O depoimento

 Óleo sobre tela de Lucas Granito.

Um amigo perguntou-me a opinião sobre o depoimento que o presidente Lula deu ao juiz Sérgio Moro acerca das investigações da operação Lava-Jato, da polícia federal. Eu até assisti trechos do depoimento pela imprensa e redes sociais, mas aquele circo, incrível e até democrático, não me animou; depois, com muito custo, ainda revolvi ver na íntegra o depoimento devido à suspeita de que edições são feitas com parcialidade de causa, mas não consegui chegar até o final. Muito longo o depoimento.

Eu percebi mesmo foi o lado subjetivo de cada oponente daquela peça, supostamente, jurídica. Sim, eu gosto da tragédia, ao estilo Nelson Rodrigues, do cotidiano da sociedade. Daquele tapa na cara que a rotina humana dá, com o cansaço dogmático, dando porrada com a desfaçatez e a traição, pragmáticas e sintomáticas, capazes de ferir o plano principal, aniquilando o resultado esperado e todas as expectativas, esperanças etc. em pró da obscuridade da vida.

Neste sentido, vejo o juiz Sérgio Moro como um moralista monocrático, para aludir aos termos jurídicos, educado e muito estudioso com uma dedicação extraordinária para a retidão; ele é uma dessas pessoas que têm visão de mundo engessada pelo dualismo entre o bem e o mal. O maniqueísmo dele faz com que seja incapaz de enxergar o motivo de alguém ser mal ou o que torna uma pessoa má, ou ainda o que leva ao acontecimento da maldade; ele apenas julga a maldade aparente, o que parece ser, mas não passa na cabeça dele que pode não ser. Por outro lado, tanta insensibilidade também ofusca a sua percepção de quem é verdadeiramente bom, de saber o que realmente é justo ou compreensível; o seu juízo de valor humano é honesto, porém, limitado à sua educação moralista e dogmática.

O presidente Lula, por sua vez, notoriamente é exímio conhecer da alma humana. Ele tem uma habilidade admirável para superar a escuridão do maniqueísmo do conceito moralista-cristão e refletir no âmago de cada um e descobrir as consequências de seus atos, dos fatos que levaram ao ato e de toda a complexidade das relações humanas, político-sociais e de foro subjetivo. No entanto, desgraçadamente, isto não o torna melhor que o juiz Moro; em realidade, dependendo da óptica e da análise, pode torná-lo pior que o mais perverso moralista. Ora, isto é um exercício de reflexão básico: Se Lula é um ser-humano iluminado, sensível e capaz de distinguir a natureza das pessoas fora do maniqueísmo moralista, não é crível que ele tenha virado as costas para aqueles que ele consegue ouvir, que ele conhece os pensamentos, as angústias, os medos, a assombrosa vida segregada que vivem. Lula é um sujeito que dispende força para subjugar a própria sensibilidade em troca da própria vaidade, ele preferiu vender sua extraordinária aura iluminada, a benignidade nata nele, em troca de um enorme espelho emoldurado que reflita na sala de estar da casa grande a sua imagem e semelhança, mesmo que distorcidas.


Por Ricardo Novais

O escritor

Membros da Academia Brasileira de Letras.

"Dedicado a todos aqueles autores que não mais estão nas vibrações terrestres e para alguns outros que agora moram em altas esferas espirituais".

Numa certa manhã, João Lebre acordou aborrecido. Olhou para escrivaninha velha, o computador velho, as letras velhas e respirou fundo. Mal se vestiu precisou ir à rua, caçar ar puro, gente outra, ideias novas. Dobrou a esquina, viu muita coisa velha na nova gente. Os homens andavam com movimentos céleres e soturnos; as mulheres tinham a mesma agitação, mas os gestos eram mais suntuosos. Lebre parou alguns instantes, pensou em tornar ao lar, entretanto, dispôs-se a andar, aumentou o passo, atravessou outra calçada, andou, andou, andou e chegou à frente de sua própria casa.

- Que acontece, João?

João respirou fundo, novamente. A mulher nada entendia; os filhos pequenos, menos ainda.

- Tenho que escrever... – Lebre disse isto e trancou-se no escritório às pressas.

Pegou do cigarro, acendeu-o, mas não tragou dele. A fumaça rapidamente tomou conta do ambiente. Deixou pousar as costas à cadeira bege, iniciou uma homilia mental em conjunto com uma observação de memória recente.

Há ali uma grande biblioteca naquele compartimento, herança do pai. Os livros, quietos, olham para o escritor, e este retribui. A coleção de obras-primas de autores clássicos contém Flaubert, Eça, Eco, Rosa, Dostoiévski, Tolstoi, Kafka, Machado, alguns outros mais recentes, outros ainda mais antigos, têm uns jogados ao pé da estante, livros de diferentes tamanhos, cuidadosamente organizados como títulos de nobreza. Um exemplar da grande literatura fica exposto em mesa central: Em Busca do Tempo Perdido, do romancista Proust. A esta altura é este autor francês o que mais lhe chama a atenção e mais insiste por repreender os seus modos de escrita e as suas preferências de criação literária.

João Lebre escreve livros do que a crítica chama de autoajuda, embora também se aventure pela ficção juvenil. Ele é escritor renomado nestas duas áreas. Grandes editores o publicam, grandes revistas listam suas obras entre as mais vendidas e grandes livrarias compram e vendem seus livros. Até o presente momento, ele é bem-sucedido.

No entanto, o célebre escritor sente em suas entranhas a necessidade de volumosa criação literária. Anseia com dor estomacal adentrar ao rol de maiores literatos do mundo, reservar o quanto antes a cadeira escura onde possa tomar chazinho das cinco da tarde. Perceba, senhor leitor, aí é que está toda aflição e desgosto do autor; como ser um grande literato, renomado nos salões letrados, se só escreve livros de segunda categoria?

Foi àquela sala, sob a escrivaninha e a tela onde deveria preencher as linhas, exatamente para forjar um método de trabalho; a metodologia da criação.

De repente, gritou à mulher:

- Agatha, é preciso pintar esta parede aqui!

A mulher, correndo a acudir o marido, sem nada entender, já que o escritor não era dado a caprichos tolos, teve apenas ideia para pergunta prudente:

- Ora... Mas o que há?

- Não tenho ideias, mulher... Não tenho ideias!

João Lebre pareceu um louco, andou de um lado a outro do escritório, levou a mão ao queixo rapado, gesticulou coisas ininteligíveis à esposa, esta, por sua vez, nada disse e somente deixou-se paralisada ao canto do ambiente próximo à janela que dá para o segundo andar.

- Preciso que esta parede seja pintada de branco, impecavelmente branca, toda branca, branca, branca... – esbravejou ele em meio da afetação. – Não há de ter nenhuma manchinha sequer; nenhuma! Uma parece alva, clara, brilhante que me traga ideias brilhantes... Isto! Terei sim aspirações brilhantes, divinas... Voilá!

Assim foi. Pintou-se toda de branco a parede lateral, que fica de frente para a velha escrivaninha, onde se encontra o velho computador usado para os textos novos do escritor. No primeiro dia, porém, nada. Não que as ideias não viessem, vieram. Lebre chegou as escrever quase 20 páginas de prólogo, mas não foram boas... Escreveu tanto porque foi linha após linhas sem parar. Quando resolveu descansar um pouco da escrita, resolveu também ler o escrito; fez ele mal nisto; pois terminado estas linhas percebeu que os mesmos livros o fitavam do mesmo lugar, de modo que os autores clássicos devam-lhe recado mais claro que a parede: “Não está bom, João!”, foi a sentença. Proust foi ainda mais enfático: “Está uma porcaria, meu amigo da América! Escreva coisa melhor para não ser confundido com algum selvagem ou qualquer homem que pega da pena...”.

A depressão o engoliu. Fez a mesma rotina de algumas semanas. Saiu à rua, andou, viu gente nova e coisas velhas, tomou ar às ventas, a fumaça preta que ele inalou fez tossir seu âmago e voltar à escrivaninha.

Refletiu, sopesou, conjecturou e resolveu:

- Mulher, daqui em diante eu só escreverei como os homens dos áureos tempos da literatura, com tinteiro e pena.

Não estava sonhando e não foi delírio precipitado. Tinha de qualquer maneira ter hábitos mais apurados, galicistas, à moda da boa escrita. Foi tomar até aulas da maneira nova, quer dizer, da velha; matriculou-se em curso de velhos modos de escrita. Aprendeu rápido. Sim, dona leitora, as coisas de charme e elegância são compreendidas com gosto e facilidade – ainda mais se for de época de ouro.

Tornou nosso João Lebre à tentativa de criar algo que o elevasse aos deuses da boa literatura. Entretanto, outra vez, nada. Ele escreveu com tinta verde em papel branco e não espremeu nada do cérebro.

Depois foi mais excêntrico, ciosamente descansou a pena no tinteiro com tinta branca e em seguida a pousando ao papel verde articulou escrita com mão trêmula. Mas as letras não deram sinal de nenhum fruto de boa esperança.

E você, hein, amigo leitor que meramente lê, não valoriza os esforços incríveis do processo criativo de um homem letrado? Oh, não! A dona leitora, que não tem mesmo um gênio fácil, já vem exclamando: “Quanta maluquice!”.


O que se sabe é que o escritor carregou o olhar com a angústia daqueles que fracassam na vida. Mas, ora, se João Lebre é famoso e renomado, homem de sucesso na sociedade, não há de ser nada. Por este tempo lhe telefonou um importante editor da cidade querendo urgente reunião com o autor.

- João, lançamos teu livro, Uma Marca Para o Alcance dos Sonhos, e foi bem recebido, mas, sabe como é... Os problemas ultrapassam-se com rapidez cibernética... Sendo assim, preciso que escreva outro livro...

- Mas outro?

- Sim, mas não é nada demais. Mude apenas uns parágrafos, umas frases, e só! Você é um gênio, meu rapaz; continue apenas aconselhando como na outra obra, que assim vende... O título eu já tenho...

- Já tem? - Sim, tenho. Veja: Como Ser Feliz Antes de Dizer Adeus; que tal, hein? E o subtítulo é: Aprenda a Viver em Tempos Velozes. Sucesso de venda garantido, meu amigo.

E foi. Assim que o escritor terminou, em três dias, a obra e entregou-a ao editor, ela vendeu, em outros três dias, milhares de exemplares, e, apenas na primeira semana, já havia resenhas acaloradas em sites e blogues do gênero. Em quinze dias já frequentava lista de livros mais vendidos de uma revista de grande circulação no país.

Veio dinheiro, elogios dos leitores, prêmios de jornais e de novas mídias, entrevistas em programas de tevê e de rádio. João Lebre ficou feliz com os primeiros tapinhas às costas. Sentiu-se até vaidoso e grande homem das letras. Até que um dia acordou e viu-se novamente diante das obras clássicas o fitando da estante da sala de escritório... “Malditos autores clássicos! Malditos!”, exclamou ele, subitamente.

Ao café, o escritor engoliu a primeira xícara, e sentou-se à mesa com a mulher. Olhou para a porta do escritório e, de lá, ouviu as vozes dos autores, entre as quais a embaraçosa frase de Proust: “Só escreve porcaria, João!”. Iniciou uma conversa assustadora com eles, a mulher ficou estática sem nada entender. Tratou de despachar os filhos à escola e observar o marido. Ele, repentinamente, aquietou-se; tinha ideias perfeitas; mesmo desvairado ou absorto. Repetiu os pensamentos e narrações de personagens que acabara de criar na cabeça; depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou à escrivaninha; relutou, mas recorreu à metodologia da criação.

Abriu a página em branco do computador e escreveu uma única palavra com fonte Arial 18: Nada. Não adiantou, não conseguiu escrever... Nada. Viu um exemplar do bruxo do Cosme Velho ao pé da estante e resolveu calçar luvas para melhor destilar as ideias do cérebro ao texto; entretanto, isto não resolveu a falta de inspiração. Tentou também mudar o tamanho e a fonte das letras, mas foi fracasso comovente.

Então que alcançou a maior bizarrice de sua metodologia da criação. Retirou toda a roupa, ficou nu em pelo sentado à frente do computador. O ar gelado ligado na mais baixa temperatura, a esposa entrou à sala de surpresa e, de fato, surpreendeu-o nesta esquisitice e deste modo escandalizou-se:

- Que isto?

- Não se vexe, mulher! Não se assuste, querida! O processo de criação não pode ser preso, tem de ficar livre...

- Que frio é este, João? Vai ficar doente, João.

- Não, mulher. O ar gelado traz ideias frescas e boas...

Em três semanas o escritor pegou grave pneumonia e nenhuma ideia fresca – ou as ideias derreteram assim que a empregada abriu a janela e o primeiro raio de sol entrou ao recinto.

Outra vez importante editora queria ter com ele. Desta vez foi alguém à casa do escritor, mas o procurador não conseguiu falar ao artista. Foi então que o editor foi pessoalmente ver João Lebre.

- Que tem?

- Peguei uma friagem.

- Lá vão seis meses – disse o homem – que não nos manda seus textos brilhantes, João. Perguntam se perdeu o talento.

- Talento?

- Sim, talento de Deus!

- Não diga isto, senhor.

- Venho propor trabalho a você; dez textos curtos para blogue; leia o contrato, é coisa certa, o editor virtual é responsável e não publica comentários de leitores críticos... Sua reputação está assegurada, só leitores que se beneficiaram de teus conselhos serão publicados na página. Os anunciantes são bons, tua porcentagem é justa; veja! Conforme for o sucesso dos page views reajustamos os termos do contrato. Que acha?

- Deixe-me ler.

Não leu, estava muito doente. A mulher leu para ele em voz alta. O escritor assentiu com um gesto.

- Mas o primeiro texto é pra já – ilustrou o editor. – É coisa rápida. Viu que as doenças das pessoas mudaram? Pois então, escreva sobre os novos traumas da sociedade; nada de apontar soluções, somente explique as desgraças novas e deixe que as pessoas tirem suas próprias conclusões. Agora as pessoas querem refletir, saber de tudo ao mesmo tempo e não gostam de mandamentos que as digam como proceder para superar seus problemas e suas amarguras... A primeira leva de posts será a campanha: Seja Antenado. A segunda virará moda nas redes sociais: #QueGentileza.

- Que significa isto?

- Nada. São textos para novos heróis do mundo, só não podemos dizer que eles querem mudar alguma coisa; entende?

- Ô gentileza...

- Ô, e que gentileza!

João Lebre compôs a primeira obra do acordo e entregou-a ao editor. Não perdera a genialidade de escrever dando conselho aos problemas alheios; ironicamente não conseguia resolver os próprios dilemas.

Sucesso foi o novo lançamento, grande sucesso. Trazia letras balofas geniais, sacadas de bondade divina e generosidade ao semelhante. Os outros textos vieram ao poucos, mas cumpriu-se o prazo.

Conservara, no entanto, a biblioteca e os autores clássicos a fitarem-no naquela maldita saleta de escritório; mas passou a evitar a custo carcomer todas as noites à escrivaninha, para não cair em novas apostas e em velhas frustrações.


Assim foram passando os anos, até que em certa manhã as mesmas aflições de outrora o fizeram tombar diante da velha metodologia da criação. A fama de João Lebre dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os autores de autoajuda e também entre os juvenis; contudo, em sua biblioteca de escritório ele continuava o último dentre todas as prateleiras. Verdade que manteve ainda as vicissitudes de outro tempo, acerca de suas criações; porém, estas vinham a ele agora mais calmas, serenas. Não havia mais entusiasmo nas primeiras linhas, nem repulsa depois do primeiro capítulo; tudo se misturava harmonicamente entre o deleite e o tédio – creio que deverias lhe ter dito antes, leitor, mas então digo agora; a pneumonia do escritor agravara em conjunto com as outras doenças psíquicas.

Comprou uma cadeira de madeira anosa pintada de marrom-escuro, colocou ao lado dela uma espada de decano adquirida em loja ordinária de antiguidades, passou a tomar chá, todos os dias, rigorosamente às cinco da tarde, assim podia escrever na busca de sua grande obra e sonhar com nomeações mais altas. Mas ele tratava tudo com prudência e parcimônia. Quando o talento o intimava, ele sentava para escrever devidamente vestido com o fardão de crepe francês verde-escuro com folhas de louro bordados em fios de ouro e um chapéu de veludo preto com plumas brancas. Ele não fora agraciado com título de letrado, mas assim pareceu-lhe que as ideias genuínas viriam sem pestanejar; afinal, pensou ele, nunca se sabe quando o talento será laureado e, portanto, deve-se estar sempre pronto para a ilustre e elevada pose que vai à orelha do livro.

Nada disto veio a ele, pobre diabo! Pior, suas doenças não sossegavam e tornaram-se maléficas. A doença do pulmão avançara com exagero; foi quando lhe apareceu em casa outra vez o editor, que não sabia da enfermidade, e ia dar-lhe notícia da nova depressão da humanidade, e pedir-lhe textos desta lavra de última moda. A mulher, indócil desgraçada, referiu-lhe o estado do marido, de modo que o editor entendeu calar-se. Mas Lebre falou:

- Mais textos?

- Mas é para quando estiver bom de saúde – concluiu o editor.

- Logo que a febre decline um pouco – respondeu o escritor.

- Até logo, meu amigo.

- Espere – disse João Lebre – escreverei desde já dois textos, um pela primeira ideia que nascer no cérebro e o outro pelo resto, que não é nada nem tudo, o resto será apenas o resto ou o que me resta de criatividade.

O escritor disse as palavras acima e caiu em sono profundo. O editor cumprimentou a esposa do convalescente e se retirou, preocupado, como todo bom marchand, em intervir no processo de criação de outro artista.

João Lebre, magnífico intelectual desta terra de literatos, morreu naquela mesma noite, às dez horas e cinco xícaras de chá. O funeral foi vultoso, digno mesmo de um homem importante e de sucesso. Seus leitores compareceram ao velório em grande número; os autores clássicos de sua biblioteca, não, não compareceram ao funeral. Proust, ao saber da morte do brilhante escritor brasileiro, abanou sutilmente a cabeça três vezes, pousou a mão esquerda ao queixo, ergueu à meia altura uma xícara de chá e disse em baixo tom no meio da biblioteca: “Aos esnobes e aos amadores”.


*Este conto foi publicado originalmente no livro ‘Trem Noturno’.

Sessão espírita

Imagem de Internet.

Os negócios não iam bem. Eu era formado recente, e escritório de advocacia tem que ter clientela. Minha clientela era a de meu sócio, o doutor Jader Zanzone. Doutor Jader era um velho de sessenta e poucos anos, muito branco, quase pálido e calvo, que era pai do Marcos, um colega meu da época da faculdade; como o Marcos foi morar na Europa, indicou-me de sócio minoritário do pequeno escritório de seu pai.

- Vamos dar um jeito, meu jovem! – dizia o Doutor Jader, sempre com um sorriso bonachão.

Verdade é que desde que o nosso maior cliente, o Bingo Zona Sul, findou na contravenção, entramos numa crise financeira. Os legisladores brasileiros cismaram que o jogo de bingo deveria passar de jogo de senhoras para jogo de azar. Azar o meu!

Acontece que o Doutor Jader não estava nem aí para aquele escritório, ele era rico e dono de fazendas no interior. Mas se compadeceu, talvez por mim, talvez pela meritocracia de fazendeiro ou ainda pela pura influência de seu melhor amigo, o Doutor Pedro Moura. Doutor Pedro era um advogado gaiato, também deveria ter passado dos sessenta anos, mas não aparentava mais do que quarenta. Era um senhor negro de barba branca, sempre alinhado em um terno cinza risca-de-giz e sapatos envernizados. Ele também era rico, e metido a líder espiritual.

- Vamos no centro espírita... Você vai conosco! Sua vida vai melhorar cem por cento, filho! – dizia-me convicto o Doutor Pedro.

- Vai mesmo, meu jovem! É uma coisa inexplicável, diviníssima! – completava Doutor Jader, sempre sorridente.

Eu engoli minha descrença e os acompanhei. Era uma sexta-feira, passara das dezoito horas. Entrei no local, muita gente vestida de branco. Apenas eu metido em um terno preto bem vagabundo. Doutor Jader e Doutor Pedro estavam alinhados em ternos caros e cinzas, possivelmente de grife italiana... Difícil recordar-se de tudo.

De repente, cessou a sessão comunitária. As pessoas dispersaram, como fantasmas. Então fui levado a uma sala, sozinho. Entrou um senhor. Em um primeiro momento, pensei ser o Doutor Pedro, dada a fisionomia, mas as vestes dele eram brancas; parecia até que usava uma batina.

O homem entrou fumando um charuto. Aquilo me incomodou, um pouco, mas eu nada disse. Um dialeto ininteligível começou. Lembrei-me dos padres católicos do catecismo que, em dado momento da cerimônia religiosa cristã, também falavam uma língua próxima e incompreensível; naquela época, eles diziam que era Deus falando com seus fiéis.

O negro, vestido de branco, fumando um charuto asfixiante, também falava a língua de Deus; pensei. Pensei, nada disse, outra vez. Controlei-me, mas algo estranho ocorreu.

A porta se abriu. Doutor Jader, branco como um fantasma bonachão, entrou segurando em sua mão direita uma garrafa de pinga, dessas de marca ruim, e na outra mão ele trazia uma galinha, uma galinha preta; pretíssima! Ele a segurava pelas asas e ela esperneava em desespero. Havia também entrado um porco, rosnando forte e todo arisco. Um suor frio correu sobre meu rosto. O mestre espiritual jogou sal grosso e batatas por todos os cantos, pegou uma faca grande e a fincou no peito da galinha preta. O sangue jorrou. Tive mais asco do que pena da galinha.

O porco lambia o sangue, eu quis ir embora. Não me deixaram sair, já estava terminando.

É triste ter que contar, leitor, mas é necessário ser fiel ao conto; é de meu ofício, doa ao leitor que doer. Perdoe-me por quaisquer constrangimentos, caro leitor e querida dona leitora. Nem todo lance de vida é prazeroso, feliz ou adequado aos costumes da civilidade. O fato é que o porco parecia estar possuído pelo demônio, dado aos gritos horríveis que dava cuspindo batatas, mas poder-se-ia também dizer ser uma manifestação de Deus. Eu sei que o mestre espiritual, ainda esfumaçando o lugar com aquele maldito charuto, dizia algo baixinho, sussurrando em homilia; Doutor Jader repetia ao estilo do terço-do-rosário. Por um breve momento, julguei ser uma sinfonia diabólica, devido a tanto sangue, penas pretas, batatas masticadas e cuspidas em formato de tridentes; no entanto, logo percebi que eu não estava ameaçado.

Nada era possível se compreender naquele altar, exceto que o porco chafurdava no mar de lama formados pelo sangue, cachaça e batatas; que focinho suíno aterrorizante! Por fim, repentino, um silêncio tomou conta do ambiente. Os dois homens fecharam os olhos, o porco parecia estar desmaiado e a galinha já não mais agonizava. Deram-me sete velas, cada uma de uma cor que, naturalmente, não me recordo quais eram.

Depois das orientações sobre as velas, fui para casa. Dormi mal naquela noite, tive pesadelos horríveis com porcos assassinos cuspindo batatas quentes mortais e com galinhas sendo dilaceradas por guardas do inferno. Logo cedo, acordei com minha mãe, católica apostólica romana, jogando as velas no lixo, irritada, rezando para que eu me firmasse na vida; desfez-se assim o trabalho espiritual. Há coisas que as religiões não explicam, mas é permitido competirem em meio à nebulosidade pela falta do aclaramento.

Como o conto precisa terminar, mesmo contra minha vontade, digo apenas que me demiti do escritório. Arranjei outro emprego longe dos doutores espirituais, e fiquei sem saber se sangue de galinha preta, misturado com cachaça, causa ressaca em porco ou se as penas pretas são eternas nas memórias do povo de Deus.

Por Ricardo Novais

O caso do bar

Edouard Manet - óleo sobre tela - 1864.

Entrei em um bar e, enquanto aguardava amigos para o happy hour, fiquei a observar dois homens que discutiam sobre política na mesa em frente. Discutiam tão alto que era possível ouvir com exatidão o motivo do entrave.

- Você é idiota, Carlos! É claro que o governo neoliberal traz progresso ao país...

- Não, senhor! O neoliberalismo enrique uma casta e o povão fica na merda! O nosso país deveria seguir a política dos países nórdicos...

Era uma discussão tão superficial que logo me desinteressei. Menos que um quarto de chope, os meus amigos chegaram. Alguma bebida, risos e piadas ao estilo do mestre Ary Toledo depois e eu já estava meio bêbado; meio bêbado é um eufemismo, caro leitor, já que não existe ebriedade pela metade.

- Então você não acha que o campeão de 87 é o Flamengo? – questionei um.

- Claro que não, Heitor! É o Sport do Recife...

Embora fossemos trintões, a nossa discussão era sobre futebol e coisas relacionadas ao ambiente de garotos da 5ª série.

De repente, olhei para frente e vi os dois camaradas que estavam discutindo política saindo do bar, juntos e abraçados, porta fora. A dona leitora bem sabe, a curiosidade alheia é a salvação do tédio do espelho. Então chamei um garçom e lhe perguntei se sabia quem eram aqueles dois.

- Não sei, senhor. Mas acho que se conheceram hoje. Eles chegaram antes do senhor... Bem, quando eles chegaram eu ouvi eles falando... Apresentaram-se formalmente... Acho que tinham marcado o encontro pela internet. Por quê?

- Por nada.

Acabei de beber, dei um abraço nos meus amigos e saí do bar. Poucos metros, vi alguém caído na calçada. Aproximei-me, já havia umas cinco ou seis pessoas envolta. Reconheci o sujeito agonizante na calçada, era um dos homens que estava no bar discutindo política, jaz moribundo; não tinha sinal do outro.

Um senhor velho, de barba branca bem rala, que parecia velar o local, abaixou e sumiu o relógio do morto. Veio mais gente; moradores de rua, seguranças, funcionários do metrô, executivos que estavam saindo do trabalho e duas mulheres da vida e um travesti alto.

A esta altura, o morto já tinha perdido a carteira, o celular, a gravata e a honra política; chegou a polícia. A polícia chamou o SAMU. O cadáver, mais político do que nunca, aguardava o rabecão e o seu esquife.

Passei bem um quarto de hora a admirar o espetáculo da morte na república. Depois me afastei, devagar, reflexivo de quem seria o cadáver, de que lado do Fla-Flu ideológico ele se encaixava, em vida e em morte; cheguei em casa e fiquei o resto da noite acordado. Procurei e procurei uma posição política e de ética em uma rede social da internet. Não achei nada além de julgamentos republicanos, esparsos e rancorosos. Perto de amanhecer, eu desisti; e fui ler as notícias esportivas.

Por Ricardo Novais

A bola que não entrou

 

Outro dia, acho que foi no pós-feriado do dia 15 de Novembro, eu estava vendo pela tevê o jogo Botafogo x Chapecoense. A Chapecoense venceu, em plena Arena da Ilha do Governador, pelo placar de 2 a 0. Eu vi o Cleber Santana jogar demais naquele dia; no primeiro gol, ele colocou a bola, praticamente com as mãos, para o Kempes assinalar. Os dois estão mortos.

Lembro-me que, naquele dia, tive muita saudade do Cleber Santana defendendo o meu Santos; eu gostava dele. Foi um bom jogador!

Alguns da crônica esportiva e da torcida matutam: “E se aquela bola que o Danilo defendeu entrasse? Não teria a tragédia...”. Por certo, matutam errado. A tragédia não é a bola não ter entrado, a tragédia é o imponderável. Não há derrota! Não há derrota nem no jogo que levou a Associação Chapecoense de Futebol à primeira e histórica final internacional, nem na defesa milagrosa do goleiro Danilo e nem na tragédia.

O futebol não é apenas um esporte. O futebol é um reflexo, caricato, da vida. É uma música de Moraes Moreira com saudades do Zico; é a comemoração da vitória de ser campeão depois de ser rebaixado; é um clube do interior de Santa Catarina levando uma cidade inteira aos extremos das emoções, de alegria eufórica à tristeza profunda. Futebol é o imponderável!

Bem faz o Atlético Nacional, de Medelín, em reconhecer a Chapecoense como legítima campeã da Copa Sul-americana. A rivalidade da disputa do jogo ficou no apito final de um voo derradeiro; do que poderia ter sido, mas não foi; do que poderia ser sonhado, mas não será; bola parada, estática, em seus últimos lances como naquela bola que não entrou defendida pelo Danilo. Nem toda bola vinga em gol.


Por Ricardo Novais