Presente de Natal

Google Imagens.

Cheguei cansado em casa, eram quase sete da noite. Tirei o paletó e esparramei-me no sofá. A casa estava vazia. Depois de sair do trabalho, Marcinha iria pegar a Duda na escola no último dia de aula do ano letivo. Mas a casa ainda estava vazia. Liguei a tevê. Deixei-me passear pela internet teclando à toa por uma hora, talvez mais.

Tinha um embrulho em cima da mesinha de centro, estava aberto, mas não toquei nele. Marcinha chegou com a Duda, as duas vieram me beijar. Marcinha parecia irmã mais velha de Duda, de tão fina e angelical, mas, numa observação mais detalhada, via-se a mulher absoluta e atraente. Duda tinha oito anos incompletos; era belíssima, graciosa, iluminada; era a nossa jovem Maria Eduarda Maia.

Marcinha subiu para ajudar Duda com o banho e outras coisas de meninas, eu fiquei no sofá com a tevê ligada, tomando uma cerveja e navegando na net. O embrulho começou a olhar para mim, eu a olhar para ele. Era época de Natal. Inclinei-me à mesinha e peguei o pacote. Desembrulhei-o. Havia um smartphone novinho dentro, de última geração. Não tinha indicação de presente, do portador, remetente, dono etc. Coloquei-me a pensar muitas coisas. Passou-se bem mais que um quarto de hora, Marcinha anunciou o jantar: pizza e suco de caixinha.

- De quem é aquele celular que está na sala? – perguntei ainda no primeiro pedaço da pizza de bacon.

Não ouve resposta, insisti na pergunta. Duda cortou:

- Papai! Papai! Eu aprendi a nadar hoje...

- Que legal, filha! Parabéns! Papai está orgulhoso de você.

Duda me deu beijos, retribui-os com certo fastio. Abracei-a, passei a mão em seus cabelos finos e castanhos. Marcinha nada me dizia.

- Vamos escovar os dentinhos para ir dormir, Duda... – Falou Marcinha, pegou na mão de Duda e subiram.

Fiquei na sala. Bebi outra cerveja e vieram os pensamentos mais imprevisíveis, não fortuitos e diversos deste mundo. Leitor, que acha? Um smartphone de última geração na mesinha de centro da sala sem que seja eu o comprador e sem que sua mulher diga de quem seja? Estranho enigma! Muito estranho, concorda comigo? Lembrei-me de quando ela chegou com a Duda, do beijo frio que me deu e das poucas palavras ditas; da falta de resposta, do enigma formado. Bebi outra cerveja e subi as escadas a passos arrastados.

Entrei no quarto de dormir. Marcinha estava encostada numa almofada sobre a cama vendo novela, sentei-me em um puff que se afundou, senti-me inseguro, levantei-me. Dei duas voltas no quarto sem dar palavra, por fim, disse algo.

- De quem é isto?  questionei segurando o smartphone na mão direita e cutucando-a com a outra mão.

Ela não respondeu, insisti.

- De quem é, porra? Diga! Quem deu isto pra você?

Como não havia resposta, agarrei-a e gritei. Marcinha começou a chorar, nada dizia. Eu fui ficando louco, fiz um algoritmo zeloso. Marcinha em prantos. Soltei-a. Ela virou o rosto. Um lençol de lágrimas cobriu meus pensamentos: “De quem é esta porcaria de smartphone? Esta mulher está escondendo algo!”.

- Você é um ignorante, Eduardo! – exclamou isto para mim, entre soluços, apresentando-me o cartão de "boas festas" que foi entregue pelos correios junto com a encomenda e onde se lia:

Dudu, querido!
Mando a você este smartphone de presente como prova de que não te esquecerei, jamais.
Um beijo de quem te amará ‘ever’, ‘ever’, ‘ever’;
Feliz Natal e próspero Ano Novo!
De quem soube esperar e o amou, e ainda o ama, com paciência;
Rosa”.

Por Ricardo Novais

Fragmento

Imagem de arquivo.

Um homem negro caiu na calçada. Repentino, apenas caiu e ficou na calçada. Era um final de tarde no centro da cidade. Eu ia atrás, no sentido da estação do metrô; parei por um instante, fui até o corpo agonizante; fiz menção de perguntar algo, não perguntei. Uma senhora me empurrou e disse que devia ser ataque do coração.

- Acho que é morador de rua! – gritou de repente.

Muitos curiosos chegaram e fizeram uma roda envolta do projeto de cadáver. A algazarra tomou conta do espetáculo. Não me julgue à toa, leitor, mas eu permaneci a um canto, calado, relativamente longe do tumulto. Eu achei graça naquilo, mas também fiquei paralisado; a morte estava à minha frente fazendo leito na calçada suja da cidade com a garoa mais fria e impessoal de todo o continente.

- Chamem uma ambulância! – bradou um sujeito metido dentro de um paletó escuro.

- Chamem a defesa civil! Ele deve ser de algum país da África e deve ter ebola! Tá com ebola! – retrucou outro desgraçado vestido com uma camisa branca de camelô, calça jeans de estilo loja de departamentos e um tênis exagerado no visual, possivelmente fabricado na China.

- Ebola nada, deve é tá bêbado ou drogado! – concluiu um par de ancas feminino dentro de um vestido vermelho desbotado.

Nisto, rasgando a multidão, surgiu um vulto gritando:

- Jorge! Jorge! Jorge!

Era um travesti bonachão, alto e gordo. Empurrou a plateia e ajoelhou-se ao lado do cadáver.

- Jorge! Meu! Meu Jorge! Eu te disse para não comer aquela coxinha, meu! Eu fiz para a Kate Morrissey, aquela desgraçada! Jorge, meu! Jorge meu!

Começara a escurecer, as sombras caíram pesadas sob a cidade; olhei no relógio, quanto tempo se passara sem que eu tenha percebido? A polícia chegou no local. Fui embora.

Ricardo Novais

Uma visão

"A visão do mar". Foto de arquivo.

A saudade é a ponta de uma fita durex. Uma fita dando volta em si mesma; adesiva, aderente, grudenta. Perde-se a ponta da saudade para achá-la novamente adesiva, aderente, grudenta. É saudade, leitor. Uma lembrança que circula amassando a rotina, rasgando o papel do compromisso e tornando um pedaço de mensagem do passado em presente, um presente que não se sabe se retornará em futuro.

Como me diz a minha amiga leitora, que a tanto prezo pelo laço de ternura, a fita de durex é uma saudade que cola o amor, a amizade, a admiração, a ponta de uma visão do mar; e que coladas, ponta sobre ponta, emenda dizendo à alma onde se quer voltar. É verdade, amigo que me lê; não me tome por patife. Uma fita de durex é capaz de selar a lembrança de um pai, de uma paixão, de uma música, de uma morte cômica, de uma redação escolar da 7ª. série.

Ter saudade é dar um abraço no passado envolto em um rolo de fita durex adesivo, aderente e grudento. Contudo, nem toda a cola do mundo é capaz de grudar o riso infinito de uma tesoura cortante e gélida.

Por Ricardo Novais

O sorvete seboso

"Gelo humano" - MKT-00.

Tinha um mendigo sentado na calçada. Parei em frente da sorveteria. Não era um dia quente, era um dia agradável. Tinha sol, o vento era frio à sombra e as pessoas andavam esparramadas pela calçada, mas ninguém tropeçava no mendigo. Leitor, não te parece que um mendigo na porta de uma sorveteria estará sempre mergulhado na geleira da cidade? É pergunta retórica; a sério, não te peço resposta. O mendigo me pediu dinheiro. Entrei na sorveteria, pedi um sorvete de baunilha bem vagabundo, tinha uma cobertura gordurosa de chocolate em cima. Parecia sebo. Dei duas ou três lambidas... Tive ânsia de vômito. Fiquei a olhar para dentro do lugar. Lembrei-me de Mariana.

Costumava passear com Mariana pelo bairro no final das tardes de verão. Comíamos chocolate. Passatempo com gosto de beijo... E lá íamos à sorveteria. Tomávamos sorvetes, tudo bem devagarzinho, ríamos das folhas das árvores batendo nas janelas e imitávamos os trejeitos do sorveteiro.

- Quero um sorvete de limão, Alcides! – Mariana pedia com tom de voz alto, quase gritando, por pura chacota.

- DE LIMÃO NÃO TEM!... – respondia exaltado o sorveteiro. – NÃO ENROLEM, CRIANÇAS, ESTOU TRABALHANDO!

Alcides era amigo da família de Mariana, era um sujeito gordinho que vivia com a mão no queixo; ele também gostava de contar histórias usando trocadilhos:

- Nesses dias veio um pinguim aqui. Ele tomou um sorvete e disse que estava com depressão, é que ele tinha que voar para a Bahia. – gargalhava o sorveteiro. – Depois entrou outro pinguim e deu três pulinhos, é que este era o tripulante.

Achávamos graça, Mariana mais do que eu. Ela era alegre, tinha um jeito tão doce... Ah, Mariana! Mariana era linda!

Querida leitora e prezado leitor, é só isto, já terminou o conto; pode ir descansar os olhos da leitura. Sim, minha amiga, acabou a história. Sei que desejava ler romantismo, aventura, uma fábula bonita e sensível; agradeço-te, embora não goste de ver gente metendo o nariz na escrita alheia – aconselho-te a ir para frente de uma página em branco e criar teu próprio mundo (indico usar recurso tradicional, de texto coerente e que tenha um final bem definido). Ao leitor, já não aconselho nada. Confesso que gosto mais da dona leitora; por certo, ela é devota e, ao mesmo tempo, crítica do autor.

Em consideração a esta teimosia coesa da leitora, digo somente que não me casei com Mariana e faz anos que não a vejo. Alcides continua sendo dono da sorveteria do bairro. O mendigo – lembra-se dele, amigo leitor? – o mendigo sentado na calçada desde o início deste conto – pobre diabo! –, em meio ao passeio de pares e pares de pernas cruzando-lhe o leito de seu castelo de gelo, ele havia me olhado bem nos olhos e me pedido dinheiro. Não dei dinheiro, mas o sorvete seboso era para ele. Entreguei o sorvete a ele e reparei que sorriu ao colocá-lo na boca, pareceu não sentir a dor aflitiva de tomar algo muito frio como um gelo seboso, mas é verdade também que observei que ele não tinha dentes.

Por Ricardo Novais

Eleição republicana

"República Federativa do Brasil", charge da revista Illustrada.

Diz a lenda recente que um candidato à cadeira presidencial precisava de votos para vencer uma eleição republicana. Foi aos quatros cantos do país para comprar eleitores, mas as pesquisas de intenção de votos não lhe favorecia como planejado. Até que tinha padrinhos fortes, alguns estrangeiros influentes, outros com envergadura de formadores de opinião, mas nada disto dava jeito, então, resolveu comprar votos em um lugar mais inóspito: o inferno.

Foi ao inferno, falou com o coronel das almas caídas; era o diabo em pessoa. O diabo era o dono de todo aquele território e possuía total jurisdição sobre as almas do povo que lá vivia.

- Ora, ora, ora! Muito bem, senhor candidato; o que queres?

- Como vai o senhor, senhor diabo? Bem, venho por necessidade... Bem, meu amigo... Meu amigo diabo... Vamos negociar votos?

- Votos ou almas?

- Bem, aí vai da campanha política.

- Antecipo que teus concorrentes já estiveram aqui...

- Quero almas!

Em pouco tempo, observadores de todas as partes da república apontavam o favoritismo do candidato, a imprensa geral emitiu apoio e a vontade do povo foi soberana – quase uma carta magna infernal. O leitor, que também é eleitor, conhece a vontade de ferro do povo; é como diz o ditado, “a voz do povo é a voz de Deus”... Bem, nem sempre, como sabe o amigo.

Chegou o dia da eleição. Vitória nas urnas! O candidato foi para o segundo turno. Porém, agora havia a necessidade de muito mais votos. Então, lá foi o candidato novamente ter com o diabo.

- Mais almas? – perguntou o capeta exalando enxofre pelos cantos oblíquos da boca.

- Sim! – exclamou o político suando como um porco infernal. – Quero todas que tiver aí por um bom preço.

- Há de convir que estejam mais caras, agora é decisão...

- Eu pago!

Pagou e deu a própria alma como garantia. Vitória nas urnas!  Elegeu-se no segundo turno.

Ainda no primeiro ano do mandato presidencial, quitou a dívida com o diabo. As almas compradas valeram uma verbinha desviada de uma escola pública aqui, outra acolá; um hospital malfeito aqui, outro hospital sem médico acolá; em algum canto remoto da república, a construção de praças públicas para uma população fantasma ou pontes inacabadas sobre rios secos... Mas ora, amigo leitor-eleitor, não reclame tanto! Contribuir com impostos não garante direito de queixar-se aqui ou reivindicar posição junto ao autor do conto. Aquiete-se também, senhorita leitora! Além de que, amigo patriótico e querida senhorita cívica, para que prestar serviços públicos a um povo desalmado?

O diabo, sempre sorridente e audacioso, como sabe, ampliou seus domínios e ainda comprou carros de luxo, mansões, modelos “capa de revista” e um luxuoso iate infernal para esfriar a cabeça, de vez em quando, em sua marina particular no Lago Paranoá. Já o povo, sempre na mesma: desalmado; sem alma, sem coração, sem glória. Mas nem tudo é perdido nesta vida, como já vem a adivinhar a nossa amiga leitora. Daqui a pouca esperança, já há mesmo outra eleição republicana... E viva a república!


Por Ricardo Novais

O farol

O retrovisor.

Parei no farol. Eram pouco mais de dezenove horas. Estava garoando. Esta cidade combina com garoa, congestionada e mofada.

No farol, aproximou-se um senhor. Ele veio devagar, andava como um moribundo. Pediu-me dinheiro, respondi-o que não tinha. Havia grudada na camisa de flanela amarrotada e puída dele uma etiqueta. Etiqueta de hospital público já descolando por causa da garoa. Julguei ser um paciente do hospital Grajaú.

- Não tenho dinheiro, só estou com cartão. – insisti na mesma política de negação.

O homem continuou com a mão direita erguida, em forma de concha, como se implorasse. Ele também dizia algo, mas era baixo e eu não entendia nada. Por fim, ele fez menção de ir embora mendigar ao veículo de trás, mas antes olhou para dentro do meu carro.

- Uma blusa de frio?

Na hora não tive reação. O homem foi embora. Não julgue à toa, senhor leitor filantropo e dona leitora dos direitos humanos. A caridade é uma questão de surpresa, naturalmente boa; boa só não, boníssima! Desconta-se da minha omissão de bananão o fato de que fiquei perturbado, muito perturbado. Lembrei-me que tinha uma blusa velha no banco de trás do carro e eu estava usando outra que tinha comprado há poucos dias. Peguei a blusa velha e puxei-a para o banco da frente. As gotas da garoa caiam mais forte, era uma chuva de pensamentos. Não consegui ver o homem pelos retrovisores em meio à nevoa da garoa e a penumbra do início da noite.

O farol abriu, continuei muito perturbado. Avancei com o carro, atravessei o cruzamento e segui em frente. Ficaram gotas de garoa e de lágrimas no retrovisor. Poucos metros, instintivamente, eu virei à esquerda na entrada do Grajaú e retornei para o mesmo farol congestionado. A blusa velha no banco da frente.

Não vi o homem.

O farol demorou a abrir, mas, desgraçadamente, abriu. Avancei com o carro, parei em um posto de gasolina e joguei a blusa velha em uma lata de lixo.

Por Ricardo Novais

A república da borboleta que não podia mais voar

"Rua XV de Novembro", pintura de Marco Angeli.

Três ou quatro borboletas batiam as asas frenéticas e contentes a alçar voo pelo céu resplandecente do parque da cidade, numa harmonia descompromissada e deleitosa. Súbito, arrebenta horrendo efeito imponderável. Uma das borboletas, a de tom mais azul e cintilante, pousou por instante gentil num parapeito de prédio comum encantando a dona da varanda. Mas tamanho encanto virou hostilidade. Surpreendida, a borboleta ferida e assustada voou o mais célere que pode de volta ao parque. Lá se reconfortou numa grande e florida árvore, muito esverdeada, e, com o apoio das amigas lepidópteras, sorriu à própria sombra. Entretanto, a borboleta machucada não podia mais voar.

Não sabe como é triste, leitor, a vida de uma borboleta que voar não pode mais. O cancro lhe consumia até tão menor do que os pensamentos férreos, como tenazes ao arcabouço, e do que a imaginação, verve e repentina, de um elegante sobrevoo à esquina da Rua XV de Novembro, flutuando, sorrateira e saborosamente, na ala sul da Praça da República e norte da Praça da Bandeira. Mas fantasiando o abstruso, encarcerava ao mesmo tempo a alma; e cantando solitária e melancólica a poesia do que se perdeu, desejava voltar à perspectiva de pequenina larva. Centenas de sonhos insistiram por pisotear sua vida... E, como o tédio enraizado a tudo ensina, desistiu de tentar debater as asinhas; e foi este também o último solilóquio da cintilante borboleta poeta – tudo revelado pela prosa testemunhal oblíqua de uma asseada garça que ainda vive naquele parque.

- Libertou-se. Pobrezinha! – constatou a garça.

- Toda borboleta tem direito a voar... – concordaram as amigas lepidópteras, surpreendentemente conformadas, num agrupado suspiro de lamento tão resignado como acolhedor.

Por Ricardo Novais
* Texto publicado no livro de contos “Trem noturno”, Bookess, São Paulo.

Majestoso


Cléber era meu melhor amigo. Trabalhávamos juntos em uma empresa de informática. Eu era solteiro, Cléber era casado, casado com Renata. Renata era muito ciumenta. Nada de futebol, chopinho ou churrascos nos finais de semana. Renata tinha medo que Cléber se enrabichasse por alguma “nega”, como ela dizia entre as amigas da vizinhança. Não, leitor, não pense que era um tribufu, ao contrário, era uma mulher muito bonita, porém, como muitos deste século, Renata padecia de baixa autoestima.

- Neto, cola lá na minha casa hoje à tarde para tomarmos umas cervejas, vamos ver o Timão jogar? – Cléber me convidava sempre em dia de clássico Majestoso.

Eu era são-paulino; Cléber, “coringuento”, como ele denominava um torcedor tradicional do Corinthians. Eu sempre ia ver o jogo na casa dele. Renata gostava de mim; fazia salgados, trazia cervejas e sentava abraçada ao lado do marido. Aquilo me irritava, um pouco. Tarde da noite, eu ia embora sempre meio bêbado e atordoado com as conversas de Renata e Cléber.

Um dia, Cléber resolveu ir acompanhar seu time em um torneio fora do país. Ele era torcedor fanático. Renata não foi, pareceu triste. O casamento parecia não ir bem, o ciúme obsessivo dela, aliado à indiferença de Cléber, atormentavam os dois; era perceptível a todo o prédio. Ah, eu ainda não disse, não é mesmo, leitor? Então digo agora. Eu morava no mesmo prédio que o deles, só que no terceiro andar enquanto que eles moravam no oitavo.

Na segunda noite sozinha, Renata me convidou para jantar. Fui. Jantamos, conversamos, gargalhamos, transamos. Não me julgue, implacável dona leitora. Cléber era um bom sujeito, mas amor não se escolhe. Renata amava Cléber. Eu os amava. Quando o Cléber retornou da viagem com toda a torcida de seu time, Renata contou-lhe tudo – a traição, autoria, detalhe e concluiu como “caso aventureiro” – e suplicou o perdão do marido.

- Não! Como pode fazer isto? Não acredito... Logo agora!... Neto? Como ele pode fazer isto comigo? – Cléber chorava como criança, mas dava murros na mesa como um assassino prestes a atacar seu inimigo.

Repentinamente, levantou-se da cadeira do quarto de dormir e saiu correndo, gritando:

- Isto não fica assim! Isto não fica assim! Neto me paga! Ah, não fica assim!

Há coisas, meu amigo e minha amiga, que só se sabe depois. Como isto é um conto, antecipo o que já ocorreu antes de ter ocorrido; até este parágrafo, evidentemente. Agora sei que, depois que o Cléber saiu furioso, batendo porta, esmurrando o elevador, Renata, receando o pior, tentou cessar o choro, tentando acalmar-se, e sopesou que tinha que fazer algo para evitar uma tragédia. Então, foi atrás do marido-corno. O elevador já havia descido. Parou e então ela saiu em desabalada carreira em direção às escadas. Desceu, correndo, tropeçando, engolindo choro, remorso e o desespero de uma morte anunciada há pouco. Sentia-se culpada. Chegou ao andar, terceiro andar, o andar que eu morava. Parou. Andou lentamente pelo corredor. Parou novamente. Estava em frente a meu apartamento.

Cléber discutia comigo:

- Como pode fazer isto, Neto?

- Por vingança, Cléber. Você acha que é fácil? Aguentar você com ela e eu sempre me contentando em esperar? Ah, vá pra...

- Mas logo agora? Se eu fui viajar justamente para dar um tempo, para tomar coragem e contar tudo à Renata? Eu ia me separar dela, seu imbecil! Eu ia me separar dela para ficar com você, seu cretino!

Nisto, Renata entrou no apartamento. Ela escutara tudo atrás da porta, que havia ficado entreaberta.

- Renata? – eu gritei. – Renata, eu te amo!

- Ai, meu Deus! O que é isto? Vocês... Vocês... Vocês... Um casal?

- Perdoe-me, Renata. Eu ia te contar...

- Cala a boca! – ela gritou colocando as mãos sob as orelhas, mas os ouvidos estavam abertos.

- Eu te amo, Renata! – eu exclamei.

- E eu amo você, Neto! – gritou Cléber.

- Bichas! – concluiu Renata e saiu correndo.

Renata saiu correndo, entrou no elevador e fechou a porta. Cléber me segurava. Dei-lhe um murro. Fui atrás de Renata pelas escadas. Toquei a campainha, arrombei a porta. Renata havia pulado da janela do oitavo andar. Eu perdi o chão. Cai no assoalho e chorei. Levantei-me com a polícia me fazendo perguntas e com o síndico dando a última notícia:

- Mas que tragédia nesta família! Dona Renata pulou da janela e... Bem, sabe, doutor Neto, o doutor Cléber... Bem, o doutor Cléber está pendurado pelo cinto da calça em uma pilar de seu apartamento...

Há coisas que não se explicam, senhor leitor e dona leitora. Como um cinto de calça aguenta o peso de um homem e como um homem não aguenta o peso da dor de uma derrota em um clássico do futebol? Há coisas que não se explicam.


Por Ricardo Novais

Pastor João

95 teses do Reverendo Martinho Lutero.
- Não tem que se fazer de coitadinho, não, irmãos! O povo quer homem de coragem, que tenha atitude. Esse negócio de ser humilde... Ih! Não, não, não! Humildade não arrecada, não, irmão! Entendeu como é que é o negócio? Entendeu como é que é? Não pode ser tímido, não tem que ter vergonha de pedir! Se um não dá, outros tantos dão. E assim vai a obra de Deus... Aleluia, irmão! A obra continua... Tem que perguntar pro irmão é na cara, é na cara: ‘Vai contribuir, irmão?’. Se não for, dane-se! Outro vai! Se um irmão não quiser seguir o caminho de Deus, outro seguirá no lugar dele. Entendeu como é que é o negócio? Entendeu como é que é?

Era uma festa fantástica! Na marina, iates e lanchas repletas de comida, mulheres e até uns drinques exóticos. Era a reunião da igreja. Pastor João ensinava com maestria a arte da persuasão para guiar o rebanho. Sem dúvida, um grande guia! O dízimo do povo de fé patrocinava aquela festa e outras tantas, além de viagens ao exterior, carros de luxo, lanchas, iates e até mulheres da moda; sempre com o perdão divino. Errado? Ora, não era errado! Eram almas sendo salvas...

- O povo quer um messias, dê um messias ao povo, mas não tenha vergonha de cobrar pelo serviço. Deus está no coração dos fiéis... Entendeu como é que é o negócio?

- Sim, pastor! – respondíamos gargalhando e, de certa forma, admirando aquele grande homem temente a Deus.

A vida era boa, Deus sempre no caminho e muito, mas muito dinheiro entrando pelo ladrão. Eu era rico, abençoado por Deus, sendo o braço direito, ou esquerdo, isto pouco importava, do pastor João. Minha família era reta, refinada, devota dos bons costumes cristãos. Minha mulher era esposa bonita, doméstica, cordial, discreta, obediente – e, mesmo sem usar maquiagem e roupas extravagantes, era boa para a procriação: deu-me dois filhos que seriam grandes homens, um médico e outro advogado. Tudo que eu tinha a fazer era cuidar das finanças da igreja; pode parecer que não, leitor fiel, mas o trabalho de contar dinheiro miúdo era grande. “Do dinheiro pequeno que se faz a fortuna grande, irmão”, sempre dizia pastor João.

Todos os dias eu saia tarde da igreja, estava cansado e ficando doente. Um dia bem trivial, minha pressão arterial foi às alturas; temi a Deus e supliquei-lhe por perdão. Em seguida, após orar por mais de uma hora ajoelhado com a bíblia na mão, resolvi ir descansar. Fui para casa, surpreendendo minha esposa. Na cama, Solange e pastor João. Nus! Eu tinha um revólver na escrivaninha, mas não podia atirar neles, afinal, eu era um homem de Deus. Saí de casa.

Duas semanas depois, voltei para casa. Não toquei no assunto com Solange. Pastor João me deu um conselho:

- Gilvan, isto não foi nada. Fique quieto! Continue a faturar na obra de Deus.

Assim foi. O leitor cristão pode achar que aceitar a traição era viver em pecado; não era! De cada cinco notas miúdas contadas nos cofres da igreja, duas eram para penitência. Copiando o esquema do próprio pastor João, em três anos, eu já tinha mandado mais dinheiro para um paraíso fiscal na Europa do que o próprio pastor e sua maldita igreja...

Havia chegado a hora!

Convoquei uma revista de grande circulação no país e dei uma entrevista polêmica. Fiquei famoso da noite para o dia. Acusei pastor João de desviar dinheiro da igreja para a Europa, entreguei dossiê elaborado durante os mesmos três anos de desvio da verba e que continham dados de uma conta bancária no exterior em nome de João Carlos de M. Silva. O pastor foi preso.

Tempos depois, cumprindo pena, pastor João escreveu uma biografia onde revelou que fora violentado na cadeia e que era um homem ainda mais temente a Deus. Ao sair da prisão, recuperou a reputação cristã e construiu o maior templo cristão de todo o continente. Não tive mais contato com aquele grande guia de almas. Separei-me da igreja, da mulher, dos filhos e da compra e venda de almas. Depois de retornar da Europa, eu montei uma casa noturna e hoje só compro e vendo mulheres.

Por Ricardo Novais

Mulher misteriosa

Pintura de Luis Antonio Juarez Palomo.

Casei-me com Carolina. A vida era boa; casa grande, térrea, arejada, jardim da zona sul, plano de filhos. Passaram-se seis ou sete meses. O leitor audacioso pode imaginar que a rotina é uma aranha pendurada em algum canto da retina, e assim foi.

Está bem, dona leitora indiscreta, nada passa por ti sem questionamento; admito que o narrado no primeiro parágrafo tenha uma lacuna, uma lacuna perfumada: Mariana. Eis então o segundo parágrafo... Mariana era minha amante mesmo antes de meu casamento; desculpe-me, amiga leitora, mas o perigo de dois amores era, aos meus olhos de tempos atrás, místico e capaz.

Mariana morava sozinha em um apartamento pequeno na zona sul. Trabalhávamos juntos, embora em departamento diverso. Encontrávamos todos os dias, fosse por negócios ou por instinto sexual, neste caso, poderia ser em algum elevador do acaso. Eventualmente, passávamos as noites juntos em um sequestro consentido. Carolina teimava em acreditar em desculpas vazias, até que ocorreu um fato imponderável...

Uma mulher misteriosa, sem rosto, sem citação, sem origem e destino surgiu de maneira atrevida. O atrevimento de uma relação de assédio é a pólvora da bomba que não explode. Uma rede social vulgar, mensagens privadas, instantâneas, a inexplicável troca de telefonemas. Foram dois ou três telefonemas; voz sensual, baixa, porém, audível, firme e mesmo assim atraente. Ocorreu um encontro.

 - Rua do Arcano, n° 174, apartamento 39; esteja lá às 16h09min horas!

- Sim... É... Ei, mas por que às 16h09min?

- Esteja lá! Sabe onde é?

- Sim.

- Até. Beijo.

- Até.

Sabe, amigo leitor que designa a vida aos mistérios sem resposta, um encontro às escuras é uma coisa muito atormentadora. E a teimosia de horário cravado era familiar, embora me pareça que toda mulher goste de caprichos... Carolina mesmo sempre insistia nisto de horários cravados... Enfim. Cheguei dez minutos, ou menos, antes das 16h; prédio sem porteiro, interfonei, a mesma voz misteriosa atendeu e mandou-me subir. Subi. Três andares, não havia elevador. Subi devagar por uma escada larga, segurando firme no corrimão de madeira sob a superfície de mármore. Tudo era silêncio. O rol vazio, todas as portas fechadas, poucos móveis; três lances de escadas depois, n° 39 na porta. Olhei no relógio de pulso, 16h07min. Pendurada na porta, uma venda e um bilhete: “Coloque a venda nos olhos”. Hesitei, olhei novamente para o relógio: 16h11min. Estava excitado. Sorri. Coloquei a venda nos olhos, mas deixei-a meio frouxa. A porta abriu.

- Boa noite, garotão! – disse a voz forçando um tom sexy; em seguida, virou-me e apertou com força a venda sob meus olhos.

Breu, sentia-me bem. A mulher me tocava, falava pouco e baixo, mas gemia nos meus ouvidos. Foi me despindo, deitou-me em um colchão grande alto sob o piso. Um perfume sublime!

- Quem é você? – perguntei.

- Sou a mulher de seus sonhos.

- Estou gostando muito deste jogo... – Confessei.

- O jogo apenas começou, meu bem!

Eu disse o quanto aquilo me excitava, o quanto era diferente e surpreendente. Percebi, no entanto, que tinha falado muito, sem respostas. Eu estava nu, chamei por ela, sem resposta. Tirei a venda. Não tinha ninguém. Assustei-me, olhei no relógio. Quinze para às cinco da tarde. Vesti-me rápido e de qualquer jeito. A porta estava aberta, olhei para todos os lados alcançáveis, ninguém à vista. Não gritei. Desci as escadas, bem devagar, com os sapatos e o paletó na mão direita, segurava com força o corrimão com a outra mão. Luzes acesas. A porta principal estava fechada, mas havia uma porta de vidro aberta na lateral do rol. Saí do prédio. Dia claro ainda. Corri até o carro, sorri mecanicamente da aventura.

Liguei para Carolina, ela não me atendeu. Fui para a casa de Mariana. Tomamos vinho argentino. Transamos, contei a ela o que havia acontecido naquela tarde. Sim, leitor, essas coisas não se contam a outra mulher; aposto que a querida leitora está a dizer-me tolo; desconte das três ou quatro taças de vinho que tomei. Malditos argentinos! Desconte também de meu estilo de vida ocioso, como sabe. Não dava para esconder. Contudo, sopesei que errei, antes tivesse ido direto para casa e me poupado do ridículo de contar aquilo para uma amante tão trivial; um homem sabe ser ridículo... Tanto melhor que não tinha dito à minha esposa, mas, de todo modo, ridículo.

- Você é um galinha! – concluiu Mariana gozando com minha cara.

Nada respondi, sentia-me mal. Fui embora cabisbaixo e, desculpe-me o linguajar, amiga que me lê, fui embora com o rabo entre as pernas. Em casa, sentei-me no sofá, abri uma cerveja, vi um pouco de futebol. Tomei banho, Carolina dormia. Noite tranquila.

No dia seguinte, Mariana perguntou-me sobre a mulher misteriosa. Respondi que eu estava brincando, ela deu de ombros e saiu. Após o meio-dia, recebi uma mensagem pelo aplicativo do celular me intimando:

No mesmo lugar, hoje, às 13h04min!”.

Sentei-me. Não sabia se ia me aventurar naquilo novamente. Sentia-me grotesco. Mariana entrou na sala.

- Ei, vamos almoçar?

- Desculpe, doutora Mariana, preciso sair  respondi-a sorrindo.

Não olhei para trás, peguei as chaves do carro e o paletó e fechei a porta. No elevador, vi que Mariana estava atrás, ela até me deu uma satisfação vaga de que estava indo almoçar no shopping. Na garagem, despedi-me dela, fomos para direções diferentes. Liguei o som do carro e sorri; naquela momento, sorria de tudo; eu estava feliz, sentia-me um grande cara. As mulheres têm um poder inexplicável sob a gente, que o diga a minha amável leitora. Eis o néctar da vida.

Cheguei atrasado, como presumível. Havia se passado bem mais que quatro minutos da uma da tarde. Desta vez, a porta principal estava entreaberta, mesmo assim toquei o interfone.

- Suba! –disse a voz enigmática e lasciva.

Deixei a porta principal destrancada. Apenas entrei, subi as escadas no mesmo procedimento do dia anterior, embora com mais celeridade. Coloquei a venda, a porta se abriu, as mãos macias e quase místicas me puxaram e eu entrei. Nu, perguntei como anteriormente:

- Quem é você?

- Retire a venda!

- Oh, não! Vá falando, nunca conheci uma mulher como você... Mesmo sem vê-la, sem saber como é teu rosto, sem saber quem é você, já posso dizer que estou apaixonado...

Nisto, um baralho se fez na porta. Retirei a venda. Na minha frente, naquele quarto quase sem móveis e com cortinas brancas, as duas mulheres: Carolina e Mariana.

- O que está acontecendo? Ai, Meus Deus! – eu gritei.

Carolina estava de meia-calça preta, de vestido vermelho curto e com um chicote na mão. Ela estava linda. Mariana estava trajada de roupa social, mas igualmente sexy.

- Quem é ela? – perguntou Mariana direcionando um olhar distante para mim.

Não respondi. Ninguém disse nada. Tudo era tenso e nebuloso.

- Diga, seu filho da puta! Responda: Quem é ela?

- É... É Carolina, minha esposa... Carol, esta é Mariana, que trabalha comigo e...

- Não trabalho com você, somos amantes!...  retrucou, furiosa, Mariana.  Ei, mas espera aí, sei que esta vagabunda não é sua esposa; é ela, né? É ela a mulher misteriosa que você encontrou ontem? Diga, Orlando, seu puto, cafajeste!

Eu não tinha palavras, mas Carolina respondeu:

- Sim... Sou a mulher que pregou uma peça neste salafrário...  ela me chicoteava com força.  Mas é verdade, também, que sou a esposa deste homem, um homem desprezível... Agora sei... Seu filho da...

- Mentira! – gritou Mariana de repente.

Fiquei em choque, como  pode imaginar o leitor sob o olhar acusatório de nossa amiga leitora. Eu nada entendia, de fato. Mas agora entendo. Realmente a voz misteriosa daquela mulher que eu estava apaixonado era familiar, era a voz da Carol... Carolina... Minha esposa! Filha da puta! Enganou-me como se engana uma criança com um doce ou um vídeo-game e ainda me deu uma surra com aquele chicote endiabrado.

Repentinamente, as duas começaram a brigar, xingando-se com palavras feias, saíram do quarto para o corredor e Carolina rolou sacada abaixo. Morta. Chamei a polícia. Vieram. dois ou três policiais, depois foram chegando outros. Mariana contou a todos que era minha amante e o cadáver era minha esposa, um policial sopesou que eu era o criminoso. Não retruquei. Fui para a delegacia. Fiquei preso. Chamei advogado. Saí da cadeia. Mesmo respondendo em liberdade, não pude ir ao velório de Carolina. Todos me condenaram. Mariana testemunhou contra mim. Passaram-se alguns meses. Perdi o emprego e os amigos. Estou cumprindo pena.

Por Ricardo Novais

Rolezinho

Cena do filme “Christine - O Carro Assassino (John Carpenter, 1983), baseado na obra de Stephen King.

Eram 20 horas e 04 minutos. Eu estava cansado da faculdade. Curso de engenharia, muito chato. Não disse nada a meus pais, faltei na aula. Liguei para minha namorada, noite agradável para um rolezinho.

- Cami, vamos sair?

- Passa aqui em meia hora – ela gostou da ideia.

Não tinha ninguém na minha casa, saí pela garagem do prédio e o porteiro nem me viu. Carro todo preto, vidros escuros; nenhum curioso consegue ver nada dentro. Dirigi sete quilômetros, passei na casa da Cami às 20 horas e 39 minutos.

Paramos numa lanchonete. Comemos lanches, bebemos umas cervejas. Saímos. Calculei levá-la em um motel bem escondido, lá pela periferia da cidade, para foder a noite inteira. No meio do trânsito, Cami já resolveu ir adiantando os procedimentos. Ela abaixou a cabeça, abriu o zíper da minha calça e começou a me lamber. Liguei o som no talo, usando uma mão para beber uma cerveja gelada e de resto só para me concentrar na cabeça frenética daquela gostosa com os seios à mostra balançando no meu colo. Gozei na cara dela, foi um impacto violento...

Desci no carro fechando o zíper e lançando a long neck vazia bem longe, no meio de um terreno baldio. Cami também desceu do carro, meio atordoada, tinha batido a cabeça no volante, a testa estava sangrando. Olhei para todos os lados, escuridão de dar medo. Breu total. Era uma rua deserta, um bairro afastado que nem tem nome, não tinha viva alma naquele lugar; apenas um corpo jogado, uns cinco ou seis metros, para trás de onde eu tinha estacionado. Manobrei o carro, faróis apontados para a cena. Única luz na treva. Havia pegado o cara em cheio, provavelmente o pára-choque o atravessou acima dos joelhos. Estávamos assustados, Cami e eu. O homem, vestido de terno barato, todo ensanguentado e destroçado, parecia ser um desses crentes, talvez um pastor; uma bíblia de capa preta estava jogada perto do meio fio; ligando as coisas, julguei que a bíblia era dele; pastor filho da puta!

Cami me olhou, iluminada apenas pelos faróis acusatórios do automóvel e por uma lua débil, respirou fundo e disse:

- Renê, me leve pra casa.

- Mas não vamos mais ao motel?

Não fomos. Passamos rapidamente numa farmácia, que era caminho, compramos  uns curativos e a levei para casa. Em seguida, dirigi com o som no talo até meu apartamento, guardei o carro de ré na garagem do prédio – nem sinal do porteiro ou outro funcionário do condomínio; dei uma olhada no capô: amassado, pára-choque quebrado, mas sem maiores avarias.

Minha casa continuava vazia; entrei, tomei banho, comi uns nacos de nuggets que estavam na geladeira; fui para o quarto, dormi bem. No outro dia, era sábado. Mandei lavar o carro, trocar o pára-choque, mas o capô ficou amassado mesmo; pastor filho da puta! No final da tarde, liguei para a Cami. Rolezinho. Pernoitamos no motel da periferia.


Por Ricardo Novais