Alta Voltagem

A chuva que castiga a cidade deu uma trégua. Perfeito! Mais de 70 mil pessoas, recorde no Brasil este ano, foram ao delírio assistindo o show do AC/DC no estádio do Morumbi, em São Paulo. Pena que tenha sido a única apresentação dos endiabrados monstros do hard rock por terras 'brazucas'. Aliás, não entendo: os australianos farão mais shows em território argentino do que em nossos domínios. Com tantos fãs espalhados pelo Brasil, seria interessante mais um show por aqui e poderiam descontar dos nossos 'hermanos'. É, mas aí já seria muita acidez mesmo para o saudoso Bon Scott...

A banda nasceu da influência de George Young - em meados da década de 1960 era um astro na Austrália à frente de um grupo chamado Easybeats. George é o irmão mais velho de Malcom e Angus Young que, por volta de 1974, formaram o AC/DC.

O nome da banda foi retirado de um termo que define dois tipos de corrente elétrica, Alternate Current e Direct Current (Corrente Alternada e Corrente Direta). O AC/DC sempre teve uma formação mais alternada, quer dizer, inconstante. Eles tocavam em pequenos bares de sua cidade natal, Sidney, e começaram a se destacar no cenário local, sendo que em 1976, o grupo já havia gravado dois álbuns, High Voltage e T.N.T..


O público roqueiro australiano havia se rendido àquele som simples e selvagem que a banda apresentava. Nessa época, a formação estava estabilizada, com Angus Young (guitarra solo), Malcom Young (guitarra base), Phill Rudd (bateria), Mark Evans (baixo) e o ex-motorista da banda, o maluco Bon Scott (vocal).

O AC/DC enfrentou vários problemas para alcançar o sucesso no mundo do rock, principalmente por causa da Inglaterra. Por este tempo, os ingleses dominavam o cenário heavy rock mundial e, ainda por cima, tinha surgido na terra da Rainha um movimento que se notabilizou rapidamente por várias regiões do planeta, o punk rock.



Mas, se o punks eram feios e agressivos, o som do AC/DC era uma versão esporrenta de Chuck Berry, e também seus integrantes eram feios e encardidos - o que fazia com que os autralianos não devessem em nada a John Lydon e sua turma.

Alcançaram o sucesso. Highway To Hell (Auto-Estrada Para o Inferno), uma das obras-primas do rock em todos os tempos, foi uma ironia para cima do 'hino hippie' Stairway To Heaven (Escadaria Para o Céu), dos britânicos Led Zeppelin. No entanto, desta 'piada' surgiu a fama de adoradores do diabo, e grupos católicos e protestantes começaram a perseguir a banda.





Coincidência ou não, Bon Scott estava bebendo demais. Sua paixão desvairada pela trinca sexo, drogas e rock n' roll havia chegado ao máximo. Em 19 de fevereiro de 1980, no auge do sucesso, o cantor morreu em coma alcoólico.

Como último registro de Scott ficou um filme rodado na França, Let There Be Rock, que traz o grupo tocando o seu som-primal, intercalado e 'diabólico'.





Embora substituído a altura por Johnson, o alucinado Bon Scott faz muita falta ao mundo do rock n' roll.


Estátua do cantor em Fremantle, Austrália




Quando tudo parecia acabado e dava a impressão que o AC/DC viraria apenas lenda entre cultuadores de hard rock (ou simplesmente de furioso rock n' roll, já que eles assim se classificam), um fã, de Chicago, nos EUA, enviou uma carta a banda recomendando Bryan Johnson, um inglês que tocava num grupo chamado Geordie (banda muito boa bem ao estilo da primeira fase do hard rock). Ele deu conta do recado e a volta por cima veio de forma direta e pesada com o álbum Black In Black. A obra saiu maravilhosamente destruidora, contudo, representava luto. Embora ainda estivessem abalados com a morte do amigo Scott, o AC/DC fez um disco de primeira com porrada do ínicio ao fim.








Depois vieram muitos outros álbuns clássicos, tiros de canhão (que devido a problemas com as leis, foram substituídos e representados por sintetizadores), sinos gigantes sendo martelados em palco, bolas enormes quebrando tudo, troca de integrantes e muitos shows antológicos como, por exemplo, os feitos no lendário Marque Club, casa inglesa que serve de palco para shows históricos; e também o Rock In Rio, a primeira versão do maior festival de rock do Brasil.




Em 1986, o AC/DC lança Who Made Who, trilha sonora do filme Maximum Overdrive, baseado num livro de Stephen King, escritor norte-americano considerado o mestre do terror autor, entre outros, de Cemitério Maldito, O Iluminado, Conta Comigo (filme extraordinário) e Um Sonho de Liberdade. King já morreu, mas também era fã do AC/DC.



Cenas do filme Maximum Overdrive com trilha do AC/DC





Ballbreaker, de 1995, foi um álbum que ouvi muito em minha adolescência; é um clássico! Stiff Upper Lip foi lançado no ano 2000, e é um bom disco também. O último álbum da banda é Black Ice, e deste trabalho fundamenta a turnê mundial que tem como tema um virtual trem do rock n´roll e que trouxe o AC/DC ao Brasil... e a Argentina.





Já ia esquecendo, o Nazi, ex-Ira!, abriu o show; hein? Mais uma furada de bola das produções brasileiras, o artista 'brazuca' não tem muito haver com o som do AC/DC, principalmente na atual fase. Vai ver foi imposição do São Paulo Futebol Clube, alguém do Tricolor bateu o pé: "Só tocam aqui se tiver algum são-paulino", chamaram o Nasi. É Paulão (dos Velhas Virgens), pessoal do Baranga, até a galera do sul, Cachorro Grande, e a do Rio, o velho e bom Barão Vermelho, não foi desta vez... Pelo menos não chamaram o Angra de novo, como em 1996 no show do AC//DC no Pacaembú; banda ácida e primal de rock n' roll não combina com os agudos do metal melódico.




Eles começaram com Rock n' Roll Train, uma das faixas do novo álbum. O set list soube dosar as canções novas com uma saraivada de clássicos. Começando com Black in Black, primeiro grande momento da noite e passando logo depois por Dirty Deeds Done Dirt Cheap e Thunderstruck, uma das preferidas do público.





Depois veio The Jack (Angus simulou uma espécie de striptease), aí é possível perceber bem claramente como o blues é um ingrediente fundamental na receita do AC/DC. Há notícias de que quando eles tocaram You Shook Me All Night Long, vários dos fãs se empolgaram e passaram mal sendo retiradas do gramado. Na furiosa Let There Be Rock, Angus Young mostrou todo seu talento num longo solo.




Outro ponto alto, segundo o público, foi a gigantesca boneca inflável que surgiu no palco durante a música Whole Lotta Rosie. Foi uma variação, é verdade, da personagem que havia aparecido no show anterior do grupo no Brasil, em 1996.




Por falar nisto, o AC/DC não é uma banda dada a invenções. Aparentemente, havia um aparato pirotécnico gigantesco, com uma locomotiva enorme no fundo do palco, locomotiva, os tradicionais tiros de canhão, uma passarela que atravessava quase que todo o gramado do Morumbi e queima de fogos no final do evento. Mas o que entreteve e fascinou o público que assistiu a apresentação, tomando aquele vento gelado no rosto, foi mesmo o som.




Sem chuva no 'Morumba', a platéia consagrou o AC/DC. Angus Young, demonstrando todo talento que Deus (ou o diabo) lhe deu e também que ainda tem preparo físico invejável apesar de tantos anos de rock n' roll, completamente endiabrado, balançando a cabeça epilepticamente e correndo de um lado para o outro, foi espetáculo à parte! Quem estiver na auto-estrada indo para o inferno, vá! Mas vá escutando a velha Gibson CG!




A galera pediu... e no bis: Highway to Hell.







Por Ricardo Novais

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* Fonte: Além dos amigos e das pessoas que assistiram ontem o show do AC/DC no Morumbi, consultei os sites Show AC/DC, Uol Música e Revista Rolling Stone. ** Também consultei arquivo pessoal da extinta Rádio 97 FM, de Santo André/SP. *** Imagens de amigos, de vídeos de divulgação e do Youtube.