O sorvete seboso

"Gelo humano" - MKT-00.

Tinha um mendigo sentado na calçada. Parei em frente da sorveteria. Não era um dia quente, era um dia agradável. Tinha sol, o vento era frio à sombra e as pessoas andavam esparramadas pela calçada, mas ninguém tropeçava no mendigo. Leitor, não te parece que um mendigo na porta de uma sorveteria estará sempre mergulhado na geleira da cidade? É pergunta retórica; a sério, não te peço resposta. O mendigo me pediu dinheiro. Entrei na sorveteria, pedi um sorvete de baunilha bem vagabundo, tinha uma cobertura gordurosa de chocolate em cima. Parecia sebo. Dei duas ou três lambidas... Tive ânsia de vômito. Fiquei a olhar para dentro do lugar. Lembrei-me de Mariana.

Costumava passear com Mariana pelo bairro no final das tardes de verão. Comíamos chocolate. Passatempo com gosto de beijo... E lá íamos à sorveteria. Tomávamos sorvetes, tudo bem devagarzinho, ríamos das folhas das árvores batendo nas janelas e imitávamos os trejeitos do sorveteiro.

- Quero um sorvete de limão, Alcides! – Mariana pedia com tom de voz alto, quase gritando, por pura chacota.

- DE LIMÃO NÃO TEM!... – respondia exaltado o sorveteiro. – NÃO ENROLEM, CRIANÇAS, ESTOU TRABALHANDO!

Alcides era amigo da família de Mariana, era um sujeito gordinho que vivia com a mão no queixo; ele também gostava de contar histórias usando trocadilhos:

- Nesses dias veio um pinguim aqui. Ele tomou um sorvete e disse que estava com depressão, é que ele tinha que voar para a Bahia. – gargalhava o sorveteiro. – Depois entrou outro pinguim e deu três pulinhos, é que este era o tripulante.

Achávamos graça, Mariana mais do que eu. Ela era alegre, tinha um jeito tão doce... Ah, Mariana! Mariana era linda!

Querida leitora e prezado leitor, é só isto, já terminou o conto; pode ir descansar os olhos da leitura. Sim, minha amiga, acabou a história. Sei que desejava ler romantismo, aventura, uma fábula bonita e sensível; agradeço-te, embora não goste de ver gente metendo o nariz na escrita alheia – aconselho-te a ir para frente de uma página em branco e criar teu próprio mundo (indico usar recurso tradicional, de texto coerente e que tenha um final bem definido). Ao leitor, já não aconselho nada. Confesso que gosto mais da dona leitora; por certo, ela é devota e, ao mesmo tempo, crítica do autor.

Em consideração a esta teimosia coesa da leitora, digo somente que não me casei com Mariana e faz anos que não a vejo. Alcides continua sendo dono da sorveteria do bairro. O mendigo – lembra-se dele, amigo leitor? – o mendigo sentado na calçada desde o início deste conto – pobre diabo! –, em meio ao passeio de pares e pares de pernas cruzando-lhe o leito de seu castelo de gelo, ele havia me olhado bem nos olhos e me pedido dinheiro. Não dei dinheiro, mas o sorvete seboso era para ele. Entreguei o sorvete a ele e reparei que sorriu ao colocá-lo na boca, pareceu não sentir a dor aflitiva de tomar algo muito frio como um gelo seboso, mas é verdade também que observei que ele não tinha dentes.

Por Ricardo Novais

Eleição republicana

"República Federativa do Brasil", charge da revista Illustrada.

Diz a lenda recente que um candidato à cadeira presidencial precisava de votos para vencer uma eleição republicana. Foi aos quatros cantos do país para comprar eleitores, mas as pesquisas de intenção de votos não lhe favorecia como planejado. Até que tinha padrinhos fortes, alguns estrangeiros influentes, outros com envergadura de formadores de opinião, mas nada disto dava jeito, então, resolveu comprar votos em um lugar mais inóspito: o inferno.

Foi ao inferno, falou com o coronel das almas caídas; era o diabo em pessoa. O diabo era o dono de todo aquele território e possuía total jurisdição sobre as almas do povo que lá vivia.

- Ora, ora, ora! Muito bem, senhor candidato; o que queres?

- Como vai o senhor, senhor diabo? Bem, venho por necessidade... Bem, meu amigo... Meu amigo diabo... Vamos negociar votos?

- Votos ou almas?

- Bem, aí vai da campanha política.

- Antecipo que teus concorrentes já estiveram aqui...

- Quero almas!

Em pouco tempo, observadores de todas as partes da república apontavam o favoritismo do candidato, a imprensa geral emitiu apoio e a vontade do povo foi soberana – quase uma carta magna infernal. O leitor, que também é eleitor, conhece a vontade de ferro do povo; é como diz o ditado, “a voz do povo é a voz de Deus”... Bem, nem sempre, como sabe o amigo.

Chegou o dia da eleição. Vitória nas urnas! O candidato foi para o segundo turno. Porém, agora havia a necessidade de muito mais votos. Então, lá foi o candidato novamente ter com o diabo.

- Mais almas? – perguntou o capeta exalando enxofre pelos cantos oblíquos da boca.

- Sim! – exclamou o político suando como um porco infernal. – Quero todas que tiver aí por um bom preço.

- Há de convir que estejam mais caras, agora é decisão...

- Eu pago!

Pagou e deu a própria alma como garantia. Vitória nas urnas!  Elegeu-se no segundo turno.

Ainda no primeiro ano do mandato presidencial, quitou a dívida com o diabo. As almas compradas valeram uma verbinha desviada de uma escola pública aqui, outra acolá; um hospital malfeito aqui, outro hospital sem médico acolá; em algum canto remoto da república, a construção de praças públicas para uma população fantasma ou pontes inacabadas sobre rios secos... Mas ora, amigo leitor-eleitor, não reclame tanto! Contribuir com impostos não garante direito de queixar-se aqui ou reivindicar posição junto ao autor do conto. Aquiete-se também, senhorita leitora! Além de que, amigo patriótico e querida senhorita cívica, para que prestar serviços públicos a um povo desalmado?

O diabo, sempre sorridente e audacioso, como sabe, ampliou seus domínios e ainda comprou carros de luxo, mansões, modelos “capa de revista” e um luxuoso iate infernal para esfriar a cabeça, de vez em quando, em sua marina particular no Lago Paranoá. Já o povo, sempre na mesma: desalmado; sem alma, sem coração, sem glória. Mas nem tudo é perdido nesta vida, como já vem a adivinhar a nossa amiga leitora. Daqui a pouca esperança, já há mesmo outra eleição republicana... E viva a república!


Por Ricardo Novais