Pessoas Invisíveis

Hora do almoço, calor escaldante. Resolvi comprar um sorvete gelado na barraquinha de cachorro quente da ‘Tia Elza’ – bem faz na temporada quente trocar salsicha requentada por sorvete derretido, é boa adaptação. No entanto, antes de ir passear pela Nova Barão e boulevares adjacentes, um mendigo, vindo da 7 de Abril, parou na frente do estabelecimento.


Normalmente não percebo estes vultos que circulam pela cidade - o Governo e sociedade parece que também não enxergam estas pessoas, são pessoas invisíveis, deitadas num banco de praça ou jogadas nos cantos das calçadas, são mesmo pessoas invisíveis... Mas é que o pobre homem veio na minha direção. Ele me pediu R$ 1,00, eu dei R$ 2,00 e alguns centavos a ele. O mendigo agradeceu feliz da vida, como se aquela nota de R$ 2,00 tivesse o valor de barra de ouro que não alcancei. Fiquei observando o caminhar descompassado daquela figura horrenda que logo sumiu na multidão.


Entretanto, quase em seguida, apareceu como por encanto – ou desencanto – outro sujeito maltrapilho pedindo dinheiro. Aí já era demais, pensei. "Dois, em menos de 1 minuto?!" Barganhei com o desgraçado o suco 'grátis' da ‘Tia Elza’. Que saboreasse o refresco e fosse par ao diabo! Mas imediatamente à minha oferta, o pedinte fechou a expressão. Aceitou de má vontade o suquinho artificial e rapidamente desapareceu. Desta vez não houve agradecimento. Reparei que todos eles iam em direção da Praça da República.


Nisto, com tantos infortúnios, desisti de vagabundear por ali e inclinei-me a tornar às obrigações do dia, verdade que mais pelo ar condicionado do recinto do que pelo ânimo da produção.


Quando lá ia adentrar ao saguão do prédio, vi uma confusão tremenda do outro lado da rua. Gritos de uma velha, que provavelmente acabara de sair da igreja, estavam sendo abafados por uma bela jovem. Ela empurrava a três mendigos maltrapilhos enrolados por cobertores, toucas e papelão. Porra! Naquele calorão! Como aguentam e não derretem?


- Sai daqui, gente feia! – a mocinha esbravejava contra os homens e puxava a pobre velhota assustada. – Deixem-na em paz!


Instantaneamente, eu saltei para lá, curioso que sou, mas a moça já tinha resolvido a questão e salvado a pedestre do perigo; em seguida a guarda da cidade apareceu e deu conta de outros procedimentos. Um policial perguntou a jovem heroína se ela era sempre assim corajosa, se não tinha medo da violência da cidade. A bela mocinha respondeu:


- Claro! Tenho sim. Mas tenho muito mais medo de ficar gorda...


Isto tudo me atrasou em uma hora. É que acabei arrolado como testemunha do assalto. Assalto? Eu mal sabia o que havia acontecido ali... Mas, vá lá que ao menos eu matava o trabalho.


Foram perguntas, respostas, reconhecimentos, dedos para um lado, olhares para o outro, uma confusão dos diabos! Depois todos dispersaram. Chegou um carro da prefeitura e recolheu os homens que já dormiam na calçada da praça naquele calor escaldante. Por um instante, pensei neles quando for tempo de frio. Esta cidade é muito cruel para moradores de rua no inverno. Frio cortante como o quê. Por mais um instante, cheguei a prometer a mim mesmo disponibilizar cobertores e sopa quente para os pobres quando a próxima estação de inverno chegar... Mas como eu disse, pensei nisto apenas por um instante; eu diria até que foi uma fração de segundos que percorrem os meus pensamentos vazios. Enfim, não quis mais escutar coisa alguma sobre aquele acontecimento grotesco. Deixei todos e no final do dia fugi para minha merecida e confortável casa - residência quitada com o suor do meu trabalho. 


Dia exaustivo; dia quente; eu estava esgotado. Depois de tudo que havia ocorrido, eu não acreditava que poderia acontecer mais nada de estranho e então só pensava em dormir, profundamente. Entretanto, um mendigo envolto em cobertores invadiu meu quarto, esvaindo em suor e ao mesmo tempo tilintando de frio, e quando ele se aproximou, eu vi, por debaixo dos trapos, o rosto da bela mocinha heroína e protetora da cidade contra os mendigos, trajada com pelintra, a sorrir de mim e desta vez dizendo coisas feias da velhinha em apuros. Em seguida, como um filme de terror, ela tornou a se parecer como mendigo de rua. Naquela noite eu não peguei no sono, tive pesadelos horríveis.

Por Ricardo Novais