Auto de Natal

Imagem de arquivo do autor.

Uma mulher indigente caminhava ansiosa pela rua, ela se chamava Maria. Um homem esfarrapado a acompanhava, ele se chamava José. De repente, no meio de toda a gente, surgiu um menino correndo afobado sob os gritos raivosos de guardas e senhores de barba em seu encalço: “Pega! Pega! Ladrão! Moleque, trombadinha! Bateu minha carteira!". Nisto, um ônibus em alta velocidade descendo a grande avenida não conseguiu frear e atropelou o menino que caiu esmagado no asfalto quente como churrasco-grego em hostil praça pública. Desgraçadamente, a morte foi instantânea. O menino se chamava Jesus. A mãe se aproximou então do pequenino corpo esmagado de seu filho e chorou, copiosamente. O pai clamou aos Céus. Mas não veio voz divina alguma, e nem anjo redentor. Não vieram os reis magos; apenas os guardas da polícia metropolitana ajudaram a velar aquele altar. Os animaizinhos sagrados de presépio também não compareceram envoltos na manjedoura; mas por todos os lados se viam generosos ratos, baratas e outros bichos da mesma laia. A única oração que se cantou e rezou ali foi uma ode desordenada pela chegada do rabecão. Entre tantos olhares estilhaçados, era noite de Natal.

Por Ricardo Novais
* Conto publicado originalmente no coletivo literário O Bule.

O balé

Foto do designer Geraldo de Barros.

- Quero falar com o doutor Pestana... – chegou afobado e repentinamente ao departamento um homem, de gestos familiares, a exigir, veementemente, tratar de negócios com meu chefe. Depois, corrigindo-se, desculpou-se. – Por favor, é importante.

- Doutor Pestana não está  disse a ele. E não estava mesmo. Mas o homem insistia. Eu repetia a ele que o chefe não estava, que voltasse mais tarde; e o velho repetia que era importante, que era caso de vida ou morte. O cara era um chato. Um quarto de hora neste combate tedioso, tive então de ir ao departamento financeiro.

- Doutor Pestana, há um homem na antessala insistindo em falar com o senhor...

- Porra, Adilson, já não disse que não quero que me incomodem? Você é... Oh! Hein, rapaz?!  Oh, cabecinha. Vá lá e despache o homem, ande! – ordenou-me de dedo em riste.

- Mas ele disse que é importante, que é questão de vida ou morte...

- Ah! Já disse. Vá! Não quero ser incomodado por veado nenhum, porra!

Fechei a porta. Era uma porta de um branco opaco. Eu me via refletido nela. Porta fechada. Porta espelhada, quase transponível. Poderia muito bem tê-la atravessado novamente, desta vez sem bater, pegar aquele desgraçado pelo colarinho puído e amarelado, puxar a gravata de boiola dele até esganá-lo e bater-lhe a cabeça no pau do gerente financeiro. As secretárias dizem que o pau do gerente financeiro é grande. Negão filho da puta, está comendo todo mundo do escritório enquanto o doutor Pestana me fode. Doutor Pestana...

Certa vez eu vi o doutor Pestana fazendo sexo oral com o coordenador de vendas. Esses caras de marketing são todos veados. E o meu chefe é um velho bicha. Ele diz que para foder os funcionários tem que saber dançar “balé”.

Eu não me atrevi a atravessar a porta opaca do departamento financeiro, como imagina a dona leitora. Porta espelhada, quase transponível. Pouco a pouco vi minha imagem afastando-se dela. Em seguida, olhei, ao lado esquerdo do andar, as baias repletas de consultores de headfone nas orelhas mal lavadas, suando feito porcos no matadouro, a falarem todo um alfabeto particular aos enfáticos clientes da grande corporação. Bestas em manada. Por um momento, dei graças a Deus por ter o trabalho que eu tinha. Sim, caro leitor assalariado, é necessário muito curso de graduação, quiçá de pós-graduação, para deixar que alguém lhe pise o pescoço; e a dona leitora, sempre ponderada, sabe que aquele que é muito enfático está a julgar a si próprio. Ora! E está certa, minha amiga. Se a carreira de sucesso é muita vez tão superficial como balões inflados com gás hélio, que sobem meteoricamente, mas que ficam presos aos fios de alta tensão da rede elétrica. Ou, então, são balões que aprenderam a dançar "balé".

Caminhei tão devagar, pensando na quão maravilhosamente ridícula que é a vida, que ao chegar ao meu departamento o homem, de gestos familiares, qual insistia com veemência em falar com o doutor Pestana, tinha sumido  feito balão quando queima e estoura.

Por Ricardo Novais