Sofrimento

Pintura de Andreas Mantegna (1460).

Há uma pessoa que sofre muito, mas não está mais na idade de sofrer. Quase todas as coisas a fazem sofrer, exceto as coisas próprias do sofrimento. Não, não está morta esta pessoa, não ainda. Também não padece de doença grave, dívida irrecuperável ou amor completamente despedaçado. No entanto, como sofre este ser desgraçado.

Não sabe como é triste, leitor, sofrer por coisas que não são de sofrer. Mas como? Como? Deve sofrer tanto? Não lhes respondo com certeza, amigo e amiga que me leem, mas tamanho sofrimento parece-me fora de hora e de causa. Sofrer por sofrer, sofrer por ofício. Eis o imponderável.

O conto é tão calmo, apesar de tamanha aflição e sofrimento estéril, que o encerro antecipadamente neste parágrafo, revelando, entretanto, a identidade deste sofredor sem causa e efeito: és tu, leitor, que sofre na mesma medida e propósito do autor que vos escreve.

Por Ricardo Novais

É só o fim... Fim do mundo


21 de dezembro de 2012.

Por Ricardo Novais

Tinha que fazer o almoço. Por quê? Final de tarde, já. Maldito final de tarde! Fico com fome. Foda-se! Meus netos não me visitarão hoje, nem mesmo para comerem bolo de cenoura. Pestinhas! Sou velha. Canso fácil, de tudo. A velhice tem dessas coisas, moleza ao vespertino.
Silêncio.

Deixo-me virar no sofá. Sofá velho, duro. Sofá duro do cacete! Já pedi ao Zé que venha ver este sofá. O Zé é pedreiro e o “faz tudo” do prédio. De vez em quando ele vem aqui e faz o serviço, me fode. Este é outro mal da velhice, ninguém quer te comer.

Esqueço o almoço, já é quase jantar. Esqueço o sofá, duro. Esqueço o Zé, pica dura. É hora do jornal nacional.

“E atenção!” – diz o almofadinha do noticiário – “As primeiras notícias do fim do mundo chegam das Ilhas Cayman. Nossos correspondentes estão...”.

Puta que pariu! Ilhas Cayman?! Onde é que fica essa porra? Ah, deve ficar perto da Argentina... Esses argentinos de merda!

Começou a novela. Novela, sem graça. Vou tomar banho. Não tem nada que se fazer. É só o fim. Diante do espelho, meu rosto me é estranho. Este rosto conta todas as minhas idades... Idades que nunca quis ter. Acaricio então as minhas grandes mamas caídas; elas parecem duas jacas moles que foram renegadas no Ceasa, ou pior que isto. Todo meu corpo caído, um horror. Fico horrorizada. Que a vida fez com você, Perpétua?, pergunto-me em frente à imagem refletida no espelho qual não desejo reconhecer como sendo a minha. Forço então uma lágrima, que é tão seca, que não vem. Horrorizada. Torno a ficar horrorizada. Não há nada que se fazer. É só o fim. No chuveiro, resta-me fazer os caminhos que o Zé não quis percorrer.

Ao sair do banho, ligo o tocador de música que ganhei de minha filha caçula da última vez que ela se dignou a vim me visitar; visita de médico, de risinho anêmico; visitinha tão rápida que já fazem seis meses... Toca numa canção do Roberto Carlos. Sempre achei o Roberto Carlos meio veado. Ouço a voz dele, fico triste. Já fazem trinta anos que... Não há nada que se fazer. É só o fim. Deve mesmo ser o fim do mundo, como andam dizendo.

Porra! Bem agora que, finalmente, o Corinthians conseguiu vencer a Libertadores e Mundial... Ah, foda-se! É bom morrer no fim do mundo, ninguém deixa nada para filho da puta nenhum; exceto àquelas pessoas que têm barganha a receber para depois do fim do mundo, pois, ora!, a morte também é negociável. Cristo já disse: “Vale tudo, só não vale dar o cu”. Está escrito lá na Bíblia. É por isto que sei que vou para o inferno, eu já dei muito o cu. E, agora, é hora do juízo final. É o Apocalipse do planeta. Planeta de parasitas que dão o cu. Para o diabo, todos! É fim da moralidade moldada à verve prazer.

A canção continua tocando. O resto todo é silêncio, quase eterno.

Triste fim. Ainda com a ideia da finitude de todas as coisas, caminho a passos moribundos pelo corredor da sala e... Minha Nossa Senhora! Vejo como a minha camisola puída combina certinho com a imensa toalha rendada da mesa de jantar. Mesa desgraçadamente redonda. Cadeiras descascadas e escavacadas pelo tempo, e sem forração desde que a bunda de meu falecido traste sentou-se ali para beber seu último gole de seu uísque da 25 de Março. Eu mesma que o servi. Velho traste! Para ele eu nunca dei o cu.

Ih, que perturbação! Preciso de um copo d’água. Vou à cozinha. Tenho as formas da jarra d’água em cima da pia a aguentar resignada a goteira da torneira frouxa. Minha simetria com o armário de porta quebrada e fechadura barulhenta é espantosa. A fruteira rouba de mim o pouco brilho que me resta. O azulejo sujo e trincado é translúcido como o portal do inferno; mas eu já sei como é o acesso ao inferno, já o conheço porque escutei muitas vezes sermão que padre joga aos fiéis nas missas de domingo. Distraída a pensar no terrível além-mundo, súbito, percebo é que estou com a aparência, física e metafísica, do encanecido fogão de seis bocas; esquento superficialmente, mas falta-me gás. Sobra-me gordura e sujeira pelas rachas. Aí está, último leitor, deixo esta ser a minha mensagem de despedida: vivi como um objeto, doente, e morta.

Desequilibrada por tormento extremo, e eterno, eu fujo da cozinha. Não antes de perceber que a geladeira poderia muito bem ser minha irmã gêmea de alma. Fria. Abro a portinhola do freezer e pego a garrafa semicongelada de vodca. Aflita. Tomo uma dose dupla. Acendo o último cigarro para aguardar com redentora paciência ao fim do mundo. Entretanto, antes que a fumaça empesteie o apartamento todo, o Roberto Carlos é abruptamente interrompido pela voz alarmante de minha vizinha:

- Perpétua! Perpétua! – grita Mariana através da fresta do basculante da aérea de serviço.

- Fala, velha louca!

- Viu, menina? Estão falando que o mundo está acabando...

- Ah, bobagem!

- Sei não...

- Fala logo, que você quer?

- É que acabou o pó de café daqui de casa, Perpétua; você tem aí um pouquinho para me emprestar? Estou fazendo café para o Zé. Depois te devolvo.

FIM

 * Conto publicado originalmente na revista literária O Bule.

Toque de recolher

Foto de arquivo: AE/Estado.

Noite passada, bebi tanto que mal conseguia reconhecer meu amigo Macedo no meio da balada. Era um bar de rock, mas só eu estava bêbado. Gostava mais quando os roqueiros chapavam o coco ouvindo intermináveis solos de guitarras e bebendo uísque americano, mas essa nova geração ouve a expressão “chapar o coco” e pensa que é fazer chapinha no cabelo... Bando de maricas! Ah! Não torça o nariz, amigo leitor com gostos melódicos... Ora! Então, tornemos à noite.

A noite foi passando rapidamente, embora parecesse eterna; igual visão entorpecente que se tem da janela de avião, em viagens aéreas no início da manhã ou final da tarde, vendo as nuvens infinitas e preguiçosas do paraíso. Torpor do inferno! Contudo, meu caro, nem todo conto segue o ritmo que os leitores desejam, alguns têm as letras grafadas pelas mãos excitadas dos personagens que os escancaram; é o caso do conto desta página. Pois um evento mudou o curso desta viagem noturna: eu briguei com um garçom e com duas mulheres, eram umas groupies que tínhamos pagado uns drinques – isto causou muita irritação no Macedo.

Ora, ora, amigo que me lê, não tire ainda conclusões; deixe-me explicar. Ocorre que o garçom, ainda no meio da noitada, veio-me trazer a conta – muito cara, por sinal – sem que eu a tivesse solicitado; além disto, desconfiei que não tivesse consumido tudo aquilo que me acusava a comanda. Sim, leitor; bati nele. Foi uma briga dos diabos. Macedo e eu, saímos da balada. Sim, está certa, amiga leitora com dons de cartomante; fomos expulsos. Eu, cambaleante; o Macedo, irritado com todo o tumulto que causei, ele olhava-me de canto e cerrava os punhos. Comecei a mijar atrás de um poste filosofando a esmo; logo, concluí do meu mais elevado pensamento filosófico: esta cidade é toda mijada.

- Porra, Henrique! Vamos embora, cara. Vamos logo... – Macedo deu muitos gritos secos, chamando-me. Ele já estava dentro do carro, então tive que despertar de meu transe etílico quase metafísico.

Já, estávamos em um bairro distante. Paramos em frente a um carrinho de cachorro-quente, dez ou quinze quilometros depois de começarmos a rodar asfalto adentro. Era uma hora da manhã, talvez menos. Sentamos em uns bancos de plástico branco, eram uns banquinhos bem vagabundos; o Macedo, entortando todo o banco com o peso, começou a me dar um puta esporro.

- Henrique, você é foda, cara. Por que você xingou as minas lá no bar?

- Ah, cara, eram duas putas velhas... – comecei a me explicar, ele interrompeu com impaciência.

- Você é doido?!

- Eram duas putas, cara... Nem queria mesmo...

- Velho, na boa... Você é imbecil, cretino! Elas iam dar pra gente, seu burro!... – O Macedo estava engasgado comigo, mas ele parecia uma sardinha enlatada sentado naquele banquinho ordinário. – Henrique... Cara... Você é burro, meu! Porra, velho! Burro! Seu burro!

- Meu...

- Putz! Burro! Putz!, meu...

Perdoe-me se o diálogo lhe parece trôpego e entediante, leitor, mas é que tenho que reproduzi-lo; menos por sadismo que pela verossimilhança. Contudo, tenha por certo que cortei boa parte dos soluços em forma de palavras desta conversa; perceba, meu caro, como lhe tenho consideração; fosse outro autor dizia tudo, ou nada.

Sem maiores digressões, conto-lhe que, depois de alguns segundos eternos de debate, manifestei-me com energia, embora aditivada pelo excesso de álcool:

- Macedo, você que é burro, cara!... Sic... É estratégia... A minha estratégia foi... Sic... Cara... Foi uma estratégia, c***!... Entendeu?

- Quê?

- Se não pegássemos nenhuma mina lá dentro, tínhamos as duas coroas de sobra... Sic... Entendeu? Estratégia, cara...

O Macedo nada disse, pareceu-me confuso tentando entender com sinceridade ébria se tudo não havia mesmo passado de um plano, calculado, uma estratégia; e as estratégias nem sempre são bem compreendidas, como bem sabe a dona leitora; mas percebi que poderia ter sido um erro ou, ao menos, ter sido um ato de equívoco fútil; mas e tu, amigo, sabes como se busca a perfeita estratégia?

- É, cara, acho que fiquei meio bêbado; ?... – eu perguntei a ele em tom de retórica, resignado. – Daí não deu certo, cara... E ainda sujei meu tênis novinho... Puta merda! Meu tênis... Ah, mas... Foi mal, Macedo... Desculpa aí, cara...

- Henrique, meu... Seu burro! Ah, velho, vai se f***, vai...

Macedo virou a cara, abriu uma lata de refrigerante e deu uma mordida com raiva no cachorro-quente. Tornei à reflexão ébria, em silêncio. Comecei a olhar para os caras que também tinham parado para se recuperar da balada comendo um dogão naquela barraquinha escura, suja e esquisita, igualmente sentados naqueles banquinhos vagabundos de plástico branco – mas era um bairro todo vagabundo frequentado por todos os vagabundos da cidade; e era um lugar feio, escuro, emporcalhado, até meio sombrio, quase macabro – gente feia como o diabo, pareciam as capivaras que vivem nas margens do Rio Pinheiros. Um deles, de óculos, calçando um tênis diferente do meu, embora também fosse branco; só que o dele era pirata... Cabritão mesmo! Não entendi, esse cara ouviu toda a nossa conversa e ria discretamente. Eu o mandei tomar no c*, o cara não disse nada; era estranhamente discreto, e muito feio e mal vestido com uma camiseta vermelha remetendo a algum grupo balofo de rap da periferia, e aquele tênis branco... Tênis do Paraguai. De repente, amigo leitor, eu resolvi que era tudo culpa do prefeito, governo, presidente, do papa, desta cambada de filhos-da-puta que escolhemos para nos ditar regras e chateações.

- Quer saber? Meu, vou enfiar esta salsicha no rabo do prefeito da porra desta cidade... – esfarelei o cachorro-quente todo, retirei a salsicha do pão a levantando no sereno da madrugada, madruga também recém-chegada da noite. Aquela salsicha mole me parecia a espada da glória em uma batalha.

- Cala a boca, seu veado! – gritou o Macedo.

- Veado é teu pai, Macedo! – eu retruquei; todo mundo que assistia o meu espetáculo pós-balada e pré-ressaca ria alto, eles gargalhavam, divertiam-se a valer; exceto aquele cara feio, o dos óculos e tênis branco, este continuava apenas com um risinho irônico nos cantos da boca.

- Eu comi você, Macedo. Somos um casal agora, cara... – resolvi zoar o meu amigo de balada, e assim continuar realizando a festa dos cachaceiros. – Macedo, eu comi você, cara. Não é, Macedo? Seu veado, corno! Vou comer sua namorada...

Invés de me bater, o Macedo acabou com a minha diversão me dando outra diversão: comprou cerveja pra gente, ele pagou cerveja pra todo mundo. Foi uma algazarra de alegria e saudações, tapas nas costas, juramentos de amizade eterna e o diabo. O Macedo seria um grande cientista político, pensei. Por outro lado, a indiferença do cara de óculos, único a não se manifestar acaloradamente, embora tivesse aceitado sorrindo a cerveja oferecida na faixa, ainda causava-me profunda irritação – “Este filho-da-puta está rindo de mim... E por que ficou escutando a nossa conversa o tempo todo?... E esse tênis? Zé ruela do c***...”, eu me esforçava mentalmente para compreender o porquê do deboche discreto daquele quatro-olhos.

- Esses caras... – sai do transe mental e balbuciei entre soluços, por fim. – É tudo culpa do governo, certo?

Tirei outra vez a salsicha do pão do hot-dog, levantando-a no ar como a espada da glória, e declarei aos quatro ventos e sob a presença da lua escondida atrás da poluição noturna:

- Vou socar no rabo do governo! Vou socar no rabo do prefeito!

Levantei-me, embora estivesse ainda mais alterado, cambaleante, e enfiei a salsicha nas costas do cara de óculos – a minha intenção, leitor, era enfiar na bunda dele, mas eu estava tão bêbado que não consegui. O cara se levantou e me empurrou com violência; eu fui ao chão; e ele perguntou olhando para todos:

- Porra, por que vocês não estão em casa? – em seguida, fez uma citação: - Porra, irmão! Nesta cidade, 'Deus é uma nota de cem'. – Ele jogou os óculos fora, pisando em cima dos aros e vidros, quebrando-os, como se nunca tivesse precisado deles; depois colocou a mão na cintura e, por fim, gritou:

- É toque de recolher, seus vagabundos!

Foram muitos tiros, sinfonia da destruição. Logo pela manhã, à fresca, todos os jornais, sites, blogues, rádio e tevê noticiaram a maior chacina do ano na zona sul.

Por Ricardo Novais

O pedinte

Pintura de Ernest Descals.

Desempregado, músico amador; a vida não estava fácil. Resolvi ir à casa do Juca beber umas cervejas e fumar maconha. Fiquei lá a tarde inteira, nem me dei conta da hora. Onze horas da noite. Noite quase alta. Fui embora, peguei o metrô na estação da Vila Carrão e desci na Sé, para pegar o comboio de ferro da Linha Azul.

Na Liberdade, entrou um cara no vagão. O cheiro era insuportável, maltrapilho; ele não tinha uma perna. A outra perna dele era como se também não tivesse, cheia de feridas, abertas, todas à mostra.

- Me desculpem atrapalhar o sossego de vocês, senhores passageiros... – De cara, o perneta já foi se desculpando, lendo um papelzinho sujo. – Sei que vocês são pais e mães de família, também eu fui igual a vocês... Mas agora estou passando fome, minha gente, com três filhos pequenos para sustentar... – Os lamentos logo viraram petições. – Por favor, alguém pode me ajudar? Um real, minha gente, dez centavos, um bilhete de metrô, que seja. Deus vai dar em dobro, Ele sempre dá tudo em dobro... Um passe para... Ele... Um passe...

Passe? Só se for de macumba, pensei. Pensei, não disse. Ninguém disse nada; o metrô estava vazio, as estações estavam vazias; as almas, ocas. Àquela hora só os homens sem rosto têm coragem de vagar pelos trens noturnos, por vezes, eternos. O cara sem uma das pernas, entranhas à mostra, olhou-me; mas ele também não disse nada. Eu continuei mudo como dormente de trilho, embora houvesse em mim um burburinho zombeteiro; todos os passageiros estavam cegos para a compaixão e escondiam-se pelos cantos de seus próprios corações.

“Estação Paraíso”, soou dos alto-falantes do carro férreo uma voz sexy e mecânica de mulher – nisto, leitor, ajude-me a calcular que esta mulher é misteriosa... Perdoe-me, nada tem que ver esta indagação com o conto; tornemos ao perneta.

O perneta saltou na estação Paraíso, ficou olhando para a mão direita, vazia, a esquerda segurava a trave de sustentação da muleta. E eu fiquei pensando: “Porra, estou tão ferrado como este cara... Só falta agora começar a pedir esmola também...”.

Assim que fechei o portão de minha casa, veio-me a lâmpada mágica da ideia. Corri, tranquei a porta, sentei-me, fiz uma ligação a cobrar:

- Juca, sou eu... Como quem, cara? Ainda está brisado com o cigarrinho das montanhas?

- Ah... Fala aí, meu... Beleza? Ah... – respondeu a voz pastosa do Juca do outro lado da linha.

- Juca, cara, tive uma ideia; ideia fantástica!

No outro dia, bem cedo, já estávamos percorrendo as estações e pedindo esmola no metrô, cada um em uma linha ferroviária da cidade. O bom de ser mendigo é que a maioria das pessoas dá até o que não tem a um necessitado; uns porque querem se redimir de algum pecado cabeludo – esse lance de perdão divino, tipo isto –, então dão esmola para a salvação, salvação própria, no caso; por outro lado, outros ajudam apenas para inflarem o próprio ego, para que todos os passageiros o julguem a criatura de alma mais caridosa da república. Ah, meu amigo leitor e minha amiga leitora, ah se todos fossem tão republicanos!... Que país de mendigos maravilhosos nós seríamos!

Mas nem tudo é um conto de felicidade no país das maravilhas.

O ruim de ser pedinte de trem são os guardas das estações. Três dias depois que comecei no ofício da mendicância, um guarda-vidas, um negrão de uns dois metros de altura, veio correndo no meu encalço, alcançou-me logo. Tentei fugir, em disparada, desequilibrei-me e caí no vão do trilho. Vão da vida e da morte... Uma composição, passando no sentido contrário, atropelou-me.

Que desgraça, leitor! Perdi as duas pernas, na hora. Virei um pedinte de fato, mas não do metrô, que a ideia iludida tem medo do passado. Fui viver na Praça da Sé, lugar tranquilo onde posso fumar meu cigarrinho das montanhas sossegado.

O Juca? Não vejo mais. Deu tudo errado, fracassamos e não somos mais amigos. Então ele foi ganhar a vida lá no Rio de Janeiro, aquela outra cidade do pecado – e não se zangue com este autor, amigo carioca, pois pertencemos às cidades das hecatombes, como Sodoma e Gomorra. O nome do Juca agora é Joana da Cinelândia, virou travesti ou garoto de programa – algo assim, comum no cotidiano dos Zé Pereiras, das bebedeiras e do carnaval. E o resto não importa, não faz mal; de todo modo, eu termino o conto aqui, neste ponto final. E adeus.

Por Ricardo Novais

Esquecimento

Acervo: Memorial Penha de França.

Contei três mentiras ao chegar a minha casa. As duas primeiras, não me recordo mais. Lembro-me da mentira que contei por último. Minha mulher não me deu ouvidos, não importava. Os casais jovens têm uma amizade suscetível a tudo, exceto à falta de dinheiro.

Cheguei a minha casa antes da novela das nove terminar, eu estava fedendo a uísque vagabundo e à cerveja. Não fumo, mas estava também empesteado do cheiro daqueles cigarros das montanhas. Abri a porta e já fui dizendo:

- Boa noite, amor! Eu estava... – Não me lembro do que eu disse, lembro-me só da conclusão. – Estou indo fazer as malas, pegar minha escova de dente; e adeus!

Era mentira. Eu não ia embora, nem ia escovar os dentes naquela noite. Minha mulher escutou o que disse; ela tirou os olhos da novela, mas apenas olhou-me de canto e tornou a digitar na rede social algum comentário da dramaturgia televisiva. Foi só isto o que ela fez; nada mais.

Sabe, leitor, tudo que um homem necessita na vida é de amor, e um pouco de cerveja. Tomei duas cervejas e quebrei as garrafas na pia da cozinha. Fez um estrondo magnífico. Fui à varanda e fiquei esperando que alguém aparecesse. Ninguém apareceu. Há quem diga que o amor é uma coisa que nos faz feliz. Perdoe-me, amiga leitora mais romântica, mas eu acho que é mentira. O segredo da vida é o esquecimento.

Joguei-me de roupa e tudo, inclusive sapatos, na cama limpa. Meus pensamentos sim, estes eram sujos. Mas minha mulher não veio. Adormeci. Quando acordei, eram vinte para as sete da manhã, levantei-me, tomei banho, escovei os dentes. Vesti-me rápido, saí do quarto e vi que minha mulher havia dormido no sofá; ela ainda estava de boca aberta com a respiração ofegante. A televisão passou a noite com ela; nem mesmo a rede social, sua tão íntima, mereceu alguma reclamação de nossa vida conjugal. Primeiros raios de sol saiam-se já da vidraça frontal do apartamento; transmitiam-se já as primeiras preocupações no noticiário matutino.

A diarista me ofereceu café, tomei-o sem açúcar. Nada comi. Escutei a mocinha do noticiário da tevê dizer que a Marginal não era recomendável àquela hora. A cidade inteira não era recomendável, em mais hora nenhuma; pensei. Pensei; nada disse.

Na Marginal, lembrei-me da mocinha do noticiário. Ela não estava ali no meio daquele congestionamento sincronizado. Esqueci-me dela rapidamente. De repente, sem sentido, arranquei com o carro; nada pensei. Foi um estrondo magnífico. O motorista de uma caminhonete de altíssima suspensão desceu quase instantaneamente, furioso:

- Olha aí o que você fez, cara! Está louco, meu? Acabou com a minha traseira... Olha o para-choque; e agora, meu?

Eu nada disse. Pelo hálito, aquele motorista da caminhonete não tinha escovado os dentes naquela manhã, mas poder-se-ia calcular que tinha fumado algum cigarrinho das montanhas e tomado café sem açúcar. Só vi quando ele puxou o revólver, acho que disparou; mas não me lembro de mais nada.

Por Ricardo Novais

San-São. Belo futebol. Que pena!

Imagem do site Canelada F.B. 

Meus caros torcedores,

Finalmente, sim, finalmente chegou ao fim a novela 'Um Ganso que deseja ser Cisne'. Não houve mocinho nem bandido, apenas egocentrismo e jogo de interesses por todos os lados.

O ego maior é do jogador, claro; lembro-me de quase todas as entrevistas de PH Ganso, quando ainda 'craque santista': "Vou voltar a jogar o meu belo futebol", sempre dizia. Um sujeito que se faz um autoelogio é digno de pena – sem trocadilhos galináceos. Para o torcedor fanático santista um pouco mais coerente, já vai tarde; mas para aquele fanático peixeiro mais enfático, haverá o recurso das vaias e das moedas para ajudar o ‘futuro’ craque Cisne a demonstrar seu belíssimo futebol no Morumbi.

Ah! Mas o jogo de interesses, ah, este é todo dos clubes. Um San-São do capeta!

O Santos FC, talvez o clube mais tradicional do futebol mundial em todos os tempos, tentou chantagear, enganar, enrolar, encerrar a vontade alheia; enfim, coisas que, em certo sentido, mancharam o manto alvinegro tão sagrado. Coisas da bola, leitor-torcedor, coisas da bola; e a bola pune.

Já o São Paulo FC, apenas se utilizando de sua costumeira atitude de aliciar o talento alheio, foi digno de pena – outra vez, sem trocadilhos entre aliciamento e galináceos. Como um clube tão grande como o Tricolor do Morumbi, com um grande CT, de tão grandes presidentes/dirigentes, de tão grande torcida, enfim, de tão grande..., não consegue formar suas próprias revelações desde meados da década de oitenta? – Ao que consta, Lucas foi revelado na zona leste paulistana por aquele time da Marginal, 777, além de ser craque duvidoso; Kaká é uma falácia... Ah, claro, tem o Brenno, né? O craque incendiário... Sinal que para ser grande de fato tem que conquistar muita tradição; e tradição é formada pelas atitudes que se toma; quem sabe daqui a duas décadas ou mais, quem sabe...

Penso que os dois clubes são gigantescos, mas as diretorias tiveram atitudes de times pequenos (ou de várzea mesmo). O alvinegro pela falta de sensibilidade prática da situação burlesca da qual vivia, há coisas que não vale a pena se passar na vida; e o tricolor pela falta de respeito (ou inveja) ao trabalho alheio e filosofia futebolística do rival, há coisas que não se deve fazer na vida.

Pior que o futebol, que assistiu um de seus capítulos mais deprimentes, é a crônica esportiva, sempre a utilizar o esquema tático dos oportunistas; mas mais vil ainda é a história de um homem que virou apenas uma página na vida, ou um lance.

Um abraço, caros torcedores. Belíssimo futebol.

Por Ricardo Novais


* Texto publicado originalmente no site de esportes A bola e no espaço de leitores do blog Terceiro Tempo.

O transtorno cotidiano

"Caneta tinteiro dentro de um velho Código Penal". [Imagem de arquivo].

17º andar do Submarine Tower Center. Doutor Francisco Morganti desceu do elevador, deu um leve sorriso cumprimentando outros dois executivos que seguiriam para mais alto no edifício high tech e deu às costas. Caminhou pelo longo corredor cheio de saletas fechadas por portas de vidros, dobrou à direita, percorreu algumas baias abertas de departamentos e enfiou-se em sua sala: "Doutor Francisco Morganti, departamento jurídico", lia-se na porta de vidro fosco claro.

Mal conseguiu estender o paletó risca-de-giz azul-marinho no encosto da cadeira para sentar-se, alguém bateu na porta.

- Entre.

- Bom dia, doutor Francisco! A reunião está marcada para dez e meia, tudo bem?

- Dez e meia? Hum... Tudo bem. Obrigado.

Senhorita Clarissa o avisou que a sala de número 14 já estava separada para o evento e que teriam entre vinte ou trinta associados, boa plateia, participando da apresentação; porém, apenas três ou quatro receberiam efetiva participação nos lucros da empresa ou venceriam campanhas e ganhariam comissões. Ela deu às costas para sair. Ele ainda fixou um pouco os olhos na bunda dela; era um rabo igual ao do Pato Donald, só que de saia social, mas era espetacular, pensou, embora os tornozelos parecessem muito frágeis.

Doutor Francisco olhou no relógio de pulso analógico, oito e quinze da manhã. Respondeu dois e-mails sem importância, brincou com o anel de advogado em pedra de rubi natural que usava no dedo, verificou o cronograma oficial da reunião fazendo breve comparativo com o que tinha sido fraudado, pegou de duas ou três petições, mas logo as largou. Resolveu descer para tomar um café-da-manhã que fosse melhor do que o servido no escritório, o dia seria longo e ele precisava começá-lo bem. Levantou-se, vestiu o paletó, saiu da sala, sorriu à senhorita Clarissa, percorreu o caminho de há pouco e sumiu na multidão do elevador.

No café, estressou-se. Procurou se sentar perto da janela, com visão para a avenida apinhada de gente de todas as idades e cores. Distraiu-se. Trouxeram-lhe o cappuccino com uma fatia grande de bolo de cenoura, lembrou-se de sua mãe. Sim, caro leitor; por vezes, as coisas bucólicas trazem os pais à memória. Mordeu uma maça, sorveu toda a xícara e pousou os olhos numa moça do outro lado da calçada. Estava longe, mas ela pareceu ter-lhe visto, deu um sorriso debochado e atravessou a avenida na faixa de pedestres. Passou em frente ao café, mas não entrou. O reflexo do corpo dela no vidro da loja lhe iluminou o dia. Doutor Francisco, congelado à mesa por alguns segundos, segurando a maça mordida, ficou admirando aquela mulher de olhos de lascívia, enfiada em um escandaloso vestido vermelho curtíssimo, cor do pecado, cabelos ondulados esvoaçantes, em chamas por cima do salto alto, a andar um pouco descompassada calçada afora, elegante sem nem ao menos olhar para trás. Sem saber bem do por que, ele resolveu segui-la.

Pagou a conta na loja apressadamente, mas tinha muita gente à sua frente. Pisaram-lhe o pé. Sujou o sapato italiano. Não ligou, saiu em desabalada carreira, como se fosse ir atrás de um cavalo da sorte no hipódromo. No entanto, não conseguiu identificar o destino da moça dos olhos de lascívia; de repente, numa fração de segundo, julgou que ela havia entrado em um táxi no sentido do centro da cidade. Deu sinal a outro táxi e entrou na cabine, ofegante, embora não fizesse muito calor naquela manhã.

- Siga aquele táxi! – ordenou ao motorista. Ah, não tire sarro, leitor! Diga se também nunca tiveste a vontade de se sentir como um ator de filme B de ação em Nova Iorque ou personagem de novela no Leblon?

O taxista parou na Avenida São Luís. Ele desceu por trás, foi à porta do carona, pagou ao motorista com uma nota de cem e este lhe sorriu arrancando com o carro semáforo vermelho adentro. A mulher foi andando, um andar noturno, embora fosse claudicante dia; em nenhum momento ela olhou para trás ou para os lados. Eram nove e vinte da manhã. O sol não conseguia vencer a garoinha fina, céu cinza de nuvens roxas. Na Ipiranga, ela sumiu. Doutor Francisco ficou com os olhos perdidos dentro da multidão, resolveu entrar em um cinema. O cheiro de urina era insuportável, sentou-se em uma cadeira nos fundos da sala. A plateia era pouca, e esparsa. Lá dentro estava quente, muito quente, ar-condicionado desligado, ele tirou o paletó e ficou o segurando sob os joelhos. No telão passava um filme dos anos setenta, ou antes, com imagens muito ruins, onde se estrelava uma atriz nua, que não deveria ter mais que quinze anos de idade na época, fazendo sexo explícito com um crioulo carioca usando dentes de ouro.

Em certo momento, o filme passou a ares rodriguenianos. No telão se via dois homens se beijando e se tocando, e o crioulo transando feito um animal com a menina. Doutor Francisco então reparou que na sala não tinha nenhuma mulher assistindo a sessão, só homens aparentemente se masturbando. Na primeira fileira um sujeito masturbava o outro; depois eles trocaram, e um deles abaixou bem a cabeça no colo de seu colega sumindo do campo de visão; apenas os sapatos deles escorregavam frenéticos no carpete escuro e cheio de porcarias.

Doutor Francisco, que era advogado nascido e criado nos foros paulistanos, tinha fama de conservador dos bons costumes da cidade; ele percebeu que um expectador trocou de lugar, depois trocou novamente e estava a uma poltrona de onde ele estava sentado. Tinha cara de tarado, ou de louco, maluco. O advogado se levantou, vestiu o paletó e foi ao banheiro; o tarado veio atrás.

A latrina estava muito suja de secreções fisiológicas de todo tipo, deu-lhe ânsia de vômito. Ele preferiu usar o mictório, usou-o por uns cinquenta segundos, sacudiu-se e fechou a braguilha; ao virar-se para sair, deu de cara com o tarado, que, subitamente, beijou-lhe na boca. Doutor Francisco deu um violentíssimo murro bem no meio da cara do beijoqueiro, que deu um grito, menos efeminado do que afetado, de horror.

- Ei, peste! Peste dos infernos! Não quer? Não precisa bater, meu! – protestou o tarado que tinha um sotaque carregado, provavelmente oriundo da Bahia; e, imediatamente, ele sobrepôs sua mão esquerda em seu lábio superior percebendo e analisando o ferimento que acabara de sofrer.

- Você me beijou, seu nojento! – bradou o advogado, apresentando modos eugenistas. – Você me beijou... Está louco? Desgraçado! Nojento! Raça ruim!

Doutor Francisco xingava o tarado e o esmurrava sem piedade. Socou-lhe a cabeça utilizando como arma o anel, com pedra de rubi natural na ponta, qual usava no dedo do meio. Também lhe deu cotoveladas nas costas, na boca do estômago. O homem caiu no chão imundo. Recebeu chutes no rosto, na fronte. O advogado tirou uma caneta tinteiro de estimação do bolso da camisa e cravou-a na testa do tarado maluco, retirou-a e fincou-a novamente, duas, três vezes. “Raça ruim! Raça ruim! Baiano nojento!”, gritava a cada golpe, mas eram gritos mentais, em silêncio, estava justificando-se consigo mesmo. A caneta era extremamente pontiaguda, revestida de metal, tinha a forma de um pequenino canivete. O homem despiu-se de sua tara e chorou por piedade, mas o advogado não teve clemência. Furou-lhe o olho esquerdo, rasgou-lhe a pele da mandíbula. Pisoteou-lhe o órgão genital com raiva, esmagando-o dentro das calças íntimas. Naquele banheiro fétido, estava sendo lida a sentença, sem indulto. O tarado não ofereceu resistência; ele era um sujeito de estatura mediana, calvo e mulato, mas nem todo o sangue que lhe escorreu da fronte foi capaz de lhe tirar a palidez do semblante. Em questão de minutos, foi julgado e aniquilado no cotidiano da sociedade.

O advogado lavou as mãos em água corrente, retirou do dedo o anel com pedra de rubi o colocando em cima da pia, esfregou-se e enxugou-se com um lenço cândido de cetim que tirou do bolso da calça, limpou também os sapatos italianos, percebeu que a mão direita estava um pouco machucada, enrolou a caneta mortífera no mesmo lenço a enfiando no acolchoado interno do paletó, recolocou o anel no dedo do meio e saiu do cinema andando calmamente. Deu sinal a um táxi, ordenou ao motorista que o levasse à igreja Nossa Senhora da Conceição. No trânsito, enviou uma mensagem através da internet para a senhorita Clarissa lhe pedindo que adiasse a reunião para duas e meia da tarde, depois do almoço.

Ajoelhado diante do altar da Nossa Senhora da Conceição, lembrou-se de sua mãe, fez o sinal da cruz e começou a rezar:

Mãezinha,

Esta cidade é pecaminosa. Homens negros com dentes de ouro bolinam meninas, crianças. Há pederastia, prostituição, crime e corrupção por todo o lado. O diabo tomou conta de toda a cidade. A população quase inteira é libidinosa. Tenho pensado muito em me mudar daqui, ir embora para não voltar mais a esta terra. Quem sabe ir morar na Europa ou nos Estados Unidos; eu tenho procurado outro emprego fora daqui. Que Deus me livre do mal e do pecado.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”.

Saiu da igreja, pegou outro táxi, desceu em frente ao Submarine Tower Center e subiu até o 17º andar. Caminhou entre olhos sem rostos escondidos atrás dos vidros foscos, percorreu as indiferentes orelhas mal-lavadas por baixo das baias verdes e avistou a senhorita Clarissa com o mesmo sorriso leve que a nada significava, exceto ao Pato Donald. Trancou-se em sua sala: Doutor Francisco Morganti, advogado executivo. Trocou de terno risca-de-giz azul-marinho, banhou-se do melhor perfume de madeira, improvisou um curativo nos lóbulos da mão machucada a fim de esconder os ferimentos, tirou da estante um velho Código Penal para guardar a caneta mortífera e conferiu as horas no relógio de pulso. Ainda eram onze e meia da manhã. Resolveu descer novamente, precisava almoçar. "A tarde será longa", pensou metido consigo, calculando mentalmente os passos que daria na reunião onde iria apresentar o cronograma fraudado aos outros homens de valor, "preciso estar bem!", concluiu.

No restaurante de esquina, olhou para a televisão ligada no noticiário esportivo, mas preferiu se sentar sozinho no canto de uma grande janela de vidro. Tinha a mesma visão de mais cedo da avenida apinhada de gente de todas as origens. A garoinha tinha cessado, mas o céu cinza não trazia maiores esperanças. O garçom lhe trouxe o almoço: macarrão com queijo, carne empanada com farinha de trigo, salada de cenoura em molho de tomate e uma taça de vinho italiano. Lembrou-se de seu pai.

Por Ricardo Novais

Rivalidade Rio-São Paulo

Google imagens.

A velha rivalidade Rio-São Paulo. Concorrência provinciana que, há séculos, açoitam seus povos? Duas cidades que não se bicam muito e, no entanto, são primas ou, quase, irmãs? Uma espécie esportiva de disputa eterna entre índios tamoios, os super-cariocas, contra tupiniquins, os super-paulistas? Uns partidários dos ferozes goitacás e tupinambás; outro grupo, mais gentil, só queria viver na paz natural de carijós ou de catequizadores. Ah, se tudo fosse tão lacônico como numa partida de futebol, mas briga-se por tão pouco... É, provável que sim. França e Inglaterra não iniciaram uma luta, de mais de século, por causa de lã? Os Estados do Paraná e de Santa Catarina não promoveram um sangrento conflito, na Questão do Contestado, por reivindicarem madeira? Conflito onde morreram mais de vinte mil homens, e usaram mais de vinte mil caixões. Caixões de madeira!

Sim, senhor leitor vizinho da casa 1 e dona leitora vizinha da casa 2, olhar para os lados espicaçará sentimentos diversos e uma ambição selvagem à discussão com o que é díspar do nosso direito...

É curioso; qualquer paulistano diria que sou vira-casaca. Mas minha identificação com o Rio de Janeiro vem justamente por causa do saudoso Torneio Rio-São Paulo. Fanático pela disputa ente futebolistas cariocas e paulistas, presenciei apenas a morte do torneio; os último anos, entre vivos e mortos. Vivos e mortos!

Lembra-me, por descuido, a memória a história de craque antigo do Clube de Regatas do Flamengo: Zé dos Prazeres, o gênio genioso. Isto é história velha que vovô contava nas tardes de sábado perto do Rio Pinheiros, quando este era parque florestal em São Paulo, com o cigarro à boca e a cerveja esquentando na mesa improvisada. Dizia ele que nem Garrincha nem Pelé foram páreos para o Zé dos Prazeres no Rio-São Paulo. Zé foi o maior do torneio, afiançava.

Coisas maiores, leitor. Coisas maiores! Afinal, tudo é tão decrépito como o depauperamento da reminiscência, finita.

O craque genioso nasceu entre os malandros cariocas do Morro dos Prazeres, zona central da cidade dos remotos goitacazes e tupinambás. Conhecia tanto a boemia aniquilante do Rio antigo como a crueldade dos bicheiros que mandavam na favela.

Zé dos Prazeres era sedutor, fazia o tipo galã de cinema. Mas a torcida adversária, percebendo logo as jogadas temperamentais, voluntariosas e indisciplinadas de Zé dentro e fora dos campos de futebol, fez campanha contra o desportista incompreendido. Tão depressa nas duas cidades surgiram os coros nas arquibancadas a tentarem desestabilizar o melhor jogador no torneio: “Mariquinha! Mariquinha! Mariquinha!”. Ele se afetava rápido. Batia em árbitro, espectadores, cronistas, brigava com Deus e o mundo, ofendia, sem distinção, rivais e colegas da própria equipe.

Quando o jogador enfurecia-se no gramado lá vinha o coro paulista: “Mariquinha! Mariquinha! Mariquinha!”. Ele ficava irascível; e, se o Flamengo tivesse vencendo, tanto melhor, porque ele iria fazer um gol de categoria e raiva. Mas se o rubro-negro estivesse perdendo o time da Gávea acabaria sem Zé dos Prazeres, pois ele seria expulso por agressão física ou moral indiscriminada.

Em meados de algum ano passado como fumaça de bule de chá, segundo as também já tão longínquas palavras de vovô, o gênio se desentendeu com o presidente do clube, clube que tanto amou. Numa excursão pelo Rio, a Internazionale, de Milano, time da moda no velho continente à época, se interessou pelo jogador. Zé dos Prazeres, o gênio genioso, foi vendido. Mas ele não aceitou ficar longe de sua gente. Na temporada seguinte, sem poder jogar, foi assistir a abertura do torneio Rio-São Paulo: Santos 7 x 1 Flamengo. Era de ver a cena em pleno Maracanã, o craque genioso embriagado entre geraldinos de incrédulos rostos de todas as cores e todas as idades, de cabeça baixa, chorando entre seus comparsas, agarrado a um poste das gerais do velho e não menos saudoso Maraca, sem acreditar na humilhação imposta pelo time paulista ao seu clube de coração.

Amor? Desamor? Abandono? Zé dos Prazeres morreu de tristeza, num hospício na cidade do Rio de Janeiro. Contudo, não sejamos tão enfáticos como os cronistas esportivos! Não cabe neste texto. Dir-se-ia aqui apenas que o futebol é só um artístico e inesperado reflexo da vida.

Ademais, não saberia afirmar, caro amigo leitor-torcedor carioca e queridíssima dona leitora-fanática paulista, se esta história de meu velho avô, jaz calado pelo peso da eternidade, é verdadeira; de certo que não. Mas diria que sim; pois que o craque das mais belas expressões corporais nos estádios, que teve afetada a vida de glórias e desgraças, promoveu a mais sútil e ingênua rivalidade entre todas que existem entre o Rio e São Paulo – duas cidades bem perfumadas, e quase irmãs.


Por Ricardo Novais

Diário de minha morte

"Está morto: podemos elogiá-lo à vontade", conselho machadiano.

Quando dei por mim, estava bem-vestido e dentro do caixão, um esquife melancólico. Eu observava as flores fúnebres murchando, minuto após minuto, e já pensava na minha nova e confortável morada sete palmos abaixo da terra. Concluí disto que a morte é um sono eterno e sem sonhos.

Minha mãe chorava ininterruptamente ao lado do caixão, era um soluço alquebrado e curto; meu pai tomava um café em copo de plástico. O clima era sombrio. No atestado de óbito vinha escrito: “Morreu de ataque paralisante do miocárdio”. Ora, essa é boa. O miocárdio foi o único órgão que se manteve firme, vivo até o fim. Pobre miocárdio! E também é certo que se eu pensava era porque meu cérebro estava em pleno funcionamento... Ou não? Não, não examinaram o meu cérebro – embora árdua seja a tarefa de medir os pensamentos... E tudo pode ser mesmo um sono eterno, mas talvez com alguns sonhos.

Ouvi que seria translado ao cemitério. No fim, tudo é um campo de girassóis... Nunca pensei que faria tal viagem, de mais de bilhões de quilômetros; ao menos não tive que pagar absolutamente nada pela passagem. Isto é quase boa promoção de agência de turismo; de fato, uma pechincha! Sempre haverá alguém que te pague a morte; no meu caso, o patrocinador foi papai.

E assim foi o carro em cortejo, uma carreata funesta e enigmática.

Mas a morte é tão surpreendente quanto a vida, leitor. Mal eu tinha morrido direito e já recebi companhia, alguns defuntos classificariam a visita que recebi de indesejável: uns vermezinhos vieram ter comigo.

- Olá, amigo! Sou o escaravelho, mas pode me chamar de Cará. Muito prazer.

- É? O prazer é teu, não vê que estou morto?

- Sinto muito, acontece... Bem, amigo; mas viemos vê-lo porque vamos nos alimentar de teu corpo; questão de sobrevivência; você entende, né?... Ah, mas não se preocupe! Geralmente funciona assim: a comida nada sente; apenas arrancamos um naco do presunto, comemos e vamos embora. Noutro dia voltamos; outros vermes não podem vir comê-lo, apenas eu e meus companheiros decompositores; seremos os donos de tuas carnes, de tuas entranhas; os outros vermes malditos que procurem outro defunto para saciar a vida, ou morte! E quando der por conta, meu amigo, já nada mais existirá de ti. Entendeu tudo?

- Entendi sim, obrigado. – disse agradecendo a consideração da explicação e fazendo um pedido aos vermes. – Por favor, não dá para vocês esperarem um pouco; quer dizer, ao menos até que eu esteja enterrado... Não quero ter aspecto ruim no velório; compreendem?

- Oh, sim, claro! Por enquanto só viemos mesmo lhe dar as boas-vindas. Já te disse para não se preocupar...

De repente o escaravelho fechou a horrenda face e raiou com os amigos:

- Ei, senhor fungo, dona bactéria; agora não! Depois vocês comem; que gula!

- Mas Cará... – ponderou o fungo. – É só uma lambidinha. Poxa morte! Estou morrendo de fome...

- Não! E basta! Não sabem o que é basta?

Basta, foi tudo que eu soube da cadeia alimentar do imponderável. Aqueles vermes morriam de fome e eu já estava morto; finado e encaixotado. Curioso, mesmo sem poder me mexer eu percebia que aquele caixão era muito apertado. Meu pai deve ter economizado em minha última morada... Um morto deveria ser enterrado em local grande e arejado, algo parecido com a tumba de Jesus Cristo. Por que não dar espaço à morte?

Não aguentei. De repente, tudo se movimentou sem nexo e os objetos fúnebres giraram descompassadamente, pareciam me perseguir, eu não vi mais nada; a não ser uma luz clarividente e acolhedora. Fui à luz, mas uma mão desligou o monitor e outra fechou a janela.


Por Ricardo Novais

Ousadia

Foto Liliane Callegari.

A cabeça que não se erguia muito, mas que também não se deixava a ver só o chão, estava sempre escondida por detrás de alguma baia de escritório, pilastra de estação de trem, parede de prédio de banco, outras cabeças que também não se erguiam muito. Bonifácio era adepto da seleção natural, adaptava-se fácil à sombra dos outros. Não corria riscos, não errava nem acertava; poder-se-ia dizer que levava uma vida confortavelmente bovina.

Olhares atrevidos causavam calafrios em Bonifácio, pessoas sorrindo ao seu redor o aterrorizava. Vivia isolado, sozinho, sombrio por opção. Todas as palavras que dizia não ecoavam mais alto que o silêncio. Silêncio. Silêncio repentino ou de vários dias. Nem toda vida é esfuziante porque nem toda felicidade se compra no supermercado, filosofava consigo mesmo o parcimonioso Boni.

Mas se a vida não é tão esfuziante como aparenta nas fotografias das redes sociais, leitor, também está longe de ser previsível. Quando não se esperava mais nada de uma alma tão bovina, numa manhã ensolarada e bonita, Bonifácio cometeu sua maior ousadia.

Olhou-se ao espelho, engatilhou o revólver e atirou contra a própria cabeça, que não caiu nem erguida nem virada para o chão. Violentamente, apenas caiu.

Por Ricardo Novais

Arte da bola

Seleção Brasileira de 1982: Depois de 30 anos, reconhece o craque Fagner entre teus ídolos, torcedor?


O apagar das luzes no estádio é a sentença para as redações esportivas. Paloma, dezenove anos completos, estagiária do jornal Arte da Bola, precisava de uma pauta que efetivasse seu contrato na empresa. Não bastava entrevistar algum craque do momento ou escrever um artigo sobre o Barcelona, tinha que ser diferente. O velho jornalista do caderno de esportes, Carlos Nogueira, surgiu entre o burburinho da redação e a salvou.

- Você tem que ir atrás do Fagner, menina. Ele está passando por maus bocados; falido, quase na miséria... Manchetona, hein: "Craque boêmio derrotado pela vida". Que tal?

- O senhor é engraçado, Seo Carlos.

- Oh, minha filha! - exclamou ele rindo. - Não quer decolar sua carreira?

Fagner, ex-jogador da lendária Seleção de 82, metido a galã, entre jogadas memoráveis do esporte bretão, torrou rios de dinheiro nos gramados do mundo com sexo, carrões, sexo, festas, sexo e... sexo. Nunca existiu pecado. Todos os garotos queriam ser Fagner nos anos oitenta, todas as meninas queriam dar para Fagner nos anos oitenta.

Paloma percebeu que sua chance era contar a vida do grande ídolo do passado, que caiu no esquecimento colossal do presente e na miséria inapelável do incerto futuro; coisas do vestiário eterno, ironia da vida pública. Mas havia um problema: onde encontrar Fagner? Outra vez a raposa das redações lhe entregou o mapa:

- Vá à Rua Paolo Rossi, nº 20; procure o Pestana.

O lugar era um pé sujo na periferia de São Paulo. Pestana era um velho com a barba por fazer e cara de tarado, conhecido também como “Buk da Copa” ou “Velho Paulista Safado”.

- Cinquenta reais só para começar a falar, minha filha.

O bar tinha mesas e cadeiras pintadas de um amarelo enferrujado, embora o balcão fosse de uma maciça madeira marrom muito escura. A cerveja foi servida no balcão, em copo americano não muito limpo.

- Vamos direto ao lance, meu; digo, ao assunto; onde mora o Fagner?

- Aqui perto...

Paloma deu um gole na cerveja gelada e bateu uma nota de cem reais na madeira maciça. Desculpe o trocadilho, leitor, mas Pestana a pegou sem pestanejar, coçou a barba encardida e sorriu mostrando todos os dentes podres:

- Venha!

Eles entraram no carro; Paloma teve medo, mas dirigiu cinco ou seis quilômetros por uma avenida ilumina apenas pelo farol do automóvel e da própria alma; Pestana, o velho “Buk Paulista”, há muito já não tinha mais alma nenhuma. Primeiramente, casinhas com tijolos baianos aparentes eram a paisagem, depois a coisa ficou pior; vultos sem rostos por todas as esquinas. Numa ruela, Pestana mandou parar. Paloma hesitou, Pestana ordenou com veemência:

- Desce, porra! Não queria vim, meu? Desce logo dessa porra de carro. Desça!

Desceram ruela abaixo. Depois, pé ante pé numa viela molhada pela garoa, chegaram numa casa velha, embora grande e com ares de relíquia.

- É aqui. O homem mora aqui com a mulher e o filho caçula. Acho que a primeira mulher dele morreu tem uns vinte anos, essa deve ser já bem a quarta ou quinta... O homem gosta da coisa, conheço bem... - ele gargalhou baixo. Um quarto de minuto depois, quis ir embora.

- Espera... - Paloma disse tentando segurá-lo.

- Espera porra nenhuma, cazzo. Dá uma olhada em volta, minha filha, está cheio de neguinho querendo de comer. Vamos embora logo, porra! Senão vou ali pegar o busão e te deixo aí para o Paulão... Olha lá o Zelão também... Aposto que os caras querem te dar um trato...  - Vendo que a moça nem ouviu o que ele disse, Pestana fez uma pequena pausa para respirar profundamente e esbravejou: - Porra! Você está ouvindo, caralho? Esses negões ali, ó, minha filha, são zagueiros do Estrela Vermelha, o maior time de várzea da cidade cheios dos maiores marginais, os mais nojentos... Daqui a pouco eles vêm aqui cobrar a gente, cazzo! Vamos embora logo, porra!

Assombrada pela situação, Paloma chegou a seu apartamento na Vila Mariana e sorriu de nervoso: Que matéria! Mas, ao mesmo tempo, pensou em como podia ter acontecido aquilo? O grande Fagner... O cara foi um ídolo... Ídolo da Seleção... Porra, da Se-le-ção! Instantaneamente, lembrou-se da frase dita entre boleiros: “A bola pune”.

Em três meses, Paloma era redatora-chefe do Arte da Bola e amante de Fagner. Todas as noites os dois se encontravam no antigo Banespa e de lá iam ao motel das estrelas. A mulher de Fagner desconfiava, mas sabia do gênio imponderável do marido.

- Vai sair, amor? – perguntava Stella.

- Vou. Não me espere, chegarei tarde.

Maria Stella não devia ter ainda trinta anos de idade, mas já tinha vivido sua vida inteira. Em meados dos anos noventa, ela foi tiete de Fagner quando ele retornou endinheirado dos Emirados Árabes depois de vencer o campeonato local pelo time do Sheik Abdala do Samba, apelido do cartola do clube que era fã do futebol brasileiro. No regresso, Fagner jogou na Portuguesa de Desportos; e, aos trinta e cinco anos ainda era um craque. Isto fez o Flamengo se interessar pela sua contratação, mas no clube da Gávea, um bairro tão excêntrico, Fagner apenas encerrou definitivamente a carreira.

O último jogo de Fagner foi uma noite de gala. Ele não jogou. Entrou todo uniformizado, rubro-negro, e deu uma gloriosa volta olímpica no velho Maracanã, templo sagrado, sendo ovacionado por milhares de geraldinos e arquibaldos, conforme consta nos arquivos do Arte da Bola.

Stella engravidou rápido, e Fagner tinha muito respeito pela paternidade; princípio de família que o domava. Pediu a mão de Stella, embora isto já fosse fora de moda, durante uma festa em Petrópolis. Dizem que nesta festa havia coelhinhas da Playboy, muito uísque de Asunción e anões pervertidos que saiam de grandes caixas de papelão – sim, dona leitora, concordo; se existiu tal fato, foi a visão do inferno... 

Casaram-se no Rio, onde as traições eram constantes; mas Stella deu um jeito de regressaram a São Paulo, simulou um sequestro relâmpago nas sofisticadas ruas da Barra da Tijuca, onde moravam à época. Fagner ficou com medo, malandro que é malandro respeita a seriedade de homens maquinados. 

Morando já na casa grande e velha com ares de relíquia, no extremo sul da capital paulista, Stella pensou que Fagner tinha pendurado as chuteiras boêmias, até que apareceu Paloma. A coisa foi ficando séria, e ela percebeu que tinha que acabar com aquilo logo, rápido e súbito; foi ter com o marido.

- Fagner, não ligo que você tenha seus casinhos com essas maria-chuteiras, vagabundas, mas agora é diferente... Temos que dar o golpe nesta vaca e nos livrarmos dela.

- Está louca, Stella?

Fagner gostava espontaneamente de Paloma, quase que poderia até ter a amado. Tê-la. Amado. Ela o fazia se sentir ídolo, ídolo vivo. Às vezes, leitor, recupera-se alguma vida na vida dos outros. Tudo é o primeiro raio que gera o primeiro sopro de vida, o resto é o resto, ou nada; embora, muita vez, o nada é toda a boa-venturança dada por Deus. Mas deixemos de tanta firula que o jogo está duro e em andamento; perdão pelo passe errado, companheiro leitor; tornemos logo ao conto.

Paloma era esperta, embora muito jovem. Quando percebeu que corria perigo, recorreu outra vez à velha raposa paulistana, o insuperável Carlos Nogueira. Marcaram encontro às onze horas e quarenta e cinco minutos da noite no galpão de armazém abandonado do centro da cidade dos violentos. Assim que estacionou o carro na Alameda Sarrià, avistou a tragédia. Tragédia do Sarrià. Nogueira a esperava; ao entregá-lo uma grande bolsa de couro com duzentos mil reais dentro, consumou-se a tragédia: Paloma recebeu três tiros de revólver, pelas costas, todos na nuca.

Peço-te desculpas, leitor amigo e torcedor, não tenho como contar aqui detalhes dos dedos que apertaram o gatilho do maléfico revólver; também eu tenho medo das tragédias e zelo pelo time da vida contra a morte anunciada. Mas, ora, não é tão difícil assim imaginar como a jovem Paloma morreu e como deixaram o seu corpo desfalecido jogado no pátio do armazém às ratazanas. Digo apenas que não foi o jornalista quem atirou nela porque os que escrevem não sujam as mãos com pólvora, e em verdade a pólvora até limpa a mente de alguns autores; no mais, posso dizer também que os assassinos fugiram em segundos, como esquema tático impecável. A vida é mesmo uma arte da bola.

No bar do Pestana, Nogueira sorveu a cerveja, desta vez não tão gelada, do copo americano sujo e entregou uma outra mala, preta, pequena e de vinil, a Fagner. Depois tirou de outra bolsa um par de chuteiras e as pôs sobre o balcão de madeira:

- Estas são as chuteiras de 82, meu amigo; estou as devolvendo ao campeão.

- Um brinde aos craques da bola... Melhor, a todos os ídolos deste país! – Pestana levantou o copo sujo no ar empesteado pela fumaça do cigarro vagabundo, e concluiu: – Somos geniais e desprezíveis, ao mesmo tempo.

- Porra, Buk! – Nogueira o repreendeu em tom de brincadeira. – Cala tua boca aí e vamos beber, meu, vai. Pelo amor de Deus!

Todos riram, e beberam. Fagner ficou um bom tempo namorando as velhas chuteiras como se tivesse reencontrado o grande amor do passado. Já Stella deu pulos de alegria ao ver o marido chorando com as chuteiras nas mãos; nem toda Maria é chuteira, e nem todo campeão vence.

Por Ricardo Novais