Parágrafos


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Primeiramente, cumpre explicar o título: Parágrafos. Não há explicação possível, leitor ranzinza; digo-lhe apenas que a vida são os parágrafos, uns mais longos e incisivos, outros bem curtos que queimam como se estivessem expostos ao fogo – e por vezes são alegres e agradáveis. Com a licença de usar aqui recurso de bruxo, daqui até o final do último parágrafo do conto, se não tiver outra ideia, vai este título mesmo.

Feita a advertência, exponho o primeiro parágrafo... – Quer dizer, este já é o segundo parágrafo, mas isto não vem ao caso, pois que nenhum leitor deve acreditar no autor e este também não tem muito dom para a aritmética. – Conheci minha esposa em minha própria festa de despedida de solteiro. Eram três da manhã. Vozes ébrias ainda teimavam em cantar pela chácara alugada. Duas mulheres, uma loira escultural com alguns pelos abaixo do nariz e uma ruiva mais devassa do que sexy, fizeram a derradeira confraternização sexual do evento. Corpos caídos pelos cantos davam a dimensão do estado etílico do ambiente, uma visão promíscua. Sem dúvida.

O amor, ah!, o amor, leitor, este magnífico suicídio que a alma comete, e conferindo o nó da corda três vezes antes do enforcamento. Por amor me casei com a prostituta da festa, e por isto vivi tão feliz; até que ocorreu um fato no caminho do amor. Marisa estava doente, um câncer estomacal lhe corroía as entranhas; a desgraça por debaixo dos cabelos loiros escorridos. Doce Marisa, doce esposa. Em seis meses, seu estado de saúde era gravíssimo; cruel estado terminal. Coisas do imponderável.

- É assim mesmo, Julinho... Vida grande, Julinho, é vida de dor... – disse-me Roberta, sorrindo, leve com o seu andar de prostituta no céu.

Roberta não era somente uma ruiva sensual, ela também sabia das coisas. Eu me casaria com aquela mulher... Mas, meu amigo romântico, como sabe, o amor não retorna para ontem, de ontem. Estava com uma esposa à beira da morte e um problema para resolver: transar ou não com Roberta. O que faria você, meu caro leitor? Oh! Espere! Não responda. Esta aí a dona leitora para nos censurar e nos rotular com nomes feios. Risquemos um número de nossa conta.

Desejo aos meus amigos e vizinhos, paz. À Marisa não desejo nada, tenho-lhe é muita gratidão; mulher que sorriu quando eu ri e que continuou sorrindo quando eu chorei.

Após a missa de sétimo dia de Marisa, eu procurei Roberta. Como não sou um autor de polêmicas, confesso que conversamos e transamos.

- Você está bem? – ela perguntou-me.

- Estou, Roberta. – respondi cobrindo-me de ideias nietzschianas  – É muito triste... Você pode imaginar como me sinto, ainda vou chorar muito...

E era a mais absoluta verdade, dona leitora. Chorei muito pela morte prematura de Marisa; escrevo este parágrafo chorando, em prantos.

Mas depois de tanto chorar, escrevo este outro parágrafo sorrindo; pois me lembrei, agora, que no leito de morte Marisa disse-me duas ou três palavras de amor, e, por incrível que pareça, a memória me traz a acusação de que até nos beijamos.

Sabe, meu amigo que me lê, um homem pode dormir por dez milhões de anos que, quando acordar, os dinossauros ainda estarão sob a face da Terra. Porque o amor é assim, sempre regresso... Amor vivo ou morto. Roberta era diferente de Marisa, não sorria quando eu ria – e chorar nem lhe passava pela cabeça. Mandou matar-me em minha sutil aventura boêmia. Olhei tanto para frente e o tiro veio por trás. Roberta vingou Marisa. E eis que o fim de tudo é como o voar de uma borboleta; contudo, como sabe até a leitora apaixonada mais desavisada, nem toda lagarta vinga borboleta.

Por Ricardo Novais