O jantar

Cena do filme Festim diabólico. Título original: Rope, 1948, Hitchcock.

Que fato extraordinário, leitor! Procuraram-me duas figuras ligadas ao governo e outra dezena ligada à patrulha de certo colégio de ética. Não eram eles fiscais do imposto de renda, tão pouco agentes da polícia federal. Vieram ter comigo para convite a jantar ilibado e de muita moral. Fiz proteger a integridade alheia ouvindo a retidão das línguas. Desgraçadamente, no entanto, havia troféu à glória da virtude dos homens civilizados a verem certo homem e certa dona mortos e expostos em alguma pasta do governo. O melhor esporte humano é a inveja jogada com cobiça; a saber, para jogar com categoria sob a face da Terra basta ser acusador de crime sem prova.

- À nossa valorosa sociedade! – deram início as cerimônias diplomáticas.


Foi então que um jornalista abelhudo, intruso na festa, bradou da entrada principal:

- E o ministério, doutor?

Nem lhe deram ouvidos. Foi expulso do polido salão a golpes de algum esporte radical, pobre diabo! Eu mesmo tive que intervir salvando-lhe de outro destino – barganhando, é claro, alguma nota em n'alguma página de jornalão. É que a vida nesta Nação compõe-se de jantares vultosos, eventos de caridade, futebol cinematográfico, shows de música de origem duvidosa, sessões de julgamentos alheios em Brasília e marchas enfáticas em Copacabana; é uma permanente sincronia universal. Coisas maiores, leitor! Coisas maiores!

Eis que no jantar extraordinário, em meio a distintos e ilustres convidados, levantei taça do melhor champanhe, manifestando-me – sempre acompanhando, claro, as ideias de Nosso Senhor Jesus Cristo – que a amizade entre o povo depende da conta própria, e não da falta de apetite dos homens. Ainda disse, em alto e bom som, que todos os Estados da Federação deveriam ter as mesmas ideias e seguir o mesmo modelo de conduta honorífica. Por fim, declarei, à digna mesa, que a ordem e a moral são dádivas de Deus, e aquele que contraria a lei, a boa conduta e os bons costumes, deve pagar com a própria vida pelo ato. Sim! Nenhum cadáver é mal posto, todos são oportunos; porque nenhum cidadão de bem é obrigado a conviver com o mundo e sua violência psíquica e pervertida.

- E viva à pátria!

- A Copa é nossa!

- Os Jogos Olímpicos também!

- O povo brasileiro é...

- Não há necessidade, Excelência. Estamos entre iguais. Deixe as palavras elogiosas para as explicações ao público, à grande massa etc.

-  Certamente.

Pode imaginar como me senti ali, não é, caro leitor? Não! Não dei a mínima para palavras políticas. Julguei sim bom que o troféu não fosse eu, e que homens vestidos de preto e óculos de grife, todos armados até as cartolas de veludo e carregando as secretas maletas codificadas com todas as equações, tivessem interesses iguais aos meus. E o povo que vá para o diabo que o carregue! Fechei lá meus olhos, leitor. Então todos aqueles convidados brindaram a mim e às minhas palavras cônscias, todos impelidos de admiração – inclusive os chefes da patrulha e os homens do governo, quais dividiam a mesma coxinha de galinha, à mesa, 
uns mais à direita e outros pendendo mais à esquerda. Em meio de tapinhas às costas e mensagens de força e esperança em defesa desta grande nação, comentaram o meu desprendimento, a minha filantropia em salvamento à pátria – inclusive a chefe da Nação. “Grande humanista!”, escutei quase adormecido por causa do vinho.

- O álcool é um veneno que não tem tanto poder a ponto de matar os bichinhos ruins dentro da gente, meu caro... – disse-me ainda um velho de departamento do governo; creio que da pasta do troféu.

Mas não, leitora minha, não carrego em mim rompante ou empáfia balofa. Sou eu tão-somente um homem de bem que quer ver a paz na sociedade e o mal reduzido à carcaça. Sou pela defesa da segurança nacional, e da justiça, como sabe; antes mais da justiça própria... Creio que sou muito bem quisto por isto, pelas minhas boas ações filantrópicas. À salvação da alta casaca! Também salvo cristãos e gente de moral libada. E nisto digo-lhe, modestamente, que parece até que sairá matéria – jornalista, é bom que se diga – sobre a minha personalidade caridosa e corajosa nos grandes jornais, nas revistas conceituadas e nos emocionantes canais de televisão, e traçarão ainda o meu perfil humanista em sofisticadas colunas sociais, em documentários de cidadania internacional e em redes sociais da internet; todos sedentos por letras impressionadas. E suponho que serei manchete por toda a cidade, todo o Planalto, quiçá por todo o Brasil: nação mansa, lírica e abecada.

Por Ricardo Novais