O depoimento

 Óleo sobre tela de Lucas Granito.

Um amigo perguntou-me a opinião sobre o depoimento que o presidente Lula deu ao juiz Sérgio Moro acerca das investigações da operação Lava-Jato, da polícia federal. Eu até assisti trechos do depoimento pela imprensa e redes sociais, mas aquele circo, incrível e até democrático, não me animou; depois, com muito custo, ainda revolvi ver na íntegra o depoimento devido à suspeita de que edições são feitas com parcialidade de causa, mas não consegui chegar até o final. Muito longo o depoimento.

Eu percebi mesmo foi o lado subjetivo de cada oponente daquela peça, supostamente, jurídica. Sim, eu gosto da tragédia, ao estilo Nelson Rodrigues, do cotidiano da sociedade. Daquele tapa na cara que a rotina humana dá, com o cansaço dogmático, dando porrada com a desfaçatez e a traição, pragmáticas e sintomáticas, capazes de ferir o plano principal, aniquilando o resultado esperado e todas as expectativas, esperanças etc. em pró da obscuridade da vida.

Neste sentido, vejo o juiz Sérgio Moro como um moralista monocrático, para aludir aos termos jurídicos, educado e muito estudioso com uma dedicação extraordinária para a retidão; ele é uma dessas pessoas que têm visão de mundo engessada pelo dualismo entre o bem e o mal. O maniqueísmo dele faz com que seja incapaz de enxergar o motivo de alguém ser mal ou o que torna uma pessoa má, ou ainda o que leva ao acontecimento da maldade; ele apenas julga a maldade aparente, o que parece ser, mas não passa na cabeça dele que pode não ser. Por outro lado, tanta insensibilidade também ofusca a sua percepção de quem é verdadeiramente bom, de saber o que realmente é justo ou compreensível; o seu juízo de valor humano é honesto, porém, limitado à sua educação moralista e dogmática.

O presidente Lula, por sua vez, notoriamente é exímio conhecer da alma humana. Ele tem uma habilidade admirável para superar a escuridão do maniqueísmo do conceito moralista-cristão e refletir no âmago de cada um e descobrir as consequências de seus atos, dos fatos que levaram ao ato e de toda a complexidade das relações humanas, político-sociais e de foro subjetivo. No entanto, desgraçadamente, isto não o torna melhor que o juiz Moro; em realidade, dependendo da óptica e da análise, pode torná-lo pior que o mais perverso moralista. Ora, isto é um exercício de reflexão básico: Se Lula é um ser-humano iluminado, sensível e capaz de distinguir a natureza das pessoas fora do maniqueísmo moralista, não é crível que ele tenha virado as costas para aqueles que ele consegue ouvir, que ele conhece os pensamentos, as angústias, os medos, a assombrosa vida segregada que vivem. Lula é um sujeito que dispende força para subjugar a própria sensibilidade em troca da própria vaidade, ele preferiu vender sua extraordinária aura iluminada, a benignidade nata nele, em troca de um enorme espelho emoldurado que reflita na sala de estar da casa grande a sua imagem e semelhança, mesmo que distorcidas.


Por Ricardo Novais