Um pulha, chamado Tony Belloto (charge), guitarrista dos Titãs e escritor, postou um artigo no blogue dele no qual pretendia ser sobre discussões relevantes ao aborto e principalmente à entrada de homoxessuais nas forças armadas, mas que nada mais foi que um discurso anti-cristão e também à moral de um sujeito - o que na cabeça imbecil e superficial dele deve ser 'caretice'.terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Recado Para Tony Belloto, um Moleque!
Um pulha, chamado Tony Belloto (charge), guitarrista dos Titãs e escritor, postou um artigo no blogue dele no qual pretendia ser sobre discussões relevantes ao aborto e principalmente à entrada de homoxessuais nas forças armadas, mas que nada mais foi que um discurso anti-cristão e também à moral de um sujeito - o que na cabeça imbecil e superficial dele deve ser 'caretice'.domingo, 7 de fevereiro de 2010
Minha Adorável Garota Extraterrestre

"Bárbara, eu achava graça nas maluquices desta garota; ela dizia acreditar em seres de outros planetas. Irritava-se, verdadeiramente, quando eu contestava a veracidade dos casos; e ela repetia com tanta insistência, que, por vezes, acreditei serem reais:
- Mas, querida, “ets” não existem!
- Como não? No Apocalipse, o apóstolo João descreve que, num certo momento, Jesus está com ele e, de repente, é levado às alturas. João, num lance quase de excitação, começa a ver imagens que nunca tinha visto antes em sua vida. Era uma espécie de aves metálicas aparentando pesar uns quinhentos bois, mas consegue, como mágica, se sustentar no ar. Ora; este pode ser um dos primeiros registros em que um homem viu uma nave espacial...
- Ah, Bárbara! “Meu”; seres extraterrestres não conseguem se transportar para outras galáxias; que eu saiba, ser nenhum consegue. É impossível! Não é? – eu a achava espirituosa, mas permanecia incrédulo.
- Veja só! Como você explica, então, o caso daquela senhora, aqui de São Paulo, que morreu sem o rosto?
- O quê?
- Uma senhora, já idosa, foi encontrada sem rosto dentro de casa. O delegado que presidiu o inquérito policial disse que a face dela estava sem a pele e a carne. Apenas o crânio reluzente e branco. E o mais esquisito: totalmente limpa. Não havia vestígio nenhum, de sangue, de nada. Nem na cama ou no travesseiro. Além disso, a blusa branca que usava não aparentava marcas, nada. É muito estranho...
- Pode ser um assassino macabro...
- O delegado declarou: “Descarto a hipótese de assassinato, mas não do sobrenatural” – ela sorria sinistramente.
- Mas o rosto foi recortado sem derramar gota de sangue?
- Sim; e com precisão cirúrgica. Retiraram toda a carne ao redor...
- E por que um ser alienígena faria isto?
Bárbara fazia breves instantes de silêncio, porém, quando falava atemorizava até os mais incisivos incrédulos, como eu.
- A senhora morta estava muito velha e necessitava de cuidados especiais. Ela passava seus dias na cama. No dia do estranho acontecimento, à noite, perceberam que ela estava imóvel na cama. Chamaram, não houve resposta. Desesperados, saíram para chamar ajuda. Alguns policiais deram mesmo um grito de pavor...
Eu achei engraçado, quis dizer algo, mas ela não deixou:
- No exame necroscópico, os legistas responsáveis do Instituto Médico Legal, afirmaram que uma pneumonia bilateral e um choque séptico foram as causas da morte da pobre senhora, e que sua face teria sido comida por roedores...
- Está vendo; então foram os ratos ou, ainda, pode ter sido algum ácido – eu constatei para o desprazer de minha amada.
- A versão médica foi questionada pela polícia e pela família. Disseram os filhos da vítima não haverem ratos por lá. O delegado disse, também, ser a versão da perícia muito cômoda, pois que ratos deixam marcas, e o rosto dela parecia ter sido cortado com a ajuda de um bisturi. E depois de horas da morte, o corpo ainda permaneceu quente. Médicos americanos, chamados a dar opinião, igualmente discordaram do laudo que atestava os roedores como causadores do recorte do rosto.
- Então foram alienígenas?
Bárbara deu de ombros, em seguida, com muita espiritualidade, filosofou:
- Mais uma vez, as perguntas ficam no ar... Quem teria cometido tamanha monstruosidade? Vingança? Experiência alienígena? Algum ritual macabro? Nunca poderei saber. A verdade sobre este caso foi coberta por terra vermelha batida, e está numa quadra qualquer, de um conjunto ordinário, de um cemitério simples; local onde, agora, descansa a senhora sem rosto.
Na realidade, não era possível verificar se Bárbara acreditava mesmo nestas coisas. Mas que ela se divertia contando, ah, isto sim, como se divertia.
Neste momento, inclusive, recordo-me dela narrando, com extrema teatralidade, o caso de um cadáver que foi encontrado nas areias da zona praieira da região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro.
Dizia ela que foi passar férias por lá, num verão que já vai longe, e ouviu os “populachos” relatando a morte de um homem cujo corpo não tinha gota de sangue, e na altura do pescoço havia estranhas perfurações.
Sobre este caso, algumas testemunhas, contundentes, acusaram a uma loura, usando meias de lycra pretas, que rondara o local nefasto. Outras pessoas afirmavam ter visto a tal loura correndo semi-nua pela praia e desaparecendo nas águas.
Por mais incríveis que possam parecer os depoimentos, e apesar do descrédito geral, as mortes se seguiram. Primeiro uma menina, em seguida turistas tiveram pescoços dilacerados e seus corpos dessangrados.
Sendo assim, Bárbara jurava que as autoridades locais enviaram homens para patrulhar as praias e capturar a sereia assassina. No entanto, alguns patrulheiros foram brutalmente mortos e o restante da turma tiveram as pernas e os braços esquartejados. Corpos e partes de corpos espalhados ao longo da enseada. Os sobreviventes não tinham nem idéia do que havia os atacado. Disseram, apenas, ser uma mulher grande, pálida, olhos felinos, vermelhos, longos cabelos louros e dentes arreganhados. Os relatos indicavam que o monstro parecesse com uma criatura feminina, andava semi-nua e tinha apenas um seio.
Nas mãos de um dos mortos foi encontrado um amuleto, uma espécie de machado, manchado de sangue. Este amuleto é semelhante aos das lendárias amazonas, índias guerreiras que habitavam – ou ainda habitam, sabe-se lá – a região do rio de mesmo nome e assim batizado em homenagem às mitológicas mulheres guerreiras da antiga Grécia. A-ma-zo-nas!
Quando contestada sobre como e por que índias guerreiras da floresta amazônica deslocar-se-iam para a região dos lagos do Estado do Rio de Janeiro, Bárbara desconversava. Mudava logo para outro assunto macabro; como o do sacristão abduzido em plena Praça Mauá, na capital carioca, ou sugeria o quão terrível os exames que alienígenas impõem aos seus capturados em suas naves espaciais metálicas. A vergonha, o descrédito e mesmo a falta de conhecimento fazem com que as pessoas se calem; ela afiançava a mim estas coisas, sorrindo e beijando-me.
Bárbara se comportava comigo sempre assim, surpreendente. Nunca se sabia o que ela diria, o que faria, o que acreditava (se é que ela acreditava em algo nesta vida), e, sobretudo, qual seria seu humor. Ela mostrava-se uma mulher instável; mas devo confessar que isto era apaixonante. Não a via mais como um “casinho” de amor, ou apenas com olhos lascivos; já era mais do que isto. Aquela bela garota carioca, apimentada, olhos misteriosos, sedutora, também inteligente, convincente, temperamental, voluntariosa e indisciplinada, provocava-me com uma espécie inidentifícavel de 'ethos' de natureza emocionante.
- Por que você nunca fala aquela frase... de três palavras que perfazem toda a oração?
- Qual?
- Aquela frase mágica que os casais dizem entre si...
- Mas qual é?
Eu sabia qual era; não a dizia por graça, ou talvez por certa prudência demente. Mas, por fim, fascinado pelos encantos arrebatadores daquela garota, acabava capitulando:
- Eu te amo!"
__ / ______
Caro leitor risonho e leitora adoravelmente incrédula, este texto não teve a pretensão de descobrir alguma verdade metafísica ou de além-humanidade, nem mesmo refletir sobre ela. É apenas um pensamento, quase uma sátira infantil, ingênua. Acredite!
Mas é notório que a tecnologia humana já é maior que sua responsabilidade, caso esta exista.
A ideia conjecturada da existência de vida de seres extraterrestres não me parece interferir nos desígnios das diversas dimensões espaciais. Já o homem, por outro lado, conhecendo sua natureza, tenderá por certo a uma grande dominação, manipulação, guerra, agressão e ao materialismo das dimensões a qual ele nem mesmo pertence. Pobres seres de outros planetas...
Quem sabe se houver, um dia, um crescimento espiritual antes do domínio tecnológico o homem poderá integrar-se de fato à vida em outras dimensões - mas repito, somente se houver responsabilidade.
Penso, contudo, que nesta sociedade humana atual isto parece impossível; como sabe.
Por Ricardo Novais
______________________________________________________________
* Post aludido à passagem curta do livro O Boêmio, Ricardo Novais, Bookess, São Paulo, 2009-2010; também leve impregnação à impressões pessoais ao filme Avatar. ** A foto de tirar o fôlego que encabeça o texto, denominada Deus Existe, foi tirada pelo magnífico artista Rui Lemes, http://twitpic.com/11qr6s. Rui Lemes é o blogueiro criador do Virgomundo. Twitter dele: @RuiLemes.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
A Conversão do Jovem João Pedro

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Oh, Verão Abstrato!

As coisas acontecem sem muita explicação. Não há culpa exclusiva pelo desenrolar dos fatos. Sinceramente acredito nos motivos, e concordo com eles. No entanto, tinha a esperança que caminhássemos juntos, nem que fosse por um instante. Mas caminhastes com as próprias pernas; talvez, poderia ter dado certo... Poderia, mas não aconteceu. Outras vezes somos carregados porque não temos condições de caminharmos sozinhos. Quando no máximo, tudo que desejamos é caminhar ao lado de quem gostaria de caminhar ao nosso lado.
O verão não é uma estação para afeições, tudo é alegre, insano, efêmero e superficial. O sol brilha mais que os pensamentos, a chuva nunca consegue lavar totalmente os sonhos e as palavras são ditas sob efeito de forte calor. Se ainda tivéssemos tomado sorvete juntos...
O amor que quase aconteceu é a prova irrefutável que a vida segue um curso ilógico. Atormenta as ideias, insurge o juízo, abre sorrisos espontâneos. Umas rosas muito vermelhas e bonitas eu via de um jardim muito longe. Os raios imaginários do sol nos fazia dançar, e aos pássaros cantar; já os animais em conluio com a natureza de realidade intangível contemplava-nos. Mas o dia foi tão belo que tudo se afetou... E as coisas viraram memórias em questão de instantes.
Um animal muito sábio conhecesse também seu caminho, mas há de se olhar para trás e ver quem é o caçador implacável que está no encalço. Todos os inimigos entre a vegetação rasteira de uma colina muito alta.
Por estes vales verdes e encharcados pela chuva ainda nos veremos; isto faz perceber como sonhar é incrível. Não quero que nada aconteça sem antes ter certeza de onde ir. Se não nos acharmos por muito tempo, ainda assim, saberemos quem somos... A estação é muito alegre para tanta absorção. Deixemos o verão passar...
Assim como neste insano texto, o clima quente e ocioso faz tudo maravilhosamente perder o sentido. As rosas de ontem já estão murchas...
Por Ricardo Novais
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Nascer... Viver... e no Santos Morrer...

Rei e príncipe pousam juntos no gramado da Vila Belmiro. A cidade de Santos vive um de seus dias mais especiais. Os torcedores se emocionam vendo Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos, de mãos dadas com um de seus maiores ídolos, o atacante Robinho.
Entre palavras entrecortadas, Robinho recebe do rei Pelé a camisa de número 7 e a veste imediatamente. Com lágrimas, vislumbrado com as arquibancadas do Urbano Caldeira ovacionado o 'rei das pedaladas'.
O jovem talento Neymar vestia até então a camisa 7. Agora ela será de Robinho. Este número enigmático, Garrincha foi com certeza o mais famoso ponta-direita da história do futebol. Mas no próprio Santos FC, houveram muitos jogadores que se notabilizaram nesta mesma posição. Mané Maria jogou com a 7 do Peixe num dos times mais fantásticos que já foram formados no planeta. Eram outros tempos, não havia coisa mais extraordinária no esporte que os 'fantasmas da Vila Belmiro'.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
A Fé ou a Ética?
Abraão, o pai da fé.segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Meus 456 Anos...

Eu nasci em São Paulo, sou produto desta cidade. Como a pedra inicial que constrói a edificação, uma personalidade que se preze deve também começar pelo ambiente mais trivial.
O ambiente é tudo nos caminhos e descaminhos de nossas vidas. A família, os amigos, a escola, a religião, o trabalho...; a sim: as paixões. Neste ínterim, a própria região do nascedouro e da morada será sempre a paixão; seja como objeto em si mesmo, seja como sustentação do objetivo desejado. A cidade é fundamental na formação não apenas do cidadão, mas da própria essência do ser humano; assim, tanto aqui como ali, serão sempre as reminiscências das memórias de nossas vidas que nos formarão como homens.
Eu sou a cidade de São Paulo. Considerando que a cultura é o resultado do desenvolvimento intelectual de um povo, devo lembrar a nossa dependência cultural em relação a Portugal, pois, por muito tempo, somente recebíamos influência externa através desta Metrópole. Os paulistas não foram diferentes. Todos os costumes, ensinamentos e tradição oriunda dos nossos portugueses perfizeram esta nossa civilização bandeirante; ainda que mais tarde, tanto no planalto paulista como no maciço carioca, a cultura afrancesada tenha se sobressaído em nossa pungente sociedade. Em todo o caso, não tínhamos mesmo por aqui, naquele tempo, nem a peste negra, nem um heróico príncipe de coração negro, muito menos um rei usurpador que casasse com alguma princesa francesa; aliás, nem corte havia por essas bandas... Éramos apenas uns selvagens que viviam na acomodação da natureza, nas crenças e numa arquitetura primitiva.
Por outro lado, tendo em vista que nossos primeiros educadores foram os padres jesuítas, nós nos tornamos pessoas impregnadas pela preocupação em elevar a alma a Deus, procurando a servi-Lo. São Paulo nasce à sombra do infinito poder de Nosso Senhor, sob a qual se adequaram, respeitosamente, as formas institucionais do poder dos homens e suas sedes – primeiro com humildes construções de taipa, depois palácios de alvenaria e mármore. Portanto, bendito seja Padre Manuel da Nóbrega, que trouxe do Arquipélago das Canárias o nosso José de Anchieta; pois, posteriormente, designou-o da Capitania da Bahia para a Capitania de São Vicente.
Ainda que desde 1502 tenhamos expedições por terras paulistas, apenas em 25 de janeiro de 1554 que tivemos instalado no Planalto de Piratininga (peixe seco, em linguagem nativa), pela graça Divina, um colégio para catequese dos indígenas. Os índios eram uns bestiais selvagens que não conheciam a Palavra de Deus!
Anchieta descreveu os primeiros anos do colégio: “Nesta aldeia, cento e trinta de ambos os sexos foram chamados para o catecismo e trinta e seis para o batismo, os quais todos os dias são instruídos na doutrina e operações em português e na sua própria língua”.

Belo desenho de Debret sob visão da cidade de São Paulo em 1827.
Esta humilde palhoça, erguida pelos jesuítas, foi a pequena semente que deu origem à megalópole mundial. O dia escolhido pelos bons missionários, para a fundação do colégio, foi o dia da conversão do santo apóstolo São Paulo; este também ficou sendo o padroeiro que deu nome ao recém-inaugurado povoado. Melhor dizendo, o verdadeiro padroeiro para o povo paulista é Frei Galvão; porém, não fosse à perspicácia de José de Anchieta, onde estariam todos os patronos bandeirantes? Portanto, roguemos juntos: não vos esqueceis de nossa devoção, principalmente nas enchentes...
Ensinamentos dentro de uma celeuma de idiomas, dentre os que compartilhavam o castelhano, o português e a língua tupi, dentro de pouco tempo pode se traduzir o catecismo para os selvagens no seu próprio dialeto. Isto facilitou a empreitada dos novos aventureiros, já que os antigos, os índios, eram exímios conhecedores da colina circundada pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Naquela época, não se contavam mais que 30.000 mil pessoas, numa vasta região de planalto com, aproximadamente,
São Paulo, como é da percepção do leitor, vivenciou grandes acontecimentos da vida nacional: a independência, os movimentos abolicionista e republicano, políticas de Estado, greve de operários das indústrias em 1917, revoluções contra as agruras da opressão, para citar apenas alguns eventos. Entretanto, o orgulho paulista é, sem dúvida alguma, serem os maiores responsáveis por alargar as fronteiras brasileiras, perfazendo um território enorme e construindo uma grande nação ou, pelo menos, uma nação grande... Isto só foi possível com o advento das Entradas e Bandeiras.
Um herói. A pose altiva, o olhar penetrante, as armas novas e a roupa impecável; assim são reverenciados os nossos distintos e audazes bandeirantes paulistas. Pouco importa se o desbravador não era branco e sim mameluco, manuseava com presteza tanto o arcabuz quanto o arco e flecha e falava mais tupi do que português; aliás, como a maioria dos paulistas.
A paisagem fantástica na realidade era dramática. Aguerridos homens saiam de São Paulo para floresta atlântica. Um mar de árvores que eram abertos a golpes de facão, e, além disso, os audazes expedicionários eram sujeitados a todas as dificuldades e aos perigos de uma vida selvagem ao extremo.
Diz a velha fábula carioca que tudo não passou de um mito paulista criado no período da proclamação da República, em 1889, e em suas primeiras décadas; pois os cafeicultores se tornaram, a um só tempo, a elite econômica e política do País, sendo assim, o sertanejo bandeirante servia como sugestão histórica de que o poder deveria emanar de São Paulo, já que seu povo era descendente de bravos comandantes natos. Porém, isto pode soar injusto aos ouvidos de quem vive entre a Serra do Mar e o restante do planalto oeste, posto que seja da natureza paulista conduzir o Brasil da ordem e do progresso. De qualquer forma, no século XX, o que era apenas sugestão histórica virou política pública.
Entretanto, tudo seria impossível se estes desbravadores do sertão não tivessem a ajuda dos índios; por sinal, creia meu incrédulo amigo e minha melindrada amiga, por aqui os selvagens colaboraram na captura de membros de sua própria tribo. Bendito sejais os ensinamentos jesuíticos!
Em longas andanças, nossos bravos exploradores aumentaram o território da colônia vencendo os domínios do subjugado Tratado de Tordesilhas. Isto mesmo! Os sertanistas contribuíram para o estabelecimento das dimensões territoriais desta nossa amada pátria; ainda que movidos pelo desejo de sobrevivência. A ocupação dá o direito a terra! Portanto, os bandeirantes são heróis sem terem tido este intuito.
Não obstante, existiu algum tipo de brutalidade e ataques-surpresa onde morriam alguns selvagens. A causa era que o terror evitasse que os remanescentes resistissem. Onde havia missionários, entre as tribos, os índios se refugiavam em suas igrejas. Tentativa desesperada de escapar do pavor bandeirante. Saliento o relato do reverendíssimo jesuíta Antônio Ruiz de Montoya: “Entravam ao som de caixa e em ordem militar (...), destroçando índios à machadadas; os matavam como no matadouro se matam vacas, tomaram por alfaias litúrgicas e chegaram mesmo derramar os santos óleos pelo chão”.
Mas, ora! Indígenas sequer eram cristãos! Deste modo, não me interprete mal, mas decapitações e esquartejamentos perfazem estratégias prosaicas. Inadmissível, porém, apenas a concupiscência carnal dos paulistas deflorando as mulheres dos indígenas. Afinal, o que é a vida perto da honra?
Em todo o caso, não creio ser de intenção dos jesuítas demonizar os sertanistas, posto que muitos religiosos também participassem das bandeiras. De modo que grandes paulistas delinearam a história, e, por que não, o caráter de um país. E é nesta cidade e neste País que nasci...
Eu vivo nesta cidade, mas esta cidade também vive em mim; desde antes, desde a cidade antiga, da cidade que cheirava a cavalo, destruída pelo progresso, da velha Rua Quinze, tão afrancesada, com aqueles complexos trilhos dos bondes, de homens de chapéu e gravata borboleta; e se a garoa ainda é quase a mesma, agora, todavia, sinto falta das íntimas calçadas de pedra que, por sua vez, deram lugar a uma outra sociedade de sofisticados cafés, elegantes vestimentas, a uma cidade toda vertical, a uma nova São Paulo. Porém, esta gigante urbe Paulicéia continua a ser minha edícula. Quando coloco meus pés para fora do portão de casa e vejo as ruas, é como se eu estivesse saindo do meu quarto para me reunir na sala de jantar com minha família. Uma família bem grande, de muitos milhões de parentes.
Eu não posso deixar esta metrópole; minha vida está nela. Assim, com ou sem amor, com ou sem sucesso, serei sempre um autêntico filho desta terra. Serei sempre um Paulistano! Um Paulista! Um Brasileiro! Todas as minhas virtudes e todos os meus vícios foram neste panorama contextual de vida urbana. Espero conseguir, um dia, absolvição, declaração, indulto, remissão e amor.
Sinto que estou perdoado, o coração me diz. Coração contraditório, airoso, palpitante. Coração de São Paulo!
Nas madrugadas frias, sopa de cebola no CEAGESP, nas madrugadas quentes, chope gelado na Vila Madalena. Sou um homem da noite, por tal motivo minha confissão foi no crepúsculo paulistano e não haveria forma de ser diferente...
______________________________________________________________
* Texto inspirado em reflexões do livro O Boêmio, Ricardo Novais, Bookess, São Paulo, 2009-2010.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
São Sebastião do Rio de Janeiro

Do local onde nasci, em São Paulo, uma cidade cinza, eu apreciava todas aquelas pessoas, meus conterrâneos correligionários, que querem a todo custo subir o elevador social numa escalada do sucesso. As consequências são impresumíveis para os que só podem ascender na vida pela escada de serviço; mas, contudo, todos passam um por cima do outro ou, ainda, de quem tiver a infelicidade de estacionar pelos degraus.
Por outro lado, no entanto, havia aprendido também a amar um povo risonho, de braços abertos, no que implica a orla marinha atracando-se com o morro e a colina, pelas insígnias e os títulos de nobreza e as comendas de respeito. Mas todos se banhando no mesmo mar...
Naquela época, comportava-me como um garoto. Pouco para pensar e, ainda por cima, muito jovem para ser feliz. Dos ensinamentos de São Paulo, levei em mim o gosto pelas pílulas de chocolate com café preto sem açúcar; de resto, a escola só me serviu para classificar minha confusão de pensamento na qual se apresentaria pelos caminhos que segui nesta pobre vida.


O caráter de comédia ridícula desta cidade impregnou-se em mim; ou antes, era minha conduta de traços típicos que casou como luvas em mãos aos hábitos cariocas. Não sei o que houve primeiro... Contudo, minha alma, em essência, é paulista, e nunca tive muito jeito para a contemplação verdadeira da identidade fósmea deste País, o samba. Mas, em compensação, sempre tive disposição para hipocrisia, cerveja, mulher e alegria!
Eu fui bem integrado no folclore e na tradição do Rio. Minha alma fundiu-se com os costumes, as lendas e os mitos da cultura carioca.
Ei-lo o Rio de Janeiro! Que bom que me acompanhou nesta aventura na cidade maravilhosa, meu amigo leitor excursionista e grande companheiro de viagem. Já a dona leitora, “carioca da gema”, que mora em tão deslumbrante pedaço deste grandioso (e grande) País, agradeço pela orientação nesta peripécia. Não me deixou percorrer caminhos muito tortuosos, navegar por mares infestados de piratas ou caminhar por praias onde fosse alvo muito fácil... Tão logo voltarei a esta cidade que tanto amo, que tanto admiro e que é a minha própria identidade. Por favor, amiga querida, quando meu amigo leitor e eu voltarmos solicitarei novamente seus préstimos; não nos deixe a esmo nesta terra de bons malandros. Guie os olhos deste distraído autor, e também os do viajante que me acompanhará, em mais uma fascinante viagem. Grato!
Por Ricardo Novais
______________________________________________________________
* A arte de pintura que emoldura o texto é do Atelier J.Victtor, artista do tradicionalíssimo bairro de Santa Teresa, cidade do Rio de Janeiro. ** Texto aludido à passagem do livro O Boêmio, Bookess, São Paulo, 2009-2010.

