Destino, Imperador!






Adriano, 'imperador do futebol'.


Os cronistas de futebol do passado eram mesmo magistrais. Eles criavam imagens extraordinárias na imaginação do torcedor. Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Thomaz Mazzoni e tantos outros eram verdadeiros autores literários a serviço do esporte bretão.

Relembrando de muitos cronistas, narradores e repórteres das crônicas futebolísticas, surgem nomes de Gilson Ricardo, Osmar Santos, José Silvério, do filósofo Cláudio Zaidan, Mauro Betting, Eli Coimbra, Márcio Guedes e vários outros mais atuais ou ainda mais antigos que estes que eu citei acima; e se não os digo aqui, é porque não importa nesta narrativa e também porque, sinceramente, eu já não me recordo mais dos nomes. Já vai longe... E deves imaginar que a memória nem sempre me acompanha. Perdoem-me os cronistas, jornalistas e analistas do futebol; entretanto, deixo-lhes minha cordial saudação!

Mas estes que comentam os jogos de futebol hoje em dia não sabem fazer outra coisa senão 'descer a lenha' em nossos craques, sem consciência e ineptos no estudo dos próprios ofícios que se propuseram discutir. Por estes dias cismaram de maldizer o jogador Adriano, do Flamengo, e seus problemas boêmios e psíquicos. Usam o craque rubro-negro para defenderem a virtude, mas, ora, neste nosso tempo quantos cronistas são virtuosos?

Adriano é o ‘imperador’. Embora não tenha a técnica e o talento de outros craques do passado que brilharam na Gávea, é já um jogador folclórico e que só fazem bem ao futebol. É que esta sociedade positivista gosta da ‘ditadura do politicamente correto’ e age conforme o próprio arbítrio podando qualquer criatividade que surja ou, ainda, censurando cruelmente os 'efeitos colaterais' daqueles que fogem as regras mal postas por esta mesma sociedade.

Outro dia ocorreu a mesma falta de respeito e consciência lá para as bandas inglesas. Um dos maiores jogadores de futebol que a Grã-Bretanha revelou em todos os tempos, Paul Gascoigne, eterno craque do Manchester United, foi 'malhado' pela imprensa desportiva local por se envolver em confusões nos pubs londrinos, aparecer bêbado em público e ser preso por duas vezes.


Paul Gascoigne, lorde nos gramados e patusco na sociedade.

Há casos históricos de alcoolismo entre craques, Garrincha é um clássico exemplo disto, ele era genial e tempestuoso ao mesmo tempo, mas nem por isto foi menos extraordinário para a história do futebol brasileiro. Mais recentemente, o habilidoso argentino Ariel Ortega, revelado e ídolo pelo River Plate, tido como eterna promessa de novo Maradona, teve a carreira preterida pelo vício alcoólico.


Ariel Ortega, 'anjo caido' do futebol!?

No entanto, o caso mais espetacular que se tem notícia entre aqueles atletas chegados à vida boêmia – ou boêmios que também são atletas – é o de um genial atacante que serviu ao Botafogo de Futebol e Regatas.

Não digo o nome porque sua carreira futebolística foi completamente suprimida pelo tempo e pelo seu estilo patusco de vida – digo apenas, para não gerar comentários dos cronistas hodiernos, que não era Heleno de Freitas, embora este craque, do qual eu me proponho a falar, fosse também admirador incondicional das aventuras do genial Heleno.


Heleno de Freitas, genial e genioso.

Sinto muito, senhor leitor que tanto aprecia boas histórias no futebol, mas as próximas linhas serão por demais tediosas, porém necessárias. Aproveitando a ocasião do episódio do ‘imperador’ Adriano, assim como da tentativa de resgate ético dos valorosos cronistas, dedicarei este texto a tudo que se poderia conquistar, mas que se perdeu pelo caminho. Este post, todo ele, é a ressaca deste assunto já tão discutido nos periódicos esportivos – sejam eles impressos ou eletrônicos. Uma ressaca física, moral, psíquica e espiritual. Posto que o estilo de vida do jogador boêmio, que não digo o nome nem sob tortura politicamente correta, degrade seu organismo, a sua saúde social e ocupacional; como a vala comum aberta na areia pelo mar revolto e feroz, que de tão profunda retorna levando tudo.

A ingestão excessiva de álcool acarreta graves conseqüências ao espírito. Levam, por certo, a um estado deplorável de demência e loucura, a que os seres humanos se vêem expostos. Quando o afetado é atleta as consequências são determinadas pela virtuosa análise de outrem, que frequentemente não é esportista.

Contam-se inúmeras vezes que o personagem, atacante do Botafogo, sedutor de mulheres de todos os tipos, exagerou na dosagem alcoólica e perdia parcialmente, quando não totalmente, a consciência, a capacidade de vigilância, submergia-lhe a sensibilidade e motricidade. A perda das funções básicas do corpo humano o fazia entrar em coma alcoólico, em algumas ocasiões sendo salvo por pouco da própria morte.

Contudo, ao contrário de outros craques e comentaristas esportivos, ele deseja apenas beber... Beber por prazer! Confuso, ao mesmo tempo estúrdio, ele jamais fez uso de drogas ilícitas nem mesmo cigarro de nicotina, charuto ou cachimbo sequer, entregava-se apenas ao exagero alcoólico. Pois que ele foi típico produto de sua geração politicamente correta. As regras fazem o rebanho desta geração correta, limpa e perfumada... Desta casta que se mantém, exclusivamente, pelas aparências nas relações interpessoais... Geração bonita!

A sombra deste jogador foi também desta casta. Vivendo conforme os impulsos mais latentes. Muitas vezes, o álcool reduz o homem civilizado a um selvagem!

Relembrando outra vez o caso do menino prodígio Ariel Ortega, que lidou desde criança com a inveja dos outros e com a pressão de ser um gênio talentoso, principalmente, por parte dos cronistas que o comparavam ao ‘deus’ Maradona. Ortega sofreu terrivelmente, fizeram-no fantoche de sucesso, prestígio e dinheiro a qualquer custo. O artista genial se converteu num homem amargurado, tendo muitas sequelas vindas da infância frustrante, mais tarde sofrendo muito por causa do alcoolismo, e veio a encurtar a carreira ainda muito jovem. Não seria nenhum absurdo colocar esta perda ímpar na conta da sociedade argentina e seus cronistas. Acabaram com o jogador!

Já o craque brasileiro que guardo a identidade e apenas faço aparecer o seu vulto neste parvo texto não foi nenhum ídolo consagrado; e tão pouco fácil. Ele jamais teve o brilho vestindo a camisa sagrada do glorioso Botafogo como tiveram os fascinantes Heleno de Freitas e, principalmente, o extraordinário Mané Garrincha. Mas o nosso amigo foi também sem dúvida uma ‘Estela Solitária’. Suspeitaram dele, talvez tivesse a doença de Heleno. Talvez fosse alcoólatra como um artista, como um pensador ou como um flutuante romântico. O saldo negativo em comparação com outros geniais personagens foi a criatividade que os "modernosos" jornalistas não deixaram florescer, criação mirrada... Contudo, reconheço, alguns sintomas seus são claros e evidentes em muita gente.


Extraordinária 'Estrela Solitária'.

Não pense a dona leitora, que não aprecia tanto o futebol, embora saiba diferenciar este esporte de um tropel de bestas, que o personagem no qual narro as aventuras bebe porque quisesse esquecer problemas ou porque tivesse uma vida dura, nem mesmo pelo fato de ter conquistado todas as mulheres que quis e não ter amado nem uma sequer; isto pouco importava. Ele não precisava, mas bebia, simplesmente gostava de beber. Sentia prazer no ambiente, no charme e no romantismo proporcionado pelo álcool. Porém, o gosto saboroso que adentrava-lhe ao espírito e inebriava-lhe a alma, muitas vezes, parecia-lhe necessidade. Ainda que não lhe houvesse tristeza, ao contrário, a situação se fazia eufórica e alegre, por diversas vezes o estado lastimável no qual se perfazia atrapalhava suas jogadas notáveis e seus gols fantásticos dentro de campo.

As coisas que ele não fez, salienta-se à própria vida, apresentam-se sintomáticas. O jogador sem sombra, que não revelo o nome e que foi craque no Botafogo, revolveu-se em dois pesadelos recorrentes durante a excepcional carreira de boleiro: No primeiro, ele tinha sempre outra chance para ir buscar um porto seguro, para ser um bom agente na caçada de seus íntimos desígnios; contudo, com tanta oportunidade, falhou! Já no seu mal sonho que era mais frequente, e que, aliás, o assustava ainda mais que o outro, ele era convidado, repetidas vezes, por pessoas sempre muito alegres, a ir num mesmo lugar, muito belo e brilhante, um local maravilhoso, que, prontamente, reconhecia, porém não conseguia identificar, e, neste ambiente tão agradável que tanto o satisfazia, a primeira coisa que lhe instigava, violentamente, era procurar a porta de saída. Quando saia, ele se afligia novamente por querer voltar. Ininterruptamente esta imaginação lhe percorria as entranhas, eis então que, bruscamente, no alto da madrugada, ele acordava arrebatado e, muitas vezes, extenuado em suas forças físicas e mentais, via as chances de disputar a Copa do Mundo afastarem-se lentamente...

Tal acometimento pode sim ser consequência direta de sua paixão pelo álcool, o que lhe castiga o sono e os sonhos. O abuso de bebida intoxicou a alma complexa deste jovem atleta, também de suas influências e as presumíveis desgraças de sua essência enferma. Não que evitasse ajuda, na verdade ele nunca a procurou; a querela de sua doença está em não seguir as etapas comuns aos que frequentam grupos de apoio para curarem a própria amargura. Em certo sentido, ele era alopático. Talvez não almejasse a cura, a sua embriagues dava-se por etapas, fases sistemáticas, como se sua existência humana se desse por uma prolongada sonolência, confusão mental, estado de torpor e abatimento.

Este seu jogo perigoso de fugir do mundo por algum tempo, carteando a vida ao correr o risco do exagero físico e moral, combaliu sua personalidade e deteriorou sua imagem num homem subjugado. Ver-se dormindo bêbado na praia, destacado em uma calçada ordinária ou coletado das ruas pela caridade de algum conhecido ou de qualquer pessoa generosa é comum a boêmios, mas ele perdeu um campeonato interno pelo desamor.



Vida boêmia, craque solitário.

Por certo que este craque do passado, que se apresenta no futuro, não mudaria o seu jeito, nem agora nem na maturidade; tendo que conviver por toda a vida com o dia seguinte de uma grande festa. Não se sabe, no entanto, se os mais doentes foi o atleta ou a sociedade... Quiçá! Culpemos os cronistas! Se eles não tiverem culpa? E daí? Tenha por certo que eles saberão porque apanham.

Ademais, cada um tem encargo, culpa e dolo sobre a própria vida. Portanto, leitor remediado e amiga leitora consciente, espero que tenhas digerido a desmoralização do personagem que apareceu nestas linhas grosseiras, atrelando à imaginação irrestrita aqueles que procuram a salvação substantiva, e velada, da vida; e, ainda, de quem nunca abandou a felicidade. Como diz um amigo meu: “Entre a cachaça e as críticas, existe uma simples dose de uísque!”.


Por Ricardo Novais