquei paralisado por bastante tempo, pregado à cadeira padronizada. As ideias não mais acompanhavam o compasso do coração, tudo em mim era dúvida... Dúvida estarrecedora! Cecília ria com gosto de alguma trivialidade que lhe contavam; de longe, eu mal podia vê-la mostrar o espírito alegre e zombeteiro. Não sei quanto tempo se passou entre o primeiro cometimento da aparição, quase surpreendente, daquela mulher em minhas retidas incrédulas e minha tocaia mais aguda e calculada. Sei que quando minha vítima, ainda sorridente, apontou ir ao banheiro daquele shopping center trivial, num impulso só, levantei-me e corri. Corri no sentido oposto das vitrinas repletas de roupas vazias e marcas incipientemente dispendiosas. A passos largos, parei numa esquina de vidros e espelhos irrefletidos. Eram dois corredores balofos como os pensamentos imprudentes, pulsantes como veias cheias de sangue da juventude em seu breve temor de artérias. Esperei, esperei, esperei. Esperei alguns minutos eternos. Cecília, inocentemente, saiu do toalete feminino e deu de cara comigo. Que surpresa!

- Pedro! P... Que você está fazendo aqui, seu louco?!

- Meu!... Putz, eu não acredito que você está me sacaneando... Filha da p...!

- Pare com isto, seu louco! Vá embora!... Vá embora daqui, agora! Não combinamos apenas amanhã? Louco, doente!

Cecília jogou em mim olhos de Medusa, talismãs da ira, exasperados e arredios, ao mesmo tempo. Toda ela tremia. Eu, nem olhos mais eu tinha – era todo cego. Ponto cego entre espelhos que nada refletiam – a não ser dúvida por todos os lados. A suspeita era tanto menor que a confusão causada. Veio o segurança do local, pediu-nos para que fôssemos embora. Não saímos, queriam expulsar-nos. Não expulsaram.

Saí afobado, Cecília veio atrás dizendo-me louco, louco, louco. Não lhe dava mais ouvidos. Apenas tornei e perguntei-lhe:

- Ele sabe?

- Não sabe nada, vá embora!

- Ah... Vou lá então falar tudo, tudo! Vou lá contar para ele quem você é de verdade...

- Você está doido?!

Também não fui falar nada a ninguém; conto apenas agora, a ti, leitor. Atravessei toda a grade de ferro escuro do estacionamento daquele maldito shopping center e parei em frente ao meu carro, sem conseguir abrir a porta. Finalmente a abri, mas não entrei no automóvel – refúgio único que poderia ter-me salvado. Não salvou. Cecília estava atrás de mim, quis dizer-me algo:

- Pedro...

Não escutei. Girei nos calcanhares do sapato ordinário e dei-lhe um tapa no rosto. Não foi forte, nem fraco. Foi um estalido desonroso. Não a olhei na cara. Entrei no carro e saí a toda velocidade permitida pelo coração, ainda por ouvir o pequenino ruído agudo da minha mão desferindo na pele alva e delicada de Cecília um gesto amoroso. Jamais consegui livrar-me deste estalido de ideias impulsivas em meus momentos de reflexão capital, jamais consegui saber se ela me amou antes daquele dia. Depois que nós nos casamos, carregando nossos próprios cadáveres às costas, não me atrevo a perguntar-lhe nada mais sensível que a conta de fim de mês.

Por Ricardo Novais

Rivalidade no escritório

Google Imagens.

Seres inanimados têm relação diferente com o mundo. Relação de rivalidade. Não crê, leitor? Pois preste atenção aos objetos de teu escritório. Em meio ao universal tédio do ofício cotidiano, um grampeador de papel, um clipe de atrelar papel e um post-it de fixação ao papel travam a mais absurda e acirrada das competições quase um reflexo humano, se a alma não fosse menor que a vaidade.

- Ora, senhor grampeador, eu sou livre, tenho desprendimento da vida; ao mesmo tempo em que cá estou num ofício, acolá estou numa carta pessoal... O senhor, não! Serve para deixar seus frutos presos em folhas vulgares, a enferrujar o coração alheio e o próprio. Um grampeador de papel apenas prende, e prende para a eternidade... inicia a peleja o clipe, todo presunçoso e galhofeiro.

Mas o grampeador é cioso de si:

- Não diga besteiras, amigo! protesta irritado. Não vê que meu mister é mais confiável; o homem do escritório confia em mim... Além de usar minhas barrinhas de grampos como arte em seus momentos de prazeroso fastio ao trabalho.

- Arte? Essa é boa! Artista sou eu, que faço correntes, pulseiras ou artesanato. Sou de diferentes tamanhos, modelos que se prendem e se soltam, com cabeça para muitas certidões. Vivo conforme a necessidade de meu dono. Sou terapêutico! Tu nada é, nem será... Se já está mesmo aí a espátula para arrancar, à força, teu trabalho do formulário... Vive a machucar a dona folha, isto sim! E ainda declara a morte de valorosos documentos, aos poucos...

- Morte qual?

- Calem-se, seres ultrapassados! repentinamente brada o post-it aos dois colegas. Não percebem que sou eu o material mais útil? Sirvo de anotação grudado ao computador ou à máquina portátil. Fixo-me na dona folha com suavidade, requinte; sou elegante e maleável...

- É um anêmico, isto sim! provoca, gargalhando animadamente, o clipe de atrelar papel.

- Mais respeito, senhor! diz o post-it solicitando ao rival.  Onde já se viu... Invejoso!

- Invejoso. Qual?

- Invejoso sim, senhor! Apenas porque sou melhor, insulta-me. Sou moderno, não deixo marca nem resíduo; enquanto tu, clipe ingênuo e mal-educado, és um arremedo metálico. Sou a melhor utilidade do escritório há várias décadas; quanto a ti, contorcem-lhe à vontade, por brincadeira...

- Ah, sua fitinha frustrada de uma figa!

Assim passam as tardes na repartição o post-it, o clipe e o grampeador; acredite-me, meu caro leitor. Comece a reparar nos objetos à tua volta, em cima de tua mesa de trabalho ou da escrivaninha iluminada; todos lá, discutindo entre si, por nada. Sim, são representações de seus proprietários ou detentores aquele de quem de direito seja a posse. E podem mesmo ficar em contenda frívola por toda a soberba eternidade, caso não chegue logo o furador de papel com um risinho altivo nos cantos de suas traves.

- Seres do passado! Cafonas! repreende a todos o furador. – Brigam e brigam por nada, ou pela vida mais miserável que a própria. Fiquem sabendo que também sou tudo o que dizem, mas não me prendo a ninguém, não me entrelaço em calhamaço algum e jamais serei uma criatura grudenta; levo toda a alma das folhas brancas e também das escritas dentro de mim, e, quando estou cheio, esvazio-me para mais bolinhas de essência. Corto, furo e alimento-me. Sou livre por profissão, e não dou caminho a quem não tem consciência da própria condição finita de ferro-velho.

O furador de papel é de fato um membro admirável no ambiente de escritório, gerente que faz calar quaisquer ânsias rivais. Contudo, por estes dias, surgiu pela secretaria um atrevido dispositivo eletrônico que promete a amarração de todas as folhas sem a necessidade de nenhum colega de trabalho; nem a liderança do furador e mesmo a imponente secularidade do glorioso papel fazem-se respeitar diante do pragmatismo do tal aparelho eletrônico.

Não gosto muito de modernidade! confessa então, por fim melancólico, o papel ao seu furador. A cada novidade que trazem à luz do hoje o mundo vai regressando às trevas, e a passos largos.

Por Ricardo Novais

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Trem azul

Brasão de Armas Nacionais, composto por um ramo de café e um de tabaco e a constelação do Cruzeiro do Sul no escudo ao centro.

Vai indo o trem azul. Avante. Avante. Traçando planaltos e colinas, todos os olhos partem de passageiros dentro dele. Contemporâneo. Mas a constelação do Cruzeiro do Sul é e será sempre o seu guia. Estrela-guia. O mérito do trem azul é trilhar caminhos e sonhos, próximos e distantes. Magnífica máquina! Quase humana; quase feliz. Leva a locomotiva celestial o homem de terno escuro e cara rapada, o menino de boné e sorriso bucólico, o padre e o jogador de futebol, a linda prostituta, o elegante senhor de charuto, o motorista de ônibus e o maquinista de metrô, o branco, o negro, o amarelo, gente de todas as cores e de todas as idades, do norte, do sul, nosdestinos, do novo horizonte, do velho, o traficante, o comentarista de vida alheia, o cão vira-lata e o professor universitário, e leva também a pueril dona-de-casa e seu nobre eleito. Toda a gente está nele. Mortos e vivos, vivos e mortos! O mendigo vê o colossal comboio passar imponente pela estação, deitado em sua calçada, levanta a cabeça, faz reverência e torna ao sono divino e perpétuo.

Celeste como o céu. Brilhante como as estrelas. Forte como o Cruzeiro do Sul. A melhor definição de engenharia ou de ciência não faria justiça a este personagem refletido em nossos espelhos todas as manhãs, e não seria melhor que o atrito estridente das rodas de aço nos trilhos de ferro e a vida estancada dos dormentes de madeira. Quilômetros a fio de sangue, esperança e saudade. É minha alma, é tua, é nossa.

Avante, avante trem azul!

Por Ricardo Novais