Tijolo baiano

Lorenzato.

Uma garoinha fina caía gélida sobre os telhados desiguais e aleatórios do bairro. A rua, de um asfalto molhado e torto, era íngreme. Aquele bairro de pedreiros, de periferia, tão desassistido em suas construções engenhosas, era monitorado pela cobiça das pálpebras descarnadas.

César chegou em casa e beijou as filhas, a mais velha de três anos e a mais novinha contando alguns meses. Também beijou e abraçou a esposa; e foi à porta de casa tomar cerveja com o amigo Bicudo, um velho colega servente de pedreiro nas obras de alvenaria dos bairros mais elegantes. Os homens da periferia constroem os sonhos dos barões longe da construção de suas próprias casas.

A cerveja barata estocada no muro de uma calçada vulgar, numa esquina sem inspiração da rua íngreme. Entornaram oito garrafas. Depois viraram dois xotes de pinga, pinga feita em indústria cafajeste.

- Bicudo, meu, vou entrar pra casa...

- Se liga, fio!

- Já estou chapado, já, cara... E amanhã vou dar rolê com as meninas no shopping...

- Tá tirando, bicho! Deixa de ser bicha, carai!

Entornaram mais duas ampolas. A hora ia longe, o tempo passa mais rápido na periferia. Cada vinte minutos em um bairro suburbano equivale a uma hora e três vidas de uma circunvizinhança elegante.

De repente, parou um carro na esquina. Desceu um homem e foi para cima do Bicudo. César, que era baiano e leal, interviu a acudir o amigo. Outro homem apareceu e o empurrou, ele se desequilibrou e bateu a cabeça na guia. Caiu inconsciente como uma demolição de casa velha quando a especulação imobiliária quer criar sonhos mais sofisticados.

Não pense o leitor que César estava morto, os homens que nascem na Bahia demoram mais para entrar nas estatísticas; embora as estatísticas teimem em formar nuvens pesadas sobre o céu dos subúrbios. Começou uma confusão. Vizinhos, tão apressados como juízes extrajudiciais, levantaram as orelhas cheias de cera, sopesaram na velocidade de um post do Facebook e correram à briga. César seguia caído, desacordado, entre a calçada áspera de cimento batido e o asfalto molhado; não havia sangue na superfície, mas via-se uma luz branca no meio da escuridão. Era o relógio de César sendo retirado do pulso, depois foi-se o celular e a carteira.

Um magistrado comum de rede social monocrática chegou, analisou o caso, julgou, sentenciou e executou: Pisou na cabeça de César. Pisou com força, com raiva, por certo, com um ódio tão fútil como a corrente prateada que utilizava pendurada no pescoço. Depois o homem pulou sobre a cabeça de César, chutou-lhe a fronte, os olhos, a boca, o estomago, o tórax. Chegou mais gente, todos julgadores monocráticos, embora emitissem aresto em colegiado. Por fim, chamaram a polícia. Veio uma ambulância com a sirene desligada como se já estive em luto. A mãe de César foi avisada do motim. A velha chegou e viu o filho baiano derrubado vomitando sangue, com os olhos inchados, pálpebras arroxeadas. Irrefletido como a mente de seus julgadores. Estado de inconsciência.

No hospital público, na mesma periferia próxima, César deu entrada na UTI. Ficou no hospital por uma semana completa, sem sair da UTI, com um trauma no crânio, tubos por todos os pontos do corpo e uma infecção hospitalar que vingou em uma grave pneumonia.

Era traumatismo craniano, doutor leitor clínico geral e doutora leitora cirurgiã; e lesões por várias partes do corpo e coágulos internos sérios. O estado clínico era grave, gravíssimo! César morreu.

No IML, não havia dinheiro para o funeral. Sabe-se que a construção civil remunera o operário com meia colher de pedreiro. Um amigo da família, ligado à política e mestre de obras, tirou a memória do pedreiro baiano da indigência; pagou-lhe um enterro digno e cinco coroas de flores.

O pai de César, que havia transmitido o gene da profissão ao filho, retornou de viagem, às pressas, da Bahia. A família do julgador monocrático, jovem suspeito principal de ser o executor no motim, embora houvesse uma dezena de carrascos da pena capital, veio ter com o pai de César.

    A bem da verdade dos fatos narrados neste conto, qual narro à boca pequena em confiança a quem está lendo estas parcas linhas e não tem rompantes de fofoqueiro, quem veio ter com o pai de César foi a mãe do jovem carrasco, que era órfão de parte paterna. A mulher, que também migrou, em meados dos anos oitenta, para o sudeste do país vindo do sertão próximo à Bahia, como se quisesse se passar por um desses atores  da sociedade que se julgam pessoas de bem, tão em voga nos posts das redes sociais, fingiu reconhecer o terrível erro de um filho bem-criado e então prometeu compensar dando fraldas de presente às filhas do morto – uma espécie de "Criança Esperança das Estatísticas" que a Globo, por certo, contabilizaria somente como uma chamada telefônica para o Renato Aragão.

       O velho baiano, mesmo em luto, ouviu a mulher e nada disse; ele teve raiva, mas uma raiva contemplativa. Chorou sozinho. Chorou pela vida, pela morte; chorou pelo imponderável. Depois chorou pelas duas netas que cresceriam sem figura de um pai. Poder-se-ia dizer até que o choro doído daquele pobre retirante estava sendo representado, como numa alegoria de Sócrates e Glauco, pela garoa fina e gélida que se via cair na cidade. "Maldita cidade!", pensou, mas também não disse.

No jazido do defunto, lia-se na lápide: Bom filho, pai de família e um irmão leal. César era o segundo de cinco na linhagem da família de pedreiros refugiados nordestinos, aqueles pobres-diabos que sobrevivem tijolo por tijolo e têm a esperança da mesma cor dos tijolos baianos que usam nas construções das grandes cidades.

Restou ao velho pai contar com os dedos amarelos as folhas do boletim de ocorrência policial, as promessas de investigação do crime e as derrotas de uma vida que vale menos que um saco de cimento rasgado; contou ainda duas fotos das netas dentro da carteira de trabalho do filho morto, uma mulher desamparada, duas camisas surradas do Corinthians e cinco reais de um bilhete de coletivo.


Por Ricardo Novais