Papai Bússola


Galo, sempre forte e vingador, é bússola. Mas às vezes as coisas desnorteiam tanto...

O dia dos pais é mais importante que o dia das mães? Não. É que as mães são amorosas e os pais são bússolas. E bússola é bússola, serve de orientação.

Conta-se que um pai deve participar das aventuras de um filho. Havia mesmo um rapaz que numa festa na igreja do Belenzinho conheceu adorável moça. Ela, jovem muito educada e com toda candura de menina pura, extremamente tímida, disse a ele que não sabia por que estava ali, sozinha em meio à multidão. Descrevo as peripécias juvenis de mamãe; que, aliás, não foram muitas. Foi senhorita que recebeu o esposo, isto é, recebeu meu pai. Terminou a juventude, e foi aí que começou a vida. Antes mamãe residiu de favor em região central da cidade, esta cidade onde nasci, mais especificamente na casa de uma irmã mais velha e refinada que se encarregou de cuidar das prendas da caçula. Até para não entediar muita minha própria memória, basta dizer que minha mãe foi mocinha bastante religiosa. A felicidade é um bom bilhete de loteria; alguns compram o próprio prêmio, outros criam a sorte todos os dias.

Nestas memórias que puxo do fundo de gaveta de objetos da imaginação, invento que passou para o folclore familiar a história de que meus pais apaixonaram-se à primeira vista. Naquele tempo as pessoas ainda tinham tempo para isto, para um simples olhar urdido. Por certo mesmo é que eles namoraram à moda antiga e acabaram por se casar na igreja do Carmo. Ao passo que meus avós paternos só recomendaram a papai que a escolhida fosse moça católica - então acertaram em cheio! -, pois, pelas fotografias que receberam, aprovaram-na como sendo de boa feição. É curioso, agora a memória não me recorda de ter ouvido em casa comentário sobre o que meus avós maternos disseram sobre meu pai. Também, não sei bem o motivo, mas nós não íamos visitá-los muito... É melhor esquecer isto; vai que houve algo nesta negociação ou, pior ainda, não aprovaram o casamento; vai saber... Não será aqui um neto que remexerá no passado de velhos avós. A bisbilhotice não convém em certos casos.

Eu fui crescendo e me formando, bem naquele pedaço da cidade onde eu encasquetei de criar os meus domínios de vida, meu feudo imaginário. É que esta região eu conheço como ninguém, ou conhecia bem, em outro tempo. Mas reconheço também nobres e súditos. De modo que admito apenas que fui soberbo príncipe, transformado em sapo por feitiço de magnífica bruxa inexorável, inacessível e inacusável.

Sei que, por prudência, deveria mudar o rumo da prosa, que pode estar chata já que ninguém nada tem que ver com lembranças dos outros, ainda mais se estas forem enfadonhas; mas, ora, as lembranças são minhas e quero falar delas... Compreenda, amiga leitora. O dia é bom e a emoção aflora, em certo sentido, sutil e tocante. A meninice é coisa tão bonita de recordar...

Bom é puxar os pensamentos mais antigos pela cabeça e reverenciar a energia e a astúcia de papai. Para se ter boa ideia, leitor, da medida do esforço para melhorar as nossas condições de bem-estar e da esperança de sucesso confiado aos filhos, meu pai, depois de anos na mesma empresa, pegou as contas do emprego e criou próprio ofício. Naquela época ele era um visionário sublime. Sua intenção era ganhar mais dinheiro para nosso conforto e patrocinar sonhos alheios; é a tal amplitude da vida... Porém, na medida em que ele só tinha tempo para o serviço maçante, convivia menos conosco. E certas melancolias, por vezes, fazem com que os sentimentos mais afáveis se estranharem, reconheço. Ainda assim, toda vez que eu me via em dificuldade, de qualquer ordem, e o procurava, ouvia dele conversa afetiva: “Meu filho,  querido filho, sempre que você precisar eu estarei aqui; conte com este seu velho pai... Daqui um abraço.”, durante toda a vida (dele) foi assim, mesmo agora.

Recordo de tradições de família. A religião, a educação de cordeirinho, a postura moral e social, a bondade e a gentileza, a complacência e a generosidade, o Galo... Ah, mas o Galo anda tão desnorteado; pobre papai! Mas são certas tradições entre tantas outras... Imaginas, caro amigo que acompanha esta crônica egocêntrica, que esta tradição foi a mim passada por meu querido pai, não é? Pois errou. Ele não passou nada, deixou tudo sempre à mostra para que quem quisesse aprender aprendesse. Eu aprendi algumas coisas, desisti de outras... Algum espírito de papai está, secretamente, em minha alma. Mas, enfim, defino-o como um homem determinado, que nos amava acima de sua própria vida. Poder-se-ia dá-lo os títulos de: Altruísta! Alma nobre! Sistemático! Exemplar!

Sei que talvez a história ficasse um pouco mais emocionante e envolvente se eu dissesse que papai era envolvido com sindicalistas corruptos ou que tinha uma amante em outra cidade; mas não. Não há registro de nada disso nos correlatos familiares. Alguns inimigos de negócios dizem o contrário, porém não ligo; é intriga!

Nada disto, senhor leitor e dona leitora, que escrevi nestas tortuosas linhas que acabastes de ler é verdade, também não é mentira; é um lugar que fica entre a imaginação e a realidade. Só as palavras chegam lá, e escrevo-as cá - algumas... É que, de repente, eu senti uma saudade danada de papai... Querido papai bússola.

Por Ricardo Novais