O caso do bar

Edouard Manet - óleo sobre tela - 1864.

Entrei em um bar e, enquanto aguardava amigos para o happy hour, fiquei a observar dois homens que discutiam sobre política na mesa em frente. Discutiam tão alto que era possível ouvir com exatidão o motivo do entrave.

- Você é idiota, Carlos! É claro que o governo neoliberal traz progresso ao país...

- Não, senhor! O neoliberalismo enrique uma casta e o povão fica na merda! O nosso país deveria seguir a política dos países nórdicos...

Era uma discussão tão superficial que logo me desinteressei. Menos que um quarto de chope, os meus amigos chegaram. Alguma bebida, risos e piadas ao estilo do mestre Ary Toledo depois e eu já estava meio bêbado; meio bêbado é um eufemismo, caro leitor, já que não existe ebriedade pela metade.

- Então você não acha que o campeão de 87 é o Flamengo? – questionei um.

- Claro que não, Heitor! É o Sport do Recife...

Embora fossemos trintões, a nossa discussão era sobre futebol e coisas relacionadas ao ambiente de garotos da 5ª série.

De repente, olhei para frente e vi os dois camaradas que estavam discutindo política saindo do bar, juntos e abraçados, porta fora. A dona leitora bem sabe, a curiosidade alheia é a salvação do tédio do espelho. Então chamei um garçom e lhe perguntei se sabia quem eram aqueles dois.

- Não sei, senhor. Mas acho que se conheceram hoje. Eles chegaram antes do senhor... Bem, quando eles chegaram eu ouvi eles falando... Apresentaram-se formalmente... Acho que tinham marcado o encontro pela internet. Por quê?

- Por nada.

Acabei de beber, dei um abraço nos meus amigos e saí do bar. Poucos metros, vi alguém caído na calçada. Aproximei-me, já havia umas cinco ou seis pessoas envolta. Reconheci o sujeito agonizante na calçada, era um dos homens que estava no bar discutindo política, jaz moribundo; não tinha sinal do outro.

Um senhor velho, de barba branca bem rala, que parecia velar o local, abaixou e sumiu o relógio do morto. Veio mais gente; moradores de rua, seguranças, funcionários do metrô, executivos que estavam saindo do trabalho e duas mulheres da vida e um travesti alto.

A esta altura, o morto já tinha perdido a carteira, o celular, a gravata e a honra política; chegou a polícia. A polícia chamou o SAMU. O cadáver, mais político do que nunca, aguardava o rabecão e o seu esquife.

Passei bem um quarto de hora a admirar o espetáculo da morte na república. Depois me afastei, devagar, reflexivo de quem seria o cadáver, de que lado do Fla-Flu ideológico ele se encaixava, em vida e em morte; cheguei em casa e fiquei o resto da noite acordado. Procurei e procurei uma posição política e de ética em uma rede social da internet. Não achei nada além de julgamentos republicanos, esparsos e rancorosos. Perto de amanhecer, eu desisti; e fui ler as notícias esportivas.

Por Ricardo Novais

A bola que não entrou

 

Outro dia, acho que foi no pós-feriado do dia 15 de Novembro, eu estava vendo pela tevê o jogo Botafogo x Chapecoense. A Chapecoense venceu, em plena Arena da Ilha do Governador, pelo placar de 2 a 0. Eu vi o Cleber Santana jogar demais naquele dia; no primeiro gol, ele colocou a bola, praticamente com as mãos, para o Kempes assinalar. Os dois estão mortos.

Lembro-me que, naquele dia, tive muita saudade do Cleber Santana defendendo o meu Santos; eu gostava dele. Foi um bom jogador!

Alguns da crônica esportiva e da torcida matutam: “E se aquela bola que o Danilo defendeu entrasse? Não teria a tragédia...”. Por certo, matutam errado. A tragédia não é a bola não ter entrado, a tragédia é o imponderável. Não há derrota! Não há derrota nem no jogo que levou a Associação Chapecoense de Futebol à primeira e histórica final internacional, nem na defesa milagrosa do goleiro Danilo e nem na tragédia.

O futebol não é apenas um esporte. O futebol é um reflexo, caricato, da vida. É uma música de Moraes Moreira com saudades do Zico; é a comemoração da vitória de ser campeão depois de ser rebaixado; é um clube do interior de Santa Catarina levando uma cidade inteira aos extremos das emoções, de alegria eufórica à tristeza profunda. Futebol é o imponderável!

Bem faz o Atlético Nacional, de Medelín, em reconhecer a Chapecoense como legítima campeã da Copa Sul-americana. A rivalidade da disputa do jogo ficou no apito final de um voo derradeiro; do que poderia ter sido, mas não foi; do que poderia ser sonhado, mas não será; bola parada, estática, em seus últimos lances como naquela bola que não entrou defendida pelo Danilo. Nem toda bola vinga em gol.


Por Ricardo Novais

Carta ao leitor

Van Gogh - Arquivo BRN.
Leitor, 

Caro amigo, compreendo e concordo com quase tudo que pensaste. Não acredito mesmo no comunismo, entretanto, também não creio que seja um problema político as mazelas sofridas pelos povos, sobretudo os dos mais explorados. Estais certo, por outro lado, o liberalismo econômico é reduzir tudo à superficialidade. Mude-se o regime político, nada adianta. Como diria o velho Machado: "Que vem lá? É um papagaio? Não, é a república". Penso que o viés de nossa desgraça é o próprio ser humano, talvez ainda não esteja devidamente aperfeiçoado - sabe-se lá. Fora de nossos aposentos nos parentamos vaidade, arrogantes que somos, donos de verdades que não temos, ciosos de uma desgraça prudente; eis toda origem de nosso poder calhorda e repugnante. Nisto vale uma única crítica de Saramago.

Com relação à obra de literato, esta não a julgo - creio que só o tempo futuro haverá de fazê-lo. Ainda assim, seria eu doidivano se não respeitasse o escritor; grande romancista, grande contista! Grandessíssimo! Ocorre que não me agrada tal literatura; assim como um Alencar, pelo que consta, já é julgado pelo tempo. Senhora do tempo... A escrita refinada não combina com meus olhos que leem tudo com espírito lascivo e pessimista. Sim, leitor, é uma desgraça isto! Não me julgue também, querida leitora. Algumas almas preferem os estilos que só contam a verdade pela metade, saber tudo as desagradam. Vê, não é minha culpa.

E no caso das religiões... Convicções são convicções, assim como tudo é tudo - ou nada. Eu penso que todas as religiões são boas, desde que não subestimem o controle remoto da televisão. Sabemos que quase todas as ideias provem de Deus, mas algumas vieram da curva prazerosa do diabo; e Deus e o diabo são os rótulos de tudo, desde as garrafas de vinhos das melhores uvas até as meias-calças das mulheres bonitas e que gostam de viver; Deus e o diabo são os rótulos sagrados dos desavisados, estejam eles vivos ou mortos.

Eu gosto dos rótulos, são divertidos; superficiais, concordo, mas divertidos.


Por Ricardo Novais

Um cortejo

"Golconda", René Magritte.

Morreu-lhe o pai. Era uma manhã bastante comum e, de repente, fez-se extraordinária. Viver é difícil... Era necessário reconhecer o corpo, o corpo do próprio pai. 

- Defunto? - questionou-se.

Lembrou-se que logo de manhãzinha havia tomado café preto na padaria de esquina, com o padrinho, talvez algum irmão, tinha mais alguém presente. Desfez a lembrança do café e desandou à casa das necrópsias. Morreu-lhe o pai.

A hora demorava minutos eternos. Aguardou o tempo para sempre e ainda assim viu faltar alguns minutos; constatou, a vida há sempre de ser curta... Curtíssima!

Leitor, interrompo o conto para uma palavra íntima contigo. Sinceramente, desejo que esteja longe a tua morte, mas já pensou em que músicas quer que toquem em seu velório? Músicas bonitas, naturalmente; réquiens são assombrosos! Digo, confessando-te também sobre a questão, que em meu velório não gostaria de que rezassem a cartilha dos ofícios religiosos; nada de céu ou inferno, menos ainda purgatório que terei que despender recursos para a propina da salvação.

Tornando ao conto e à via dolorosa. De repente, viu-se seguindo, a certa distância, o carro fúnebre que transportava o morto; este rabecão era surpreendentemente branco com prefixos fúnebres das laterais pintados à cor preta.

- Que dor! - afirmou-se.

Era um cortejo quase solitário, embora não estive sozinho. Há uma multidão de homens, homens diferentes; disse certa vez um artista cujo nome não me recordo. O séquito da cidade sendo percorrido por homens diferentes a avistar-se todas as suas luzes débeis das ruas. Ruas e ruas de um asfalto molhado, como de costume, embora mais funéreo, de um acachapante calor no meio daquela geleira humana. A garoa a cair sobre os telhados das casas e sobre as paredes sem rostos dos prédios, com força; primeiro ao crepúsculo e depois ao firmar do dia como um tributo sincero e acolhedor de seu sentimento à abdução súbita.

Anoiteceu novamente. Lembrou-se outra vez da morte. Morte. Viu-se ao espelho, percebeu a própria alma e de algum outro. Escutou a garoa batendo à janela. Nesta cidade a garoa são lembranças que pertencem ao primeiro fio de vento que sopra o trovão infinito. Pois que tudo cabe no além-túmulo, até a vida; cabe também o último alento, o último assopro do juiz, o último gol do artilheiro, o último beijo da mulher amada ou o último gole de cerveja. Será que no outro mundo há cerveja? Não sei. Sei é que, como bem julga o amigo leitor e a amiga dona leitora, também se morre em vida, porque, muitas vezes, a vida inteira cabe dentro de pouca coisa, como um fone de ouvido dentro de um trem a percorrer uma extensão de trilhos eternos.

A vida e a morte, jazem separadas; por fim, lê-se no epitáfio.

Por Ricardo Novais

Panelaço

Google Imagens.

Houve um pronunciamento do governo em rede nacional de rádio e tevê. Um barulho ensurdecedor de panelas sendo batidas ou em outras panelas ou em tampas de panelas diversas e que vinha das janelas vizinhas, irritava-me; era um momento de escrita. O leitor, que também é autor, bem sabe o quão o barulho agudo, uniforme ou disforme, pode prejudicar a saúde de um texto; de modo que me perdoe quem lê estas linhas mal acabadas, foram escritas sob a pressão dos adversários do governo.

Por certo que cada panela tem a sua tampa e esta se encaixa bem à comida que se cozinha ou que se estraga, apodrecendo pelo excesso de água, feijão ou macarrão gourmet; certo também que existem panelas mais profundas que outras. Aquelas que batiam, pelo som que ecoava delas, poder-se-ia dizer rasas, de pouca superfície e de muito teflon.

- Dita, vai à janela, por favor, e veja o que está acontecendo?

- Estão protestando, amor. Culpa do governo! Culpa dos desmandos do PT!

Não pude escrever. Fiquei escutando o barulho. Não liguei a tevê. O que o governo dizia não me interessava, eu precisava escrever. Então resolvi deitar no sofá e esperar. O tédio da escrita não é menor que o tédio da panela vazia; sim, pois percebi depois que nos bairros onde as panelas ficam cheias a custo não há o direito republicano do panelaço.

Esperei pouco, verdade. As panelas de pressão iam se cansando rápido, são pesadas e não foram feitas para fazerem macarrão gourmet. De modo que o barulho cessou-se, quase, completamente; não fosse o barulho de uma única panela vindo de um lugar incerto.

- E esse maluco que não deixa as pessoas em paz. Vou matar este cara! Que horas são agora, Dita?

- Nove e trinta e três, José Carlos.

Passara das nove e meia da noite e o barulho singular persistia. Percebi vozes no corredor. Não saí do apartamento, coloquei a cabeça para fora da janela e constatei todas as bocas famintas sem as panelas, curiosas e irritadas, perguntando-se de onde vinha o barulho. Resolvi abrir a porta de casa. Afinal, também é papel de autor a investigação, como certa vez me ensinou a dona leitora, que nos acompanha em silêncio.

- O que está acontecendo? – questionei a uma senhora magra e com nariz esbranquiçado por algum pó de maquiagem.

- Ora, não sabemos. Tem algum morador batendo uma panela a mais de uma hora, sem parar; e já é tarde... As crianças não dormem... Meu marido dá aula cedo na universidade... Precisamos descansar para poder trabalhar e produzir... Vou matar este cara! Que disparate!... Mas também, esse país de merda merece esses políticos...

- Não me parece que seja neste andar, acredito que seja no andar de cima. Vou matar este cara! – conjecturou um sujeito gordinho, parecido com uma porpetinha que se vende em boteco, e cortando a fala da velha de nariz branco.

- Culpa do PT! – comungaram os dois e os demais. Eu nada disse, apenas cruzei os braços e olhei para o elevador fingindo procurar alguma pista. Calma, senhor leitor politizado, não me tome por mau cidadão e eleitor de cabresto. Sou como o cajado descrito no Salmo 23, prezo pela segurança própria e do rebanho.

Dito isto, explico que os moradores incomodados começaram a ter hipóteses diversas que iam se alastrando por todos os andares; então descemos, todos, Dita veio junto, até o térreo. Lá havia já uma pequena multidão, olhavam para cima tentando identificar de onde vinha o pandemônio. Sim, senhor leitor mais atento ao dilema político, tem razão: de repente, os mesmos que antes protestavam batendo panelas contra o governo começaram a pedir ordem contra o paneleiro solitário que perturbava a paz e a boa convivência da comunidade do prédio.

O síndico, pressionado pelos moradores, saiu acompanhado de dois porteiros e mais cinco ou seis, talvez sete moradores; deu ordem expressa para que os demais aguardassem no térreo. Um quarto de hora se passou, uma ambulância estacionou na frente do edifício central.

Entraram os paramédicos do SAMU, embarcaram no elevador social correndo e carregando uma maca vazia e objetos salutares. Alguns minutos eternos depois se percebiam os passos descendo a escada. Consegui ver apenas a maca, passando célere pelo saguão, carregando um homem ensanguentado; logo atrás algo surreal: um sagui acompanhando a maca e batendo uma frigideira em uma caçarola, andava devagar e sem que ninguém o impedisse. Incrivelmente, o pequeno macaco entrou na ambulância. A sirene foi sumindo, sumindo no desafinado burburinho da cidade, e levando, julgo que ao hospital ou ao necrotério, o homem ferido ou morto e o macaquinho com suas panelas, quais não eram mais possíveis de se ouvir se ainda batiam, visto que na lei da vida das panelas o barulho urgente e imperativo as sufoca.

E foi só isto, nada mais. A pequena multidão dispersou-se rápido. Reinou no condomínio uma sepulcral ordem e a paz. Tornei a escrever naquela noite.


Por Ricardo Novais

O cego do metrô

"O cego Bartimeu à beira do caminho".

Gente, peço uma ajuda para poder comer. Estou passando por necessidades e sou cego. Quem puder me ajudar... Que Deus o abençoe! Mas quem não puder ajudar, eu agradeço da mesma forma....

Pareceu-me ouvir estas palavras dentro do metrô, mas devido ao horário, ao cansaço dos ouvidos e aos olhos grudados no celular, pode ser que as palavras ditas pelo cego que entrou no vagão não tenham sido exatamente estas; mas, como bem sabe o amigo leitor, nem toda boca diz o que quer e nem todo ouvido escuta o que precisa.

Eram dez e dezessete da noite, acusava o relógio do celular. As estações iam passando junto com os minutos e o cego ia pedindo. Uns davam moedas, outras notas miúdas e a maioria não doava nada para iluminar a vida daquele pobre desgraçado. Eu nada dei por dois motivos: nenhuma luz clareou meu coração e também os meus bolsos estavam vazios.

Em determinado momento, entre uma estação e outra, o cego parou e ficou segurando o balaústre de metal próximo à porta. Um passageiro levantou para ceder-lhe o lugar.

- Sente-se aqui, senhor!

- Não, obrigado! Sou cego, mas não estou aleijado.

O cego, então, continuou segurando-se próximo à porta, uma mão no balaústre e outra a postos sobre uma bengala metálica que trazia consigo para orientá-lo sob os objetos ao redor. Nisto, outro passageiro, a cerca de três ou quatro fileiras à frente, falava alto ao telefone. O ceguinho resmungou algo incompreensível e deu um passo em diagonal. O vagão estava cheio, a bengala encostou à perna de uma mulher; ela reclamou.

- O senhor me desculpe, mas esta sua bengala está me machucando. Sei que precisa dela, mas pode, por favor, apontá-la para outro lado, né?

- Ah, o quê? VAGABUNDA! Vai se foder, VAGABUNDA! Não quer dar dinheiro e ainda fica reclamando? Vai tomar no c...

Não digo aqui todas as palavras que aquele homem disse por uma questão de não vexar a dona leitora, que é moça elegante e refinada. Também não escrevo todo o diálogo com letras em caixa alta para não incomodar aos leitores, pois que este conto para jogar alguma luz às ideias e não para levarmos às trevas. No entanto, caro amigo e queridíssima amiga que me leem, sou obrigado por ofício de autor a contar que aquele homem cego esqueceu-se por completo que entrou naquela composição para que algum filantropo o ajudasse por nobreza e iniciou um tumulto dos diabos. À medida que o metrô locomovia-se, mais irritado e agressivo ficava o cego e seus opositores; sim, ainda não contei, mas conto agora: muitos passageiros jogavam o olhar de julgamento para o cego, incluindo a mulher que reclamou da bengala, o homem que tentou ceder-lhe o assento e o outro que falava alto ao telefone. Eu apenas observava, numa mistura de desconforto pela nova atração atrapalhar a velha distração e também por uma piedade autoprojetora por todos que ali estavam; sim, leitor, pois ter piedade pelo próximo também é uma forma de manter a integridade física e moral.

Quando o metrô parou na quinta estação antes da linha final, cuspiram o cego para fora do vagão. A aflição coletiva se espalhou, o cego prendeu a perna entre o vão e a plataforma. Um homem ameaçou chutá-lo, outro impediu. A mulher que, praticamente, iniciou a briga, gritava chamando os seguranças ferroviários:

- Guarda! Guarda! Ô, guarda filho da puta, corre aqui!

Os guardas vieram devagar, pareciam entediados e sem interesse pelo espetáculo às escuras. Mas chegaram, gritaram e dispersaram parte da pequenina multidão. Os apitos do trem soaram estridentes sinalizando que a locomotiva ia partir em poucos instantes; um passageiro, talvez por caridade ou talvez por chacota, segurava a porta para que esta não se fechasse e o trem partisse abandonando os brigões. Mas a mesma mulher do início da confusão, agora reclamava que o trem não partia e olhava feio para o homem que impedia o fechamento da porta, embora continuasse a condenar o cego. Já o cego, por sua vez, estava imobilizado; verdade que estava imobilizado por vários guardas da estação e que resistia bravamente na tentativa de regressar à escuridão daquele vagão da discórdia. Mas, como toda atração do mundo, seja divertida seja pesarosa, acaba-se, aquela também tinha o seu trecho final; e, aqueles que haviam chutado o cego para fora do trem, agora correriam para retornar a ele e este, com a pressa própria das máquinas, fechou as portas e finalmente partiu.

O conto poderia muito bem acabar aqui, sem mais alarde, mas então eu estaria faltando com a verdade dos fatos; e prezo pelo conhecimento dos que aqui estão acompanhando a história, sou-lhes fiel. Não me agradeça, leitor; como disse há pouco, apenas cumpro com meu ofício de autor transmitindo o vírus do legado de Adão e Eva e também do primeiro micróbio descrente que povoou a Terra.

Eis que aqui, neste parágrafo último, começa outro conto dentro deste conto. Verdade que conto mais enxuto, pois que cabe mesmo neste único parágrafo. De tudo digo apenas que o cego ficou abandonado pelo trem na estação, o trem partiu com seu coração de máquina levando os seus passageiros no restante da viagem, mas não em paz. Começou um julgamento sumário, sem réu presente. Logo, emitiu-se a sentença. Por um lado, rápido porque a pena já havia sido aplicada antes mesmo do julgamento; e também porque os magistrados daquele foro eram muitos e pouco se entendiam, uma vez que a justiça feita foi incapaz de compreender as mágoas do homem que não enxerga, se ele tinha esposa, se tinha algum parente morto ou moléstia grave, sequer ficou-se sabendo se ele tinha filhos e se estes torciam por algum time de futebol ou se havia alguma queixa ao governo. De modo que resumo o acórdão na última frase que ouvi, antes de descer na estação central: “Só porque ele é cego se acha no direito de se fazer de vítima, de ser mal educado? Ora, não! Todo mundo aqui viu a bengalada que aquele filho da puta me deu, né?! Essa gente deve se colocar no lugar dela, se humilde e saber pedir as coisas, né?! Só Deus mesmo!”.


Por Ricardo Novais

Maria Cecília

Ilustração do site: Ovelhas Voadoras.

A dona leitora entende uma discussão entre dois namorados? Há de se entender que o amor são pequenos gestos, e não os grandes como parece insistir o coração acelerado.

Conheci Maria Cecília numa noite de farra, apresentado por amigos em comum. O que deveria durar uma noite, teve a cama compartilhada como um símbolo de acolhimento; como um passarinho que sempre voa de volta para a sua casinha.

Na cozinha, partilhávamos sorrisos, piadas, ideias, passeios, viagens, queijo...

- Corte o queijo para fazermos o macarrão, Augusto? – pedia-a me ela com um olhar oblíquo, às vezes longe, porém, tão agasalhador e conexo.

Eu ficava atrás dela, ela apontava para as prateleiras.

- Pegue aquele pirex, amor, por favor.

A distração de uma rede social da internet, joguinho de celular, futebol na tevê ou de uma visão de entardecer chuvoso não nos irritava, ao contrário, fazíamos disso uma gostosa competição.

- Duvido ficar sem o celular, duvido! – eu desafiava. Ela ria, e devolvia a provocação.

- Eu?! Eu ou você?

- Bom... Nós dois perdemos.

-Te amo, Augusto!

Lá do box embaçado do banheiro ela me chamava. Aclamação química! O vapor da água quente se misturando à fragrância do sabonete comum, ao gozo dos perfumes dela e à respiração amena. Minha Maria Cecília. Minha Cecília. Minha Ceci, de costas. Respiração ficando devagarzinho ofegante. A água temperada caindo sobre nós. Eu mais juntinho a ela, beijando-lhe a nuca, alva, inquieta; tudo num cuidado sexual... Não imagina, leitor, como aquela mulher era provocante, com grandes olhos castanhos maliciosos pedindo para satisfazê-la, querendo me engolir, e estes gestos trançados a sinais delicados e elegantes. Cecília era quase natural. Naquele momento encontrei minha companheira eterna; naquele momento encontrei meu Nirvana, o ápice que me libertou.

- Vamos nos deitar, querido!

Era noite. Noites. Muitas e muitas noites. Órgãos ora expostos ora entrecobertos, à meia-luz, sob a clarividência de um relacionamento com o tempero adequado, feito com a medida certa. Dois corpos fundidos quimicamente: molécula, micha, mucosa, placenta, pus... Tudo nutrindo nossos corpos, nossos corpos nus. Era um cruzar de pernas e movimentos atingindo labirintos entre névoas despidas.

- Eu quero...! Vem...! Eu quero...! Eu quero gozar! – ela gritava em toque de ordem irresistível, insaciável. – Vem, amor! .. ..., ....! Augusto! Augusto! ...! ...! ...! Vai...! Eu quero...!

- .. ...? Ah, ......! ........! Ah, Ceci! Ah...

- ... ....! ......! ..., ....! ....! ... ....! ..........! ....! ... ....! .. ....!

- .. ...!

Penetração carnal, suja, violenta; e ao mesmo tempo terna, afetuosa, apaixonante! Ela jogada de quatro no chão de carpete marrom-claro, espremida do espelho manchado de reflexos extravagantes; eu com a musculatura e ideias que poderiam muito bem ter durado a eternidade, mas que foi breve tremor de artérias túrgidas. Preservativos que não usamos. E nossos corpos entrelaçados, num bater de joelhos deleitoso, em sussurros que ora viravam urros de prazer ora eram simplesmente gritos de um amor fugaz, quase estéril. Não couberam ali fingimentos de preliminares, gestos armados e arranjos sexuais – fomos o próprio orgasmo.

- Maria Cecília!

De repente, em meio aos filmes eróticos que insistia em vir às retinas, às músicas de cantora de cabaré francesa que passeavam pela orla cerebral e à sombra esparramada de dois amantes de frente para um lago, deixamos uma taça de vinho pela metade. Foi uma discussão de namorados que surgiu sorrateira e decisiva. Uma discussão que nem menciono aqui o teor porque é de tema tão grande e pomposo que não cabe à compreensão de um amor tão tolo, pueril e acanhado de diagramas ou arquiteturas, pois que este amor tinha fundamento nos pequenos gestos.

Mas é aí que está, querida leitora, acredite-me; não conto aqui uma aventura vil de autor depravado. Oh, não, senhorita leitora! Quero apenas compreender, minha amiga que me lê, ousando até recordar o sermão da montanha que diz que são “bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados”: o que faz dois namorados abandonarem os pequenos gestos de amor e cuidado pelas grandes e pomposas discussões deste faustoso mundo?

E como o conto já vai longe, com muitas linhas que podem cansar as vistas menos treinadas, só digo que foi isto, nada mais.

Por Ricardo Novais