O farol

O retrovisor.

Parei no farol. Eram pouco mais de dezenove horas. Estava garoando. Esta cidade combina com garoa, congestionada e mofada.

No farol, aproximou-se um senhor. Ele veio devagar, andava como um moribundo. Pediu-me dinheiro, respondi-o que não tinha. Havia grudada na camisa de flanela amarrotada e puída dele uma etiqueta. Etiqueta de hospital público já descolando por causa da garoa. Julguei ser um paciente do hospital Grajaú.

- Não tenho dinheiro, só estou com cartão. – insisti na mesma política de negação.

O homem continuou com a mão direita erguida, em forma de concha, como se implorasse. Ele também dizia algo, mas era baixo e eu não entendia nada. Por fim, ele fez menção de ir embora mendigar ao veículo de trás, mas antes olhou para dentro do meu carro.

- Uma blusa de frio?

Na hora não tive reação. O homem foi embora. Não julgue à toa, senhor leitor filantropo e dona leitora dos direitos humanos. A caridade é uma questão de surpresa, naturalmente boa; boa só não, boníssima! Desconta-se da minha omissão de bananão o fato de que fiquei perturbado, muito perturbado. Lembrei-me que tinha uma blusa velha no banco de trás do carro e eu estava usando outra que tinha comprado há poucos dias. Peguei a blusa velha e puxei-a para o banco da frente. As gotas da garoa caiam mais forte, era uma chuva de pensamentos. Não consegui ver o homem pelos retrovisores em meio à nevoa da garoa e a penumbra do início da noite.

O farol abriu, continuei muito perturbado. Avancei com o carro, atravessei o cruzamento e segui em frente. Ficaram gotas de garoa e de lágrimas no retrovisor. Poucos metros, instintivamente, eu virei à esquerda na entrada do Grajaú e retornei para o mesmo farol congestionado. A blusa velha no banco da frente.

Não vi o homem.

O farol demorou a abrir, mas, desgraçadamente, abriu. Avancei com o carro, parei em um posto de gasolina e joguei a blusa velha em uma lata de lixo.

Por Ricardo Novais

A república da borboleta que não podia mais voar

"Rua XV de Novembro", pintura de Marco Angeli.

Três ou quatro borboletas batiam as asas frenéticas e contentes a alçar voo pelo céu resplandecente do parque da cidade, numa harmonia descompromissada e deleitosa. Súbito, arrebenta horrendo efeito imponderável. Uma das borboletas, a de tom mais azul e cintilante, pousou por instante gentil num parapeito de prédio comum encantando a dona da varanda. Mas tamanho encanto virou hostilidade. Surpreendida, a borboleta ferida e assustada voou o mais célere que pode de volta ao parque. Lá se reconfortou numa grande e florida árvore, muito esverdeada, e, com o apoio das amigas lepidópteras, sorriu à própria sombra. Entretanto, a borboleta machucada não podia mais voar.

Não sabe como é triste, leitor, a vida de uma borboleta que voar não pode mais. O cancro lhe consumia até tão menor do que os pensamentos férreos, como tenazes ao arcabouço, e do que a imaginação, verve e repentina, de um elegante sobrevoo à esquina da Rua XV de Novembro, flutuando, sorrateira e saborosamente, na ala sul da Praça da República e norte da Praça da Bandeira. Mas fantasiando o abstruso, encarcerava ao mesmo tempo a alma; e cantando solitária e melancólica a poesia do que se perdeu, desejava voltar à perspectiva de pequenina larva. Centenas de sonhos insistiram por pisotear sua vida... E, como o tédio enraizado a tudo ensina, desistiu de tentar debater as asinhas; e foi este também o último solilóquio da cintilante borboleta poeta – tudo revelado pela prosa testemunhal oblíqua de uma asseada garça que ainda vive naquele parque.

- Libertou-se. Pobrezinha! – constatou a garça.

- Toda borboleta tem direito a voar... – concordaram as amigas lepidópteras, surpreendentemente conformadas, num agrupado suspiro de lamento tão resignado como acolhedor.

Por Ricardo Novais
* Texto publicado no livro de contos “Trem noturno”, Bookess, São Paulo.

Majestoso


Cléber era meu melhor amigo. Trabalhávamos juntos em uma empresa de informática. Eu era solteiro, Cléber era casado, casado com Renata. Renata era muito ciumenta. Nada de futebol, chopinho ou churrascos nos finais de semana. Renata tinha medo que Cléber se enrabichasse por alguma “nega”, como ela dizia entre as amigas da vizinhança. Não, leitor, não pense que era um tribufu, ao contrário, era uma mulher muito bonita, porém, como muitos deste século, Renata padecia de baixa autoestima.

- Neto, cola lá na minha casa hoje à tarde para tomarmos umas cervejas, vamos ver o Timão jogar? – Cléber me convidava sempre em dia de clássico Majestoso.

Eu era são-paulino; Cléber, “coringuento”, como ele denominava um torcedor tradicional do Corinthians. Eu sempre ia ver o jogo na casa dele. Renata gostava de mim; fazia salgados, trazia cervejas e sentava abraçada ao lado do marido. Aquilo me irritava, um pouco. Tarde da noite, eu ia embora sempre meio bêbado e atordoado com as conversas de Renata e Cléber.

Um dia, Cléber resolveu ir acompanhar seu time em um torneio fora do país. Ele era torcedor fanático. Renata não foi, pareceu triste. O casamento parecia não ir bem, o ciúme obsessivo dela, aliado à indiferença de Cléber, atormentavam os dois; era perceptível a todo o prédio. Ah, eu ainda não disse, não é mesmo, leitor? Então digo agora. Eu morava no mesmo prédio que o deles, só que no terceiro andar enquanto que eles moravam no oitavo.

Na segunda noite sozinha, Renata me convidou para jantar. Fui. Jantamos, conversamos, gargalhamos, transamos. Não me julgue, implacável dona leitora. Cléber era um bom sujeito, mas amor não se escolhe. Renata amava Cléber. Eu os amava. Quando o Cléber retornou da viagem com toda a torcida de seu time, Renata contou-lhe tudo – a traição, autoria, detalhe e concluiu como “caso aventureiro” – e suplicou o perdão do marido.

- Não! Como pode fazer isto? Não acredito... Logo agora!... Neto? Como ele pode fazer isto comigo? – Cléber chorava como criança, mas dava murros na mesa como um assassino prestes a atacar seu inimigo.

Repentinamente, levantou-se da cadeira do quarto de dormir e saiu correndo, gritando:

- Isto não fica assim! Isto não fica assim! Neto me paga! Ah, não fica assim!

Há coisas, meu amigo e minha amiga, que só se sabe depois. Como isto é um conto, antecipo o que já ocorreu antes de ter ocorrido; até este parágrafo, evidentemente. Agora sei que, depois que o Cléber saiu furioso, batendo porta, esmurrando o elevador, Renata, receando o pior, tentou cessar o choro, tentando acalmar-se, e sopesou que tinha que fazer algo para evitar uma tragédia. Então, foi atrás do marido-corno. O elevador já havia descido. Parou e então ela saiu em desabalada carreira em direção às escadas. Desceu, correndo, tropeçando, engolindo choro, remorso e o desespero de uma morte anunciada há pouco. Sentia-se culpada. Chegou ao andar, terceiro andar, o andar que eu morava. Parou. Andou lentamente pelo corredor. Parou novamente. Estava em frente a meu apartamento.

Cléber discutia comigo:

- Como pode fazer isto, Neto?

- Por vingança, Cléber. Você acha que é fácil? Aguentar você com ela e eu sempre me contentando em esperar? Ah, vá pra...

- Mas logo agora? Se eu fui viajar justamente para dar um tempo, para tomar coragem e contar tudo à Renata? Eu ia me separar dela, seu imbecil! Eu ia me separar dela para ficar com você, seu cretino!

Nisto, Renata entrou no apartamento. Ela escutara tudo atrás da porta, que havia ficado entreaberta.

- Renata? – eu gritei. – Renata, eu te amo!

- Ai, meu Deus! O que é isto? Vocês... Vocês... Vocês... Um casal?

- Perdoe-me, Renata. Eu ia te contar...

- Cala a boca! – ela gritou colocando as mãos sob as orelhas, mas os ouvidos estavam abertos.

- Eu te amo, Renata! – eu exclamei.

- E eu amo você, Neto! – gritou Cléber.

- Bichas! – concluiu Renata e saiu correndo.

Renata saiu correndo, entrou no elevador e fechou a porta. Cléber me segurava. Dei-lhe um murro. Fui atrás de Renata pelas escadas. Toquei a campainha, arrombei a porta. Renata havia pulado da janela do oitavo andar. Eu perdi o chão. Cai no assoalho e chorei. Levantei-me com a polícia me fazendo perguntas e com o síndico dando a última notícia:

- Mas que tragédia nesta família! Dona Renata pulou da janela e... Bem, sabe, doutor Neto, o doutor Cléber... Bem, o doutor Cléber está pendurado pelo cinto da calça em uma pilar de seu apartamento...

Há coisas que não se explicam, senhor leitor e dona leitora. Como um cinto de calça aguenta o peso de um homem e como um homem não aguenta o peso da dor de uma derrota em um clássico do futebol? Há coisas que não se explicam.


Por Ricardo Novais

Pastor João

95 teses do Reverendo Martinho Lutero.
- Não tem que se fazer de coitadinho, não, irmãos! O povo quer homem de coragem, que tenha atitude. Esse negócio de ser humilde... Ih! Não, não, não! Humildade não arrecada, não, irmão! Entendeu como é que é o negócio? Entendeu como é que é? Não pode ser tímido, não tem que ter vergonha de pedir! Se um não dá, outros tantos dão. E assim vai a obra de Deus... Aleluia, irmão! A obra continua... Tem que perguntar pro irmão é na cara, é na cara: ‘Vai contribuir, irmão?’. Se não for, dane-se! Outro vai! Se um irmão não quiser seguir o caminho de Deus, outro seguirá no lugar dele. Entendeu como é que é o negócio? Entendeu como é que é?

Era uma festa fantástica! Na marina, iates e lanchas repletas de comida, mulheres e até uns drinques exóticos. Era a reunião da igreja. Pastor João ensinava com maestria a arte da persuasão para guiar o rebanho. Sem dúvida, um grande guia! O dízimo do povo de fé patrocinava aquela festa e outras tantas, além de viagens ao exterior, carros de luxo, lanchas, iates e até mulheres da moda; sempre com o perdão divino. Errado? Ora, não era errado! Eram almas sendo salvas...

- O povo quer um messias, dê um messias ao povo, mas não tenha vergonha de cobrar pelo serviço. Deus está no coração dos fiéis... Entendeu como é que é o negócio?

- Sim, pastor! – respondíamos gargalhando e, de certa forma, admirando aquele grande homem temente a Deus.

A vida era boa, Deus sempre no caminho e muito, mas muito dinheiro entrando pelo ladrão. Eu era rico, abençoado por Deus, sendo o braço direito, ou esquerdo, isto pouco importava, do pastor João. Minha família era reta, refinada, devota dos bons costumes cristãos. Minha mulher era esposa bonita, doméstica, cordial, discreta, obediente – e, mesmo sem usar maquiagem e roupas extravagantes, era boa para a procriação: deu-me dois filhos que seriam grandes homens, um médico e outro advogado. Tudo que eu tinha a fazer era cuidar das finanças da igreja; pode parecer que não, leitor fiel, mas o trabalho de contar dinheiro miúdo era grande. “Do dinheiro pequeno que se faz a fortuna grande, irmão”, sempre dizia pastor João.

Todos os dias eu saia tarde da igreja, estava cansado e ficando doente. Um dia bem trivial, minha pressão arterial foi às alturas; temi a Deus e supliquei-lhe por perdão. Em seguida, após orar por mais de uma hora ajoelhado com a bíblia na mão, resolvi ir descansar. Fui para casa, surpreendendo minha esposa. Na cama, Solange e pastor João. Nus! Eu tinha um revólver na escrivaninha, mas não podia atirar neles, afinal, eu era um homem de Deus. Saí de casa.

Duas semanas depois, voltei para casa. Não toquei no assunto com Solange. Pastor João me deu um conselho:

- Gilvan, isto não foi nada. Fique quieto! Continue a faturar na obra de Deus.

Assim foi. O leitor cristão pode achar que aceitar a traição era viver em pecado; não era! De cada cinco notas miúdas contadas nos cofres da igreja, duas eram para penitência. Copiando o esquema do próprio pastor João, em três anos, eu já tinha mandado mais dinheiro para um paraíso fiscal na Europa do que o próprio pastor e sua maldita igreja...

Havia chegado a hora!

Convoquei uma revista de grande circulação no país e dei uma entrevista polêmica. Fiquei famoso da noite para o dia. Acusei pastor João de desviar dinheiro da igreja para a Europa, entreguei dossiê elaborado durante os mesmos três anos de desvio da verba e que continham dados de uma conta bancária no exterior em nome de João Carlos de M. Silva. O pastor foi preso.

Tempos depois, cumprindo pena, pastor João escreveu uma biografia onde revelou que fora violentado na cadeia e que era um homem ainda mais temente a Deus. Ao sair da prisão, recuperou a reputação cristã e construiu o maior templo cristão de todo o continente. Não tive mais contato com aquele grande guia de almas. Separei-me da igreja, da mulher, dos filhos e da compra e venda de almas. Depois de retornar da Europa, eu montei uma casa noturna e hoje só compro e vendo mulheres.

Por Ricardo Novais