Ressaca, Castigo do Prazer

Ontem eu bebi demais. Uísque, cerveja, vodka, caipirinha... Uísque de novo, cerveja de novo. Mas agora a minha cabeça é uma turbina de avião supersônico; já meu estômago é o próprio mar revolto abrindo vaga nas areias da praia.

A ressaca, como diz Veríssimo, é “a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo”. É neste momento que um bêbado jura que nunca mais coloca uma gota de álcool na boca, incluindo bombons de licor e anti-séptico bocal. Os nervos são espetados por uma agulha muito fina, intermitentemente; e percebo como tudo nesta vida tem seus altos e baixos – todos os sons são pavorosamente altos e minha vontade de ver a cara de alguém hoje é incrivelmente baixa.

Agora só poderei tomar absoluta consciência de que sou um mero mortal, ou menos que isso. Também tomei um remédio efervescente; não adiantou muito. No copo com água, este analgésico tem a aparência de que vai derreter as minhas últimas células do cérebro e dissolver os tecidos do estômago que o álcool ainda não corroeu.

Não entendo os milhares de estudos e pesquisas que fazem por aí sobre os problemas do alcoolismo, as análises maléficas de tudo que o álcool acarreta à vida de um boêmio, e como ninguém se interessa em curar o problema da ressaca. Tivessem inventado uma única pílula que tirasse este gosto de cabo de guarda-chuva da boca, que tirasse esta sensibilidade vampiresca à luz que sinto agora, ou que devolvesse ao meu cérebro a sensação de ser humano com saúde, a esta altura da crônica, eu não estaria aqui com o mundo inteiro sobre a cabeça escrevendo neste blog para umas poucas pessoas que, talvez iguais a mim, sofram com o dia posterior de uma grande farra de sábado.

E mais: Quantas pessoas seriam mais produtivas se, depois daquele fim de semana puxado de bebedeira ou daquele chopinho depois do expediente às quartas-feiras, tivessem inventado a cura para a ressaca? Caro leitor que aí esta a ler este texto borracho, com a companhia de minha amiga internauta que tanto me alegra nestas navegações; já me vou indo, as palavras imprudentes já me vão terminado. É que as dores à cabeça não me deixam, e a ânsia no estômago é tormentosa. Vou deitar um pouco, apagar a luz e levantar após o jantar.

Saúde leitores!


Por Ricardo Novais