O cego do metrô

"O cego Bartimeu à beira do caminho".

Gente, peço uma ajuda para poder comer. Estou passando por necessidades e sou cego. Quem puder me ajudar... Que Deus o abençoe! Mas quem não puder ajudar, eu agradeço da mesma forma....

Pareceu-me ouvir estas palavras dentro do metrô, mas devido ao horário, ao cansaço dos ouvidos e aos olhos grudados no celular, pode ser que as palavras ditas pelo cego que entrou no vagão não tenham sido exatamente estas; mas, como bem sabe o amigo leitor, nem toda boca diz o que quer e nem todo ouvido escuta o que precisa.

Eram dez e dezessete da noite, acusava o relógio do celular. As estações iam passando junto com os minutos e o cego ia pedindo. Uns davam moedas, outras notas miúdas e a maioria não doava nada para iluminar a vida daquele pobre desgraçado. Eu nada dei por dois motivos: nenhuma luz clareou meu coração e também os meus bolsos estavam vazios.

Em determinado momento, entre uma estação e outra, o cego parou e ficou segurando o balaústre de metal próximo à porta. Um passageiro levantou para ceder-lhe o lugar.

- Sente-se aqui, senhor!

- Não, obrigado! Sou cego, mas não estou aleijado.

O cego, então, continuou segurando-se próximo à porta, uma mão no balaústre e outra a postos sobre uma bengala metálica que trazia consigo para orientá-lo sob os objetos ao redor. Nisto, outro passageiro, a cerca de três ou quatro fileiras à frente, falava alto ao telefone. O ceguinho resmungou algo incompreensível e deu um passo em diagonal. O vagão estava cheio, a bengala encostou à perna de uma mulher; ela reclamou.

- O senhor me desculpe, mas esta sua bengala está me machucando. Sei que precisa dela, mas pode, por favor, apontá-la para outro lado, né?

- Ah, o quê? VAGABUNDA! Vai se foder, VAGABUNDA! Não quer dar dinheiro e ainda fica reclamando? Vai tomar no c...

Não digo aqui todas as palavras que aquele homem disse por uma questão de não vexar a dona leitora, que é moça elegante e refinada. Também não escrevo todo o diálogo com letras em caixa alta para não incomodar aos leitores, pois que este conto para jogar alguma luz às ideias e não para levarmos às trevas. No entanto, caro amigo e queridíssima amiga que me leem, sou obrigado por ofício de autor a contar que aquele homem cego esqueceu-se por completo que entrou naquela composição para que algum filantropo o ajudasse por nobreza e iniciou um tumulto dos diabos. À medida que o metrô locomovia-se, mais irritado e agressivo ficava o cego e seus opositores; sim, ainda não contei, mas conto agora: muitos passageiros jogavam o olhar de julgamento para o cego, incluindo a mulher que reclamou da bengala, o homem que tentou ceder-lhe o assento e o outro que falava alto ao telefone. Eu apenas observava, numa mistura de desconforto pela nova atração atrapalhar a velha distração e também por uma piedade autoprojetora por todos que ali estavam; sim, leitor, pois ter piedade pelo próximo também é uma forma de manter a integridade física e moral.

Quando o metrô parou na quinta estação antes da linha final, cuspiram o cego para fora do vagão. A aflição coletiva se espalhou, o cego prendeu a perna entre o vão e a plataforma. Um homem ameaçou chutá-lo, outro impediu. A mulher que, praticamente, iniciou a briga, gritava chamando os seguranças ferroviários:

- Guarda! Guarda! Ô, guarda filho da puta, corre aqui!

Os guardas vieram devagar, pareciam entediados e sem interesse pelo espetáculo às escuras. Mas chegaram, gritaram e dispersaram parte da pequenina multidão. Os apitos do trem soaram estridentes sinalizando que a locomotiva ia partir em poucos instantes; um passageiro, talvez por caridade ou talvez por chacota, segurava a porta para que esta não se fechasse e o trem partisse abandonando os brigões. Mas a mesma mulher do início da confusão, agora reclamava que o trem não partia e olhava feio para o homem que impedia o fechamento da porta, embora continuasse a condenar o cego. Já o cego, por sua vez, estava imobilizado; verdade que estava imobilizado por vários guardas da estação e que resistia bravamente na tentativa de regressar à escuridão daquele vagão da discórdia. Mas, como toda atração do mundo, seja divertida seja pesarosa, acaba-se, aquela também tinha o seu trecho final; e, aqueles que haviam chutado o cego para fora do trem, agora correriam para retornar a ele e este, com a pressa própria das máquinas, fechou as portas e finalmente partiu.

O conto poderia muito bem acabar aqui, sem mais alarde, mas então eu estaria faltando com a verdade dos fatos; e prezo pelo conhecimento dos que aqui estão acompanhando a história, sou-lhes fiel. Não me agradeça, leitor; como disse há pouco, apenas cumpro com meu ofício de autor transmitindo o vírus do legado de Adão e Eva e também do primeiro micróbio descrente que povoou a Terra.

Eis que aqui, neste parágrafo último, começa outro conto dentro deste conto. Verdade que conto mais enxuto, pois que cabe mesmo neste único parágrafo. De tudo digo apenas que o cego ficou abandonado pelo trem na estação, o trem partiu com seu coração de máquina levando os seus passageiros no restante da viagem, mas não em paz. Começou um julgamento sumário, sem réu presente. Logo, emitiu-se a sentença. Por um lado, rápido porque a pena já havia sido aplicada antes mesmo do julgamento; e também porque os magistrados daquele foro eram muitos e pouco se entendiam, uma vez que a justiça feita foi incapaz de compreender as mágoas do homem que não enxerga, se ele tinha esposa, se tinha algum parente morto ou moléstia grave, sequer ficou-se sabendo se ele tinha filhos e se estes torciam por algum time de futebol ou se havia alguma queixa ao governo. De modo que resumo o acórdão na última frase que ouvi, antes de descer na estação central: “Só porque ele é cego se acha no direito de se fazer de vítima, de ser mal educado? Ora, não! Todo mundo aqui viu a bengalada que aquele filho da puta me deu, né?! Essa gente deve se colocar no lugar dela, se humilde e saber pedir as coisas, né?! Só Deus mesmo!”.


Por Ricardo Novais