O farol

O retrovisor.

Parei no farol. Eram pouco mais de dezenove horas. Estava garoando. Esta cidade combina com garoa, congestionada e mofada.

No farol, aproximou-se um senhor. Ele veio devagar, andava como um moribundo. Pediu-me dinheiro, respondi-o que não tinha. Havia grudada na camisa de flanela amarrotada e puída dele uma etiqueta. Etiqueta de hospital público já descolando por causa da garoa. Julguei ser um paciente do hospital Grajaú.

- Não tenho dinheiro, só estou com cartão. – insisti na mesma política de negação.

O homem continuou com a mão direita erguida, em forma de concha, como se implorasse. Ele também dizia algo, mas era baixo e eu não entendia nada. Por fim, ele fez menção de ir embora mendigar ao veículo de trás, mas antes olhou para dentro do meu carro.

- Uma blusa de frio?

Na hora não tive reação. O homem foi embora. Não julgue à toa, senhor leitor filantropo e dona leitora dos direitos humanos. A caridade é uma questão de surpresa, naturalmente boa; boa só não, boníssima! Desconta-se da minha omissão de bananão o fato de que fiquei perturbado, muito perturbado. Lembrei-me que tinha uma blusa velha no banco de trás do carro e eu estava usando outra que tinha comprado há poucos dias. Peguei a blusa velha e puxei-a para o banco da frente. As gotas da garoa caiam mais forte, era uma chuva de pensamentos. Não consegui ver o homem pelos retrovisores em meio à nevoa da garoa e a penumbra do início da noite.

O farol abriu, continuei muito perturbado. Avancei com o carro, atravessei o cruzamento e segui em frente. Ficaram gotas de garoa e de lágrimas no retrovisor. Poucos metros, instintivamente, eu virei à esquerda na entrada do Grajaú e retornei para o mesmo farol congestionado. A blusa velha no banco da frente.

Não vi o homem.

O farol demorou a abrir, mas, desgraçadamente, abriu. Avancei com o carro, parei em um posto de gasolina e joguei a blusa velha em uma lata de lixo.

Por Ricardo Novais