Carta ao leitor

Van Gogh - Arquivo BRN.
Leitor, 

Caro amigo, compreendo e concordo com quase tudo que pensaste. Não acredito mesmo no comunismo, entretanto, também não creio que seja um problema político as mazelas sofridas pelos povos, sobretudo os dos mais explorados. Estais certo, por outro lado, o liberalismo econômico é reduzir tudo à superficialidade. Mude-se o regime político, nada adianta. Como diria o velho Machado: "Que vem lá? É um papagaio? Não, é a república". Penso que o viés de nossa desgraça é o próprio ser humano, talvez ainda não esteja devidamente aperfeiçoado - sabe-se lá. Fora de nossos aposentos nos parentamos vaidade, arrogantes que somos, donos de verdades que não temos, ciosos de uma desgraça prudente; eis toda origem de nosso poder calhorda e repugnante. Nisto vale uma única crítica de Saramago.

Com relação à obra de literato, esta não a julgo - creio que só o tempo futuro haverá de fazê-lo. Ainda assim, seria eu doidivano se não respeitasse o escritor; grande romancista, grande contista! Grandessíssimo! Ocorre que não me agrada tal literatura; assim como um Alencar, pelo que consta, já é julgado pelo tempo. Senhora do tempo... A escrita refinada não combina com meus olhos que leem tudo com espírito lascivo e pessimista. Sim, leitor, é uma desgraça isto! Não me julgue também, querida leitora. Algumas almas preferem os estilos que só contam a verdade pela metade, saber tudo as desagradam. Vê, não é minha culpa.

E no caso das religiões... Convicções são convicções, assim como tudo é tudo - ou nada. Eu penso que todas as religiões são boas, desde que não subestimem o controle remoto da televisão. Sabemos que quase todas as ideias provem de Deus, mas algumas vieram da curva prazerosa do diabo; e Deus e o diabo são os rótulos de tudo, desde as garrafas de vinhos das melhores uvas até as meias-calças das mulheres bonitas e que gostam de viver; Deus e o diabo são os rótulos sagrados dos desavisados, estejam eles vivos ou mortos.

Eu gosto dos rótulos, são divertidos; superficiais, concordo, mas divertidos.


Por Ricardo Novais

Um cortejo

"Golconda", René Magritte.

Morreu-lhe o pai. Era uma manhã bastante comum e, de repente, fez-se extraordinária. Viver é difícil... Era necessário reconhecer o corpo, o corpo do próprio pai. 

- Defunto? - questionou-se.

Lembrou-se que logo de manhãzinha havia tomado café preto na padaria de esquina, com o padrinho, talvez algum irmão, tinha mais alguém presente. Desfez a lembrança do café e desandou à casa das necrópsias. Morreu-lhe o pai.

A hora demorava minutos eternos. Aguardou o tempo para sempre e ainda assim viu faltar alguns minutos; constatou, a vida há sempre de ser curta... Curtíssima!

Leitor, interrompo o conto para uma palavra íntima contigo. Sinceramente, desejo que esteja longe a tua morte, mas já pensou em que músicas quer que toquem em seu velório? Músicas bonitas, naturalmente; réquiens são assombrosos! Digo, confessando-te também sobre a questão, que em meu velório não gostaria de que rezassem a cartilha dos ofícios religiosos; nada de céu ou inferno, menos ainda purgatório que terei que despender recursos para a propina da salvação.

Tornando ao conto e à via dolorosa. De repente, viu-se seguindo, a certa distância, o carro fúnebre que transportava o morto; este rabecão era surpreendentemente branco com prefixos fúnebres das laterais pintados à cor preta.

- Que dor! - afirmou-se.

Era um cortejo quase solitário, embora não estive sozinho. Há uma multidão de homens, homens diferentes; disse certa vez um artista cujo nome não me recordo. O séquito da cidade sendo percorrido por homens diferentes a avistar-se todas as suas luzes débeis das ruas. Ruas e ruas de um asfalto molhado, como de costume, embora mais funéreo, de um acachapante calor no meio daquela geleira humana. A garoa a cair sobre os telhados das casas e sobre as paredes sem rostos dos prédios, com força; primeiro ao crepúsculo e depois ao firmar do dia como um tributo sincero e acolhedor de seu sentimento à abdução súbita.

Anoiteceu novamente. Lembrou-se outra vez da morte. Morte. Viu-se ao espelho, percebeu a própria alma e de algum outro. Escutou a garoa batendo à janela. Nesta cidade a garoa são lembranças que pertencem ao primeiro fio de vento que sopra o trovão infinito. Pois que tudo cabe no além-túmulo, até a vida; cabe também o último alento, o último assopro do juiz, o último gol do artilheiro, o último beijo da mulher amada ou o último gole de cerveja. Será que no outro mundo há cerveja? Não sei. Sei é que, como bem julga o amigo leitor e a amiga dona leitora, também se morre em vida, porque, muitas vezes, a vida inteira cabe dentro de pouca coisa, como um fone de ouvido dentro de um trem a percorrer uma extensão de trilhos eternos.

A vida e a morte, jazem separadas; por fim, lê-se no epitáfio.

Por Ricardo Novais

Panelaço

Google Imagens.

Houve um pronunciamento do governo em rede nacional de rádio e tevê. Um barulho ensurdecedor de panelas sendo batidas ou em outras panelas ou em tampas de panelas diversas e que vinha das janelas vizinhas, irritava-me; era um momento de escrita. O leitor, que também é autor, bem sabe o quão o barulho agudo, uniforme ou disforme, pode prejudicar a saúde de um texto; de modo que me perdoe quem lê estas linhas mal acabadas, foram escritas sob a pressão dos adversários do governo.

Por certo que cada panela tem a sua tampa e esta se encaixa bem à comida que se cozinha ou que se estraga, apodrecendo pelo excesso de água, feijão ou macarrão gourmet; certo também que existem panelas mais profundas que outras. Aquelas que batiam, pelo som que ecoava delas, poder-se-ia dizer rasas, de pouca superfície e de muito teflon.

- Dita, vai à janela, por favor, e veja o que está acontecendo?

- Estão protestando, amor. Culpa do governo! Culpa dos desmandos do PT!

Não pude escrever. Fiquei escutando o barulho. Não liguei a tevê. O que o governo dizia não me interessava, eu precisava escrever. Então resolvi deitar no sofá e esperar. O tédio da escrita não é menor que o tédio da panela vazia; sim, pois percebi depois que nos bairros onde as panelas ficam cheias a custo não há o direito republicano do panelaço.

Esperei pouco, verdade. As panelas de pressão iam se cansando rápido, são pesadas e não foram feitas para fazerem macarrão gourmet. De modo que o barulho cessou-se, quase, completamente; não fosse o barulho de uma única panela vindo de um lugar incerto.

- E esse maluco que não deixa as pessoas em paz. Vou matar este cara! Que horas são agora, Dita?

- Nove e trinta e três, José Carlos.

Passara das nove e meia da noite e o barulho singular persistia. Percebi vozes no corredor. Não saí do apartamento, coloquei a cabeça para fora da janela e constatei todas as bocas famintas sem as panelas, curiosas e irritadas, perguntando-se de onde vinha o barulho. Resolvi abrir a porta de casa. Afinal, também é papel de autor a investigação, como certa vez me ensinou a dona leitora, que nos acompanha em silêncio.

- O que está acontecendo? – questionei a uma senhora magra e com nariz esbranquiçado por algum pó de maquiagem.

- Ora, não sabemos. Tem algum morador batendo uma panela a mais de uma hora, sem parar; e já é tarde... As crianças não dormem... Meu marido dá aula cedo na universidade... Precisamos descansar para poder trabalhar e produzir... Vou matar este cara! Que disparate!... Mas também, esse país de merda merece esses políticos...

- Não me parece que seja neste andar, acredito que seja no andar de cima. Vou matar este cara! – conjecturou um sujeito gordinho, parecido com uma porpetinha que se vende em boteco, e cortando a fala da velha de nariz branco.

- Culpa do PT! – comungaram os dois e os demais. Eu nada disse, apenas cruzei os braços e olhei para o elevador fingindo procurar alguma pista. Calma, senhor leitor politizado, não me tome por mau cidadão e eleitor de cabresto. Sou como o cajado descrito no Salmo 23, prezo pela segurança própria e do rebanho.

Dito isto, explico que os moradores incomodados começaram a ter hipóteses diversas que iam se alastrando por todos os andares; então descemos, todos, Dita veio junto, até o térreo. Lá havia já uma pequena multidão, olhavam para cima tentando identificar de onde vinha o pandemônio. Sim, senhor leitor mais atento ao dilema político, tem razão: de repente, os mesmos que antes protestavam batendo panelas contra o governo começaram a pedir ordem contra o paneleiro solitário que perturbava a paz e a boa convivência da comunidade do prédio.

O síndico, pressionado pelos moradores, saiu acompanhado de dois porteiros e mais cinco ou seis, talvez sete moradores; deu ordem expressa para que os demais aguardassem no térreo. Um quarto de hora se passou, uma ambulância estacionou na frente do edifício central.

Entraram os paramédicos do SAMU, embarcaram no elevador social correndo e carregando uma maca vazia e objetos salutares. Alguns minutos eternos depois se percebiam os passos descendo a escada. Consegui ver apenas a maca, passando célere pelo saguão, carregando um homem ensanguentado; logo atrás algo surreal: um sagui acompanhando a maca e batendo uma frigideira em uma caçarola, andava devagar e sem que ninguém o impedisse. Incrivelmente, o pequeno macaco entrou na ambulância. A sirene foi sumindo, sumindo no desafinado burburinho da cidade, e levando, julgo que ao hospital ou ao necrotério, o homem ferido ou morto e o macaquinho com suas panelas, quais não eram mais possíveis de se ouvir se ainda batiam, visto que na lei da vida das panelas o barulho urgente e imperativo as sufoca.

E foi só isto, nada mais. A pequena multidão dispersou-se rápido. Reinou no condomínio uma sepulcral ordem e a paz. Tornei a escrever naquela noite.


Por Ricardo Novais

O cego do metrô

"O cego Bartimeu à beira do caminho".

Gente, peço uma ajuda para poder comer. Estou passando por necessidades e sou cego. Quem puder me ajudar... Que Deus o abençoe! Mas quem não puder ajudar, eu agradeço da mesma forma....

Pareceu-me ouvir estas palavras dentro do metrô, mas devido ao horário, ao cansaço dos ouvidos e aos olhos grudados no celular, pode ser que as palavras ditas pelo cego que entrou no vagão não tenham sido exatamente estas; mas, como bem sabe o amigo leitor, nem toda boca diz o que quer e nem todo ouvido escuta o que precisa.

Eram dez e dezessete da noite, acusava o relógio do celular. As estações iam passando junto com os minutos e o cego ia pedindo. Uns davam moedas, outras notas miúdas e a maioria não doava nada para iluminar a vida daquele pobre desgraçado. Eu nada dei por dois motivos: nenhuma luz clareou meu coração e também os meus bolsos estavam vazios.

Em determinado momento, entre uma estação e outra, o cego parou e ficou segurando o balaústre de metal próximo à porta. Um passageiro levantou para ceder-lhe o lugar.

- Sente-se aqui, senhor!

- Não, obrigado! Sou cego, mas não estou aleijado.

O cego, então, continuou segurando-se próximo à porta, uma mão no balaústre e outra a postos sobre uma bengala metálica que trazia consigo para orientá-lo sob os objetos ao redor. Nisto, outro passageiro, a cerca de três ou quatro fileiras à frente, falava alto ao telefone. O ceguinho resmungou algo incompreensível e deu um passo em diagonal. O vagão estava cheio, a bengala encostou à perna de uma mulher; ela reclamou.

- O senhor me desculpe, mas esta sua bengala está me machucando. Sei que precisa dela, mas pode, por favor, apontá-la para outro lado, né?

- Ah, o quê? VAGABUNDA! Vai se foder, VAGABUNDA! Não quer dar dinheiro e ainda fica reclamando? Vai tomar no c...

Não digo aqui todas as palavras que aquele homem disse por uma questão de não vexar a dona leitora, que é moça elegante e refinada. Também não escrevo todo o diálogo com letras em caixa alta para não incomodar aos leitores, pois que este conto para jogar alguma luz às ideias e não para levarmos às trevas. No entanto, caro amigo e queridíssima amiga que me leem, sou obrigado por ofício de autor a contar que aquele homem cego esqueceu-se por completo que entrou naquela composição para que algum filantropo o ajudasse por nobreza e iniciou um tumulto dos diabos. À medida que o metrô locomovia-se, mais irritado e agressivo ficava o cego e seus opositores; sim, ainda não contei, mas conto agora: muitos passageiros jogavam o olhar de julgamento para o cego, incluindo a mulher que reclamou da bengala, o homem que tentou ceder-lhe o assento e o outro que falava alto ao telefone. Eu apenas observava, numa mistura de desconforto pela nova atração atrapalhar a velha distração e também por uma piedade autoprojetora por todos que ali estavam; sim, leitor, pois ter piedade pelo próximo também é uma forma de manter a integridade física e moral.

Quando o metrô parou na quinta estação antes da linha final, cuspiram o cego para fora do vagão. A aflição coletiva se espalhou, o cego prendeu a perna entre o vão e a plataforma. Um homem ameaçou chutá-lo, outro impediu. A mulher que, praticamente, iniciou a briga, gritava chamando os seguranças ferroviários:

- Guarda! Guarda! Ô, guarda filho da puta, corre aqui!

Os guardas vieram devagar, pareciam entediados e sem interesse pelo espetáculo às escuras. Mas chegaram, gritaram e dispersaram parte da pequenina multidão. Os apitos do trem soaram estridentes sinalizando que a locomotiva ia partir em poucos instantes; um passageiro, talvez por caridade ou talvez por chacota, segurava a porta para que esta não se fechasse e o trem partisse abandonando os brigões. Mas a mesma mulher do início da confusão, agora reclamava que o trem não partia e olhava feio para o homem que impedia o fechamento da porta, embora continuasse a condenar o cego. Já o cego, por sua vez, estava imobilizado; verdade que estava imobilizado por vários guardas da estação e que resistia bravamente na tentativa de regressar à escuridão daquele vagão da discórdia. Mas, como toda atração do mundo, seja divertida seja pesarosa, acaba-se, aquela também tinha o seu trecho final; e, aqueles que haviam chutado o cego para fora do trem, agora correriam para retornar a ele e este, com a pressa própria das máquinas, fechou as portas e finalmente partiu.

O conto poderia muito bem acabar aqui, sem mais alarde, mas então eu estaria faltando com a verdade dos fatos; e prezo pelo conhecimento dos que aqui estão acompanhando a história, sou-lhes fiel. Não me agradeça, leitor; como disse há pouco, apenas cumpro com meu ofício de autor transmitindo o vírus do legado de Adão e Eva e também do primeiro micróbio descrente que povoou a Terra.

Eis que aqui, neste parágrafo último, começa outro conto dentro deste conto. Verdade que conto mais enxuto, pois que cabe mesmo neste único parágrafo. De tudo digo apenas que o cego ficou abandonado pelo trem na estação, o trem partiu com seu coração de máquina levando os seus passageiros no restante da viagem, mas não em paz. Começou um julgamento sumário, sem réu presente. Logo, emitiu-se a sentença. Por um lado, rápido porque a pena já havia sido aplicada antes mesmo do julgamento; e também porque os magistrados daquele foro eram muitos e pouco se entendiam, uma vez que a justiça feita foi incapaz de compreender as mágoas do homem que não enxerga, se ele tinha esposa, se tinha algum parente morto ou moléstia grave, sequer ficou-se sabendo se ele tinha filhos e se estes torciam por algum time de futebol ou se havia alguma queixa ao governo. De modo que resumo o acórdão na última frase que ouvi, antes de descer na estação central: “Só porque ele é cego se acha no direito de se fazer de vítima, de ser mal educado? Ora, não! Todo mundo aqui viu a bengalada que aquele filho da puta me deu, né?! Essa gente deve se colocar no lugar dela, se humilde e saber pedir as coisas, né?! Só Deus mesmo!”.


Por Ricardo Novais

Maria Cecília

Ilustração do site: Ovelhas Voadoras.

A dona leitora entende uma discussão entre dois namorados? Há de se entender que o amor são pequenos gestos, e não os grandes como parece insistir o coração acelerado.

Conheci Maria Cecília numa noite de farra, apresentado por amigos em comum. O que deveria durar uma noite, teve a cama compartilhada como um símbolo de acolhimento; como um passarinho que sempre voa de volta para a sua casinha.

Na cozinha, partilhávamos sorrisos, piadas, ideias, passeios, viagens, queijo...

- Corte o queijo para fazermos o macarrão, Augusto? – pedia-a me ela com um olhar oblíquo, às vezes longe, porém, tão agasalhador e conexo.

Eu ficava atrás dela, ela apontava para as prateleiras.

- Pegue aquele pirex, amor, por favor.

A distração de uma rede social da internet, joguinho de celular, futebol na tevê ou de uma visão de entardecer chuvoso não nos irritava, ao contrário, fazíamos disso uma gostosa competição.

- Duvido ficar sem o celular, duvido! – eu desafiava. Ela ria, e devolvia a provocação.

- Eu?! Eu ou você?

- Bom... Nós dois perdemos.

-Te amo, Augusto!

Lá do box embaçado do banheiro ela me chamava. Aclamação química! O vapor da água quente se misturando à fragrância do sabonete comum, ao gozo dos perfumes dela e à respiração amena. Minha Maria Cecília. Minha Cecília. Minha Ceci, de costas. Respiração ficando devagarzinho ofegante. A água temperada caindo sobre nós. Eu mais juntinho a ela, beijando-lhe a nuca, alva, inquieta; tudo num cuidado sexual... Não imagina, leitor, como aquela mulher era provocante, com grandes olhos castanhos maliciosos pedindo para satisfazê-la, querendo me engolir, e estes gestos trançados a sinais delicados e elegantes. Cecília era quase natural. Naquele momento encontrei minha companheira eterna; naquele momento encontrei meu Nirvana, o ápice que me libertou.

- Vamos nos deitar, querido!

Era noite. Noites. Muitas e muitas noites. Órgãos ora expostos ora entrecobertos, à meia-luz, sob a clarividência de um relacionamento com o tempero adequado, feito com a medida certa. Dois corpos fundidos quimicamente: molécula, micha, mucosa, placenta, pus... Tudo nutrindo nossos corpos, nossos corpos nus. Era um cruzar de pernas e movimentos atingindo labirintos entre névoas despidas.

- Eu quero...! Vem...! Eu quero...! Eu quero gozar! – ela gritava em toque de ordem irresistível, insaciável. – Vem, amor! .. ..., ....! Augusto! Augusto! ...! ...! ...! Vai...! Eu quero...!

- .. ...? Ah, ......! ........! Ah, Ceci! Ah...

- ... ....! ......! ..., ....! ....! ... ....! ..........! ....! ... ....! .. ....!

- .. ...!

Penetração carnal, suja, violenta; e ao mesmo tempo terna, afetuosa, apaixonante! Ela jogada de quatro no chão de carpete marrom-claro, espremida do espelho manchado de reflexos extravagantes; eu com a musculatura e ideias que poderiam muito bem ter durado a eternidade, mas que foi breve tremor de artérias túrgidas. Preservativos que não usamos. E nossos corpos entrelaçados, num bater de joelhos deleitoso, em sussurros que ora viravam urros de prazer ora eram simplesmente gritos de um amor fugaz, quase estéril. Não couberam ali fingimentos de preliminares, gestos armados e arranjos sexuais – fomos o próprio orgasmo.

- Maria Cecília!

De repente, em meio aos filmes eróticos que insistia em vir às retinas, às músicas de cantora de cabaré francesa que passeavam pela orla cerebral e à sombra esparramada de dois amantes de frente para um lago, deixamos uma taça de vinho pela metade. Foi uma discussão de namorados que surgiu sorrateira e decisiva. Uma discussão que nem menciono aqui o teor porque é de tema tão grande e pomposo que não cabe à compreensão de um amor tão tolo, pueril e acanhado de diagramas ou arquiteturas, pois que este amor tinha fundamento nos pequenos gestos.

Mas é aí que está, querida leitora, acredite-me; não conto aqui uma aventura vil de autor depravado. Oh, não, senhorita leitora! Quero apenas compreender, minha amiga que me lê, ousando até recordar o sermão da montanha que diz que são “bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados”: o que faz dois namorados abandonarem os pequenos gestos de amor e cuidado pelas grandes e pomposas discussões deste faustoso mundo?

E como o conto já vai longe, com muitas linhas que podem cansar as vistas menos treinadas, só digo que foi isto, nada mais.

Por Ricardo Novais

Trem noturno


I - HISTÓRIA DO AMANHECER
Os primeiros raios de sol vieram a perturbar os meus olhos. Era manhã, era novo dia. Não me mexi. O sono fora tão calmo e tranquilo que quis prolongá-lo. Mas o relógio-despertador do telefone celular iniciou seu ofício estridente. Estava na hora de levantar-se da cama à vida.
- Que isto? Que está havendo?
Eu estava acordado, bem acordado. Refletia, eu via o teto e todo o lado esquerdo do quarto, as paredes de um branco desbotado já tão minhas reconhecidas; e queria me mexer, mas não conseguia. Tudo estava confuso, nada se fazia a entender. O que me aconteceu? Eu não sabia. Fiz um esforço sobre-humano para mexer a perna esquerda, nada. Não mexi um músculo, um tecido. Em compensação, meu cérebro fervilhava. Pensei estar já chorando, porém percebi que não escorria lágrima. Pensei estar morto, mas eu estava matutando, de modo a estar vivo. Não era sonho, eu escutava as pessoas fora do quarto; o andar arrastado do senhor Gilberto lá fora, a dona da pensão a avisar do café da manhã, as moças de hábitos noturnos chegando para o descanso e batendo a porta de seus quartos. Não era possível, eu não estava morto.
Calculo, pela intermitência do despertador, que fiquei bem umas duas horas nesta mesma situação em cima daquela cama; quando, de repente, bateram à porta.
- Senhor Arthur, está dormindo? Não vai tomar café hoje, não?
- Deixe-o, deve ter chegado tarde de alguma festa e ainda dorme... – escutei a voz de Seo Gilberto ponderando à dona Márcia e passos arrastados afastando-se.
- Não! Não! Voltem! Estou acordado, voltem! Não consigo me mexer... Ajude aqui... Socorro! Socorro! Socorro!...
Foram gritos e gritos e mais gritos, todos sem resposta. Gritos silenciosos. Ninguém me ouvia. Comecei a pensar que aquilo era um pesadelo, e que se eu tornasse a dormir quando acordasse tudo voltaria ao normal. Tentei, tentei e nada de adormecer novamente. Simplesmente não havia sono, meus olhos não fechavam, ao contrário, estavam irritados ou isto também era só imaginação porque não doíam e nem a poeira, que eu percebia cair neles, impedia a visão à meia luz.
Iniciei uma homilia mental. Rezei a todos os santos, recordei até o terço que vovó rezava em São Paulo e tentei cantá-lo. Mas a aflição e outras recordações se embaralhavam a tudo. Novamente ouvi a voz do velho Gilberto e de dona Márcia, um queria que se respeitasse o meu repouso a outra conjecturou que algo errado acontecia. Venceu o primeiro, e foram embora.
Espera aí, pensei. Hoje é domingo, claro! Ontem fui à casa noturna e bebi muito, mas bebidas dão apenas ressaca... Se bem que... Porcaria! Acho que andei fumando daquele tipo de salvia outra vez... Tenho que parar com estas baladas... Mas... Espera aí. Porra! Claro! Colocaram algo no meu copo, sim! Estavam falando daquele... Curare, curare, curare... É! É isto! Sim! Hum... Fui infectado por alguma protocurina de curare... Mas como? Lembro-me de que falavam que era uma droga relaxante, que deveria ser tomada com moderação. Relatavam lá que a essência da erva vinha da selva amazônica; em outros tempos, acho que os índios a usavam nas pontas de suas fechas para que o veneno paralisasse o inimigo e defendessem suas tribos... É isto! Sim! Sim! Sim! Filho da... Alguém me sacaneou! Não estou morto, estou paralisado pelo curare, daqui a pouco vão entrar aqui e me levarão ao hospital. Devo ter batimentos cardíacos, vão me reanimar... Socorro! Ajude-me, bom Deus!
Ajude-me! Ajude-me! Ajude-me!... Áááááááhhhhhhh!
O que isto? Recomponha-se, Arthur! Ora, ficar deste jeito não irá me ajudar me nada, tenho que manter a calma... e pensar... Deixa-me ver, deixa-me ver... Hum... Quando eu era criança e adolescente acontecia algo análogo. Às vezes, quase sempre naquele momento que ainda não é manhã e também já não é madrugada, na aurora, via-me fora do corpo. Parecia que eu já tinha levantado e saído da cama, pedido a benção a meus pais, tomado café e, de repente, eu percebia que ainda estava na cama, dormindo. Mas também não era sonho, então nitidamente eu percebia que não conseguia me mexer e fazia um grande esforço, um empenho concentrado nas pernas, para mexê-las, e, finalmente, conseguia me mover. Recordo revirar-me no colchão a fim de mudar de posição; do contrário, a agonia da paralisação consciente sobrevinha. Mas agora foi diferente. Toda a força, todo o empenho, toda a energia não conseguem me devolver da paralisação. Por certo, era o efeito da maldita droga. Era quase um milagre que neste estado de cataclismo físico e psíquico, em que eu me encontrava, não tenha me acometido nenhuma fatal overdose; bem, por enquanto não...
Passaram-se os minutos, eu fiquei feliz por saber estar vivo e angustiado por não conseguir me mover. Embora deitado, já estava exausto. Detinha minha atenção apenas o zumbido dos carros lá fora, de mães chamando os filhos, ecos de latidos de cachorros longínquos e o bondinho de Santa Tereza que soava de passagem. O senhor leitor que lê este conto não imagina o terror que se passava em minha cabeça. Eu respirava, mas não sentia o alento às narinas. Enxergava, mas não cerrava nem batia as pálpebras. Não mexia a boca, o queixo, as mãos, os pés, nada. Qualquer um que chegasse ali pensaria imediatamente que se tratava de cadáver fresco. O pior é que minha família não estava ali comigo. Não sou desta cidade, vim a trabalho. Meu pai é aposentado; às vezes ele vem e fica um pouco, por alguns dias, ajuda-me a acordar pelas manhãs, mas logo tem de voltar à São Paulo. Minha mãe e irmãos moram também lá naquela capital bandeirante, e não tenho namorada. Meus colegas de trabalho não podem me ajudar, hoje é domingo, eles estão de folga e não me visitam. Há três meses aluguei um quarto numa pousada decente da Costa Bastos no bairro de Santa Tereza, fica perto do escritório, na Cinelândia. A comida é boa, as pessoas são conservadoras e ordeiras, embora tenham que fazer vista-grossa aos viciados em maconha e às prostitutas que moram na casa. Afinal, eles pagam direitinho. Há também alguns funcionários públicos e empregados médios de empresas privadas, que, assim como eu, dispensam o conforto refinado para economizar algum dinheiro em cidade alheia.
Aventurei-me tanto para mexer os pés e braços que meus pensamentos iniciaram fadiga. Ironicamente, comecei a pensar que não são nossos músculos e outros membros que cansam; o enfastiar é da ideia. Pouco a pouco fui dispersando, os zumbidos não prendiam mais tanta a minha atenção, tudo foi ficando escuro, inconsciente, embora meus olhos permanecessem abertos, e veio uma paz muito serena.

II - AUTÓPSIA
Só foi possível ouvir o estrondo. A porta veio a baixo. O pessoal do resgate entrou primeiro, depois dona Márcia e o senhor Gilberto.
- Menino, menino! – gritava a velha.
- Está morto... – afirmou um homem com voz entrecortada encostando os dedos à minha garganta.
- Não, não estou! – tentei gritar. Eu mesmo percebia que nenhuma voz saía de minha boca. A paralisação continuava, pensei agoniado.
O enfermeiro tentou fechar meus olhos, mas não conseguiu e desistiu logo. Alguns da pensão riam por descrença, outros estavam em choque.
- Foi droga – disse um.
- É ataque do coração – conjecturou outro.
Uma mocinha que eu paquerava chorou, eu fiquei feliz com isto. O velho Gilberto, que era português antigo da casa velha e viúvo há tempos, prontificou-se a acompanhar o corpo ao IML. Espantei-me com a necessidade e aterrorizei-me com a sigla: IML. Insistiram que me levassem ao hospital; assim foi. Na Santa Casa deram a hora da morte às 3h45min de domingo. A causa mortis era ofício aos legistas desvendarem. Fizeram os procedimentos de encaixotar cadáver, chamaram o rabecão e três horas depois eu estava de volta ao bairro, num corredor claro, sob uma maca, coberto por lençol e dado como morto na Mem de Sá.
Descobriu-se meu corpo, o alvo lençol foi ao chão cinza. Veio um primeiro legista. Ele olhou-me de lado a lado, calçou luvas e deu-me asco quando percebi a mão daquele homem passeando pelo meu corpo nu. Chegou uma mulher, não era velha nem bonita. Vestia avental branco. Parecia estagiária.
- Ele é todo seu, mocinha! – disse o legista à garota que demonstrava suar frio.
O homem saiu da sala. Ela tentou fechar meus olhos, mas estes não fechavam. Eu tentei falar a ela, ela não ouvia. Curiosamente, atingi os seios fartos dela, instantaneamente meu órgão genial deu sinal. Isto foi o que achei, porque a estagiária nada de estranho notou. Para ela, eu não passava de um presunto moço.
A mulher não me cortou de logo, logo. Pegou do bisturi e parecia medir meu dorso. Em dado momento, fixou seus grandes olhos verdes em meu rosto. Olhou, olhou, e desviou para a boca.
- Pobre rapaz, tão jovem... – disse isto baixo consigo e depois falou alto a mim: – Se ver meu noivo por lá, mande lembranças a ele...
A estagiária preparava-se para iniciar a minha retaliação, o morto que estava vivo, quando, de súbito, bradou uma voz:
- Espere! Não, ainda...
- Isto, doutor! Isto! Não deixem que me matem... Estou vivo! Estou vivo! Não quero morrer... – gritei o mais alto que ninguém pode ouvir.
- Que foi?
- Um tiozinho que acompanha este cadáver pediu para vê-lo... É bom que o veja inteiro... Rá, rá, rá, rá, rá, rá, rá rá, rá rá, rá...
- Mas, doutor! Isto não é contra os procedimentos?
- Vá se acostumando, mocinha...
O velho Gilberto entrou à sala. Ele chorava.
- Filho, que lástima! E tão longe de casa... Teus pais já sabem, eles vêm logo, filho. Sinto muito, sinto muito – o homem soluçava. – A morte é trágica, e injusta... Leva os jovens e deixa os velhos. Por que não me levaste invés de meu filho, Deus? Preciso tanto ver minha Marieta...
Eu estava comovido. Gilberto era um senhor educado, sempre brincava comigo e chegamos mesmo a ir juntos ao Maracanã e São Januário. Estranhou-me, no entanto, chamar-me assim e chorar tanto.
Como o deixaram entrar? Ele nem parente é; ou será que é?
- Bem, senhor – retornou o legista –, infelizmente o senhor tem que ir embora, tem que sair daqui, agora! Compreende, senhor?
- Mas eu pago mais, só mais um pouco... É meu filho!
Filho? Não leitor; não farei mistério algum. O velho portuga não era meu pai, ele passou a considerar-me como tal depois que seu filho legítimo foi assassinado, junto da esposa, dona Marieta, num ordinário assalto na zona sul da cidade. Isto já deve ter uns bons dez anos, mas o pobre homem nunca se recuperou. Ele vive a repetir a tragédia a todos que encontra pela frente e, vez por outra, confunde este ou aquele rapaz clamando pelo filho.
Passou quinze minutos de lamento sincero e confuso e o legista avisou que não era mais passível de suborno.
- Não! Não! Por favor, ele dará mais dinheiro a vocês! Dê mais a eles, Seo Gilberto. Dê dinheiro a eles! Vamos, vamos... Por favor! Não, volte, volte, volte...
Eu chorei, copiosamente. A dona leitora está certa, nenhuma lágrima foi visível; ficaram todas elas dentro do coração, presas, lúgubres, à espera do fim. E o fim chegou logo. Veio a mesma garota de seios fartos, o mesmo bisturi afiado em mão trêmula, as palavras iguais, os gritos pavorosos sufocados e...
A dor que senti foi pior que a dor do parto. Verdade que nunca pari, mas a leitora que já é mãe sabe do que falo. Aquele instrumento pontiagudo cortou-me de lado a lado, as vísceras saltaram de pronto, as entranhas todas à mostra, o ar fétido, tétrico, nauseabundo; eu senti tudo, corte por corte, investigação lenta minuciosa e imprecisa por tudo que fui nesta vida. A moça não reparou que meu coração ainda palpitava por sobrevivência, fraco, muito fraco, mas dava clamorosos sinais vitais. Ela os ignorou por completo. Meu desespero era latente. Não aguentei, de repente tudo se movimentava sem nexo e os objetos giravam perseguindo-me, eu não vi mais nada; a não ser uma luz clarividente e acolhedora. Fui à luz.

III - O CORTEJO NOTURNO
Quando dei por mim, estava bem-vestido e dentro de um esquife. Eu observava as flores fúnebres murchando minuto após minuto e já pensava na minha nova e confortável morada sete palmos abaixo da terra. Concluí disto que a morte é um sono eterno e sem sonhos. Minha mãe chorava ininterruptamente ao lado do caixão, era um soluço melancólico e curto; meu pai tomava um café em copo de plástico. O clima era sorumbático. No atestado de óbito vinha escrito: “Morreu de ataque paralisante do miocárdio”. Ora, essa é boa. O miocárdio foi o único órgão que se manteve firme, vivo até o fim. Pobre miocárdio! Mas, se bem que... Não, não foi o único que se manteve vivo, pois é certo que não examinaram o meu cérebro – embora árdua seja a tarefa de medir os pensamentos...
Ouvi que seria translado para São Paulo. No fim, tudo é um campo de girassóis... Nunca pensei que faria tal viagem, de mais de 420 quilômetros, desta maneira; e melhor, sem pagar absolutamente nada pela passagem. Isto é quase boa promoção de agência de turismo; de fato, uma pechincha! O trem seria o cortejo, a carreata funesta e enigmática.
Mais terrível nisso tudo, leitor, é que mal tinha morrido direito e já recebi companhia indesejável. Uns vermezinhos vieram ter comigo:
- Olá, amigo! Sou o escaravelho, mas pode me chamar de Cará. Muito prazer!
- É? O prazer é teu, não vê que estou morto?
- Sinto muito, acontece... Bem, amigo; mas viemos vê-lo porque vamos nos alimentar de seu corpo; questão de sobrevivência; você entende, né?... Ah, mas não se preocupe! Geralmente funciona assim: a comida nada sente; apenas arrancamos um naco do presunto, comemos e vamos embora. Noutro dia voltamos, outros não podem vir, apenas eu e meus companheiros decompositores, somos os donos de seu corpo; eles que procurem outro defunto para saciar a vida, ou morte! Quando der por conta, já nada mais existirá de ti. Entendeu tudinho?
- Entendi. Mas, por favor, não dá para esperar um pouco; quer dizer, ao menos até que eu esteja enterrado... Não quero ter aspecto ruim no velório; compreendem?
- Oh, sim, claro! Por enquanto só viemos mesmo lhe dar as boas-vindas. Já te disse para não se preocupar... – De repente o escaravelho fechou a horrenda face e raiou com os amigos:
- Ei, senhor fungo, dona bactéria; agora não! Depois vocês comem; que gula!
- Mas Cará... É só uma lambidinha. Poxa! Estou morrendo de fome...
- Não! E Basta! Não sabem o que é basta?
Basta foi tudo que eu soube da cadeia alimentar. Aqueles vermes morriam de fome e eu já estava morto – finado e encaixotado. Curioso, mesmo sem poder me mexer eu percebia que aquele caixão era muito apertado. Meu pai deve ter economizado em minha última morada... Um morto deveria ser enterrado em local grande e arejado, algo parecido com a tumba de Jesus Cristo. Por que não dar espaço à morte?

I V - CIDADE DE CAMPANELLA
Eu devo ter adormecido novamente. Cochilo mortal, literalmente mortal. A dona leitora que acredite: os mortos também dormem. Se eu dormi e não estava vivo, então sou a prova viva, ou morta, de que existe algo além-túmulo. Não te assustes, queridos leitores; creio até que apreciariam fazer tal viagem. Quem sabe um dia; né mesmo, meu amigo e minha amiga? Uma extraordinária viagem fascinante! Entretanto, nem tudo é turismo. A morte tem lá também suas aflições; e o fato é que quando recobrei a consciência, abri os olhos que tinham fechado a custo no IML e assustei-me muito. Desenlacei os dedos que aquela maldita moça dos seios fartos tinha cruzado, encostei a mão à lateral acolchoada do caixão, mexi os pés em sapato novo – para que sapatos novos em morto eterno? –, ainda um pouco tonto, eu sentei no ataúde. Passei a mão direita do lado esquerdo do peito, doía muito – sim, senhor, além de dormir, os mortos também sentem dor. Eu tinha um corte feio no peito...
Maldito bisturi!
Um homem pouco calvo, com cigarro à boca e copo de uísque à mão direita disse-me:
- A dor passa. Isto tudo logo passa. Depois que o trem cruzar a fronteira dos dois Estados você se sentirá melhor.
- Qual Estado? Quem é você? Eu já o vi em algum lugar... Nossa!
É...
- Vinicius de Moraes, às ordens!
- Vinicius de... Porra! Mas você está morto!
Ele riu.
- Claro! Eu estou morto – eu concluí.
- Não se precipite, meu jovem.
- Para onde estamos indo? Para São Paulo?
- Não, não vamos a São Paulo. Acalme-se, você logo saberá.
- Meus pais, eles estão no trem?
- Não se preocupe mais com eles; ficarão bem!
O panorama era bonito, as montanhas, altas e baixas, todas cobertas de um esverdeado um pouco dourado em meio à escuridão da noite. A lua cheia jogava sua luz bucólica e gentil em tudo. O céu, entre azul e cinza, tinha nuvens altas e rarefeitas; ou eram quase nuvens, lembravam mais vapor de café recente. Passou um bom tempo, daí perguntei:
- Este é aquele trem noturno que cruza por cima do rio Doce?
- Ora, não! É trem noturno, mas não é doce... Se fosse viria eu te buscar, rapaz? Não! Viria logo o próprio Alphonsus ou a moça Ismália. Né mesmo? Né mesmo? – caçoou de mim com um risinho sem vergonha. Poetinha desgraçado! ...
- Não é trem-doce, não é trem-bala, que diabo de trem é este, afinal, hein?
- Trem noturno.
- Mas...
- Não tem mais nada. É trem noturno. Trem noturno.
Nada mais eu disse. A viagem do trem triturava engrenagens e pensamentos. Fiquei olhando para o Vinicius, extasiado e pensativo; ele olhava a paisagem pela janela da locomotiva, fumava e bebia longas doses de uísque. Também bebi uma ou duas doses; bebi mais para me acalmar, não me ousaria pretender acompanhá-lo. Eu tinha muito medo de tudo, e tudo era o desconhecido; percebi que o pavor estampou-se à minha cara. Mas, ao mesmo tempo, senti-me admirável, um orgulho avaro, por merecer grande poeta de acompanhante em minha hora derradeira. Porém, foi aí que me preocupei. Aquele homem havia vivido intensamente... Ai, meu Deus! Teria sido o poeta agraciado com o paraíso por seu estilo de encarar as agruras da vida com leveza ou castigado com o inferno pelos prazerosos vícios terrenos? Ah! Àquela altura, pouca coisa importava. Depois de ficar paralisado, ser retalhado por uma moça depressiva e virar comida de verme, nada poderia ser pior – nem o inferno.
Mas não era o inferno. Da janela do vagão consegui ler: “Amigo viajante, seja bem-vindo à Campanella”. Passou algum tempo e lia-se outra placa: “Perímetro urbano de Campanella”. O trem parou e Vinicius se levantou:
- Vamos!
- Onde?
- Vamos saltar; ora! Vamos! – ele reiterou a ordem.
Ao descer do trem, o poeta declarou:
- Bem-vindo à cidade de Campanella, lugar das paixões.

V - DO OUTRO LADO DO SISTEMA SOLAR
- O que vim fazer aqui? Estou morto, Vinicius?
- Sei lá, sei lá... Vamos ali ao bar tomar uma bebidinha.
A cidade era pequena, mas linda. Havia árvores por todos os lados, os carros eram todos das décadas de 1950 ou 1960. Porém as casas pareciam muito mais antigas, talvez da época do renascimento, especialmente aquelas que ainda hoje se veem na cidade de Florença. As pessoas se vestiam diversas umas das outras. Vinicius de Moraes, por exemplo, trajava black-tie; mas passou uma mulher de vestido vermelho com aspecto horrendo, parecia carregar o próprio cadáver invisível às costas; um rapaz, a cara do cantor Cazuza, usava somente jeans e camiseta e fumava alguma coisa no meio da rua. Outros se apresentavam de terno e gravata, alguns sem gravata e muitos de blusa azul-marinho. O tempo não era frio nem calor; podia-se vestir um sobretudo de lã ou uma regata de flanela.
Ao entrarmos no boteco, veio um homem, entregou-me um bilhete e fez sinal que eu nada dissesse a outra pessoa, a não ser ele. No papel estava escrito: “Vá embora enquanto pode”. Deve imaginar, leitor, a nova confusão que me acometeu. Esperei ele ir ao banheiro e fui atrás.
- Que está havendo aqui?
- Não sei.
- Quanto tempo está aqui?
- Aqui é difícil saber, uns cinco ou dez anos, talvez... Na verdade eu não sei dizer...
- Meu Deus! Que loucura! – olhei o homem e sorri a ele: - Eu devo conhecer o senhor também, não é mesmo?
- Meu jovem, aqui todos se conhecem. Só estão aqui as pessoas que, de algum modo, conhecem você, que tiveram contado com você.
Está entendendo? Campanella é terra de ninguém, e... Também de todos.
Antes de sair, ele virou o rosto dizendo:
- Tenha por certo que a tua família está bem. Mas quem aqui está deve ter medo... Você, eu; entende? Eu não sei... Não sei...
Saí do bar e andei pela calçada, impecavelmente limpa. De súbito, a cidade, que a pouco era bela e pequena, mudou para o aspecto de uma megalópole enorme, cinza e barulhenta. Esbarrei numa mulher.
- Desculpe, moça!
- Tudo bem... Não foi nada.
- Aqui é Campanella?
- Sim.
- Mas...
- Não estranhe, por aqui é sempre assim. O tempo e as coisas mudam, de repente... – ela disse e sumiu; pareceu ser uma prima minha morta ainda na primeira juventude... Eu tive impressão, mas também de nada eu sabia.
Vi tanta gente. Parentes, amigos, atropelados, sumidos, alguns que eu não tinha ideia de onde estavam e outros que eu imaginava estarem em outro lugar. Não! Todos estavam em Campanella.
Eu tinha de ir embora daquele lugar; lembrei-me do homem que parecia tão íntimo de mim, conjecturando perigos em banheiro de boteco, e que eu não arranhei jeito de recordar quem ele era. Nisto aproximou-se outro senhor, este não direi quem é.
- Como vai? – perguntou-me com gentileza.
- Bença... – reverenciei-o
- Deus te abençoe.
- Está tudo bem?
- Sim, graças a Deus! Mas, você... Você andou pisando na bola... Mas estarei sempre contigo. Vamos resolver tudo. Reze um pouco, confie em Deus. Tudo vai dar certo! Adeus. Fique com Deus!
- Espere, preciso dizer o que sinto... Por favor! ...
Ele foi embora. As lágrimas agora corriam a rodo pela minha cara que outrora sempre fora dissimulada, e eu podia senti-las todas. Os cortes da autópsia não mais doíam, sequer existiam. Percebi que nem marcas ou cicatrizes haviam ficado, era como se nada tivesse me cortado de lado a lado. Foi inevitável um sorriso debochado.
Roubei um carro. Um Opala, creio que o ano dele era 1968 ou 1967. O motor robusto fazia barulho, todos na rua me olhavam. Fiquei rodando por cerca de 40 minutos, o rádio FM só tocava rock n roll no último volume ou música renascentista muito íntima. De repente, o rádio mudou para o AM; só se ouvia na estação a narração de jogos de futebol com jogadores mortos: Heleno de Freitas, Garrincha, Feitiço, Puskas, Pelé – este eu não tenho certeza se morreu, é eterno –, Maradona – este eu não tenho certeza se viveu –; outros compunham a escalação com o saudoso Tonhão Pingaiada, o baixinho Gino, o asqueroso Pezão, enfim, muitos craques memoráveis disputavam uma peleja histórica em algum estádio monumental daquela cidade de Campanella.
O carro ia a toda velocidade. As estradas eram largas, o asfalto bom, parecia rodovia, mas havia muitas casas às margens que indicam perímetro urbano. Campanella era grande por todos os lados, parecia não ter fim.
Peguei um desvio à direita. Ninguém me seguia, mas comecei a achar que se continuasse naquela rodovia ficaria rodando em círculos, embora fosse pista reta. É que de cinco em cinco quilômetros, contados pelo mostrador analógico do automóvel, a paisagem mudava para a anterior, os mesmos guard-rails, o mesmo mato, as mesmas casas, os mesmos edifícios, apenas os transeuntes e os outros carros eram diferentes – eu conhecia todos. Neste atalho a estrada era ruim, sombria, mão única, as grandes árvores escondiam a lua que já era pálida.
Comecei a perceber que alguém corria dentro da mata, pisei no pedal do acelerador, mas o automóvel não aumentava mais a velocidade. O vulto cruzou a pista e... Eu o atropelei.
Desci do carro e fui até o atropelado. Era Garrincha, o genial Mané Garrincha. Ele se levantou, devagar, depois disse:
- Estou bem, amigo.
Entretanto, uma voz estranha bradou:
- Não podia ter feito isto, caro rapaz.
Acho que desmaiei, porque não entendia mais nada.
- Onde estou? – interroguei um pouco zonzo.
O vulto que batia a poeira da roupa de Mané respondeu-me:
- Você está no lado homólogo da Terra.
Imediatamente chegou a polícia. Não me pergunte, leitor; eu não sei como os policiais chegaram tão rápido.

V I - JULGAMENTO INESTIMÁVEL
A chefatura policial veio num tílbure do século XIX. Inacreditável! Quantos tipos de veículos existem neste lugar? Era o mesmo lugar? Sim, era; mas nitidamente a época havia mudado novamente. Atrás na patrulha, desceu o delegado. Em seguida, em outro veículo do mesmo gênero do primeiro, surgiu o prefeito de Campanella. Incrível! Era Machado de Assis.
- Não acredito!
- Nem eu digo que acredito – debochou o bruxo.
- São olhos refletidos – eu disse.
- Seguramente – acudiu ele –; entretanto, pode ser que tu estejas errado. A verdade é que uma coisa não impede a outra, e a reflexão casa-se muito bem com a curiosidade natural. Parece curioso, isso parece, mas...
- Vamos levá-lo! – ordenou áspero e subitamente o delegado.
O delegado era Olavo Bilac. Tinham dois soldados, um era Renato Russo – coitado do Renato, sempre fora do tempo... –, o outro, ou a outra, era a senhorita Bidu Saião. Eles pareciam indolentes, mas agiam naturalmente. Não deveria dizer, leitora, mas digo, porque é verdade; apaixonei-me por aquela moça, irresistivelmente... Mulher deveras fascinante!
Levaram-me à delegacia, poucos minutos depois já estava em tribunal. “Que rapidez”, recordo que até pensei isto ao me lembrar da morosidade em cartórios de São Paulo e do Rio de Janeiro do meu tempo; que também é teu tempo, leitor.
O juiz monocrático que julgou o caso foi Drummond. O promotor foi o próprio delegado, o intragável Bilac. Meu advogado de defesa era Augusto dos Anjos. Pedi que fosse o velho bruxo do Cosme Velho, mas este agora era prefeito e não podia. Contudo, agradava-me que fosse Augusto a minha defesa. Gosto dele, além de moço incompreendido é também astuto e tem olhos agudos – embora o promotor olhasse com desdém para ele.
O juiz disse:
- Que entre Sócrates.
- Que Sócrates, o jogador?
- Não, o grego.
- Ele não pode vir, excelência; teve outros afazeres – respondeu Bilac.
Drummond então iniciou o julgamento sem o grego. Mas mal se iniciou a instrução jurídica já havia a sentença:
“Sócrates, em discurso proferido nesta mesma tribuna, afiançou:
Conhece-te a ti mesmo”. Isto como passo primordial ao alcance da verdade acerca da humanidade e assim, do universo, que em harmonia e conjunto é capaz de levar à felicidade e à paz. De modo que este é o embasamento da sentença”.
O juiz, nosso querido Carlos, baixou um pouco os olhos, jogou a caneta ao tinteiro e leu o resto daquele aresto primário:
“Sentencio o réu à pena da reflexão e do autoconhecimento. Cabe recurso ao Tribunal Divino ou a Vara do Capeta. Sem mais, digo apenas que haja escuro e novo tom de escuro; pois em fuga despede-se da vida. Que a vida seja a fuga, e a fuga seja a morte. Assim estamos todos quites. Digo isto e desfaço o Conselho. ”
Assim, a reflexão que a mim foi imposta como sentença permitiu-me compreender, e transcorrer neste conto, o ponto de vista da mensagem que me quiseram transmitir. Saiba tudo agora, leitor. Minhas atitudes humanas covardes, insensíveis, arrogantes foram as causas determinantes de minha morte. Ao menos foi isto que escreveram na certidão da sentença. O documento explicou-me tudo que eu ainda não havia entendido na boca do juiz, por causa da emoção. A paralisação de meu corpo, de meu coração, de minha vida, enfim, não paralisou o mundo – por isto a sociedade e o caos persistiram de relâmpago em relâmpago em meu âmago, agravados pela falta de consciência das pessoas próximas e, de igual modo, das não tão chegadas – quais todas elas, desgraçadamente, longe ou perto, continuaram comigo, em meus atos, ideias, tratamentos, medos e cálculos. Tudo que vi no mágico município de Campanella foi a marca de minha maldade.
Senhor leitor e dona leitora, eles não quiseram convencer-me de nada, absolutamente! E nem eu agora quero convencê-los de algo; contudo, dizendo do que entendi de viagem feita em trem noturno e em férias peculiares à cidade tão enigmática e fantástica, e também naqueles meus dias de condenação em Campanella, aprendi que o grande potencial humano que leva à felicidade e à convivência em harmonia são as coisas aparentemente inocentes; e, conforme o despacho de meu julgador, conhecer-se a si mesmo é, simples e essencialmente, “amar ao próximo como a si mesmo” – sim, amigo desconfiado; nisto dou aspecto bíblico ao acórdão para que nenhum crítico venha me acusar por aí de ficcionista do delírio.
Depois de cumprir toda a minha condenação imposta e alcançar a liberdade, recebi o título de regenerado. Não que eu tenha desdenhado do título; afinal, títulos acariciam os espinhos do caminho. Mas é que alcancei que aquilo era menos importante, pois minha regeneração depende factualmente de que eu a procure sempre, em todo momento, em todo pensamento, durante toda a vida.
Então, por fim, que veio minha libertação. Nisto reencontrei aquele mesmo homem de meu primeiro dia em Campanella, qual eu, naquele capítulo, esbarrei por acaso numa das ruas da cidade e, por capricho, não quis revelar a identidade. Lembra-se, leitor? Como não? Ora! Deixe de moleza, torne aí umas poucas páginas e releia novamente o capítulo.
Confesso que lá fui deliberadamente imprudente, tive a proposital intenção de aguçar a curiosidade de minha querida amiga leitora – desculpe-me, foi uma provocação tola; admito! Sendo assim, antes de terminar o conto, revelo então agora quem era aquele misterioso homem. Era... eu mesmo. Não, meu amigo, não caçoe julgando ser este mistério por quase nada ou pequeno; pois se tanto naquele primeiro dia como no último, eu, graças a Deus, vim a interromper o meu próprio sono profundo e paralisante.
- Arthur, ô Arthur. Acorde! Acorde, rapaz! Olha a hora. Dona Márcia está chamando para o café-da-manhã.

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Conto retirado do livro O trem noturno, Ricardo Novais, editora Bookess.