A ronda noturna

Reprodução do quadro 'A ronda noturna', de Rembrandt.

À meia-noite, bêbado e confuso, comecei minha ronda. Late um cão numa casa de esquina; noutro quarteirão, outro cachorro, maior, rosna irritadiço. Não há pessoas nas alamedas nem nos cafés, apenas vultos sem rostos por todos os lados. Vou subindo a rua, com dificuldade, mas descansadamente, passeando pela noite... Nisto, sou poeta. Encontro o guarda-noturno a olhar para as casas, para os edifícios, para os muros e grades, para as janelas e portões. Cumprimento-o, ele me acusa. Somos dois anjos da noite que se encontram, embora ele vague pela cidade montado em sua motocicleta de cavalaria e com um bom revólver no bolso da jaqueta.

- Temos aqui a arte de se viver da ilusão, meu caro! ele diz e me solta.

Dou-lhe as costas, ainda ouço o ronco frouxo e vagaroso de sua infantaria de duas rodas a dobrar de ruas, e eu a dobrar de pernas. Continuamos com as nossas rondas distintas, é de nosso ofício. Somos dois homens solitários em meio à cidade grande, ainda por perceber o longínquo barulho de frear dos ônibus numa avenida central, um acelerar de automóvel numa rua secundária, os últimos veículos, sonolentos, em meio às últimas almas humanas.

O metrô para na última estação. Também os maridos tornam às suas felizes residências, embora cercadas por grossas grades de ferro, por protegidos condomínios automáticos e por emaranhados arames farpados com choques elétricos. Cidade grande, fornecedora de ilusões...

Entro no último bar. Bebo, ao guarda-noturno! Vou à última casa do bairro, paro debaixo da penúltima janela do sobrado amarelo depois de tropeçar nos excrementos naturais de uma cadelinha de madame. Lá dorme e sonha ela, e de lá estouram-se dois estampidos de revólver que não saem do bom revólver do outro anjo da noite. É a última garoa da madrugada.

Por Ricardo Novais