A bola que não entrou

 

Outro dia, acho que foi no pós-feriado do dia 15 de Novembro, eu estava vendo pela tevê o jogo Botafogo x Chapecoense. A Chapecoense venceu, em plena Arena da Ilha do Governador, pelo placar de 2 a 0. Eu vi o Cleber Santana jogar demais naquele dia; no primeiro gol, ele colocou a bola, praticamente com as mãos, para o Kempes assinalar. Os dois estão mortos.

Lembro-me que, naquele dia, tive muita saudade do Cleber Santana defendendo o meu Santos; eu gostava dele. Foi um bom jogador!

Alguns da crônica esportiva e da torcida matutam: “E se aquela bola que o Danilo defendeu entrasse? Não teria a tragédia...”. Por certo, matutam errado. A tragédia não é a bola não ter entrado, a tragédia é o imponderável. Não há derrota! Não há derrota nem no jogo que levou a Associação Chapecoense de Futebol à primeira e histórica final internacional, nem na defesa milagrosa do goleiro Danilo e nem na tragédia.

O futebol não é apenas um esporte. O futebol é um reflexo, caricato, da vida. É uma música de Moraes Moreira com saudades do Zico; é a comemoração da vitória de ser campeão depois de ser rebaixado; é um clube do interior de Santa Catarina levando uma cidade inteira aos extremos das emoções, de alegria eufórica à tristeza profunda. Futebol é o imponderável!

Bem faz o Atlético Nacional, de Medelín, em reconhecer a Chapecoense como legítima campeã da Copa Sul-americana. A rivalidade da disputa do jogo ficou no apito final de um voo derradeiro; do que poderia ter sido, mas não foi; do que poderia ser sonhado, mas não será; bola parada, estática, em seus últimos lances como naquela bola que não entrou defendida pelo Danilo. Nem toda bola vinga em gol.


Por Ricardo Novais

Carta ao leitor

Van Gogh - Arquivo BRN.
Leitor, 

Caro amigo, compreendo e concordo com quase tudo que pensaste. Não acredito mesmo no comunismo, entretanto, também não creio que seja um problema político as mazelas sofridas pelos povos, sobretudo os dos mais explorados. Estais certo, por outro lado, o liberalismo econômico é reduzir tudo à superficialidade. Mude-se o regime político, nada adianta. Como diria o velho Machado: "Que vem lá? É um papagaio? Não, é a república". Penso que o viés de nossa desgraça é o próprio ser humano, talvez ainda não esteja devidamente aperfeiçoado - sabe-se lá. Fora de nossos aposentos nos parentamos vaidade, arrogantes que somos, donos de verdades que não temos, ciosos de uma desgraça prudente; eis toda origem de nosso poder calhorda e repugnante. Nisto vale uma única crítica de Saramago.

Com relação à obra de literato, esta não a julgo - creio que só o tempo futuro haverá de fazê-lo. Ainda assim, seria eu doidivano se não respeitasse o escritor; grande romancista, grande contista! Grandessíssimo! Ocorre que não me agrada tal literatura; assim como um Alencar, pelo que consta, já é julgado pelo tempo. Senhora do tempo... A escrita refinada não combina com meus olhos que leem tudo com espírito lascivo e pessimista. Sim, leitor, é uma desgraça isto! Não me julgue também, querida leitora. Algumas almas preferem os estilos que só contam a verdade pela metade, saber tudo as desagradam. Vê, não é minha culpa.

E no caso das religiões... Convicções são convicções, assim como tudo é tudo - ou nada. Eu penso que todas as religiões são boas, desde que não subestimem o controle remoto da televisão. Sabemos que quase todas as ideias proveem de Deus, mas algumas vieram da curva prazerosa do diabo; e Deus e o diabo são os rótulos de tudo, desde as garrafas de vinhos das melhores uvas até as meias-calças das mulheres bonitas e que gostam de viver; Deus e o diabo são os rótulos sagrados dos desavisados, estejam eles vivos ou mortos.

Eu gosto dos rótulos, são divertidos; superficiais, concordo, mas divertidos.


Por Ricardo Novais

Um cortejo

"Golconda", René Magritte.

Morreu-lhe o pai. Era uma manhã bastante comum e, de repente, fez-se extraordinária. Viver é difícil... Era necessário reconhecer o corpo, o corpo do próprio pai. 

- Defunto? - questionou-se.

Lembrou-se que logo de manhãzinha havia tomado café preto na padaria de esquina, com o padrinho, talvez algum irmão, tinha mais alguém presente. Desfez a lembrança do café e desandou à casa das necrópsias. Morreu-lhe o pai.

A hora demorava minutos eternos. Aguardou o tempo para sempre e ainda assim viu faltar alguns minutos; constatou, a vida há sempre de ser curta... Curtíssima!

Leitor, interrompo o conto para uma palavra íntima contigo. Sinceramente, desejo que esteja longe a tua morte, mas já pensou em que músicas quer que toquem em seu velório? Músicas bonitas, naturalmente; réquiens são assombrosos! Digo, confessando-te também sobre a questão, que em meu velório não gostaria de que rezassem a cartilha dos ofícios religiosos; nada de céu ou inferno, menos ainda purgatório que terei que despender recursos para a propina da salvação.

Tornando ao conto e à via dolorosa. De repente, viu-se seguindo, a certa distância, o carro fúnebre que transportava o morto; este rabecão era surpreendentemente branco com prefixos fúnebres das laterais pintados à cor preta.

- Que dor! - afirmou-se.

Era um cortejo quase solitário, embora não estive sozinho. Há uma multidão de homens, homens diferentes; disse certa vez um artista cujo nome não me recordo. O séquito da cidade sendo percorrido por homens diferentes a avistar-se todas as suas luzes débeis das ruas. Ruas e ruas de um asfalto molhado, como de costume, embora mais funéreo, de um acachapante calor no meio daquela geleira humana. A garoa a cair sobre os telhados das casas e sobre as paredes sem rostos dos prédios, com força; primeiro ao crepúsculo e depois ao firmar do dia como um tributo sincero e acolhedor de seu sentimento à abdução súbita.

Anoiteceu novamente. Lembrou-se outra vez da morte. Morte. Viu-se ao espelho, percebeu a própria alma e de algum outro. Escutou a garoa batendo à janela. Nesta cidade a garoa são lembranças que pertencem ao primeiro fio de vento que sopra o trovão infinito. Pois que tudo cabe no além-túmulo, até a vida; cabe também o último alento, o último assopro do juiz, o último gol do artilheiro, o último beijo da mulher amada ou o último gole de cerveja. Será que no outro mundo há cerveja? Não sei. Sei é que, como bem julga o amigo leitor e a amiga dona leitora, também se morre em vida, porque, muitas vezes, a vida inteira cabe dentro de pouca coisa, como um fone de ouvido dentro de um trem a percorrer uma extensão de trilhos eternos.

A vida e a morte, jazem separadas; por fim, lê-se no epitáfio.

Por Ricardo Novais