Toque de recolher

Foto de arquivo: AE/Estado.

Noite passada, bebi tanto que mal conseguia reconhecer meu amigo Macedo no meio da balada. Era um bar de rock, mas só eu estava bêbado. Gostava mais quando os roqueiros chapavam o coco ouvindo intermináveis solos de guitarras e bebendo uísque americano, mas essa nova geração ouve a expressão “chapar o coco” e pensa que é fazer chapinha no cabelo... Bando de maricas! Ah! Não torça o nariz, amigo leitor com gostos melódicos... Ora! Então, tornemos à noite.

A noite foi passando rapidamente, embora parecesse eterna; igual visão entorpecente que se tem da janela de avião, em viagens aéreas no início da manhã ou final da tarde, vendo as nuvens infinitas e preguiçosas do paraíso. Torpor do inferno! Contudo, meu caro, nem todo conto segue o ritmo que os leitores desejam, alguns têm as letras grafadas pelas mãos excitadas dos personagens que os escancaram; é o caso do conto desta página. Pois um evento mudou o curso desta viagem noturna: eu briguei com um garçom e com duas mulheres, eram umas groupies que tínhamos pagado uns drinques – isto causou muita irritação no Macedo.

Ora, ora, amigo que me lê, não tire ainda conclusões; deixe-me explicar. Ocorre que o garçom, ainda no meio da noitada, veio-me trazer a conta – muito cara, por sinal – sem que eu a tivesse solicitado; além disto, desconfiei que não tivesse consumido tudo aquilo que me acusava a comanda. Sim, leitor; bati nele. Foi uma briga dos diabos. Macedo e eu, saímos da balada. Sim, está certa, amiga leitora com dons de cartomante; fomos expulsos. Eu, cambaleante; o Macedo, irritado com todo o tumulto que causei, ele olhava-me de canto e cerrava os punhos. Comecei a mijar atrás de um poste filosofando a esmo; logo, concluí do meu mais elevado pensamento filosófico: esta cidade é toda mijada.

- Porra, Henrique! Vamos embora, cara. Vamos logo... – Macedo deu muitos gritos secos, chamando-me. Ele já estava dentro do carro, então tive que despertar de meu transe etílico quase metafísico.

Já, estávamos em um bairro distante. Paramos em frente a um carrinho de cachorro-quente, dez ou quinze quilometros depois de começarmos a rodar asfalto adentro. Era uma hora da manhã, talvez menos. Sentamos em uns bancos de plástico branco, eram uns banquinhos bem vagabundos; o Macedo, entortando todo o banco com o peso, começou a me dar um puta esporro.

- Henrique, você é foda, cara. Por que você xingou as minas lá no bar?

- Ah, cara, eram duas putas velhas... – comecei a me explicar, ele interrompeu com impaciência.

- Você é doido?!

- Eram duas putas, cara... Nem queria mesmo...

- Velho, na boa... Você é imbecil, cretino! Elas iam dar pra gente, seu burro!... – O Macedo estava engasgado comigo, mas ele parecia uma sardinha enlatada sentado naquele banquinho ordinário. – Henrique... Cara... Você é burro, meu! Porra, velho! Burro! Seu burro!

- Meu...

- Putz! Burro! Putz!, meu...

Perdoe-me se o diálogo lhe parece trôpego e entediante, leitor, mas é que tenho que reproduzi-lo; menos por sadismo que pela verossimilhança. Contudo, tenha por certo que cortei boa parte dos soluços em forma de palavras desta conversa; perceba, meu caro, como lhe tenho consideração; fosse outro autor dizia tudo, ou nada.

Sem maiores digressões, conto-lhe que, depois de alguns segundos eternos de debate, manifestei-me com energia, embora aditivada pelo excesso de álcool:

- Macedo, você que é burro, cara!... Sic... É estratégia... A minha estratégia foi... Sic... Cara... Foi uma estratégia, c***!... Entendeu?

- Quê?

- Se não pegássemos nenhuma mina lá dentro, tínhamos as duas coroas de sobra... Sic... Entendeu? Estratégia, cara...

O Macedo nada disse, pareceu-me confuso tentando entender com sinceridade ébria se tudo não havia mesmo passado de um plano, calculado, uma estratégia; e as estratégias nem sempre são bem compreendidas, como bem sabe a dona leitora; mas percebi que poderia ter sido um erro ou, ao menos, ter sido um ato de equívoco fútil; mas e tu, amigo, sabes como se busca a perfeita estratégia?

- É, cara, acho que fiquei meio bêbado; ?... – eu perguntei a ele em tom de retórica, resignado. – Daí não deu certo, cara... E ainda sujei meu tênis novinho... Puta merda! Meu tênis... Ah, mas... Foi mal, Macedo... Desculpa aí, cara...

- Henrique, meu... Seu burro! Ah, velho, vai se f***, vai...

Macedo virou a cara, abriu uma lata de refrigerante e deu uma mordida com raiva no cachorro-quente. Tornei à reflexão ébria, em silêncio. Comecei a olhar para os caras que também tinham parado para se recuperar da balada comendo um dogão naquela barraquinha escura, suja e esquisita, igualmente sentados naqueles banquinhos vagabundos de plástico branco – mas era um bairro todo vagabundo frequentado por todos os vagabundos da cidade; e era um lugar feio, escuro, emporcalhado, até meio sombrio, quase macabro – gente feia como o diabo, pareciam as capivaras que vivem nas margens do Rio Pinheiros. Um deles, de óculos, calçando um tênis diferente do meu, embora também fosse branco; só que o dele era pirata... Cabritão mesmo! Não entendi, esse cara ouviu toda a nossa conversa e ria discretamente. Eu o mandei tomar no c*, o cara não disse nada; era estranhamente discreto, e muito feio e mal vestido com uma camiseta vermelha remetendo a algum grupo balofo de rap da periferia, e aquele tênis branco... Tênis do Paraguai. De repente, amigo leitor, eu resolvi que era tudo culpa do prefeito, governo, presidente, do papa, desta cambada de filhos-da-puta que escolhemos para nos ditar regras e chateações.

- Quer saber? Meu, vou enfiar esta salsicha no rabo do prefeito da porra desta cidade... – esfarelei o cachorro-quente todo, retirei a salsicha do pão a levantando no sereno da madrugada, madruga também recém-chegada da noite. Aquela salsicha mole me parecia a espada da glória em uma batalha.

- Cala a boca, seu veado! – gritou o Macedo.

- Veado é teu pai, Macedo! – eu retruquei; todo mundo que assistia o meu espetáculo pós-balada e pré-ressaca ria alto, eles gargalhavam, divertiam-se a valer; exceto aquele cara feio, o dos óculos e tênis branco, este continuava apenas com um risinho irônico nos cantos da boca.

- Eu comi você, Macedo. Somos um casal agora, cara... – resolvi zoar o meu amigo de balada, e assim continuar realizando a festa dos cachaceiros. – Macedo, eu comi você, cara. Não é, Macedo? Seu veado, corno! Vou comer sua namorada...

Invés de me bater, o Macedo acabou com a minha diversão me dando outra diversão: comprou cerveja pra gente, ele pagou cerveja pra todo mundo. Foi uma algazarra de alegria e saudações, tapas nas costas, juramentos de amizade eterna e o diabo. O Macedo seria um grande cientista político, pensei. Por outro lado, a indiferença do cara de óculos, único a não se manifestar acaloradamente, embora tivesse aceitado sorrindo a cerveja oferecida na faixa, ainda causava-me profunda irritação – “Este filho-da-puta está rindo de mim... E por que ficou escutando a nossa conversa o tempo todo?... E esse tênis? Zé ruela do c***...”, eu me esforçava mentalmente para compreender o porquê do deboche discreto daquele quatro-olhos.

- Esses caras... – sai do transe mental e balbuciei entre soluços, por fim. – É tudo culpa do governo, certo?

Tirei outra vez a salsicha do pão do hot-dog, levantando-a no ar como a espada da glória, e declarei aos quatro ventos e sob a presença da lua escondida atrás da poluição noturna:

- Vou socar no rabo do governo! Vou socar no rabo do prefeito!

Levantei-me, embora estivesse ainda mais alterado, cambaleante, e enfiei a salsicha nas costas do cara de óculos – a minha intenção, leitor, era enfiar na bunda dele, mas eu estava tão bêbado que não consegui. O cara se levantou e me empurrou com violência; eu fui ao chão; e ele perguntou olhando para todos:

- Porra, por que vocês não estão em casa? – em seguida, fez uma citação: - Porra, irmão! Nesta cidade, 'Deus é uma nota de cem'. – Ele jogou os óculos fora, pisando em cima dos aros e vidros, quebrando-os, como se nunca tivesse precisado deles; depois colocou a mão na cintura e, por fim, gritou:

- É toque de recolher, seus vagabundos!

Foram muitos tiros, sinfonia da destruição. Logo pela manhã, à fresca, todos os jornais, sites, blogues, rádio e tevê noticiaram a maior chacina do ano na zona sul.

Por Ricardo Novais

O pedinte

Pintura de Ernest Descals.

Desempregado, músico amador; a vida não estava fácil. Resolvi ir à casa do Juca beber umas cervejas e fumar maconha. Fiquei lá a tarde inteira, nem me dei conta da hora. Onze horas da noite. Noite quase alta. Fui embora, peguei o metrô na estação da Vila Carrão e desci na Sé, para pegar o comboio de ferro da Linha Azul.

Na Liberdade, entrou um cara no vagão. O cheiro era insuportável, maltrapilho; ele não tinha uma perna. A outra perna dele era como se também não tivesse, cheia de feridas, abertas, todas à mostra.

- Me desculpem atrapalhar o sossego de vocês, senhores passageiros... – De cara, o perneta já foi se desculpando, lendo um papelzinho sujo. – Sei que vocês são pais e mães de família, também eu fui igual a vocês... Mas agora estou passando fome, minha gente, com três filhos pequenos para sustentar... – Os lamentos logo viraram petições. – Por favor, alguém pode me ajudar? Um real, minha gente, dez centavos, um bilhete de metrô, que seja. Deus vai dar em dobro, Ele sempre dá tudo em dobro... Um passe para... Ele... Um passe...

Passe? Só se for de macumba, pensei. Pensei, não disse. Ninguém disse nada; o metrô estava vazio, as estações estavam vazias; as almas, ocas. Àquela hora só os homens sem rosto têm coragem de vagar pelos trens noturnos, por vezes, eternos. O cara sem uma das pernas, entranhas à mostra, olhou-me; mas ele também não disse nada. Eu continuei mudo como dormente de trilho, embora houvesse em mim um burburinho zombeteiro; todos os passageiros estavam cegos para a compaixão e escondiam-se pelos cantos de seus próprios corações.

“Estação Paraíso”, soou dos alto-falantes do carro férreo uma voz sexy e mecânica de mulher – nisto, leitor, ajude-me a calcular que esta mulher é misteriosa... Perdoe-me, nada tem que ver esta indagação com o conto; tornemos ao perneta.

O perneta saltou na estação Paraíso, ficou olhando para a mão direita, vazia, a esquerda segurava a trave de sustentação da muleta. E eu fiquei pensando: “Porra, estou tão ferrado como este cara... Só falta agora começar a pedir esmola também...”.

Assim que fechei o portão de minha casa, veio-me a lâmpada mágica da ideia. Corri, tranquei a porta, sentei-me, fiz uma ligação a cobrar:

- Juca, sou eu... Como quem, cara? Ainda está brisado com o cigarrinho das montanhas?

- Ah... Fala aí, meu... Beleza? Ah... – respondeu a voz pastosa do Juca do outro lado da linha.

- Juca, cara, tive uma ideia; ideia fantástica!

No outro dia, bem cedo, já estávamos percorrendo as estações e pedindo esmola no metrô, cada um em uma linha ferroviária da cidade. O bom de ser mendigo é que a maioria das pessoas dá até o que não tem a um necessitado; uns porque querem se redimir de algum pecado cabeludo – esse lance de perdão divino, tipo isto –, então dão esmola para a salvação, salvação própria, no caso; por outro lado, outros ajudam apenas para inflarem o próprio ego, para que todos os passageiros o julguem a criatura de alma mais caridosa da república. Ah, meu amigo leitor e minha amiga leitora, ah se todos fossem tão republicanos!... Que país de mendigos maravilhosos nós seríamos!

Mas nem tudo é um conto de felicidade no país das maravilhas.

O ruim de ser pedinte de trem são os guardas das estações. Três dias depois que comecei no ofício da mendicância, um guarda-vidas, um negrão de uns dois metros de altura, veio correndo no meu encalço, alcançou-me logo. Tentei fugir, em disparada, desequilibrei-me e caí no vão do trilho. Vão da vida e da morte... Uma composição, passando no sentido contrário, atropelou-me.

Que desgraça, leitor! Perdi as duas pernas, na hora. Virei um pedinte de fato, mas não do metrô, que a ideia iludida tem medo do passado. Fui viver na Praça da Sé, lugar tranquilo onde posso fumar meu cigarrinho das montanhas sossegado.

O Juca? Não vejo mais. Deu tudo errado, fracassamos e não somos mais amigos. Então ele foi ganhar a vida lá no Rio de Janeiro, aquela outra cidade do pecado – e não se zangue com este autor, amigo carioca, pois pertencemos às cidades das hecatombes, como Sodoma e Gomorra. O nome do Juca agora é Joana da Cinelândia, virou travesti ou garoto de programa – algo assim, comum no cotidiano dos Zé Pereiras, das bebedeiras e do carnaval. E o resto não importa, não faz mal; de todo modo, eu termino o conto aqui, neste ponto final. E adeus.

Por Ricardo Novais