terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Recado Para Tony Belloto, um Moleque!

Um pulha, chamado Tony Belloto (charge), guitarrista dos Titãs e escritor, postou um artigo no blogue dele no qual pretendia ser sobre discussões relevantes ao aborto e principalmente à entrada de homoxessuais nas forças armadas, mas que nada mais foi que um discurso anti-cristão e também à moral de um sujeito - o que na cabeça imbecil e superficial dele deve ser 'caretice'.

Lá, no blogue deste senhor Tony Belloto, há a aparência de 'liberdade de pensamento'. Hã? De fato há sim uma livre 'lambeção' de fãs a um ídolo de 'papel' e censura a qualquer tipo de crítica honesta e sincera. Ocupei-me de fazer um comentário contrário às vociferações do blogueiro, escritor, músico e 'cientista filósofo-social' e não tive minha postagem publicada. O professor Olavao de Carvalho classificou, certa vez, este mesmo senhor de 'moleque'; vejo que ele teve muita felicidade na escolha deste adjetivo para este Tony Belloto.

Mas não há problema, vendo que o assunto é sério para ser tratado de maneira fútil, publicarei aqui a impressão que tive do discurso dele. Não tenho pretensão de 'formar opinião', nem de ser escritor renomado, não tenho talento para a música nem para às ciências 'filósofo-sociais', não sou ídolo de ninguém e muito menos idolatrado; no entanto, reflito comigo mesmo sobre a responsabilidade que temos ao nos posicionarmos sobre determinado assunto - coisa que, muitas vezes, um homem público não faz com consciência. De modo que é válido esta minha indignação com a falta de consideração que recebi por ser apenas um cidadão autêntico - se por um lado, crítico, pelo outro, entretanto, um leitor que leu o texto e deu atenção a ele.

Talvez, desgraçadamente, seja necessário aos leitores irem ver primeiro o que escreveu na íntegra o senhor Tony Belloto. Então, aí está o link: Mais do Mesmo.

Lido o texto dele, eis o meu mal fadado comentário que lá não foi publicado:

"Meu Deus, perdoai-vo, ele não sabe o que diz. Este senhor, Tony Belloto, músico de quinta categoria no qual, em todo sua desprezível carreira, não conseguiu criar um riff de guitarra digno do instrumento que diz tocar, agora também se mete a dar pitacos em assuntos sérios e nos quais não tem a menor autoridade.

Impressionate ver um sujeito arrogante desses deferindo inverdades e blasfêmias sem antes ter feito um exame de sua própria consciência… Consciência imbecil, diga-se.

Primeiramente, senhor Tony Belloto, discursos anti-cristãos como esta palhaçada postada neste seu espaço sequelaram e sequelam milhares de vidas no mundo inteiro; tanto fisicamente como moralmente. Não moralismo, mas a moral de uma pessoa, a dignidade de consciência - coisa que vossa senhoria está longe de possuir.

Sair por aí dizendo ou escrevendo afetações ignóbeis sem ao menos ter a descência de se aprofundar no tema é coisa de mal caráter, de pulha positivista afransesado e fútil.

Não leia a primeira idiotice dessas suas fontes desprezíveis e tire uma conclusão precipitada, pense antes, reflita, sopese, aí discuta o assunto seriamente, seu moleque!

Você deveria ler As Confissões, de Santo Agostinho; ainda que vários pontos sejam apenas dogmáticos, a filosofia de Agostinho reflete magistralmente a angústia de se viver, do fado pesado que carregamos, de ter que tomar uma atitude, de se tentar descobrir a si mesmo e assim podendo, finalmente, dominar a própria consciência. Garanto que depois disso terás autoridade suficiente para olhar para si e analisar as atitudes e ações do seu próximo honestamente.

A ética por si só, como dizia, inclusive, o próprio Aristoteles no seu Ética a Nicomaco, é incapaz de estruturar a moral de uma pessoa. Por isto a religião, estabelicida muitos e muitos anos antes do seu infeliz nascimento neste mundo, orienta a consciência do homem. Não estou falando de crença, mas de conceitos. A hierarquia não pode ser quebrada de súbito, há um processo natural, lento, pensado, refletido, sopesado, e sabiamente discutido. Caso contrário, imaginemos um estado de liberdade total, onde não se respeita o outro em nome do ’sagrado direito’ de manifestação. Sinceramente, Tony Belloto, gostará de um dia estar andando na rua e ver sua família sendo molestada, física ou moralmente, não importa, e sem nem ao menos entender o porque de um ato tão violentamente reprovável? Você é um asno que não entende a complexidade do assunto que se propôs a tratar. Tenha bom senso e olhe pela janela da sua casa e tende enxergar o mundo, este país, a sociedade que vivemos como ela de fato é. Isto é muito para você?

Não sejas hipócrita, moleque! As coisas na sociedade não podem funcionar por subjetivismos; tudo que se pensa, que se quer, que se acha certo, não pode virar, de uma hora para a outra, ‘verdade’; existem regras; não as regras pífias de uma época, mas as estruturadas pela sabedoria do tempo, das várias gerações antecessoras. Por alusão apenas, como uma espécie de ‘evolução natural da humanidade’.

Quando eu tinha 16 anos, eu achava que o mundo seria mudado com liberdade e, deste modo, todas as pessoas seriam felizes. Ingenuidade de garoto... Não apenas porque felicidade é um conceito subjetivo criado por iluministas irresponsáveis, mas por não entender que apenas cumprimos papel nesta vida. Eu não tinha respostas, mas ainda assim as dizia. Não é assim, não simples desta maneira; o ser humano é antagônico por natureza. Nossa capacidade de conviver bem com nossos amigos, vizinhos, inimigos, pessoas boas ou más e que pensam diferente da gente está no talento com que fazemos exames de consciência, a todo momento se for possível. Já não sou mais um pueril adolescente, no entanto, ainda que provavelmente eu seja alguns anos mais novo que você, Tony Belloto, toda a minha pouca maturidade é maior que a sua.

Um bispo, um militar, não é contra o aborto por um simples capricho dogmático; da mesma maneira que manifestação gay em quartéis, ou seja lá o que for, não ocorre por acaso e sem consequências. Nestes assuntos que interferem na vida de muitas pessoas há sempre um motivo infinitamente discutido para se tomar uma atitude decisiva; isto é, sempre caberá revisão dos conceitos estabelecidos e eles não são imutáveis, sobremaneira. Eu não posso sair por aí e querer que todo mundo leia Machado de Assis, ouça Mozart ou Roberto Frejat (guitarrista criativo de verdade e o mais rock n' roll dos anos 80), ir na igreja e querer que o padre reze a missa em latim, ir no boteco e querer que a garçonete bonita sente comigo na mesa ou ir no meu banco e exigir que me cobrem taxas menores; deve haver um consenso das coisas se não viraria uma grande sociedade de imbecis. Já parou para pensar, Tony Belloto? Moleque burraldão! Segundo a ONU, o Brasil é um país campeão em homicídios em todo o mundo, mas é um dos últimos em educação. Então, seria muito pra você, se eu o fizesse refletir no sentido que o Brasil é um país de assassinos e burros? Caso você reflita honestamente saberá que a culpa é de textos iguais ao que você postou neste seu blog.

Se for o caso de o aborto ser legalizado, de fato, teremos que pensar nas consequências de um ato extremo destes, e ficarmos cientes da responsabilidade na qual estaremos assumindo. Ou pretende legalizar o aborto e deixar pra lá, que as mulheres resolvam; né, covardão! Por alusão, podemos refletir na mesma toada sobre união tutelada pelo Estado de gays e na entrada destes no exército, por exemplo; será mesmo que esta sociedade hipócrita está preparada para respeitar um homossexual defendendo uma instituição tão importante para as forças armadas?

Obviamente que só conhecendo uma pessoa no convívio, na manifestação de seus sentimentos profundos, em toda sua doçura e rudeza, só assim, poderemos saber (se bem que com margem ainda para alguns ou muitos erros) o seu caráter, nas suas atitudes e o porque do desenrolar dos fatos gerados por ela - seja ela gay, padre, soldado, presidente ou ‘músico escritor’.

Mas e a sociedade, esta estará lá no quartel vendo como aquela pessoa é boa e generosa ou julgará um evento destes de longe, de meios de comunicação que provavelmente o senhor, Tony Belloto, se informou? Mídias completamente viciadas por linhas de pensamentos que engessam qualquer análise genuína, criativa e construtiva neste país. E mais: o senhor, que na verdade é um moleque velho, estará lá recebendo a desmoralização de um órgão no qual não pertence? Não! Eu também não estarei lá! Nós não estaremos lá! Alguns, mais conscientes, saberão imediatamente distinguir as coisas e assim verificarão que não há mal algum em ter um homossexual nas forças armadas; mas e a população, os meios de comunicação, a imprensa, os humoristas… Enfim, não diga besteiras sem se aprofundar no tema; grande burraldo!

Desgraçadamente fui remetido ao seu ridículo blog com boas recomendações, mas vejo que tenho um amigo ‘ideologicamente’ superficial ou apenas fã dos Titãs; não sei bem até onde as pessoas conseguem separar as coisas.

Vejo no senhor, Tony Belloto, um sujeito que escreve mau num estilo confuso, balofo e positivista, que não tem sequer a dignidade de pensar antes de preencher linhas e linhas a esmo. Um sujeitinho mal caráter, que não tem ideia da importância das religiões instituídas para o mundo, seja crente em Deus ou mesmo ateu - porque não estou aqui discorrendo sobre dogmas, mas sim sobre as religiões há muito estabelecidas e a própria filosofia humana. Assim como você também é incapaz de ter compaixão pela dignidade e glória de homens verdadeiramente patriotas, os militares. Não o patriotismo de um pulha como Bilac, por exemplo, mas um patriotismo de um pai que vê um filho cometendo algo errado e usa de sinceridade para com ele, sem nenhum mau gosto.

Despedindo-me deste texto que já se estendeu por demais, digo que refletir é uma coisa boa e saudável, mas agir por impulso e sem responsabilidade com o discurso causam as verdadeiras mazelas deste nosso maravilhoso país. Não são os corruptos o mal, os corrompidos é que merecem censura. Pense, sopese, e discuta; seu moleque!"

Foi esta a minha crítica, será que ela foi justa ou, de fato, merecedora da censura, meu caro amigo leitor e minha queridíssima amiga leitora?


Por Ricardo Novais
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Blogue do 'moleque' Tony Belloto: Cenas Urbanas. A charge de Tony Belloto inserida neste texto é do artista Sapo. Asssista uma análise do filósofo Olavo de Carvalho sobre um artigo de Tony Belloto: Um Cocô. Texto que escrevi sobre Santo Agostinho: A Conversão do Jovem João Pedro. Outro sobre Fé e Ética: Fé ou Ética. E, também, sobre positivismo: Ao meu Amigo Positivista Com Carinho; Império da Mediocridade Repúblicana; Belle Époque.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Minha Adorável Garota Extraterrestre


"Bárbara, eu achava graça nas maluquices desta garota; ela dizia acreditar em seres de outros planetas. Irritava-se, verdadeiramente, quando eu contestava a veracidade dos casos; e ela repetia com tanta insistência, que, por vezes, acreditei serem reais:

- Mas, querida, “ets” não existem!

- Como não? No Apocalipse, o apóstolo João descreve que, num certo momento, Jesus está com ele e, de repente, é levado às alturas. João, num lance quase de excitação, começa a ver imagens que nunca tinha visto antes em sua vida. Era uma espécie de aves metálicas aparentando pesar uns quinhentos bois, mas consegue, como mágica, se sustentar no ar. Ora; este pode ser um dos primeiros registros em que um homem viu uma nave espacial...

- Ah, Bárbara! “Meu”; seres extraterrestres não conseguem se transportar para outras galáxias; que eu saiba, ser nenhum consegue. É impossível! Não é? – eu a achava espirituosa, mas permanecia incrédulo.

- Veja só! Como você explica, então, o caso daquela senhora, aqui de São Paulo, que morreu sem o rosto?

- O quê?

- Uma senhora, já idosa, foi encontrada sem rosto dentro de casa. O delegado que presidiu o inquérito policial disse que a face dela estava sem a pele e a carne. Apenas o crânio reluzente e branco. E o mais esquisito: totalmente limpa. Não havia vestígio nenhum, de sangue, de nada. Nem na cama ou no travesseiro. Além disso, a blusa branca que usava não aparentava marcas, nada. É muito estranho...

- Pode ser um assassino macabro...

- O delegado declarou: “Descarto a hipótese de assassinato, mas não do sobrenatural” – ela sorria sinistramente.

- Mas o rosto foi recortado sem derramar gota de sangue?

- Sim; e com precisão cirúrgica. Retiraram toda a carne ao redor...

- E por que um ser alienígena faria isto?

Bárbara fazia breves instantes de silêncio, porém, quando falava atemorizava até os mais incisivos incrédulos, como eu.

- A senhora morta estava muito velha e necessitava de cuidados especiais. Ela passava seus dias na cama. No dia do estranho acontecimento, à noite, perceberam que ela estava imóvel na cama. Chamaram, não houve resposta. Desesperados, saíram para chamar ajuda. Alguns policiais deram mesmo um grito de pavor...

Eu achei engraçado, quis dizer algo, mas ela não deixou:

- No exame necroscópico, os legistas responsáveis do Instituto Médico Legal, afirmaram que uma pneumonia bilateral e um choque séptico foram as causas da morte da pobre senhora, e que sua face teria sido comida por roedores...

- Está vendo; então foram os ratos ou, ainda, pode ter sido algum ácido – eu constatei para o desprazer de minha amada.

- A versão médica foi questionada pela polícia e pela família. Disseram os filhos da vítima não haverem ratos por lá. O delegado disse, também, ser a versão da perícia muito cômoda, pois que ratos deixam marcas, e o rosto dela parecia ter sido cortado com a ajuda de um bisturi. E depois de horas da morte, o corpo ainda permaneceu quente. Médicos americanos, chamados a dar opinião, igualmente discordaram do laudo que atestava os roedores como causadores do recorte do rosto.

- Então foram alienígenas?

Bárbara deu de ombros, em seguida, com muita espiritualidade, filosofou:

- Mais uma vez, as perguntas ficam no ar... Quem teria cometido tamanha monstruosidade? Vingança? Experiência alienígena? Algum ritual macabro? Nunca poderei saber. A verdade sobre este caso foi coberta por terra vermelha batida, e está numa quadra qualquer, de um conjunto ordinário, de um cemitério simples; local onde, agora, descansa a senhora sem rosto.

Na realidade, não era possível verificar se Bárbara acreditava mesmo nestas coisas. Mas que ela se divertia contando, ah, isto sim, como se divertia.

Neste momento, inclusive, recordo-me dela narrando, com extrema teatralidade, o caso de um cadáver que foi encontrado nas areias da zona praieira da região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro.

Dizia ela que foi passar férias por lá, num verão que já vai longe, e ouviu os “populachos” relatando a morte de um homem cujo corpo não tinha gota de sangue, e na altura do pescoço havia estranhas perfurações.

Sobre este caso, algumas testemunhas, contundentes, acusaram a uma loura, usando meias de lycra pretas, que rondara o local nefasto. Outras pessoas afirmavam ter visto a tal loura correndo semi-nua pela praia e desaparecendo nas águas.

Por mais incríveis que possam parecer os depoimentos, e apesar do descrédito geral, as mortes se seguiram. Primeiro uma menina, em seguida turistas tiveram pescoços dilacerados e seus corpos dessangrados.

Sendo assim, Bárbara jurava que as autoridades locais enviaram homens para patrulhar as praias e capturar a sereia assassina. No entanto, alguns patrulheiros foram brutalmente mortos e o restante da turma tiveram as pernas e os braços esquartejados. Corpos e partes de corpos espalhados ao longo da enseada. Os sobreviventes não tinham nem idéia do que havia os atacado. Disseram, apenas, ser uma mulher grande, pálida, olhos felinos, vermelhos, longos cabelos louros e dentes arreganhados. Os relatos indicavam que o monstro parecesse com uma criatura feminina, andava semi-nua e tinha apenas um seio.

Nas mãos de um dos mortos foi encontrado um amuleto, uma espécie de machado, manchado de sangue. Este amuleto é semelhante aos das lendárias amazonas, índias guerreiras que habitavam – ou ainda habitam, sabe-se lá – a região do rio de mesmo nome e assim batizado em homenagem às mitológicas mulheres guerreiras da antiga Grécia. A-ma-zo-nas!

Quando contestada sobre como e por que índias guerreiras da floresta amazônica deslocar-se-iam para a região dos lagos do Estado do Rio de Janeiro, Bárbara desconversava. Mudava logo para outro assunto macabro; como o do sacristão abduzido em plena Praça Mauá, na capital carioca, ou sugeria o quão terrível os exames que alienígenas impõem aos seus capturados em suas naves espaciais metálicas. A vergonha, o descrédito e mesmo a falta de conhecimento fazem com que as pessoas se calem; ela afiançava a mim estas coisas, sorrindo e beijando-me.

Bárbara se comportava comigo sempre assim, surpreendente. Nunca se sabia o que ela diria, o que faria, o que acreditava (se é que ela acreditava em algo nesta vida), e, sobretudo, qual seria seu humor. Ela mostrava-se uma mulher instável; mas devo confessar que isto era apaixonante. Não a via mais como um “casinho” de amor, ou apenas com olhos lascivos; já era mais do que isto. Aquela bela garota carioca, apimentada, olhos misteriosos, sedutora, também inteligente, convincente, temperamental, voluntariosa e indisciplinada, provocava-me com uma espécie inidentifícavel de 'ethos' de natureza emocionante.

- Por que você nunca fala aquela frase... de três palavras que perfazem toda a oração?

- Qual?

- Aquela frase mágica que os casais dizem entre si...

- Mas qual é?

Eu sabia qual era; não a dizia por graça, ou talvez por certa prudência demente. Mas, por fim, fascinado pelos encantos arrebatadores daquela garota, acabava capitulando:

- Eu te amo!"

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Caro leitor risonho e leitora adoravelmente incrédula, este texto não teve a pretensão de descobrir alguma verdade metafísica ou de além-humanidade, nem mesmo refletir sobre ela. É apenas um pensamento, quase uma sátira infantil, ingênua. Acredite!

Mas é notório que a tecnologia humana já é maior que sua responsabilidade, caso esta exista.

A ideia conjecturada da existência de vida de seres extraterrestres não me parece interferir nos desígnios das diversas dimensões espaciais. Já o homem, por outro lado, conhecendo sua natureza, tenderá por certo a uma grande dominação, manipulação, guerra, agressão e ao materialismo das dimensões a qual ele nem mesmo pertence. Pobres seres de outros planetas...

Quem sabe se houver, um dia, um crescimento espiritual antes do domínio tecnológico o homem poderá integrar-se de fato à vida em outras dimensões - mas repito, somente se houver responsabilidade.

Penso, contudo, que nesta sociedade humana atual isto parece impossível; como sabe.


Por Ricardo Novais
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* Post aludido à passagem curta do livro O Boêmio, Ricardo Novais, Bookess, São Paulo, 2009-2010; também leve impregnação à impressões pessoais ao filme Avatar. ** A foto de tirar o fôlego que encabeça o texto, denominada Deus Existe, foi tirada pelo magnífico artista Rui Lemes, http://twitpic.com/11qr6s. Rui Lemes é o blogueiro criador do Virgomundo. Twitter dele: @RuiLemes.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Conversão do Jovem João Pedro


Pedro Antônio nasceu numa grande cidade brasileira. Seus pais eram aparentemente um casal de classe média e pinguço. Mas seu pai beberrão desenvolveu sintomas alcoólicos de desintegração emocional sob a forma de perversão obsessiva e surtos de violência. Em decorrência disso, a mãe de Pedro voltou-se para a religião, repudiou o líquido pecaminoso e transformou suas frustrações e desapontamentos em ambições para o filho.

Desde o início a mãe de Pedro Antônio parece tê-lo oprimido, embora em nenhum momento ele ouse uma palavra contra ela, cujo cristianismo extravagante e puritano perpassa sua vida desde o primeiro sopro. "Eu era de fato um grande pecador", sempre comentava isso ele, sem ironia, a respeito de seu desgosto com a família e em relação às aulas.

Mais tarde, já adolescente, Pedro realmente sai da linha. Junto com colegas de escola, roubava para sustentar o vício recente com o álcool e drogas. Como resultado dessa vil iniquidade, entrega-se a uma orgia de autoflagelo que continua até o final das profundezas do abismo. "Eu estremeço ao olhar para isso ou pensar em tal abominação", vivia ele a repetir esta sentença.

Mas o que quer dizer tudo isso? Leitores com propensão à psicologia talvez encontrem traços simbólicos no jovem rapaz roubando para sustentar os vícios inerentes à sociedade, mas essa explicação seria por demais superficial e pouco reflexiva. A verdadeira vilã da história era definitivamente a mãe de Pedro Antônio.

Não havia dúvida que aquela mulher austera guiava a vida doméstica da família. Ela chegou inclusive a convencer o pai alcoólatra de Pedro a se converter ao cristianismo, provavelmente durante uma crise de alcoolismo, no ano anterior de sua morte. E quando ficou claro que o jovem filho havia herdado alguns dos inconfessáveis hábitos do pai, ele foi banido de casa. Mas por pouco tempo: a mãe era uma leoa que não admitia ter o filhote fora de sua garras.

Neste ínterim, Pedro Antônio continuava pelejando com seu problema. Desesperado, algumas vezes chegou mesmo a voltar-se para Deus, implorando-Lhe, tocante como Santo Agostinho em suas Confissões: "Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda". Não podia deixar Deus curar-lhe cedo demais das doenças viciosas que ele desejava por mais que fizesse exame de consciência.

Pedro era um garoto extremamente brilhante. Mais tarde, foi viver com uma mulher, com quem partilhou, pela primeira e única vez na vida, uma relação de amor e fidelidade. Ela chegou, inclusive a, acidentalmente, dar-lhe um filho. Mas o púbere, assim como sua amada, não vingaram em reiterada felicidade. Morreram.

Mas Pedro Antônio não era apenas um pedante que cultivava um problema; o desassossego que o conduziu em tais extremos de lascívia e de degradação também o guiou em direção à descoberta da verdade de si mesmo. Qual a razão desse comportamento? Como ele podia ser tão completa e mesquinhamente vil e corrompido e, ao mesmo tempo, aspirar com a mesma intenção à pureza?

A psicologia e a psiquiatria o enquadrariam na mais completa normalidade, mas aí seria muito desonesto com os próprios sentimentos; já o cristianismo oferecido pela mãe parecia demasiado simples para satisfazer seu intelecto exigente. Pedro precisava de uma explicação que fosse suficientemente profunda para que ele pudesse acreditar nela. Começou a se interessar pela filosofia, mas esta igualmente não oferecia uma solução.

Num verão qualquer, de um dia maravilhosamente imbecil, essa crise de espiritualidade deixou-o à beira de uma estafa mental. Perturbado pela raiva e pela angústia por seu estado de indecisão, buscou alívio na quietude do bar. Por um tempo, virou em doze copos violentamente doses dos mais variados destilados. Enfim, atirou-se sob à mesa e chorou copiosamente. Foi então que percebeu que milagrosamente não tinha sequer um mísero sinal de embriaguez. De início, pensou estar tão completamente bêbado que julgava estar sóbrio, quando de súbito compreendeu que não havia ingerido a bebida e apenas a colocado no copo, mas tão perturbado que estava imaginou o álcool descendo-lhe pela goela. Imediatamente parou de soluçar, levantou-se e foi para casa. Pegou de uma copia das Epístolas de São Paulo, que eram de sua mãe, abriu-a e leu as primeiras palavras que viu: "(...) não na orgia e na embriaguez, não na luxúria e na lascívia, não na disputa e na inveja. Ao invés disso, tome a si o Senhor Jesus Cristo e não se demore mais pensando na carne, a fim de saciar seus desejos".

Pedro Antônio fora convertido de maneira análoga a Santo Agostinho. Encheu-se de alegria a vida, muitos consideraram a conversão de rapaz tão corruptível um milagre. Contudo, devemos ser ainda mais reflexivos e verificar que, prestando atenção nas Epístolas de São Paulo, a voz de Deus não tem muita opção senão falar em termos cristãos. Tivesse Pedro Antônio, ou mesmo Santo Agostinho, examinado o Livro Egípcio dos Mortos, ou alguma outra passagem similar de mesma referência dogmática, tornar-se-ia hindu ou adoraria o Deus Sol .

Santo Agostinho foi um filósofo importante que fundiu o cristianismo ao neoplatonismo. Também produziu importantes e personalíssimas ideias filosóficas, incluindo teorias sobre o tempo e sobre o conhecimento subjetivo, as quais anteciparam em muitos séculos a obra de Kant.

Pedro Antônio morreu pouco depois de sua conversão atropelado por um caminhão (não se sabe se de bebidas) numa avenida movimentada no centro de uma das maiores cidades da humanidade. Foi o típico produto de nossa era.


Por Ricardo Novais
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* Conto inspirado nas Confissões, de Santo Agostinho, e nos caminhos que percorremos nesta nossa sociedade atual. ** A imagem que encabeça o texto é uma pintura de Fra Angelico, Conversão de S.Agostinho.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Oh, Verão Abstrato!


As coisas acontecem sem muita explicação. Não há culpa exclusiva pelo desenrolar dos fatos. Sinceramente acredito nos motivos, e concordo com eles. No entanto, tinha a esperança que caminhássemos juntos, nem que fosse por um instante. Mas caminhastes com as próprias pernas; talvez, poderia ter dado certo... Poderia, mas não aconteceu. Outras vezes somos carregados porque não temos condições de caminharmos sozinhos. Quando no máximo, tudo que desejamos é caminhar ao lado de quem gostaria de caminhar ao nosso lado.


O verão não é uma estação para afeições, tudo é alegre, insano, efêmero e superficial. O sol brilha mais que os pensamentos, a chuva nunca consegue lavar totalmente os sonhos e as palavras são ditas sob efeito de forte calor. Se ainda tivéssemos tomado sorvete juntos...


O amor que quase aconteceu é a prova irrefutável que a vida segue um curso ilógico. Atormenta as ideias, insurge o juízo, abre sorrisos espontâneos. Umas rosas muito vermelhas e bonitas eu via de um jardim muito longe. Os raios imaginários do sol nos fazia dançar, e aos pássaros cantar; já os animais em conluio com a natureza de realidade intangível contemplava-nos. Mas o dia foi tão belo que tudo se afetou... E as coisas viraram memórias em questão de instantes.


Um animal muito sábio conhecesse também seu caminho, mas há de se olhar para trás e ver quem é o caçador implacável que está no encalço. Todos os inimigos entre a vegetação rasteira de uma colina muito alta.


Por estes vales verdes e encharcados pela chuva ainda nos veremos; isto faz perceber como sonhar é incrível. Não quero que nada aconteça sem antes ter certeza de onde ir. Se não nos acharmos por muito tempo, ainda assim, saberemos quem somos... A estação é muito alegre para tanta absorção. Deixemos o verão passar...


Assim como neste insano texto, o clima quente e ocioso faz tudo maravilhosamente perder o sentido. As rosas de ontem já estão murchas...



Por Ricardo Novais


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Nascer... Viver... e no Santos Morrer...



Rei e príncipe pousam juntos no gramado da Vila Belmiro. A cidade de Santos vive um de seus dias mais especiais. Os torcedores se emocionam vendo Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos, de mãos dadas com um de seus maiores ídolos, o atacante Robinho.


Entre palavras entrecortadas, Robinho recebe do rei Pelé a camisa de número 7 e a veste imediatamente. Com lágrimas, vislumbrado com as arquibancadas do Urbano Caldeira ovacionado o 'rei das pedaladas'.


O jovem talento Neymar vestia até então a camisa 7. Agora ela será de Robinho. Este número enigmático, Garrincha foi com certeza o mais famoso ponta-direita da história do futebol. Mas no próprio Santos FC, houveram muitos jogadores que se notabilizaram nesta mesma posição. Mané Maria jogou com a 7 do Peixe num dos times mais fantásticos que já foram formados no planeta. Eram outros tempos, não havia coisa mais extraordinária no esporte que os 'fantasmas da Vila Belmiro'.


Robinho chega ao Santos por empréstimo, vindo do Manchester City da Inglaterra. Ele foi Bi-Campeão Brasileiro e é um dos 'pré-convocados' de Dunga para a Seleção Brasileira que vai à Copa do Mundo da África no meio do ano.

O torcedor santista sonha com pedaladas, gols e títulos para o alvinegro prainao. Seja bem-vindo craque, mestre das jogadas de habilidade; assim como Mané Maria, inventor do drible conhecido como 'chicote', que consiste na bola quicar no gramado e encobrir o adversário. Um doa maiores clubes de futebol do mundo repatriou um dos maiores ídolos criados na própria Vila Belmiro.


Por Ricardo Novais

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Fé ou a Ética?

Abraão, o pai da fé.

Numa sociedade onde se tem a sensação de que a corrupção ronda seus salões, onde eleitores não confiam em seus eleitos, onde a mídia 'mascara' a essência dos fatos e das ações, ou onde a fé é vista como retrocesso e, por isto mesmo, o 'cientificismo positivista' é enaltecido, onde, aliás, comemora-se até um evento fútil e imbecil denominado #lingerieday, surge a pergunta: o que é ética?

Søren Aabye Kierkegaard, no livro Temor e Tremor, descartando qualquer pretensão de ser um filósofo, pelo menos no sentido hegeliano, tende à visão de cristão - quer dizer, analisa a ética do ponto vista da crença religiosa.

Mesmo assim, o que ele diz evidentemente tem importância tanto filosófica como religiosa. Mas ele se fixa essencialmente no campo do ético, demonstrando-se plenamente consciente das visíveis limitações da esfera à qual pertence. Mais especificamente, ele está preocupado com a inabilidade dela em abranger os fenômenos da fé.

A sua insistência nesse ponto pode, é claro, ser tomada como indicação da divergência de sua abordagem com Kant e Hegel. Esses dois autores procuraram, ainda que de maneiras diferentes, assimilar ou subordinar a noção de fé religiosa a outras categorias do pensamento - Kant classificava suas asserções como postulados da razão prática ou moral, Hegel a via como prefiguração, num nível pictórico ou imaginativo, de ideias da consciência que conseguiam articulação racional dentro da estrutura de sua própria teoria filosófica, que a tudo abrangia.

Em Temor e Tremor, por outro lado, a fé é representada como possuindo uma condição inteiramente diferente: está além dos domínios do pensamento ético e resiste à elucidação, seja em termos universais ou racionais. Isso não significa, contudo, que a fé deva ser vista como algo essencialmente primitivo ou não merecedor de respeito; não é "uma doença infantil de que alguém deseje se livrar o quanto antes". Ao contrário, o livro conclui com a observação de que a fé é "a mais elevada paixão de uma pessoa". Além do mais, é sugerido, em toda a obra, que somente um indivíduo moralmente sensível e maduro tem condições de reconhecer as dimensões de suas misteriosas e severas exigências.

Ainda que a aceitação dogmática de Kierkegaard, que por mais que se esforçasse não conseguia libertar a própria alma em sua coerente teoria existencialista - posto, quiçá por seu pai ter amaldiçoado Deus pelos infortúnios de sua vida sendo, por ventura, agraciado pelos Céus e castigado logo depois pelo pecado, de tal modo que a maldição recaiu sobre toda a família, ascendentes e descendentes, e o temor podava a metafísica do filósofo - a mim parece que os preceitos de moral da fé religiosa levantadas por Kierkegaard são mais eficazes que a moral da ética 'científica'. Posto que esta ética, essencialmente em moldes positivistas e galicistas, forma uma sociedade assassina e burra.

Acatando-se ao pensamento de Søren Kierkegaard: “É com a subjetividade que o cristianismo esta ligado, e é somente na subjetividade que a verdade existe, se é que existe; objetivamente, o cristianismo não existe em absoluto!

Mesmo que as ideias aqui relembradas e levantadas não contenham a verdade essencial de todas as coisas, a fé religiosa não tem que provar a superioridade de sua moral. Neste caso, o ônus da prova é de quem contesta e não de quem afirma, pois a fé existe e está estabelecida desde o início da humanidade. Portanto, incorre em erro aquele que não crê por não haver provas materiais do supremo, aqueles 'cientistas' e ateus inveterados que, ao invés de discutir e desenvolver o tema com argumentos, insistem pateticamente em desqualificar a fé religiosa ou a crença de uma pessoa contestando sua existência ou renegando-a no campo psicológico.

Não te parece que a fé religiosa é moralmente superior a ética?


Por Ricardo Novais
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* Sǿren Aabye Kierkegaard, filósofo dinamarquês, nascido em Copenhague, em 1813, e morto na mesma cidade, em 1855. Concluding Unscientific Postscript, tradução de D.F. Swenson e W. Lowrie, Princeton, Princeton Univercity Press, 1941.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Meus 456 Anos...


Eu nasci em São Paulo, sou produto desta cidade. Como a pedra inicial que constrói a edificação, uma personalidade que se preze deve também começar pelo ambiente mais trivial.


O ambiente é tudo nos caminhos e descaminhos de nossas vidas. A família, os amigos, a escola, a religião, o trabalho...; a sim: as paixões. Neste ínterim, a própria região do nascedouro e da morada será sempre a paixão; seja como objeto em si mesmo, seja como sustentação do objetivo desejado. A cidade é fundamental na formação não apenas do cidadão, mas da própria essência do ser humano; assim, tanto aqui como ali, serão sempre as reminiscências das memórias de nossas vidas que nos formarão como homens.


Eu sou a cidade de São Paulo. Considerando que a cultura é o resultado do desenvolvimento intelectual de um povo, devo lembrar a nossa dependência cultural em relação a Portugal, pois, por muito tempo, somente recebíamos influência externa através desta Metrópole. Os paulistas não foram diferentes. Todos os costumes, ensinamentos e tradição oriunda dos nossos portugueses perfizeram esta nossa civilização bandeirante; ainda que mais tarde, tanto no planalto paulista como no maciço carioca, a cultura afrancesada tenha se sobressaído em nossa pungente sociedade. Em todo o caso, não tínhamos mesmo por aqui, naquele tempo, nem a peste negra, nem um heróico príncipe de coração negro, muito menos um rei usurpador que casasse com alguma princesa francesa; aliás, nem corte havia por essas bandas... Éramos apenas uns selvagens que viviam na acomodação da natureza, nas crenças e numa arquitetura primitiva.


Por outro lado, tendo em vista que nossos primeiros educadores foram os padres jesuítas, nós nos tornamos pessoas impregnadas pela preocupação em elevar a alma a Deus, procurando a servi-Lo. São Paulo nasce à sombra do infinito poder de Nosso Senhor, sob a qual se adequaram, respeitosamente, as formas institucionais do poder dos homens e suas sedes – primeiro com humildes construções de taipa, depois palácios de alvenaria e mármore. Portanto, bendito seja Padre Manuel da Nóbrega, que trouxe do Arquipélago das Canárias o nosso José de Anchieta; pois, posteriormente, designou-o da Capitania da Bahia para a Capitania de São Vicente.


Ainda que desde 1502 tenhamos expedições por terras paulistas, apenas em 25 de janeiro de 1554 que tivemos instalado no Planalto de Piratininga (peixe seco, em linguagem nativa), pela graça Divina, um colégio para catequese dos indígenas. Os índios eram uns bestiais selvagens que não conheciam a Palavra de Deus!


Anchieta descreveu os primeiros anos do colégio: “Nesta aldeia, cento e trinta de ambos os sexos foram chamados para o catecismo e trinta e seis para o batismo, os quais todos os dias são instruídos na doutrina e operações em português e na sua própria língua”.


Belo desenho de Debret sob visão da cidade de São Paulo em 1827.


Esta humilde palhoça, erguida pelos jesuítas, foi a pequena semente que deu origem à megalópole mundial. O dia escolhido pelos bons missionários, para a fundação do colégio, foi o dia da conversão do santo apóstolo São Paulo; este também ficou sendo o padroeiro que deu nome ao recém-inaugurado povoado. Melhor dizendo, o verdadeiro padroeiro para o povo paulista é Frei Galvão; porém, não fosse à perspicácia de José de Anchieta, onde estariam todos os patronos bandeirantes? Portanto, roguemos juntos: não vos esqueceis de nossa devoção, principalmente nas enchentes...


Ensinamentos dentro de uma celeuma de idiomas, dentre os que compartilhavam o castelhano, o português e a língua tupi, dentro de pouco tempo pode se traduzir o catecismo para os selvagens no seu próprio dialeto. Isto facilitou a empreitada dos novos aventureiros, já que os antigos, os índios, eram exímios conhecedores da colina circundada pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Naquela época, não se contavam mais que 30.000 mil pessoas, numa vasta região de planalto com, aproximadamente, 800 metros do nível do mar.


São Paulo, como é da percepção do leitor, vivenciou grandes acontecimentos da vida nacional: a independência, os movimentos abolicionista e republicano, políticas de Estado, greve de operários das indústrias em 1917, revoluções contra as agruras da opressão, para citar apenas alguns eventos. Entretanto, o orgulho paulista é, sem dúvida alguma, serem os maiores responsáveis por alargar as fronteiras brasileiras, perfazendo um território enorme e construindo uma grande nação ou, pelo menos, uma nação grande... Isto só foi possível com o advento das Entradas e Bandeiras.


Um herói. A pose altiva, o olhar penetrante, as armas novas e a roupa impecável; assim são reverenciados os nossos distintos e audazes bandeirantes paulistas. Pouco importa se o desbravador não era branco e sim mameluco, manuseava com presteza tanto o arcabuz quanto o arco e flecha e falava mais tupi do que português; aliás, como a maioria dos paulistas.


A paisagem fantástica na realidade era dramática. Aguerridos homens saiam de São Paulo para floresta atlântica. Um mar de árvores que eram abertos a golpes de facão, e, além disso, os audazes expedicionários eram sujeitados a todas as dificuldades e aos perigos de uma vida selvagem ao extremo.


Diz a velha fábula carioca que tudo não passou de um mito paulista criado no período da proclamação da República, em 1889, e em suas primeiras décadas; pois os cafeicultores se tornaram, a um só tempo, a elite econômica e política do País, sendo assim, o sertanejo bandeirante servia como sugestão histórica de que o poder deveria emanar de São Paulo, já que seu povo era descendente de bravos comandantes natos. Porém, isto pode soar injusto aos ouvidos de quem vive entre a Serra do Mar e o restante do planalto oeste, posto que seja da natureza paulista conduzir o Brasil da ordem e do progresso. De qualquer forma, no século XX, o que era apenas sugestão histórica virou política pública.


Entretanto, tudo seria impossível se estes desbravadores do sertão não tivessem a ajuda dos índios; por sinal, creia meu incrédulo amigo e minha melindrada amiga, por aqui os selvagens colaboraram na captura de membros de sua própria tribo. Bendito sejais os ensinamentos jesuíticos!


Em longas andanças, nossos bravos exploradores aumentaram o território da colônia vencendo os domínios do subjugado Tratado de Tordesilhas. Isto mesmo! Os sertanistas contribuíram para o estabelecimento das dimensões territoriais desta nossa amada pátria; ainda que movidos pelo desejo de sobrevivência. A ocupação dá o direito a terra! Portanto, os bandeirantes são heróis sem terem tido este intuito.


Não obstante, existiu algum tipo de brutalidade e ataques-surpresa onde morriam alguns selvagens. A causa era que o terror evitasse que os remanescentes resistissem. Onde havia missionários, entre as tribos, os índios se refugiavam em suas igrejas. Tentativa desesperada de escapar do pavor bandeirante. Saliento o relato do reverendíssimo jesuíta Antônio Ruiz de Montoya: “Entravam ao som de caixa e em ordem militar (...), destroçando índios à machadadas; os matavam como no matadouro se matam vacas, tomaram por alfaias litúrgicas e chegaram mesmo derramar os santos óleos pelo chão”.


Mas, ora! Indígenas sequer eram cristãos! Deste modo, não me interprete mal, mas decapitações e esquartejamentos perfazem estratégias prosaicas. Inadmissível, porém, apenas a concupiscência carnal dos paulistas deflorando as mulheres dos indígenas. Afinal, o que é a vida perto da honra?


Em todo o caso, não creio ser de intenção dos jesuítas demonizar os sertanistas, posto que muitos religiosos também participassem das bandeiras. De modo que grandes paulistas delinearam a história, e, por que não, o caráter de um país. E é nesta cidade e neste País que nasci...


Eu vivo nesta cidade, mas esta cidade também vive em mim; desde antes, desde a cidade antiga, da cidade que cheirava a cavalo, destruída pelo progresso, da velha Rua Quinze, tão afrancesada, com aqueles complexos trilhos dos bondes, de homens de chapéu e gravata borboleta; e se a garoa ainda é quase a mesma, agora, todavia, sinto falta das íntimas calçadas de pedra que, por sua vez, deram lugar a uma outra sociedade de sofisticados cafés, elegantes vestimentas, a uma cidade toda vertical, a uma nova São Paulo. Porém, esta gigante urbe Paulicéia continua a ser minha edícula. Quando coloco meus pés para fora do portão de casa e vejo as ruas, é como se eu estivesse saindo do meu quarto para me reunir na sala de jantar com minha família. Uma família bem grande, de muitos milhões de parentes.


Eu não posso deixar esta metrópole; minha vida está nela. Assim, com ou sem amor, com ou sem sucesso, serei sempre um autêntico filho desta terra. Serei sempre um Paulistano! Um Paulista! Um Brasileiro! Todas as minhas virtudes e todos os meus vícios foram neste panorama contextual de vida urbana. Espero conseguir, um dia, absolvição, declaração, indulto, remissão e amor.


Sinto que estou perdoado, o coração me diz. Coração contraditório, airoso, palpitante. Coração de São Paulo!


Nas madrugadas frias, sopa de cebola no CEAGESP, nas madrugadas quentes, chope gelado na Vila Madalena. Sou um homem da noite, por tal motivo minha confissão foi no crepúsculo paulistano e não haveria forma de ser diferente...


Desenho de Diva Benevides Pinho.

Tudo que eu já vivi nesta minha breve história pode ser apenas o prelúdio de minha vida... A vida que virá... Sou e sempre serei uma herança dos bandeirantes à cidade provinciana, da cidade à região desenvolvida, da região à metrópole nacional, e, por fim, da metrópole à megalópole mundial. CRESCER, CRESCER, CRESCER...


Por Ricardo Novais

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* Texto inspirado em reflexões do livro O Boêmio, Ricardo Novais, Bookess, São Paulo, 2009-2010.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

São Sebastião do Rio de Janeiro


Neste dia de São Sebastião, daqui onde moro, vêm algumas reminiscências do ontem. Aquelas lembranças que teimam em visitar as retinas nos dias santos. Hoje é feriado, sempre será, não importa onde eu esteja; é um dia que perfaz o amor que tenho por esta terra de brasileiros.


Do local onde nasci, em São Paulo, uma cidade cinza, eu apreciava todas aquelas pessoas, meus conterrâneos correligionários, que querem a todo custo subir o elevador social numa escalada do sucesso. As consequências são impresumíveis para os que só podem ascender na vida pela escada de serviço; mas, contudo, todos passam um por cima do outro ou, ainda, de quem tiver a infelicidade de estacionar pelos degraus.



Por outro lado, no entanto, havia aprendido também a amar um povo risonho, de braços abertos, no que implica a orla marinha atracando-se com o morro e a colina, pelas insígnias e os títulos de nobreza e as comendas de respeito. Mas todos se banhando no mesmo mar...


Naquela época, comportava-me como um garoto. Pouco para pensar e, ainda por cima, muito jovem para ser feliz. Dos ensinamentos de São Paulo, levei em mim o gosto pelas pílulas de chocolate com café preto sem açúcar; de resto, a escola só me serviu para classificar minha confusão de pensamento na qual se apresentaria pelos caminhos que segui nesta pobre vida.



Deste modo, São Sebastião do Rio de Janeiro, dos “zé-pereiras” e do morro Cara de Cão rondando o aterro do Flamengo, influiu em minha alma adentrando meu coração pela Baía de Guanabara. O lado que ia do Cristo Redentor à Marina da Glória e de lá ao Engenho era minha área; aquela era a minha cidade maravilhosa! Se eu tinha meus limites tamoios na minha terra da garoa, no sentido linear, entre o mar e o maciço Carioca, eu era um autêntico Goitacá em um campo dos goitacás.


Corria atrás das moças da Urca, da Praia Vermelha, do Leme e de Copacabana. Eu bebia no centro, em Santa Teresa, indo descobrir a tradição do Bambo dos Tangarás em Vila Isabel. Percorria a zona da boemia onde Alfredo da Rocha Viana, o Pixinguinha, Afonso Henriques de Lima Barreto e, mais tarde, um certo Vinicius sonharam os amores mais impossíveis; numa esquizofrenia subjetiva pelos bares da Lapa, o teatro e o cinema. Da mesma maneira, andando a esmo pela Rua do Lavradinho, ébrio com outros amigos patuscos, admirando o monumental colonial do Aqueduto Carioca, enfim, sempre à procura de novas peripécias, passando pelo prédio de leitura por causa das estudantes de jornalismo. Admirava as ideias de Roberto Burle Marx rompendo com aquela suntuosidade dos jardins franceses, muitas vezes ambientes particulares e fúteis, e semeando, no Aterro do Flamengo, um paisagismo autêntico, típico de nossas florestas, com áreas e plantas contornadas pela identidade da própria América. Além disso, sem conseguir desviar meu instinto, eu tentava me recuperar na Presidente Vargas - às vezes, num desalento alcoólico, desmaiava em alguma calçada na Rua da Alfândega. Aí aceitava todos os convites atraentes para aventurar-me a subir, na contramão, a Baixada afora, desde as refinarias de Caxias às contentes ruas de Nova Iguaçu e Belford Roxo; aliás, a Baixada Fluminense, talvez aliada ao subúrbio carioca, é forma sintomática do cotidiano operacional, e também social, do Estado Federativo do Rio de Janeiro.


E o cotidiano da cidade perfaz sua sociedade. O Municipal do Rio, tradicional casa da alta casaca, certa vez, viu-se em dificuldade no período da Segunda Grande Guerra; não conseguiam trazer artistas da França, Alemanha ou outro País ordinário da Europa. Sendo assim, não vendo outra saída para conceber seus grandiosos espetáculos, os regentes se renderam as insistentes investidas do jovem compositor carioca Heitor Vila-Lobos, que já sonhava, havia muito tempo, em se apresentar no palco daquele importante teatro, mas não lhe davam chance. Apenas numa sociedade tão controversa poder-se-ia ver surgir, por causa de uma guerra, um maestro tão genial como Vila-Lobos, e mesmo assim teimaram os elegantes nevrálgicos do Rio sofisticado em tecerem primeiras críticas negativas e maledicentes à obra, e a pessoa, do criador do movimento nacionalista musical brasileiro.


O caráter de comédia ridícula desta cidade impregnou-se em mim; ou antes, era minha conduta de traços típicos que casou como luvas em mãos aos hábitos cariocas. Não sei o que houve primeiro... Contudo, minha alma, em essência, é paulista, e nunca tive muito jeito para a contemplação verdadeira da identidade fósmea deste País, o samba. Mas, em compensação, sempre tive disposição para hipocrisia, cerveja, mulher e alegria!


Eu fui bem integrado no folclore e na tradição do Rio. Minha alma fundiu-se com os costumes, as lendas e os mitos da cultura carioca.



Ei-lo o Rio de Janeiro! Que bom que me acompanhou nesta aventura na cidade maravilhosa, meu amigo leitor excursionista e grande companheiro de viagem. Já a dona leitora, “carioca da gema”, que mora em tão deslumbrante pedaço deste grandioso (e grande) País, agradeço pela orientação nesta peripécia. Não me deixou percorrer caminhos muito tortuosos, navegar por mares infestados de piratas ou caminhar por praias onde fosse alvo muito fácil... Tão logo voltarei a esta cidade que tanto amo, que tanto admiro e que é a minha própria identidade. Por favor, amiga querida, quando meu amigo leitor e eu voltarmos solicitarei novamente seus préstimos; não nos deixe a esmo nesta terra de bons malandros. Guie os olhos deste distraído autor, e também os do viajante que me acompanhará, em mais uma fascinante viagem. Grato!



Por Ricardo Novais

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* A arte de pintura que emoldura o texto é do Atelier J.Victtor, artista do tradicionalíssimo bairro de Santa Teresa, cidade do Rio de Janeiro. ** Texto aludido à passagem do livro O Boêmio, Bookess, São Paulo, 2009-2010.

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