Carta ao leitor

Van Gogh - Arquivo BRN.
Leitor, 

Caro amigo, compreendo e concordo com quase tudo que pensaste. Não acredito mesmo no comunismo, entretanto, também não creio que seja um problema político as mazelas sofridas pelos povos, sobretudo os dos mais explorados. Estais certo, por outro lado, o liberalismo econômico é reduzir tudo à superficialidade. Mude-se o regime político, nada adianta. Como diria o velho Machado: "Que vem lá? É um papagaio? Não, é a república". Penso que o viés de nossa desgraça é o próprio ser humano, talvez ainda não esteja devidamente aperfeiçoado - sabe-se lá. Fora de nossos aposentos nos parentamos vaidade, arrogantes que somos, donos de verdades que não temos, ciosos de uma desgraça prudente; eis toda origem de nosso poder calhorda e repugnante. Nisto vale uma única crítica de Saramago.

Com relação à obra de literato, esta não a julgo - creio que só o tempo futuro haverá de fazê-lo. Ainda assim, seria eu doidivano se não respeitasse o escritor; grande romancista, grande contista! Grandessíssimo! Ocorre que não me agrada tal literatura; assim como um Alencar, pelo que consta, já é julgado pelo tempo. Senhora do tempo... A escrita refinada não combina com meus olhos que leem tudo com espírito lascivo e pessimista. Sim, leitor, é uma desgraça isto! Não me julgue também, querida leitora. Algumas almas preferem os estilos que só contam a verdade pela metade, saber tudo as desagradam. Vê, não é minha culpa.

E no caso das religiões... Convicções são convicções, assim como tudo é tudo - ou nada. Eu penso que todas as religiões são boas, desde que não subestimem o controle remoto da televisão. Sabemos que quase todas as ideias proveem de Deus, mas algumas vieram da curva prazerosa do diabo; e Deus e o diabo são os rótulos de tudo, desde as garrafas de vinhos das melhores uvas até as meias-calças das mulheres bonitas e que gostam de viver; Deus e o diabo são os rótulos sagrados dos desavisados, estejam eles vivos ou mortos.

Eu gosto dos rótulos, são divertidos; superficiais, concordo, mas divertidos.


Por Ricardo Novais