À Memória de Uma Humanista

"Todos são filhos do bom Deus e foram criados para as coisas... Mas nunca se detenha". Esta frase é de Madre Teresa de Calcutá, mas recai muito bem sobre a memória do que foi em vida a doutora Zilda Arns, que infelizmente nos deixou vitimada no terrível terremoto ocorrido esta semana no Haiti - este evento da natureza é uma lástima, pois o Haiti já era antes disto um país muito pobre, situado na região do Mar das Antilhas, na América Central.

Zilda Arns foi uma caridosa médica pediatra e sanitarista, fundou e coordenou a Pastoral da Criança, organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ela nasceu no dia 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha, Estado de Santa Catarina, sul do Brasil. Filha de Gabriel Arns e Helena Steiner Arns (a mãe dela era transplantada, talvez este fato, aliado a sua generosidade natural, seja a origem da ferrenha convicção de Zilda na campanha de doação de órgãos), ela era irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo emérito de São Paulo. Viúva, era mãe de cinco filhos. Para chegar até a indicação ao Prêmio Nobel, Zilda Arns percorreu um longo e dedicado caminho. Sua formação começa em Forquilhinha, Santa Catarina, e em 1959 termina o curso de Medicina, em Curitiba. Parte então para suas especializações que envolvem desde a Educação Física a cursos de Pediatria Social, encaminhado-se então a outros cursos de aperfeiçoamento. Sua vida profissional como médica pediatra inicia-se no Hospital de Crianças Cezar Pernetta, em Curitiba, 1955 a 1964, e em 1983 ela funda a Nacional Pastoral da Criança, da CNBB, e estava lá até o incidente catastrófico desta semana no Haiti, onde estava justamente como agente humanitária e foi onde pereceu. Suas participações em eventos internacionais foram diversas, da Angola a Indonésia, Estados Unidos e Europa, Zilda Arns representou o lado bom deste País em viagens, palestras, mensagens, gestos, tudo que tivesse ao seu alcance, ela acompanhou ainda Comitivas Brasileiras a muitos países e levou a Pastoral da Criança para o mundo todo.


Os gestos simples e belos de Zilda Arns mandaram uma mensagem de amor à crianças carentes das comunidades mais pobres do Brasil. Ela fundou e coordenou a Pastoral da Criança, órgão da CNBB.

É notório principalmente o trabalho fraternal e a vida dedicada ao próximo de Zilda Arns, difundindo a felicidade (como conquista, e não como bobo conceito) em todos os Estados brasileiros e nos lugares mais pobres da América. Mulher de fibra e extremamente consciente na política pública social, via o futuro no presente; certa vez disse: "Devemos deixar as miudezas de lado e nos dedicarmos a fazermos, mesmo que por um instante, as crianças alegres, pois, como o amor é a mola mestra da vida, então, consequentemente, formaremos jovens, adultos e idoso saudáveis, em todos os sentidos". Ela era um ser humano tão superior em sua essência que ajudou até os pobres da Argentina. Isto sim é ter senso de caridade, bondade e humanidade. Largando de mão a graça que o momento não é para isto, estaremos sempre juntos, unidos por atitudes sensíveis... Sempre seremos 'hermanos'!

Participou ainda de outros tantos eventos latino-americanos, principalmente apresentando e divulgando o trabalho da Pastoral da Criança. Sua participação em eventos nacionais é praticamente incontável, desde 1994 são dezenas de eventos ligados à Pastoral e ainda inúmeros outros pela pediatria. Tanta dedicação tem seu reconhecimento. Desde 1978, são diversas menções especiais e títulos de cidadã honorária. E da mesma forma, a Pastoral da Criança já recebeu diversos prêmios pelo trabalho que vem sendo feito desde a sua fundação.

Se a preocupação básica do positivismo é a manutenção desta sociedade consumista, superficial e hipócrita, é o pensamento verdadeiramente humano, ou 'revolucionário humanista', que procura uma crítica radical a este histórico de sistema social capitalista cruel e frouxo que evidencia todos os antagonismos e contradições entre irmãos do mesmo gênero. As ações humanitárias e práticas da doutora Zilda Arns coloca em xeque, no campo da perspectiva teórica, o nosso modelo de sociedade como um acontecimento transitório e insuficiente. O desenvolvimento e o conhecimento de si próprio só pode ser conquistado verificando quem se é, em essência - pois não somos a roupa que vestimos, a casa que temos, o restaurante que comemos, o uísque que bebemos, ou o bem de consumo que podemos comprar, a isto talvez possa se aplicar apenas a necessidade, mas jamais a ostentação fútil e desumana. O fato é que somos o que pensamos, o modo como nos comportamos, o quanto trabalhamos em pró de nossos irmãos e, obviamente, a maneira com que manifestamos nossos talentos natos ou expressamos nossos sentimentos mais íntimos.

Mais que prêmio Nobel da Paz pelos serviços prestados à humanidade, a doutora Zilda Arns merece toda a reverência pelo ser humano solidário e sublime que ela foi; escrevo isto - desmascarado que estou neste momento tão introspectivo - com uma curta lágrima testemunhando possíveis caminhos do amor sincero e, quiçá um dia, de também poder ser um bom pastor nesta vida.

Pela morte da boníssima Zilda, por todos os mortos neste terrível terremoto que ocorreu num lugar onde mora um povo já tão machucado e exaurido pelas inúmeras guerras e pela arrasadora pobreza - o devastado (em todos os sentidos) país do Haiti - estamos todos dando-nos as mãos, brasileiros pobres e ricos, num luto oficial (e incontido)!



Charge do Fausto.


Por Ricardo Novais
____________________________________________________________
* Pesquisa: Biografia de Zilda Arns