Fragmento

Imagem de arquivo.

Um homem negro caiu na calçada. Repentino, apenas caiu e ficou na calçada. Era um final de tarde no centro da cidade. Eu ia atrás, no sentido da estação do metrô; parei por um instante, fui até o corpo agonizante; fiz menção de perguntar algo, não perguntei. Uma senhora me empurrou e disse que devia ser ataque do coração.

- Acho que é morador de rua! – gritou de repente.

Muitos curiosos chegaram e fizeram uma roda envolta do projeto de cadáver. A algazarra tomou conta do espetáculo. Não me julgue à toa, leitor, mas eu permaneci a um canto, calado, relativamente longe do tumulto. Eu achei graça naquilo, mas também fiquei paralisado; a morte estava à minha frente fazendo leito na calçada suja da cidade com a garoa mais fria e impessoal de todo o continente.

- Chamem uma ambulância! – bradou um sujeito metido dentro de um paletó escuro.

- Chamem a defesa civil! Ele deve ser de algum país da África e deve ter ebola! Tá com ebola! – retrucou outro desgraçado vestido com uma camisa branca de camelô, calça jeans de estilo loja de departamentos e um tênis exagerado no visual, possivelmente fabricado na China.

- Ebola nada, deve é tá bêbado ou drogado! – concluiu um par de ancas feminino dentro de um vestido vermelho desbotado.

Nisto, rasgando a multidão, surgiu um vulto gritando:

- Jorge! Jorge! Jorge!

Era um travesti bonachão, alto e gordo. Empurrou a plateia e ajoelhou-se ao lado do cadáver.

- Jorge! Meu! Meu Jorge! Eu te disse para não comer aquela coxinha, meu! Eu fiz para a Kate Morrissey, aquela desgraçada! Jorge, meu! Jorge meu!

Começara a escurecer, as sombras caíram pesadas sob a cidade; olhei no relógio, quanto tempo se passara sem que eu tenha percebido? A polícia chegou no local. Fui embora.

Ricardo Novais