Arte da bola

Seleção Brasileira de 1982: Depois de 30 anos, reconhece o craque Fagner entre teus ídolos, torcedor?


O apagar das luzes no estádio é a sentença para as redações esportivas. Paloma, dezenove anos completos, estagiária do jornal Arte da Bola, precisava de uma pauta que efetivasse seu contrato na empresa. Não bastava entrevistar algum craque do momento ou escrever um artigo sobre o Barcelona, tinha que ser diferente. O velho jornalista do caderno de esportes, Carlos Nogueira, surgiu entre o burburinho da redação e a salvou.

- Você tem que ir atrás do Fagner, menina. Ele está passando por maus bocados; falido, quase na miséria... Manchetona, hein: "Craque boêmio derrotado pela vida". Que tal?

- O senhor é engraçado, Seo Carlos.

- Oh, minha filha! - exclamou ele rindo. - Não quer decolar sua carreira?

Fagner, ex-jogador da lendária Seleção de 82, metido a galã, entre jogadas memoráveis do esporte bretão, torrou rios de dinheiro nos gramados do mundo com sexo, carrões, sexo, festas, sexo e... sexo. Nunca existiu pecado. Todos os garotos queriam ser Fagner nos anos oitenta, todas as meninas queriam dar para Fagner nos anos oitenta.

Paloma percebeu que sua chance era contar a vida do grande ídolo do passado, que caiu no esquecimento colossal do presente e na miséria inapelável do incerto futuro; coisas do vestiário eterno, ironia da vida pública. Mas havia um problema: onde encontrar Fagner? Outra vez a raposa das redações lhe entregou o mapa:

- Vá à Rua Paolo Rossi, nº 20; procure o Pestana.

O lugar era um pé sujo na periferia de São Paulo. Pestana era um velho com a barba por fazer e cara de tarado, conhecido também como “Buk da Copa” ou “Velho Paulista Safado”.

- Cinquenta reais só para começar a falar, minha filha.

O bar tinha mesas e cadeiras pintadas de um amarelo enferrujado, embora o balcão fosse de uma maciça madeira marrom muito escura. A cerveja foi servida no balcão, em copo americano não muito limpo.

- Vamos direto ao lance, meu; digo, ao assunto; onde mora o Fagner?

- Aqui perto...

Paloma deu um gole na cerveja gelada e bateu uma nota de cem reais na madeira maciça. Desculpe o trocadilho, leitor, mas Pestana a pegou sem pestanejar, coçou a barba encardida e sorriu mostrando todos os dentes podres:

- Venha!

Eles entraram no carro; Paloma teve medo, mas dirigiu cinco ou seis quilômetros por uma avenida ilumina apenas pelo farol do automóvel e da própria alma; Pestana, o velho “Buk Paulista”, há muito já não tinha mais alma nenhuma. Primeiramente, casinhas com tijolos baianos aparentes eram a paisagem, depois a coisa ficou pior; vultos sem rostos por todas as esquinas. Numa ruela, Pestana mandou parar. Paloma hesitou, Pestana ordenou com veemência:

- Desce, porra! Não queria vim, meu? Desce logo dessa porra de carro. Desça!

Desceram ruela abaixo. Depois, pé ante pé numa viela molhada pela garoa, chegaram numa casa velha, embora grande e com ares de relíquia.

- É aqui. O homem mora aqui com a mulher e o filho caçula. Acho que a primeira mulher dele morreu tem uns vinte anos, essa deve ser já bem a quarta ou quinta... O homem gosta da coisa, conheço bem... - ele gargalhou baixo. Um quarto de minuto depois, quis ir embora.

- Espera... - Paloma disse tentando segurá-lo.

- Espera porra nenhuma, cazzo. Dá uma olhada em volta, minha filha, está cheio de neguinho querendo de comer. Vamos embora logo, porra! Senão vou ali pegar o busão e te deixo aí para o Paulão... Olha lá o Zelão também... Aposto que os caras querem te dar um trato...  - Vendo que a moça nem ouviu o que ele disse, Pestana fez uma pequena pausa para respirar profundamente e esbravejou: - Porra! Você está ouvindo, caralho? Esses negões ali, ó, minha filha, são zagueiros do Estrela Vermelha, o maior time de várzea da cidade cheios dos maiores marginais, os mais nojentos... Daqui a pouco eles vêm aqui cobrar a gente, cazzo! Vamos embora logo, porra!

Assombrada pela situação, Paloma chegou a seu apartamento na Vila Mariana e sorriu de nervoso: Que matéria! Mas, ao mesmo tempo, pensou em como podia ter acontecido aquilo? O grande Fagner... O cara foi um ídolo... Ídolo da Seleção... Porra, da Se-le-ção! Instantaneamente, lembrou-se da frase dita entre boleiros: “A bola pune”.

Em três meses, Paloma era redatora-chefe do Arte da Bola e amante de Fagner. Todas as noites os dois se encontravam no antigo Banespa e de lá iam ao motel das estrelas. A mulher de Fagner desconfiava, mas sabia do gênio imponderável do marido.

- Vai sair, amor? – perguntava Stella.

- Vou. Não me espere, chegarei tarde.

Maria Stella não devia ter ainda trinta anos de idade, mas já tinha vivido sua vida inteira. Em meados dos anos noventa, ela foi tiete de Fagner quando ele retornou endinheirado dos Emirados Árabes depois de vencer o campeonato local pelo time do Sheik Abdala do Samba, apelido do cartola do clube que era fã do futebol brasileiro. No regresso, Fagner jogou na Portuguesa de Desportos; e, aos trinta e cinco anos ainda era um craque. Isto fez o Flamengo se interessar pela sua contratação, mas no clube da Gávea, um bairro tão excêntrico, Fagner apenas encerrou definitivamente a carreira.

O último jogo de Fagner foi uma noite de gala. Ele não jogou. Entrou todo uniformizado, rubro-negro, e deu uma gloriosa volta olímpica no velho Maracanã, templo sagrado, sendo ovacionado por milhares de geraldinos e arquibaldos, conforme consta nos arquivos do Arte da Bola.

Stella engravidou rápido, e Fagner tinha muito respeito pela paternidade; princípio de família que o domava. Pediu a mão de Stella, embora isto já fosse fora de moda, durante uma festa em Petrópolis. Dizem que nesta festa havia coelhinhas da Playboy, muito uísque de Asunción e anões pervertidos que saiam de grandes caixas de papelão – sim, dona leitora, concordo; se existiu tal fato, foi a visão do inferno... 

Casaram-se no Rio, onde as traições eram constantes; mas Stella deu um jeito de regressaram a São Paulo, simulou um sequestro relâmpago nas sofisticadas ruas da Barra da Tijuca, onde moravam à época. Fagner ficou com medo, malandro que é malandro respeita a seriedade de homens maquinados. 

Morando já na casa grande e velha com ares de relíquia, no extremo sul da capital paulista, Stella pensou que Fagner tinha pendurado as chuteiras boêmias, até que apareceu Paloma. A coisa foi ficando séria, e ela percebeu que tinha que acabar com aquilo logo, rápido e súbito; foi ter com o marido.

- Fagner, não ligo que você tenha seus casinhos com essas maria-chuteiras, vagabundas, mas agora é diferente... Temos que dar o golpe nesta vaca e nos livrarmos dela.

- Está louca, Stella?

Fagner gostava espontaneamente de Paloma, quase que poderia até ter a amado. Tê-la. Amado. Ela o fazia se sentir ídolo, ídolo vivo. Às vezes, leitor, recupera-se alguma vida na vida dos outros. Tudo é o primeiro raio que gera o primeiro sopro de vida, o resto é o resto, ou nada; embora, muita vez, o nada é toda a boa-venturança dada por Deus. Mas deixemos de tanta firula que o jogo está duro e em andamento; perdão pelo passe errado, companheiro leitor; tornemos logo ao conto.

Paloma era esperta, embora muito jovem. Quando percebeu que corria perigo, recorreu outra vez à velha raposa paulistana, o insuperável Carlos Nogueira. Marcaram encontro às onze horas e quarenta e cinco minutos da noite no galpão de armazém abandonado do centro da cidade dos violentos. Assim que estacionou o carro na Alameda Sarrià, avistou a tragédia. Tragédia do Sarrià. Nogueira a esperava; ao entregá-lo uma grande bolsa de couro com duzentos mil reais dentro, consumou-se a tragédia: Paloma recebeu três tiros de revólver, pelas costas, todos na nuca.

Peço-te desculpas, leitor amigo e torcedor, não tenho como contar aqui detalhes dos dedos que apertaram o gatilho do maléfico revólver; também eu tenho medo das tragédias e zelo pelo time da vida contra a morte anunciada. Mas, ora, não é tão difícil assim imaginar como a jovem Paloma morreu e como deixaram o seu corpo desfalecido jogado no pátio do armazém às ratazanas. Digo apenas que não foi o jornalista quem atirou nela porque os que escrevem não sujam as mãos com pólvora, e em verdade a pólvora até limpa a mente de alguns autores; no mais, posso dizer também que os assassinos fugiram em segundos, como esquema tático impecável. A vida é mesmo uma arte da bola.

No bar do Pestana, Nogueira sorveu a cerveja, desta vez não tão gelada, do copo americano sujo e entregou uma outra mala, preta, pequena e de vinil, a Fagner. Depois tirou de outra bolsa um par de chuteiras e as pôs sobre o balcão de madeira:

- Estas são as chuteiras de 82, meu amigo; estou as devolvendo ao campeão.

- Um brinde aos craques da bola... Melhor, a todos os ídolos deste país! – Pestana levantou o copo sujo no ar empesteado pela fumaça do cigarro vagabundo, e concluiu: – Somos geniais e desprezíveis, ao mesmo tempo.

- Porra, Buk! – Nogueira o repreendeu em tom de brincadeira. – Cala tua boca aí e vamos beber, meu, vai. Pelo amor de Deus!

Todos riram, e beberam. Fagner ficou um bom tempo namorando as velhas chuteiras como se tivesse reencontrado o grande amor do passado. Já Stella deu pulos de alegria ao ver o marido chorando com as chuteiras nas mãos; nem toda Maria é chuteira, e nem todo campeão vence.

Por Ricardo Novais