Um estranho conto de verão

Arquivo pessoal.

Quando cheguei à cidade de Nossa Senhora da Lua para passar quinze ou vinte dias não imaginei que tipo de aventura seria. Uma visita em férias de verão ao meu velho avô, nada mais. Não. Foram os dias mais estranhos de minha vida.

A cidade, que não era grande nem pequena, sendo apropriada para se viver bem, ficava encravada no meio das montanhas. Aeroporto vizinho, aviões cruzando o céu celeste contrastando com a briga em terra entre os automóveis e os cavalos, burros e mulas.

- Ah, meu filho! – diziam-me os caboclos –, esse lugar tem esse nome por causa do Doutor da mula russa...

Em verdade, o tal Doutor era um médico, morto há várias décadas; atendia as cercanias montado numa mulinha avermelhada, daí que o apelidaram de “Doutor da mula russa”. Certo dia, percebendo a própria popularidade, candidatou-se a prefeito da cidade; na época, uma pequena vila chamada Nossa Senhora do Pilar. Prometeu ao povo que, se eleito, distribuiria lotes a todos, sem custos. É claro, leitor que também é eleitor: o Doutor venceu a eleição, mas não cumpriu o prometido. A população então começou a fazer chacota com a história, que os lotes só seriam dados na lua. Isto enfureceu ao prefeito, qual tratou de arranjar uma fazenda imediata e reparti-la com cercas de arame-farpado, distribuindo os lotes ao povo. Não era uma aérea tão grande, mas nada era tão grande naquele tempo; todos os caboclos, ou quase todos, receberam seu quinhão de terra. O Doutor da mula russa, orgulhoso do feito, mandou a câmara dos vereadores trocar o nome da cidade e inaugurou na avenida de paralelepípedos um obelisco com uma réplica de uma meia-lua de uns cinco metrôs de altura. E assim surgiu a estranhíssima Nossa Senhora da Lua...

Sim, meu amigo e minha amiga que me leem; isto nada que tem que ver com o que de estranho aconteceu comigo naqueles dias em que visitei a cidade. Vovô morava numa casa bem grande, no final da avenida principal, qual dava para a entrada da região das fazendas. O táxi parou no portão, desci e veio me receber uma menina de quinze, talvez dezesseis anos. Sorriu-me, devolvi o sorriso.

- Sabe se o Seo João está em casa? – perguntei.

- Ele está sim... – ela respondeu mordendo o lábio inferior. – Você deve ser o Beto, né, neto de Seo João?...

- Sim...

- Vamos, Beto; entre, entre, moço!

Subi três ou quatro degraus de madeira, entrei pela varanda, o vento batia fresco ao rosto, vindo do rio abaixo. O andar pelo corredor, entre a sala principal e a varanda dos fundos, soava familiar; os meus sapatos entrando em atrito com o piso de madeira encerado cantavam uma canção antiga... Som de saudade. Avistei vovô fumando um cigarro de palha de fumo preto, sentado na velha cadeira de balanço. Levantou-se com dificuldade, deu-me um forte abraço.

- Estava aqui pitando de olho no rio, menino. Nem vi a hora passar... Mas, ora, estava te esperando. Fez boa viagem?

- Sim, fiz sim, vovô...

- Não fique aí olhando, menina boba! – gritou ele, de repente, à moça. – Traga uma cachaça para que eu brinde aqui com o Betinho, meu querido neto... – ele ria sem abrir a boca. – Ande, Mariana!

A menina saiu de um pulo e voltou noutro trazendo uma garrafa de pinga da boa e dois copos de cerâmica. Ela não foi embora, ficou no canto da varanda, parecia observar com curiosidade; eu percebi e nada disse. Não, não leitora querida, não fique aí a imaginar histórias. Mariana era linda, de uma beleza simples e cativante, no entanto, nem que eu quisesse me atreveria a desrespeitar vovô. Veremos...

Naquela noite, dormi bem, muito embora porque a viagem até ali fosse cansativa – se não tivesse perdido o voo em São Paulo, vá lá, mas o destino não é muito generoso com aqueles que se atrasam com ele. Pela manhã, acordei e fui me trocar para as aventuras que eu suponha bucólicas. Ao sair do banheiro, vi Mariana sentada na cadeira de balanço de vovô.

- Bom dia! – eu disse.

- Já acordou? – ela não demonstrou surpresa por eu tê-la visto ali. – Vou preparar um belo café da manhã. Aguarde, moço. – as palavras eram ditas por ela em tom baixo, educado, porém atrevido, mordendo os lábios, sorridente.

- Você mora aqui... – hesitante, tentei puxar assunto.

- Mariana. – ela me ajudou completando a frase.

- Sim, claro; Mariana. – eu estava encabulado. – Você mora aqui, Mariana?

- Sim, eu moro. Seu avô é um bom homem.

- Hum... Entendo, entendo. E... Quantos anos você tem?

- Ó, que bobo; o dó.  ela era fustigantemente natural. Em seguida, completou a sentença: – O suficiente para ser eficiente.

Era uma mulher, embora em corpo de adolescente. Selvagem, como um animal que necessitasse de rédea e bocal para domá-lo. Mariana me perturbou, e este sentimento era tudo. E tudo me pareceu estranho.

Esquisito. Moro em uma cidade onde tudo é possível e, no entanto, nunca parei para pensar que há mais vida possível e impossível do que supõe o povo polido. Sintomático.

Sentei-me à mesa com vovô para o café da manhã com café preto, pois que quase todo o resto era à base de queijo: pão, queijo, requeijão e doce de leite com goiabada. Havia também algumas frutas não muito frescas. Acabamos e ficamos olhando o rio sem nada para planejar, fazer, nada de se preocupar com nada que não fosse o caminho das águas lapidando o imponderável; verdade que também ficamos assim, por dizer, aguardando o almoço. Repentino, meus pensamentos pulsaram junto com o sangue quente. Estava quente naquele dia, o verão é muito quente entre as montanhas. À tarde, fui à missa com vovô e de lá à venda do Seo Zé, que nada mais era do que um boteco.

Bebemos, relembramos histórias passadas, relembramos vovó, vovô chorou, falamos de papai, mamãe, da cidade grande, da roça, a herança da fazenda, enfim, revivemos nossas lembranças; só não falamos do presente. O futuro era um fantasma.

Quem nos servia era Luciana, uma menina de quatorze, talvez quinze anos. Ela também tinha idade suficiente para ser eficiente e trabalhar para o Seo Zé, este praticamente um viúvo de esposa viva, já que Dona Mariquinha já havia entregado a sua alma, e o seu corpo, para Cristo. Eu bebia a pinga sem saber bebê-la. Embriaguei-me, leitor. E um homem bêbado enfrenta seus fantasmas.

- Vô, o senhor está doido? A Mariana... Meu Deus! O que houve com este lugar?

Pensaram certo, senhor leitor e dona leitora. A imprudência quando encontra os pensamentos enfáticos despedaça as relações humanas. Vovô irritou-se profundamente com meu moralismo provocado pela filosofia etílica. "Carlos Roberto, você é bicha? Seu 'coisa ruim'!", acusou-me. Seo Zé expulsou-me do boteco.

Fiquei perdido, subi no coreto da praça da igreja matriz e ali fiquei. Luciana foi até lá e me levou a uma boate azul, local dos refugiados da região. Ficava em um morro, uma casa com ares de casa de fazenda que servia para os encontros amorosos, contratos amorosos e contos amorosos dos caboclos. Mariana também estava lá. Eu bebi uma dose dupla de uísque, pedi à Mariana que no outro dia fosse buscar as minhas coisas na casa de vovô; paguei a conta da bebida e fui para um hotel. Aquele foi o meu primeiro dia na cidade.

Passei outros quatorze ou quinze dias naquele hotel, perto da igreja matriz, transando com Mariana e Luciana, e assistindo as duas transarem – éramos três animais sem rédeas e embocaduras para nos domar. Mas já findava o verão. Fiz as malas, fui para o aeroporto e deixei a cidade. Dias depois chegou a notícia de uma desavença entre as duas, Luciana matou Mariana cravando-lhe uma faca no pescoço. Verão estranhíssimo.

Por Ricardo Novais