Equilíbrio

O grande bar, de Alberto Sughi.

Não eram dez horas ainda, mas a noite parecia acabada. Ah!, leitor, uma noite encerrada precocemente é como o amor sem o gozo. A cidade é feita para se apreciar, sair de casa, andar a pé pelo bairro, parar em um bar. Preencher a vida com rostos desconhecidos de todas as cores e idades.

Parei em frente ao bar do Juarez, não entrei. Fiquei a olhar com insegurança as ruas ao redor, cheias de bares apinhados de gente, homens e mulheres desconhecidos fumando nas calçadas, copos tilintando beijados pelas mesmas bocas, bocas transmitindo as mesmas conversas. Não eram dez da noite.

Entrei no bar. Pode dizer-me ambíguo, leitor. Fui direto ao balcão, bebi uma dose e chegou Cristina. Fomos para uma mesa nos fundos do bar, a única que vagou rápido. Em cinco minutos, eu olhava para uma mulher em prantos acusando-me de crápula; não julgue à toa, dona leitora; a coisa pareceu-me triste, a noite terminando precoce...

Há muito tempo, um velho bruxo dizia que existem pessoas que choram pelos espinhos na rosa, mas há outras que sorriem porque entre os espinhos colhem-se as rosas. Possível que o pensamento não seja deste jeito tão rude, mas é que não tenho a elegância daquele bruxo, e também porque a paciência da escrita deste tempo é mais curta do que outrora.

Sim, fui um crápula. Saí do bar. Sozinho. Cristina ficou lá, solitária, bebendo à espera de alguma boa companhia. Andei pelas mesmas ruas entre os mesmos bares apinhados de gente de todas as idades. Entre todos os desencontros, encontrei Cecília na taverna de vinhos. Bebemos, rimos, cantamos; bebemos outra vez... A noite precoce estendeu-se um pouco mais, e mais, até que virou dia.

- O que você está pensando, mocinho?

- Em você!

- É tão simples...

Há coisas que me fascinam demasiadamente. Os sorrisos fracos entre os goles de cerveja e a névoa do cigarro que não se fuma pesam às costas daqueles que se conhecem bem, entretanto, entre aqueles que tenham se visto pela primeira vez há poucos instantes todo momento é único e futuro.

- É tão simples...

Enquanto uma chora, caro leitor e querida leitora, a outra ri; o mundo é perfeito. Seria um tédio só se tudo fosse lágrima, mas também sorriso o tempo todo seria fútil e débil. Não acha? O equilíbrio é a felicidade da vida, em sua variedade humana, entre lamúria e dança, ressaca e impulso, remédio e bolo de cenoura com chocolate.

Por Ricardo Novais